Triste Fim de Polycarpo Quaresma · Lima Barreto

Chapter 9: Capítulo 9

«PEÇO ENERGIA, SIGO JÁ»

D. Adelaide, a irmã de Quaresma, tinha uns quatro annos mais que elle. Era uma bella velha, com um corpo médio, uma tez que começava a adquirir aquella patina da grande velhice, uma espessa cabelleira já inteiramente amarellada e um olhar tranquillo, calmo e doce. Fria, sem imaginação, de intelligencia lucida e positiva, em tudo formava um grande contraste com o irmão; comtudo, nunca houve entre elles uma separação profunda nem tampouco uma penetração perfeita. Ella não entendia nem procurava entender a substancia do irmão, e sobre elle em nada reagia aquelle ser methodico, ordenado e organizado, de idéas simples, medias e claras.

Ella já attingira aos cincoenta e elle para lá marchava; mas ambos tinham ar saudavel, poucos achaques, e promettiam ainda muita vida. A existencia calma, doce e regrada que tinham levado até ali, concorrera muito para a boa saude de ambos. Quaresma incubou as suas manias até depois dos quarenta e ella nunca tivera qualquer.

Para D. Adelaide, a vida era cousa simples, era viver, isto é, ter uma casa, jantar e almoço, vestuario, tudo modesto, medio. Não tinha ambições, paixões, desejos. Moça, não sonhara principes, bellezas, triumphos, nem mesmo um marido. Se não casou foi porque não sentiu necessidade disso; o sexo não lhe pesava e de alma e corpo ella sempre se sentiu completa.

O seu aspecto tranquillo e o socego dos seus olhos verdes, de um brilho lunar de esmeralda, emolduravam e realçavam naquelle interior familiar a agitação e a inquietude, o alanceado do irmão.

Não se vá suppor que Quaresma andasse transtornado como um doido. Felizmente não. Na apparencia até poder-se-ia imaginar que nada conturbava sua alma; porém, se mais vagarosamente se examinassem os seus habitos, gestos e attitudes logo se havia de ver que o socego e a placidez não moravam no seu pensamento.

Occasiões havia em que ficava a olhar, durante minutos seguidos, ao longe o horizonte, perdido em scisma; outras, isso quando no trabalho da roça, em que suspendia todos os movimentos, fincava o olhar no chão, demorava-se assim um instante, coçando uma mão com a outra, dava depois um muchocho, continuava o trabalho; e mesmo momentos surgiam em que não reprimia uma exclamação ou uma phrase.

Anastacio em taes instantes, olhava por baixo dos olhos o patrão. O antigo escravo não os sabia mais fixar, e nada dizia; Felizardo continuava a contar a fuga da filha do Custodio com o Manduca da venda; e o trabalho marchava.

Inutil é dizer que a irmã não fazia reparo nisso, mesmo porque, a não ser no jantar e nas primeiras horas do dia elles viviam separados. Quaresma na roça, nas plantações, e ella superintendendo o serviço domestico.

As outras pessoas de suas relações não podiam tambem notar as preoccupações absorventes do Major, pelo simples motivo de que estavam longe.

Ricardo havia seis mezes que não lhe visitava e da afilhada e do compadre as ultimas cartas que recebera, datavam de uma semana, não vendo aquella ha tanto tempo, quanto ao trovador e aquelle desde quasi um anno, isto é, o tempo em que estava no «Socego».

Durante esse tempo, Quaresma não cessou de se interessar pelo approveitamento de suas terras. Os seus habitos não foram mudados e a sua actividade continuava sempre a mesma. É verdade que deixara de parte os instrumentos de meteorologia.

O hygrometro, o barometro e os outros companheiros não eram mais consultados e as observações registradas num caderno. Dera-se mal com elles. Fosse inexperiencia e ignorancia das bases theoricas delles, fosse porque fosse, o certo é que toda a previsão que Quaresma fazia baseado em combinações dos seus dados, sahiam erradas. Se esperava tempo seguro, lá vinha chuva; se esperava chuva, lá vinha secca.

Assim perdeu muita semente e Felizardo mesmo sorria dos seus apparelhos, com aquelle grosso e cavernoso sorriso de troglodyta:

--Quá patrão! Isso de chuva vem quando Deus qué.

