Havia mais do uma hora que elle estava ali, num grande salão do palacio, vendo o Marechal, mas sem lhe poder falar. Quasi não se encontravam difficuldades para se chegar á sua presença, mas falar-lhe, a cousa não era tão facil.
O palacio tinha um ar de intimidade, de quasi relaxamento, representativo o eloquente. Não era raro ver-se pelos divans, em outras salas, ajudantes de ordens, ordenanças, continuos, cochilando, meio deitados e desabotoados. Tudo nelle era desleixo e molleza. Os cantos dos tectos tinham teias de aranha; dos tapetes, quando pisados com mais força, subia uma poeira do rua mal varrida.
Quaresma não pudera vir logo, como annunciara no telegramma. Fôra preciso por em ordem os seus negocios, arranjar quem fizesse companhia á irmã. Fizera D. Adelaide mil objecções á sua partida; mostrara-lhe os riscos da luta, da guerra, incompativeis com a sua idade e superiores á sua força; elle, porém, não se deixara abater, fizera pé firme, pois sentia, indispensavel, necessario que toda a sua vontade, que toda a sua intelligencia, que tudo o que elle tinha de vida e actividade fosse posto á disposição do Governo, para então!... oh!
Aproveitava os dias até para redigir um memorial que ia entregar a Floriano. Nelle expunham-se as medidas necessarias para o levantamento da agricultura e mostravam-se todos os entraves, oriundos da grande propriedade, das exacções fiscaes, da carestia de fretes, da estreiteza dos mercados e das violencias politicas.
O Major apertava o manuscripto na mão e lembrava-se da sua casa, lá longe, no canto daquella planicie feia, olhando, no poente, as montanhas que se alongavam, se afilavam nos dias claros e transparentes; lembrava-se de sua irmã, dos seus olhos verdes e placidos que o viram partir com uma impassibilidade que não era natural; mas do que se lembrava mais, naquelle momento, era do Anastacio, o seu preto velho, do seu longo olhar, não mais com aquella ternura passiva de animal domestico, mas cheio de assombro, de espanto e piedade, rolando muito nas orbitas as escleroticas muito brancas, quando o viu penetrar no vagão da estrada de ferro. Parecia que farejava desgraça... Não lhe era commum tal attitude e como que a tomava por ter descoberto nas cousas signaes de dolorosos acontecimentos a vir... Ora!...
Ficara Quaresma a um canto vendo entrar um e outro á espera que o Presidente o chamasse. Era cedo, pouco devia faltar para o meio-dia e Floriano tinha ainda, como signal do almoço, o palito na boca.
Falou em primeiro logar a uma commissão de senhoras que vinham offerecer o seu braço e o seu sangue em defeza das instituições e da patria. A oradora era uma mulher baixa, de busto curto, gorda, com grandes seios altos e falava agitando o leque fechado na mão direita.
Não se podia dizer bem qual a sua cor, sua raça, ao menos: andavam tantas nella que uma escondia a outra, furtando toda ella a uma classificação honesta.
Emquanto falava, a mulhersinha deitava sobre o Marechal os grandes olhos que despediam chispas. Floriano parecia incommodado com aquelle chammejar; era como se temesse derreter-se ao calor daquelle olhar que queimava mais seducção que patriotismo. Fugia encaral-a, abaixava o rosto como um adolescente, batia com os dedos na meza...
Quando lhe chegou a vez de falar, levantou um pouco o rosto, mas sem encarar a mulher, e, com um grosso e difficil sorriso do roceiro, declinou da offerta, visto a Republica ainda dispor de bastante força para vencer.
A ultima phrase, elle a disse com mais vagar e quasi ironicamente. As damas despediram-se; o Marechal gyrou o olhar em torno do salão e deu com Quaresma: Então, Quaresma? fez elle familiarmente.
