Papeis Avulsos · Machado de Assis

Chapter 4: Na Arca

TRES CAPITULOS INEDITOS DO GENESIS

CAPITULO A

1.--Então Noé disse a seus filhos Japhet, Sem e Cham:--«Vamos sair da arca, segundo a vontade do Senhor, nós, e nossas mulheres, e todos os animaes. A arca tem de parar no cabeço de uma montanha; desceremos a ella.

2.--«Porque o Senhor cumpriu a sua promessa, quando me disse: Resolvi dar cabo de toda a carne; o mal domina a terra, quero fazer perecer os homens. Faze uma arca de madeira; entra nella tu, tua mulher e teus filhos.

3.--«E as mulheres de teus filhos, e um casal de todos os animaes.

4.--«Agora, pois, se cumpriu a promessa do Senhor, e todos os homens pereceram, e fecharam-se as cataractas do céu; tornaremos a descer á terra, e a viver no seio da paz e da concordia.»

5.--Isto disse Noé, e os filhos de Noé muito se alegraram de ouvir as palavras de seu pae; e Noé os deixou sós, retirando-se a uma das camaras da arca.

6.--Então Japhet levantou a voz e disse:--«Aprazivel vida vai ser a nossa. A figueira nos dará o fructo, a ovelha a lan, a vacca o leite, o sol a cladade e a noite a tenda.

7.--«Porquanto seremos unicos na terra, e toda a terra será nossa, e ninguem perturbará a paz de uma familia, poupada do castigo que feriu a todos os homens.

8.--«Para todo o sempre.» Então Sem, ouvindo falar o irmão, disse:--«Tenho uma ideia.» Ao que Japhet e Cham responderam:--«Vejamos a tua ideia, Sem.»

9.--E Sem falou a voz de seu coração, dizendo:--«Meu pae tem a sua familia; cada um de nós tem a sua familia; a terra é de sobra; podiamos viver em tendas separadas. Cada um de nós fará o que lhe parecer melhor: e plantará, caçará, ou lavrará a madeira, ou fiará o linho.»

10.--E respondeu Japhet:--«Acho bem lembrada a idea de Sem; podemos viver em tendas separadas. A arca vai descer ao cabeço de uma montanha; meu pae e Chain descerão para o lado do nascente: eu e Sem para o lado do poente. Sem occupará duzentos covados de terra, eu outros duzentos.»

11.--Mas dizendo Sem:--«Acho pouco duzentos covados»--, retorquiu Japhet: «Pois sejam quinhentos cada um. Entre a minha terra e a tua haverá um rio, que as divida no meio, para se não confundir a propriedade. Eu fico na margem esquerda e tu na margem direita;

12.--«Ea minha terra se chamará a terra de Japhet, e a tua se chamará a terra de Sem; e iremos ás tendas um do outro, e partiremos o pão da alegria e da concordia.»

13.--E tendo Sem approvado a divisão, perguntou a Japhet: «Mas o rio? a quem pertencerá a agua do rio, a corrente?

14.--«Porque nós possuimos as margens, e não estatuimos nada a respeito da corrente.» E respondeu Japhet, que podiam pescar de um e outro lado; mas, divergindo o irmão, propôz dividir o rio em duas partes, fincando um pau no meio. Japhet, porem, disse que a corrente levaria o pau.

15.--E tendo Japhet respondido asssim, acudiu o irmão:--«Pois que te não serve o pau, fico eu com o rio, e as duas margens; e para que não haja conflicto, podes levantar um muro, dez ou doze covados, para lá da tua margem antiga.

16.--«E se com isto perdes alguma cousa, nem é grande a differença, nem deixa de ser acertado, para que nunca jamais se turbe a concordia entre nós, segundo é a vontade do Senhor.»

17.--Japhet porém replicou:--«Vae bugiar! Com que direito me tiras a margem, que é minha, e me roubas um pedaço de terra? Por ventura és melhor do que eu.

18.--«Ou mais bello, ou mais querido de meu pae? que direito tens de violar assim tão escandalosamente a propriedade alheia?

19.--«Pois agora te digo que o rio ficará do meu lado, com ambas as margens, e que se te atreveres a entrar na minha terra, matar-te-hei como Caim matou a seu irmão.»

20.--Ouvindo isto, Cham atemorisou-se muito, e começou a aquietar os dous irmãos,

21.--Os quaes tinham os olhos do tamanho de figos e cor de braza, e olhavam-se cheios de colera e desprezo.

22.--A arca, porém, boiava sobre as aguas do abysmo.