O barometro aneroide continuava a um canto a dansar o seu ponteiro sem ser percebido; o thermometro de maxima e minima, legitimo Casella, jazia dependurado na varanda sem receber um olhar amigo; a caçamba do pluviometro estava no gallinheiro e servia de bebedouro ás aves; só o anemometro continuava teimosamente a rodar, a rodar, já sem fio, no alto do mastro, como se protestasse contra aquelle desprezo pela sciencia que Quaresma representava.

Quaresma vivia assim, sentindo que a campanha que lhe tinham movido, embora tendo deixado de ser publica, lavrava occultamente. Havia no seu espirito e no seu caracter uma vontade de acabal-a de vez, mas como? Se não o accusavam, se não articulavam nada contra elle directamente? Era um combate com sombras, com apparencias, que seria ridiculo acceitar.

De resto, a situação geral que o cercava, aquella miseria da população campestre que nunca suspeitara, aquelle abandono de terras á improductividade, encaminhavam sua alma de patriota meditativo a preoccupações angustiosas.

Via o Major com tristeza não existir naquella gente humilde sentimento de solidariedade, de apoio mutuo. Não se associavam para cousa alguma e viviam separados, isolados, em familias geralmente irregulares, sem sentir a necessidade de união para o trabalho da terra. Entretanto, tinham bem perto o exemplo dos portuguezes que, unidos aos seis e mais, conseguiam em sociedade cultivar a arado roças de certa importancia, lucrar e viver. Mesmo o velho costume do moitirão já se havia apagado.

Como remediar isso?

Quaresma desesperava...

A tal affirmação de falta de braços pareceu-lhe uma affirmação de má fé ou estupida, e estupido ou de má fé era o Governo que os andava importando aos milhares, sem se preoccupar com os que já existiam. Era como se no campo em que pastavam mal meia duzia de cabeças de gado, fossem introduzidas mais tres, para augmenter o estrume!...

Pelo seu caso, elle via bem as difficuldades, os obices de toda a sorte que havia para fazer a terra productiva e remunerada. Um facto veiu mostrar-lhe com eloquencia um dos aspectos da questão. Vencendo a herva de passarinho, os maus tratos e o abandono de tantos annos, os abacateiros de suas terras conseguiram fructificar, fracamente é verdade, mas de forma superior ás necessidades de sua casa.

A sua alegria foi grande. Pela primeira vez, ia passar-lhe pelas mãos dinheiro que lhe dava a terra, sempre mãe e sempre virgem. Tratou de vender, mas como? a quem? No lugar havia um ou outro que os queria comprar por preços infimos. Com decisão foi ao Rio procurar comprador. Andou de porta em porta. Não queriam, eram muitos. Ensinaram-lhe que procurasse um tal Sr. Azevedo no Mercado, o rei das fructas. Lá foi.

--Abacates! Ora! Tenho muitos... Estão muito baratos!

--Entretanto, disse Quaresma, ainda hoje indaguei em uma confeitaria e pediram-me pela duzia cinco mil réis.

--Em porção, o Sr. sabe que...

--É isso... Emfim, se quer mande-os...

Depois, tilintou a pesada corrente de ouro, pôz uma das mãos na cava do collete e quasi de costas para o Major:

--É preciso vel-os... O tamanho influe...

Quaresma os mandou e, quando lhe veiu o dinheiro, teve a satisfação orgulhosa, de quem acaba de ganhar uma grande batalha immortal. Acariciou uma por uma aquellas notas encardidas, leu-lhes bem o numero e a estampa, arrumou-as todas uma ao lado da outra sobre uma meza e muito tempo levou sem animo de trocal-as.

Para avaliar o lucro, descontou o frete, de estrada de ferro e carroça, o custo dos caixões, o salario dos auxiliares e, após esse calculo que não era laborioso, teve a evidencia de que ganhara 1$500, mil e quinhentos réis, nem mais nem menos. O Sr. Azevedo tinha-lhe pago pelo cento a quantia com que se compra uma duzia.

Assim mesmo o seu orgulho não diminuiu e elle viu naquelle ridiculo lucro objecto para maior contentamento do que se recebesse um avultado ordenado.