O Major ia approximar-se, mas logo estacou no logar em que estava. Uma chusma de officiaes subalternos e cadetes cercou o dictador e a sua attenção convergiu para elles. Não se ouvia o que diziam. Falavam ao ouvido de Floriano, cochichavam, batiam-lhe nas espaduas. O Marechal quasi não falava: movia com a cabeça ou pronunciava um monossylabo, cousa que Quaresma percebia pela articulação dos labios.
Começaram a sahir. Apertavam a mão do dictador e, um delles, mais jovial, mais familiar, ao despedir-se, apertou-lhe com força a mão molle, bateu-lhe no hombro com intimidade, e disse alto e com emphase; energia, Marechal!
Aquillo tudo parecia tão natural, normal, tendo entrado no novo ceremonial da Republica, que ninguem, nem o proprio Floriano, teve a minima surpreza, ao contrario alguns até sorriram alegres por ver o califado khan, o emir, transmittir um pouco do que tinha de sagrado ao subalterno desabusado. Não se foram todos immediatamente. Um delles demorou-se mais a segredar cousas á suprema autoridade do paiz. Era um cadete da Escola Militar, com a sua farda azul turqueza, talim e sabre de praça de pret.
Os cadetes da Escola Militar formavam a phalange sagrada.
Tinham todos os privilegios e todos os direitos; precediam ministros nas entrevistas com o dictador e abusavam dessa situação de esteio do sylla, para opprimir e vexar a cidade inteira.
Uns trapos do positivismo se tinham collado naquellas intelligencias e uma religiosidade especial brotara-lhes no sentimento, transformando a autoridade, especialmente Floriano e vagamente a Republica, em artigo de fé, em feitiço, em idolo mexicano, em cujo altar todas as violencias e crimes eram oblatas dignas e offerendas uteis para a sua satisfação e eternidade.
O cadete lá estava...
Quaresma pôde então ver melhor a physionomia do homem que ia enfeixar em suas mãos, durante quasi um anno, tão fortes poderes, poderes de imperador Romano pairando sobre tudo, limitando tudo, sem encontrar obstaculo algum aos seus caprichos, ás suas fraquezas e vontades, nem mas leis, nem nos costumes, nem na piedade universal e humana.
Era vulgar e desoladora. O bigode cahido; o labio inferior pendente e molle a que se agarrava uma grande mosca; os traços flacidos e grosseiros; não havia nem o desenho do queixo ou olhar que fosse propria, que revelasse algum dote superior. Era um olhar mortiço, redondo, pobre de expressões, a não ser de tristeza que não lhe era individual, mas nativa, de raça; e todo elle era gelatinoso, parecia não ter nervos.
Não quiz o Major ver em taes signaes nada que lhe denotasse o caracter, a intelligencia e o temperamento. Essas cousas não vogam, disse elle de si para si.
O seu enthusiasmo por aquelle idolo politico era forte, sincero e desinteressado. Tinha-o na conta de energico, de fino e supervidente, tenaz e conhecedor das necessidades do paiz, manhoso talvez um pouco, uma especie de Luiz XI forrado de um Bismarck. Entretanto, não era assim. Com uma ausencia total de qualidades intellectuaes, havia no caracter do Marechal Floriano uma qualidade predominante: tristeza de animo; e no seu temperamento, muita preguiça. Não a preguiça commum, essa preguiça de nós todos; era uma preguiça morbida, como que uma pobreza de irrigação nervosa, provinda de uma insufficiente quantidade de irrigação no seu organismo. Pelos logares que passou, tornou-se notavel pela indolencia e desamor ás obrigações dos seus cargos.
Quando director do Arsenal de Pernambuco, nem energia tinha para assignar o expediente respectivo; e durante o tempo em que foi ministro da guerra, passava mezes e mezes sem lá ir, deixando tudo por assignar, pelo que legou ao seu substituto um trabalho avultadissimo.
Quem conhece a actividade papeleira de um Colbert, de um Napoleão, de um Philippe II, de um Guilherme I, da Allemanha, em geral de todos os grandes homens de Estado, não comprehende o descaso florianesco pela expedição de ordens, explicações aos subalternos, de suas vontades, de suas vistas, certamente necessarias deviam ser taes transmissões para que o seu senso superior se fizesse sentir e influisse na marcha das cousas governamentaes e administrativas.
Dessa sua preguiça de pensar e de agir, vinha o seu mutismo, os seus mysteriosos monosyllabos, levados á altura de ditos sybillinos, as famosas encruzilhadas dos tal vezes, que tanto reagiram sobre a intelligencia e imaginação nacionaes, mendigas de heroes e grandes homens.
Essa doentia preguiça, fazia-o andar de chinellos e deu-lhe aquelle aspecto de calma superior, calma de grande homem de estado ou de guerreiro extraordinario.
Toda a gente ainda se lembra como foram os seus primeiros mezes de governo. A braços com o levante de presos, praças e inferiores da fortaleza de Santa Cruz, tendo mandado fazer um inquerito, abafou-o com medo que as pessoas indicadas como instigadoras não fizessem outra sedicção, e, não contente com isto, deu a essas pessoas as melhores e mais altas recompensas.
Demais, ninguem póde admittir um homem forte, um Cesar, um Napoleão, que permitta aos subalternos aquellas intimidades deprimentes e tenha com elles as condescendencias que elle tinha, consentindo que o seu nome servisse de labaro para uma vasta serie de crimes de toda a especie.
Uma recordação basta. Sabe-se bem sob que atomosphera de má vontade Napoleão assumiu o commando do exercito da Italia. Augereau que o chamava «general de rua», disse a alguem, após lhe ter falado: «o homem metteu-me medo»; e o corso estava senhor do exercito, sem balidellas no hombro, sem delegar tacita ou explicitamente a sua autoridade a subalternos irresponsaveis.
De resto, a lentidão com que suffocou a revolta de 6 de Setembro mostra bem a incerteza, a vacillação de vontade de um homem que dispunha daquelles extraordinarios recursos que estavam ás suas ordens.
Ha uma outra face do Marechal Floriano que muito explica os seus movimentos, actos e gestos. Era o seu amor á familia, um amor entranhado, alguma cousa de patriarchal, de antigo que já se vai esvaindo com a marcha da civilização.
Em virtude de insuccessos na exploração agricola de duas das suas propriedades, a sua situação particular era precaria, e não queria morrer sem deixar á familia as suas propriedades agricolas desoneradas do peso das dividas.
Honesto e probo como era, a unica esperança que lhe restava, repousava nas economias sobre os seus ordenados. Dahi lhe veiu essa dubiedade, esse jogo com pau de dous bicos, jogo indispensavel para conservar os rendosos logares que teve e o fez atarrachar-se tenazmente á presidencia da Republica. A hypotheca do «Brejão» e do «Duarte» foi o seu nariz de Cleopatra...
A sua preguiça, a sua tistreza de animo e o seu amor fervoroso pelo lar deram em resultado esse homem-talvez que, refractado nas necessidades mentaes e sociaes dos homens do tempo, foi transformado em estadista, em Richelieu, e pôde resistir a uma séria revolta com mais teimosia que vigor, obtendo vidas, dinheiro e despertando até enthusiasmo e fanatismo.
Esse enthusiasmo e esse fanatismo, que o ampararam, que o animaram, que o sustentaram, só teriam sido possiveis, depois de ter elle sido ajudante general do Imperio, senador, ministro, isto após se ter fabricado á vista de todos o chrystalizado a lenda na mente de todos.
A sua concepção de governo não era o despotismo, nem a democracia, nem a aristocracia; era a de uma tyrannia domestica. O bêbê portou-se mal, castiga-se. Levada a cousa ao grande o portar-se mal em fazer-lhe opposição, ter opiniões contrarias ás suas e o castigo não eram mais palmadas, sim, porém, prisão e morte. Não ha dinheiro no Thesouro; ponham-se as notas recolhidas em circulação, assim como se faz em casa quando chegam visitas e a sopa é pouca: põe-se mais agua.