Foi, portanto, com redobrada actividade que se poz ao trabalho. Para o anno, o lucro seria maior. Tratava-se agora de limpar as fructeiras. Anastacio e Felizardo continuavam occupados nas grandes plantações; contratou um outro empregado para ajudal-o no tratamento das velhas arvores fructiferas.

Foi, pois, com o Mané Candieiro que elle se pôz a serrar os galhos das arvores, os galhos mortos e aquelles em que a herva damninha segurava as suas raizes. Era arduo e difficil o trabalho. Tinham ás vezes que subir ás grimpas para a extirparão do galho attingido; os espinhos rasgavam as roupas e feriam as carnes; e em muitas occasiões estiveram em risco de vir ao chão serrote e Quaresma ou o camarada.

Mané Candieiro falava pouco, a não ser que se tratasse de cousas de caça; mas cantava que nem passarinho. Estava a serrar, estava a cantar trovas roceiras, ingenuas, onde com surpreza o Major não via entrar a fauna, a flora locaes, os costumes das profissões roceiras. Eram vaporosamente sensuaes e muito ternas, mellosas até; por acaso lá vinha uma em que um passaro local entrara; então o Major escutava.

_Eu vou dar a despedida
Como deu o bacuráo,
Uma perna no cantinho
Outra no galho de páu._

Este bacuráo que entrava ahi satisfazia particularmente ás aspirações de Quaresma. A observação popular já começava a interessar-se pelo espectaculo ambiente, já se emocionava com elle e a nossa raça deitava, portanto, raizes na grande terra que habitara. Elle a copiou e mandou ao velho poeta de S. Christovão. Felizardo dizia que Mané Candieiro era um mentiroso, pois todas aquellas caçadas do caitetus, jacus, onças eram patranhas; mas, respeitava o seu talento poetico, principalmente no desafio: o moleque é bom!

Elle era claro e tinha umas feições regulares, cesarianas, duras e fortes, um tanto amollecidas pelo sangue africano.

Quaresma procurou descobrir nelle aquella odiosa catadura que Darwin achou nos mestiços; mas, sinceramente, não a encontrou.

Com auxilio de Mané Candieiro, foi que Quaresma conseguiu acabar de limpar as fructeiras daquelle velho sitio abandonado ha quasi dez annos. Quando o serviço ficou prompto, elle viu com tristeza aquellas velhas arvores amputadas, mutiladas, com folhas aqui e sem folhas ali... Pareciam soffrer e elle se lembrou das mãos que as tinham plantado ha vinte ou trinta annos, escravos, talvez, banzeiros e desesperançados!...

Mas não tardou que os botões rebentassem e tudo reverdescesse, e o renascimento das arvores como que trouxe o contentamento das aves e do passaredo solto. De manhã, esvoaçavam os tyês vermelhos, com o seu pio pobre, especie de ave tão inutil e tão bella de plumas que parece ter nascido para os chapéos das damas; as rolas pardas e caboclas em bando, mariscando, no chão capinado; pelo correr do dia, eram os sanhassús a cantar nos galhos altos, os papa-capins, as nuvens de colleiros; e de tarde como que todos elles se reuniam, piando, cantando, chilreando, pelas altas mangueiras, pelos cajueiros, pelos abacateiros, entoando louvores ao trabalho tenaz e fecundo do velho Major Quaresma.

Não durou muito essa alegria. Um inimigo appareceu inopinadamente, com a rapidez ousadissima de um general consumado. Até ali elle se mostrara timido, parecia que sómente mandava esclarecedores.

Desde aquelle ataque ás provisões de Quaresma, logo afugentadas, não mais as formigas reappareceram; mas, naquella manhã, quando contemplou o seu milharal, foi como se lhe tirassem a alma, e ficou sem acção e as lagrimas lhe vieram aos olhos.

O milho que já tinha repontado, muito verde, pequenino, com uma timidez de criança, crescera cerca de meio palmo acima da terra; o Major até mandara buscar o sulphato de cobre para a solução em que ia lavar a batata ingleza a plantar nos intervallos dos pés.