Demais, a sua educação militar e a sua fraca cultura deram mais realce a essa concepção infantil, raiando-a de violencia, não tanto por elle em si, pela sua perversidade natural, pelo seu desprezo pela vida humana, mas pela fraqueza com que acobertou e não reprimiu a ferocidade dos seus auxiliares e asseclas.
Quaresma estava longe de pensar nisso tudo; elle com muitos homens honestas e sinceros do tempo, foram tomados pelo enthusiasmo contagioso que Floriano conseguira despertar. Pensava na grande obra que o Destino reservava aquella figura placida e triste; na reforma radical que elle ia levar organismo anniquilado da patria, que o Major se habituara a crer a mais rica do mundo, embora, de uns tempos para cá, já tivesse duvidas a certos respeitos.
De certo, elle não negaria taes esperanças e a sua acção poderosa havia de se fazer sentir pelos oito milhões de kilometros quadrados do Brasil, levando-lhes estradas, segurança, protecção aos fracos, assegurando o trabalho e promovendo a riqueza.
Não se demorou muito nessa ordem de pensamentos. Um seu companheiro de espera, desde que o Marechal lhe falou familiarmente, começou a considerar aquelle homem pequenino, taciturno, de pince-nez e foi-se chegando, se approximando e, quando já perto, disse a Quaresma, quasi como um terrivel segredo:
--Elles vão ver o caboclo... O Major ha muito que o conhece?
Respondeu-lhe o Major e o outro ainda lhe fez uma outra pergunta; o presidente, porém, ficara só e Quaresma avançou.
--Então, Quaresma? fez Floriano.
--Venho offerecer á V. Ex. os meus fracos prestimos.
O presidente considerou um instante aquella pequenez de homem, sorriu com difficuldade, mas, levemente, com um pouco de satisfação. Sentiu por ahi a força de sua popularidade e senão a razão boa de sua causa.
--Agradeço-te muito... Onde tens andado? Sei que deixaste o Arsenal.
Floriano tinha essa capacidade de guardar physionomias, nomes, empregos, situações dos subalternos com quem lidava. Tinha alguma cousa de asiatico; era cruel e paternal ao mesmo tempo.
Quaresma explicou-lhe a sua vida e aproveitou a occasião para lhe falar em leis agrarias, medidas tendentes a desafogar e dar novas bases á nossa vida agricola. O Marechal ouviu-o distrahido, com uma dobra de aborrecimento no canto dos labios.
--Trazia á V. Ex. até este memorial...
O presidente teve um gesto de mau humor, um quasi «não me amole» e disse com preguiça a Quaresma:
--Deixa ahi...
Depositou o manuscripto sobre meza e logo o dictador dirigiu-se ao interlocutor de ainda agora:
--Que ha, Bustamante? e o batalhão, vai?
O homem approximou-se mais, um tanto amedrontado!
--Vai bem, Marechal. Precisamos de um quartel... Se V. Ex. desse ordem...
--É exacto. Fala ao Rufino em meu nome que elle póde arranjar... Ou antes: leva-lhe este bilhete.
Rasgou um pedaço de uma das primeiras paginas do manuscripto de Quaresma, e assim mesmo, sobre aquella ponta de papel, a lapiz azul, escreveu algumas palavras ao seu ministro da guerra. Ao acabar é que deu com a desconsideração:
--Ora! Quaresma! rasguei o teu escripto... Não faz mal... Era a parte de cima, não tinha nada escripto.
O Major confirmou e o presidente, em seguida, voltando-se para Bustamante:
--Aproveita Quaresma no teu batalhão. Que posto queres?
--Eu! foz Quaresma estupidamente.
--Bem. Vocês lá se entendam.
Os dous se despediram do presidente e desceram vagarosamente as escadas do Itamaraty. Até á rua nada disseram um ao outro. Quaresma vinha um pouco frio. O dia estava claro e quente; o movimento da cidade parecia não ter soffrido alteração apreciavel. Havia a mesma agitação de bondes, carros e carroças; mas nas physionomias, um terror, um espanto, alguma cousa de tremendo ameaçava, todos e parecia estar suspenso no ar.
Bustamante deu-se a conhecer. Era o Major Bustamante, agora Tenente-Coronel, velho amigo do Marechal, seu companheiro no Paraguay.
--Mas nós nos conhecemos! exclamou elle.
Quaresma esteve olhando aquelle velho mulato escuro, com uma grande barba mosaica e olhos espertos, mas não se lembrou de tel-o já encontrado algum dia.
--Não me recordo... Donde?
--Da casa do General Albernaz... Não se lembra?
Polycarpo então teve uma vaga recordação e o outro explicou-lhe a formação do seu batalhão patriotico «Cruzeiro do Sul».
--O Sr. quer fazer parte?
--Pois não, fez Quaresma.
--Estamos em difficuldades... Fardamento, calçado para as praças... Nas primeiras despezas devemos auxiliar o Governo... Não convém sangrar o Thesouro, não acha?
--Certamente, disse com enthusiasmo Quaresma.
--Folgo muito que o senhor concorde comigo... Vejo que é um patriota... Resolvi por isso fazer um rateio pelos officiaes, em proporção ao posto: um alferes concorre com cem mil réis, um tenente com duzentos... O senhor que patente quer? Ah! É verdade! O senhor é major, não é?
Quaresma então explicou por que o tratavam por Major. Um amigo, influencia no Ministerio do Interior, lhe tinha mettido o nome numa lista de guardas nacionaes, com esse posto. Nunca tendo pago os emolumentos, viu-se, entretanto, sempre tratado Major, e a cousa pegou. A principio, protestou, mas como teimassem deixou.
--Bem, fez Bustamante. O senhor fica mesmo sendo Major.
--Qual é a minha quota?
--Quatrocentos mil réis. Um pouco forte, mas... O senhor sabe; é um posto importante... Aceita?
--Pois não.
Bustamante tirou a carteira, tomou nota com uma pontinha do lapiz e despediu-se jovialmente.
--Então, Major, ás seis, no quartel provisorio.
A conversa se havia passado na esquina da rua Larga com o Campo de Sant'Anna. Quaresma pretendia tomar um bonde que o levasse ao centro da cidade. Tencionava visitar o compadre em Botafogo, fazendo, assim, horas para a sua iniciação militar.
A praça estava pouco transitada; os bondes passavam ao chouto compassado das mulas; de quando em quando ou via-se um toque de corneta, rufos de tambor, e do portão central do Quartel General sahia uma força, armas ao hombro, bayonetas caladas, dansando nos hombros dos recrutas, faiscando com um brilho duro e máu.
Ia tomar o bonde, quando se ouviram alguns disparos de artilharia e o secco espoucar dos fuzis. Não durou muito; antes que o bonde attingisse á rua da Constituição, todos os rumores guerreiros tinham cessado, e quem não estivesse avisado havia de suppor-se em tempos normaes.
Quaresma chegou-se para o centro do banco e ia ler o jornal que comprara. Desdobrou-o vagarosamente, mas foi logo interrompido; bateram-lhe no hombro. Voltou-se.
--Oh! General!
O encontro foi cordial. O General Albernaz gostava dessas cerimonias e tinha mesmo um prazer, uma deliciosa emoção em reatar conhecimentos que se tinham enfraquecido por uma separação qualquer. Estava fardado, com aquelle seu uniforme mal tratado; não trazia espada e o pince-nez continuava preso por um trancelim de ouro que lhe passava por detraz da orelha esquerda.
--Então vem ver a cousa?
--Vim. Já me apresentei ao Marechal.