Toda a manhã, elle ia lá e já via o milharal crescido com o seu pendão branco e as suas espigas de coma cor de vinho, oscillando ao vento: naquella, elle não viu nada mais. Até os tenros colmos tinham sido cortados e levados para longe! A modo que e obra de gente, disse Felizardo; entretanto, tinham sido as saúvas, os terriveis hymhopteros, piratas infimos que lhe cahiam em cima do trabalho com uma rapacidade turca... Era preciso combatel-os. Quaresma poz-se logo em campo, descobriu as aberturas principaes do formigueiro e em cada uma queimou a formicida mortal. Passaram-se dias: os inimigos pareciam derrotados; mas, certa noite, indo ao pomar para melhor apreciar a noite estrellada, Quaresma ouviu uma bulha exquisita, como se alguem esmagasse as folhas mortas das arvores... Um estalido... E era perto... Accendeu um phosphoro e o que viu, meu Deus! Quasi todas as larangeiras estavam negras de iminensas saúvas. Havia dellas ás centenas, pelos troncos e pelos galhos acima e agitavam-se, moviam-se, andavam como em ruas transitadas e vigiadas a população de uma grande cidade: umas subiam, outras desciam; nada de atropellos, de confusão, de desordem. O trabalho como que era regulado a toques de corneta. Lá em cima umas cortavam as folhas pelo peciolo; cá em baixo, outras serravam-nas em pedaços e afinal eram carregadas por terceiros, levantando-as acima da descomunal cabeça, era longas fileiras pelo trilho limpo, aberto entre a herva rasteira.

Houve um instante de desanimo na alma do Major. Não tinha contado com aquelle obstaculo nem o suppuzera tão forte. Agora via bem que era a uma sociedade intelligente, organizada, ouzada e tenaz com quem se tinha de haver. Veio-lhe então á lembrança aquella phrase de Saint-Hilaire: se nós não expulsássemos as formigas ellas nos expulsariam.

O Major não estava lembrado ao certo se eram essas palavras, mas o sentido era, e ficou admirado que só agora ella lhe ocorresse.

No dia seguinte, tinha recobrado o amino. Comprou ingredientes e eil-o mais o Mané Candieiro, a abrir picadas a fazer esforços de sagacidade, para descobrir os reductos centraes, as panellas dos insectos terriveis. Então era como se os bombardeassem: o sulpheto queimava, estourava em tiros seguidos, mortiferos, lethaes!

E dahi em diante, foi uma batalha sem treguas. Se apparecia uma abertura, um olho, logo se lhe applicava a formicida, pois do contrario, nenhuma plantação era possivel, tanto mais que extinctos os das suas terras, não tardariam os formigueiros das visinhanças ou dos logradouros publicos a deitar caniculos para o seu terreno.

Era um supplicio, um castigo, uma especie de vigilancia a dique hollandez e Quaresma viu bem que só uma autoridade central, um governo qualquer, ou um accôrdo entre os cultivadores, podia levar a effeito a extincção daquelle flagello, peor que a saraiva, que a geada, que a secca, sempre presente, inverno ou verão, outomno ou primavera.

Não obstante essa luta diaria, o Major não desanimou e pôde colher alguns productos das plantações que tinha feito. Se por occasião das fructas, a sua alegria foi grande, mais expressiva e mais profunda ella foi, quando viu partir para a estação em successivas carretas, as aboboras, os aipins, as batatas doces, em cestos cobertos com saccos cozidos. Os fructos, em parte, eram de outras mãos; as arvores não tinham sido plantadas por elle; mas aquillo não, vinha do seu suor, da sua iniciativa, do seu trabalho!

Elle ainda foi ver aquelles cestos na estação, com a ternura de um pai que vê partir seu filho para a gloria, e para a victoria. Recebeu o dinheiro dias depois, contou o e esteve deduzindo os lucros.

Não foi á roça nesse dia; o trabalho de guarda livros roubou o de cultivador. A sua attenção, já um tanto gasta, não lhe favorecia a tarefa das cifras, e só pelo meio do dia, pôde dizer a irmã:

--Sabes qual foi o lucro, Adelaide?

--Não, menor do que o dos abacates?

--Um pouco mais.

--Então... Quanto?