--Elles vão ver com quem se metteram. Pensam que tratam com o Deodoro, enganam-se!... A Republica, graças a Deus, tem agora um homem na sua frente... O caboclo é de ferro... No Paraguay...
--O Sr. conheceu-o lá, não, General?
--Isto é... Não chegamos a nos encontrar, mas o Camisão... É duro, o homem. Estou como encarregado das munições... É fino o caboclo; não me quiz no litoral. Sabe muito bem quem sou e que munição que saia das minhas mãos, é munição... Lá, no deposito, não me sai um caixote que eu não examine... É necessario... No Paraguay, houve muita desordem e comilança: mandou-se muita cal por polvora—não sabia?
--Não.
Pois foi. O meu gasto era ir para as praias, para o combate: mas o homem quer que eu fique com as munições... Capitão manda marinheiro faz... Elle sabe lá...
Deu de hombros, concertou o trancelim que já cahia da orelha e esteve calado um instante. Quaresma perguntou:
--Como vai a familia?
--Bem. Sabe que Quinota casou-se?
--Sabia, o Ricardo me disse. E D. Ismenia, como vai?
A physionomia do General toldou-se e respondeu como a contragosto:
--Vai no mesmo.
O pudor de pai tinha-o impedido de dizer toda a verdade. A filha enlouquecera de uma loucura mansa e infantil. Passava dias inteiros calada, a um canto, olhando estupidamente tudo, com um olhar morto de estatua, numa atonia de inanimado, como que cahira em imbecilidade; mas vinha uma hora, porém, em que se penteava toda, enfeitava-se e corria á mãe, dizendo: «Aprompta-me, mamãe. O meu noivo não deve tardar... é hoje o meu casamento». Outras vezes recortava papel, em forma de participações, e escrevia: Ismenia de Albernaz e Fulano (variava) participam o seu casamento.
O General já consultara uma duzia de medicos, o espiritismo e agora andava ás voltas com um feiticeiro milagroso; a filha, porém, não sarava, não perdia a mania e cada vez mais se embrenhava o seu espirito naquella obsessão de casamento, alvo que fizeram ser da sua vida, a que não attingira, aniquilando-se, porém, o seu espirito e a sua mocidade em pleno verdor.
Entristecia o seu estado aquella casa outr'ora tão alegre, tão festiva. Os bailes tinham diminuido: e, quando eram obrigados a dar um, nas datas principaes, a moça, com todos os cuidados, á custa de todas as promessas, era levada para casa da irmã casada, e lá ficava, emquanto as outras dansavam, um instante esquecidas da irmã que soffria.
Albernaz não quis revelar aquella dôr de sua velhice: reprimiu a emoção e continuou no tom mais natural, naquelle seu tom familiar e intimo que usava com todos:
--Isto é uma infamia, Sr. Quaresma. Que atrazo para o paiz! E os prejuizos? Um porto destes fechado ao commercio nacional, quantos annos de retardamento não representa!
O Major concordou e mostrou a necessidade de prestigiar o Governo, de forma a tornar impossivel a reproducção de levantes e insurreições.
--De certo, adduziu o General. Assim não progredimos, não nos adiantamos. E no estrangeiro que mau effeito!
O bonde chegara ao largo de S. Francisco e os dous se separaram. Quaresma foi direitinho ao largo da Carioca e Albernaz seguiu para a rua do Rosario.
Olga viu entrar seu padrinho sem aquella alegria expansiva de sempre. Não foi indifferença que sentiu, foi espanto, assombro, quasi modo, embora soubesse perfeitamente que elle estava a chegar. Entretanto, não havia mudança na physionomia de Quaresma, no seu corpo, em todo elle. Era o mesmo homem baixo, pallido, com aquelle cavaignac apontado e o olhar agudo por detraz do pince-nez... Nem mesmo estava mais queimado e o geito de apertar os labios era o mesmo que ella conhecia ha tantos annos. Mas, parecia-lhe mudado e ter entrado impellido, empurrado por uma força extranha, por um turbilhão; bem examinando, entretanto, verificou que lhe entrara naturalmente, com o seu passo meudo e firme. Donde lhe vinha então essa cousa que a acanhava, que lhe tirava sua alegria de ver pessoa tão amada? Não atinou. Estava lendo na sala de jantar e Quaresma não se fazia annunciar; ia entrando conforme o velho habito. Respondeu ao padrinho ainda sob a dolorosa impressão da sua entrada:
--Papae saiu; e o Armando está lá em baixo escrevendo.