--Dous mil quinhentos e setenta réis, respondeu Quaresma, destacando syllaba por syllaba.

--O que?

--Foi isso. Só de frete paguei cento e quarenta e dous mil quinhentos.

D. Adelaide esteve algum tempo com os olhos baixos, seguindo a costura que fazia, depois, levantando o olhar:

--Homem, Polycarpo, o melhor é deixares isso... Tens gasto muito dinheiro... Só com as formigas!

--Ora, Adelaide! Pensas que quero fazer fortuna? Faço isso para dar exemplo, levantar a agricultura, aproveitar as nossas terras feracissimas...

--É isto... Queres sempre ser a abelha mestra... Já viste os grandes fazerem esses sacrificios... Vê lá se fazem! Historias... Mettem-se no café que tem todas as protecções...

--Mas, faço eu.

A irmã prestou mais attenção a costura, Polycarpo levantou-se, foi até á janella que dava para o gallinheiro. Fazia um dia fosco e irritante. Elle concertou o pince-nez, esteve olhando e de lá falou:

--Oh! Adelaide! Aquillo não é uma gallinha morta...

A velha senhora ergueu-se com a costura, foi até á janella e verificou com a vista:

--É... É já a segunda que morre hoje.

Após esta leve conversa, Quaresma voltou á sua sala de estudos. Meditava grandes reformas agricolas. Mandara buscar catalogos e ia examinal-os. Tinha já em mente uma charrúa dupla, um capinador mecanico, um semeador, um deslocador, grades, tudo americano, de aço, dando o rendimento effectivo de 20 homens. Até então, não quizera essas innovações; as terras mais ricas do mundo, não precisaram desse processos que lhe pareciam artificiaes, para produzir; estava, porém, agora disposto a empregal-os como experiencia. Aos adubos, no entretanto, o seu espirito resistia. Terra virada, dizia Felizardo, terra estrumada; parecia o Quaresma uma profanação estar a empregar nitratos, phosphatos ou mesmo estrume commum, numa terra brasileira... Uma injuria!

Quando se convencesse de que eram necessarios, parecia-lhe que todo o seu systema de idéas ia por terra e os moveis de sua vida desappareceriam. Estava assim a escolher arados e outros «Planets», «Bajacs» e «Brabants» de varios feitios, quando o seu pequeno copeiro lhe annunciou a visita do dr. Campos.

O edil entrou com a sua jovialidade, a sua mansidão, e o seu grande corpo. Era alto e gordo, pançudo um pouco, tinha os olhos castanhos, quasi á flôr do rosto, uma testa média e recta: o nariz, mal feito. Um tanto trigueiro, cabellos corridos e já grisalhos, era o que se chama por ahi um caboclo, embora o seu bigode fosse crespo. Não nascera em Curuzú, era da Bahia ou de Sergipe, habitava, porém, o logar ha mais de vinte annos, onde casara e prosperara, graças ao dote da mulher e á sua actividade clinica. Com esta, não gastava grande energia, mental: tendo de côr uma meia duzia de receitas, elle, desde muito, conseguira enquadrar as molestias locaes no seu reduzido formulario.

Presidente da Camara, era das pessoas mais consideraveis da Curuzú, e Quaresma o estimava particularmente pela sua familiaridade, pela sua affabilidade e simplicidade.

--Ora, viva Major! Como vai isto por ahi? muita formiga? Lá em casa já não ha mais.

Quaresma respondeu com menor enthusiasmo e jovialidade, mas comente com a alegria communicativa do doutor. Elle continuava a falar com desembaraço e naturalidade:

--Sabe o que me traz aqui, Major? Não sabe, não é? Preciso de um pequeno obsequio seu.

O Major não se espantou; sympathizava com o homem e abriu-se em offerecimentos.

--Como o Major sabe...

Agora a sua voz era doce, flexivel, subtil; as palavras cahiam-lhe da boca adocicadas, dobravam-se, colleavam-se:

--Como o Major sabe, as eleições se devem realizar por estes dias. A victoria é nossa. Todas as mezas estão comnosco, excepto uma... Ahi mesmo, se o Major quizer...

--Mas, como? se eu não sou eleitor, não me metto, nem quero metter-me em politica? perguntou Quaresma ingenuamente.

--Exactamente por isso, disse o doutor com voz forte: e em seguida brandamente: a secção funcciona na sua vizinhança, é ali, na escola, se...

--E dahi?

--Tenho aqui uma carta do Neves, dirigida ao senhor. Se o Major quer responder (é melhor já) que não houve eleição... Quer?

Quaresma olhou o doutor com firmeza, coçou um instante o cavaignac e respondeu claramente, firmemente:

--Absolutamente não.

O doutor não se zangou. Pôz mais uncção e maciez a na voz, adduziu argumentos: que era para o partido, o unico que pugnava pelo levantamento da lavoura. Quaresma foi inflexivel; disse que não, que lhe eram absolutamente antipathicas taes disputas, que não tinha partido e mesmo que tivesse não iria affirmar uma cousa que elle não sabia ainda se era mentira ou verdade.

Campos não deu mostras de aborrecimento, conversou um pouco sobre cousas banaes e despediu-se com o ar amavel, com a jovialidade mais sua que era possivel.

Isto se passou na terça-feira, naquelle dia de luz fosca e irritante. Á tarde houve trovoada, choveu muito. O tempo só levantou na quinta-feira, dia em que o Major foi surprehendido com a visita de um sujeito com um uniforme velho e lamentavel, portador de um papel official para elle, proprietario do «Socego», conforme mesmo disse o tal homem fardado.

Em virtude das posturas e leis municipaes, rezava o papel, O Sr. Polycarpo Quaresma, proprietario do sitio «Socego» era intimado, sob as penas das mesmas posturas e leis, a roçar e capinar as testadas do referido sitio que confrontavam com as vias publicas.

O Major ficou um tempo pensando. Julgava impossivel uma tal intimação. Seria mesmo? Brincadeira... Leu de novo o papel, viu a assignatura do Dr. Campos. Era certo... Mas que absurda intimação esta de capinar e limpar estradas na extensão de mil duzentos metros, pois seu sitio dava de frente para um caminho e de um dos lados acompanhava outro na extensão de oitocentos metros—era possivel!?

A antiga corvéa!... Um absurdo! Antes confiscassem-lhe o sitio. Consultando a irmã, ella lhe aconselhou que falasse ao Dr. Campos. Contou-lhe então Quaresma a conversa que tivera com elle dias antes.

--Mas és tolo, Polycarpo. Foi elle mesmo...

A luz se lhe fez no pensamento... Aquella rede de leis, de posturas, de codigos e de preceitos, nas mãos desses regulotes, de taes caciques, se transformava em pôtro, em polé, em instrumento de supplicios para torturar os inimigos, opprimir as populações, crestar-lhes a iniciativa e a independencia, abatendo-as e desmoralizando-as.

Pelos seus olhos passaram num instante aquellas faces amarelladas e chupadas que se encostavam nos portaes das vendas preguiçosamente; viu tambem aquellas crianças maltrapilhas e sujas, d'olhos baixos, a esmolar disfarçadamente pelas estradas; viu aquellas terras abandonadas, improductivas, entregues ás hervas e insectos damninhos; viu ainda o desespero de Felizardo, homem bom, activo e trabalhador, sem animo de plantar um grão de milho em casa e bebendo todo o dinheiro que lhe passava pelas mãos—este quadro passou-lhe pelos olhos com a rapidez e o brilho sinistro do relampago; e só se apagou de todo, quando teve que ler a carta que a sua afilhada lhe mandara.

Vinha viva e alegre. Contava pequenas historias de sua vida, a viagem proxima do papai, á Europa, o desespero do marido no dia em que sahiu sem annel, pedia noticias do padrinho, de D. Adelaide e, sem desrespeito, recommendava á irmã de Quaresma que tivesse muito cuidado com o manto de arminho da «Duqueza».