De facto, elle estava escrevendo ou mais particularmente: traduzia para o classico um grande artigo sobre «Ferimentos por arma de fogo». O seu ultimo truc intellectual era este do classico. Buscava nisto uma distincção, uma separação intellectual desses meninos por ahi que escrevem contos e romances nos jornaes. Elle, um sabio, e sobretudo, um doutor, não podia escrever da mesma forma que elles. A sua sabedoria superior e o seu titulo academico não podia usar da mesma lingua, dos mesmos modismos, da mesma syntaxe que esses poetastros e literatecos. Veio-lhe então a idéa do classico. O processo era simples: escrevia do modo commum, com as palavras e o jeito de hoje, em seguida invertia as orações, picava o periodo com virgulas e substituia incomodar por molestar, ao redor por derredor, isto por esto, quão grande ou tão grande por quammanho, sarapintava tudo de ao invez, empós, e assim obtinha o seu estylo classico que começava a causar admiração aos seus pares e ao publico em geral.
Gostava muito da expressão--ás rebatinhas; usava-a a todo o momento e, guando a punha no branco do papel, imaginava que dera ao seu estylo uma força e um brilho pascalinos e ás suas idéas unia sufficiencia transcendente. De noite, lia o padre Vieira, mas logo ás primeiras linhas o somno lhe vinha e dormia sonhando-se physico, tratado de mestre, em pleno seiscentos, prescrevendo sangria e agua quente, tal e qual o Dr. Sangrado.
A sua traducção estava quasi no fim, já estava bastante pratico, pois com o tempo adquirira um vocabulario sufficiente e a versão era feita mentalmente, em quasi metade, logo na primeira escripta. Recebeu o recado da mulher, annunciando-lhe a visita, com um pequeno aborrecimento, mas, como teimasse em não encontrar um equivalente classico para orificio, julgou util a interrupção. Queria pôr buraco, mas era plebeu; orificio, se bem que muito usado, era, entretanto, mais digno. Na volta talvez encontrasse, pensou: e subiu á sala de jantar. Elle entrou prazenteiro, com o seu grande bigode esfarelado, o seu rosto redondo e encontrou padrinho e afilhada empenhados em uma discussão sobre autoridade.
Dizia ella:
--Eu não posso comprehender esse tom divino com que os senhores falam da autoridade. Não se governa mais em nome de Deus, por que então esse respeito, essa veneração de que querem cercar os governantes?
O doutor, que ouvira toda a phrase, não pôde deixar de objetar:
--Mas é preciso, indispensavel... Nós sabemos bem que elles são homens como nós, mas, se não for assim tudo vai por agua abaixo.
Quaresma acrescentou:
--É em virtude das proprias necessidades internas e externas da nossa sociedade que ella existe... Nas formigas, nas abelhas...
--Admitto. Mas ha revoltas entre as abelhas e formigas, e a autoridade se mantem lá á custa de assassinios, exacções e violencias?
--Não se sabe... Quem sabe? Talvez... fez evasivamente Quaresma.
O doutor não teve duvidas e foi logo dizendo:
--Que temos nós com as abelhas? Então nós, os homens, o pinaculo da escala zoologica iremos buscar normas de vida entre insectos?
--Não, é isso, meu caro doutor; buscamos nos exemplos delles a certeza da generalidade do phenomeno, da sua immanencia, por assim dizer, disse Quaresma com doçura.