A «Duqueza» era uma grande pata branca, de penas alvas a macias ao olhar, que, pela lentidão e magestade do andar, com o pescoço alto e o passo firme, merecera de Olga esse appellido nobre. O animal tinha morrido havia dias. E que morte! Uma peste que lhe levara duas duzias de patos, levara a «Duqueza» tambem. Era uma especie de paralysia que tomava as pernas, depois o resto do corpo. Tres dias levou a agonizar. Deitada sobre o peito, com o bico collado ao chão, atacada pelas formigas, o animal só dava signal de vida por uma lenta oscillação do pescoço em torno do bico, espantando as moscas que a importunavam na sua ultima hora.

Era de ver como aquella vida tão extranha á nossa, naquelle instante penetrava em nós e sentiamo-lhe o soffrimento, a agonia e a dôr.

O gallinheiro ficou como uma aldeia devastada; a peste atacou gallinhas, perús, patos; ora sobre uma forma, ora sobre outra, foi ceifando, matando, até reduzir a sua população a menos de metade.

E não havia quem soubesse curar. Numa terra, cujo Governo tinha tantas escolas que produziam tantos sabios, não havia um só homem que pudesse reduzir, com as suas drogas ou receitas aquelle consideravel prejuizo.

Esses contratempos, essas contrariedades abateram muito o cultivador enthusiastico dos primeiros mezes; entretanto não passara pela mente de Quaresma abandonar os seus propositos. Adquiriu compendios de veterinaria e até já tratava de comprar as machinas agricolas descriptas nos catalogos.

Uma tarde, porém, estava á espera da junta de bois que encommendara para o trabalho do arado, quando lhe appareceu á porta um soldado de policia com um papel official. Elle se lembrou da intimação municipal. Estava disposto a resistir, não se incommodou muito.

Recebeu o papel e leu. Não vinha mais da municipalidade, mas da collectoria, cujo escrivão, Antonio Dutra, conforme estava no papel, intimava o Sr. Polycarpo Quaresma a pagar quinhentos mil réis de multa, por ter enviado productos de sua lavoura sem pagamento dos respectivos impostos.

Viu bem o que havia nisso de vingança mesquinha; mas o seu pensamento voou logo para as cousas geraes, levado pelo seu patriotismo profundo.

A quarenta kilometros do Rio, pagavam-se impostos para se mandar ao mercado umas batatas? Depois de Turgot da Revolução, ainda havia alfandegas interiores?

Como era possivel fazer prosperar a agricultura, com tantas barreiras e impostos? Se ao monopolio dos atravessadores do Rio se juntavam as exacções do Estado, como era possivel tirar da terra a remuneração consoladora?

E o quadro que já lhe passara pelos olhos, quando recebeu a intimação da municipalidade, voltou-lhe de novo, mais tetrico, mais sombrio, mais lugubre; e anteviu a epoca em que aquella gente teria de comer sapo, cobras, animaes mortos, como em França os camponezes, em tempos de grandes reis.

Quaresma veiu a recordar-se do seu tupy, do seu folk-lore, das modinhas, das suas tentativas agricolas—tudo isso lhe pareceu insignificante, pueril, infantil.

Era preciso trabalhos maiores, mais profundos; tornava-se necessario refazer a administração. Imaginava um Governo forte, respeitado, intelligente, removendo todos esses obices, esses entraves, Sully e Henrique IV, espalhando sabias leis agrarias, levantando o cultivador... Então sim! O celleiro surgiria e a patria seria feliz.

Felizardo entregou-lhe o jornal que toda a manhã mandava comprar á estação, e lhe disse:

--Seu patrão, amanhã não venho trabaiá.

--Por certo; é dia feriado... A Independencia.

--Não é por isso.

--Porque então?

--Ha baruio na Côrte e dizem que vão arrecutá. Vou p'r'o mato... Nada!

--Que barulho?

--Tá nas foias, sim sinhô.

Abriu o jornal e logo deu com a noticia de que os navios da esquadra se haviam insurgido e intimado ao Presidente a sahir do poder. Lembrou-se das suas reflexões de instantes atrás; um Governo forte, até á tyrannia... Medidas agrarias... Sully e Henrique IV...

Os seus olhos brilhavam de esperança. Despediu o empregado. Foi ao interior da casa, nada disse á irmã, tomou o chapéo, e dirigiu-se á estação.

Chegou ao telegrapho e escreveu: «Marechal Floriano, Rio. Peço energia. Sigo já.--Quaresma».