Elle não tinha acabado a explicação e já Olga reflectia:
--Ainda se essa tal autoridade trouxesse felicidade—vá; mas não; de que vale?
--Ha de trazer, affirmou categoricamente Quaresma. A questão é consolidal-a.
Conversaram ainda muito tempo. O Major contou a sua visita a Floriano, a sua proxima incorporação ao batalhão «Cruzeiro do Sul». O doutor teve uma ponta de inveja, quando elle se referiu ao modo familiar por que Floriano o tratara. Fizeram um pequeno lunch e Quaresma saiu.
Sentia necessidade de rever aquellas ruas estreitas, com as suas lojas profundas e escuras, onde os empregados se moviam como em um subterraneo. A tortuosa Rua dos Ourives, a esburacada Rua da Assembléa, a casquilha rua do Ouvidor davam-lhe saudades.
A vida continuava a mesma. Havia grupos parados e moças a passeio; no Café do Rio, uma multidão. Eram os avançados, os jacobinos, a guarda abnegada da Republica, os intransigentes, a cujos olhos, a moderação, a tolerancia e o respeito pela liberdade e a vida alheias eram crimes de lesa-patria, sintomas de monarquismo criminoso e abdicação desonesta diante do estrangeiro. O estrangeiro era sobretudo o portuguez, o que não impedia de haver jornaes jacobinissimos redigidos por portuguezes da mais bella agua.
A não ser esse grupo gesticulante e apaixonado, a rua do Ouvidor era a mesma. Os namoros se faziam e as moças iam e vinham. Se uma bala zunia no alto céo azul, luminoso, as moças davam gritinhos de gata, corriam para dentro das lojas, esperavam um pouco e logo voltavam sorridentes, o sangue a subir ás faces pouco e pouco, depois da pallidez do medo.
Quaresma jantou num restaurant e dirigiu-se ao quartel, que funccionava provisoriamente num velho cortiço condemnado pela hygiene, lá pelos lados da cidade Nova. Tinha o tal cortiço andar terreo e sobrado, ambos divididos em cubiculos do tamanho de camarotes de navio. No sobrado, havia uma varanda de grade de páu e uma escada de madeira levava até lá, escada tosca e oscillante, que gemia á menor passada. A casa da ordem funccionava no primeiro quartinho do sobrado e o pateo, já sem as cordas de seccar ao sol a roupa, mas com as pedras manchadas das barrélas e da agua de sabão, servia para a instrucção dos recrutas. O instructor era um sargento reformado, um tanto coxo, e admittido no batalhão com o posto de alferes, que gritava com uma demora majestosa: hom—brô... armas!
O Major entregou a sua quota ao coronel e este esteve a mostrar-lhe o modelo do fardamento.
Era muito singular essa fantasia de seringueiro: o dolman era verde-garrafa e tinha uns vivos azul ferrete, alamares dourados e quatro estrellas prateadas, em cruz, na góla.
Uma gritaria fel-os vir até á varanda. Entre soldados entrava um homem, a se debater, a chorar e a implorar, ao mesmo tempo, levando de quando em quando uma reflada.
--É o Ricardo! exclamou Quaresma. O senhor não o conhece, Coronel? continuou ele com interesse e piedade.
Bustamante estava impassivel na varanda e só respondeu depois de algum tempo:
--Conheço... É um voluntario recalcitrante, um patriota rebelde.
Os soldados subiram com o voluntario e Ricardo logo que deu com o major, suplicou-lhe:
--Salve-me major!
Quaresma chamou de parte o Coronel, rogou-lhe e supplicou-lhe, mas foi inutil... Ha necessidade de gente... Enfim, fazia-o cabo.
Ricardo, de longe, seguia a conversa dos dous: adivinhou a recusa e exclamou:
--Eu sirvo sim, sim, mas dêm-me o meu violão.
Bustamante perfilou-se e gritou aos soldados:
--Restituam o violão ao cabo Ricardo!