CAPITULO B

1.--Ora, Japhet, tendo curtido a colera, começou a espumar pela boca, e Okam fallou-lhe palavras de brandura,

2.--Dizendo:--«Vejamos um meio de conciliar tudo; vou chamar tua mulher e a mulher de Sem.»

3.--Um e outro, porém, recusaram dizendo, que o caso era de direito e não de persuasão.

4.--E Sem propoz a Japhet que compensasse os dez covados perdidos, medindo outros tantos nos fundos da terra delle. Mas Japhet respondeu:

5.--«Por que me não mandas logo para os confins do mundo? Já te não contentas com quinhentos covados; queres quinhentos e dez, e eu que fique com quatrocentos e noventa.

6.--«Tu não tens sentimentos moraes? não sabes o que é justiça? não ves que me esbulhas descaradamente? e não percebes que eu saberei defender o que é meu, ainda com risco de vida?

7.--«E que, se é preciso correr sangue, o sangue hade correr já e já,

8.--«Para te castigar a soberba e lavar a tua iniquidade?»

9.--Então Sem avançou para Japhet; mas Cham interpoz-se, pondo uma das mãos no peito de cada um;

10.--Emquanto o lobo e o cordeiro, que durante os dias do diluvio, tinham vivido na mais doce concordia, ouvindo o rumor das vozes, vieram espreitar a briga dos dous irmãos, e começaram a vigiar-se um ao outro.

11.--E disse Cham:--«Ora, pois, tenho uma ideia maravilhosa, que ha de accommodar tudo;

12.--«A qual me é inspirada pelo amor, que tenho a meus irmãos. Sacrificarei pois a terra que me couber ao lado de meu pae, e ficarei com o rio e as duas margens, dando-me vós uns vinte covados cada um.»

13.--E Sem e Japhet riram com desprezo e sarcasmo, dizendo:--«Vae plantar tamaras! Guarda a tua ideia para os dias da velhice.» E puxaram as orelhas e o nariz de Cham; e Japhet, mettendo dous dedos na boca, imitou o silvo da serpente, em ar de surriada.

14.--Ora, Cham envergonhado e irritado, espalmou a mão dizendo:--«Deixa estar!» e foi d'alli ter com o pae e as mulheres dos dous irmãos.

15.--Japhet porém disse a Sem:--«Agora que estamos sós, vamos decidir este grave caso, ou seja de lingua ou de punho. Ou tu me cedes as duas margens, ou eu te quebro uma costella.»

16.--Dizendo isto, Japhet ameaçou a Sem com os punhos fechados, emquanto Sem, derreando o corpo, disse com voz irada: «Não te cedo nada, gatuno!»

17.--Ao que Japhet retorquiu irado: «gatuno és tu!»

18.--Isto dito, avançaram um para o outro e atracaram-se. Japhet tinha o braço rijo e adestrado; Sem era forte na resistencia. Então Japhet, segurando o irmão pela cinta, apertou-o fortemente, bradando: «De quem é o rio?»

19.--E respondendo Sem:--«É meu!» Japhet fez um gesto para derrubal-o; mas Sem, que era forte, sacudiu o corpo e atirou o irmão para longe, Japhet, porém, espumando de colera, tornou a apertar o irmão, e os dous luctaram braço a braço,

20.--Suando e bufando como touros.

21.--Na lucta, cairam e rolaram, esmurrando-se um ao outro; o sangue saía dos narizes, dos beiços, das faces; ora vencia Japhet,

22.--Ora vencia Sem; porque a raiva animava-os egualmente, e elles luctavam com as mãos, os pés, os dentes e as unhas; e a arca estremecia como se de novo se houvessem aberto as cataratas do céu.

23.--Então as vozes e brados chegaram aos ouvidos de Noé, ao mesmo tempo que seu filho Cham, que lhe appareceu clamando: «Meu pae, meu pae, se de Caim se tomará vingança sete vezes, e de Lamech setenta vezes sete, o que será de Japhet e Sem?»

24.--E pedindo Noé que explicasse o dito, Cham referiu a discordia dos dous irmãos, e a ira que os animava, e disse:--«Correi a aquietal-os.» Noé disse:--«Vamos.»

25.--A arca, porém, boiava sobre as aguas do abysmo.

CAPITULO C

1.--Eis aqui chegou Noé ao logar onde luctavam os dous filhos,

2.--E achou-os ainda agarrados um ao outro, e Sem debaixo do joelho de Japhet, que com o punho cerrado lhe batia na cara, a qual estava roxa e sangrenta.

3.--Entretanto, Sem, alçando as mãos, conseguiu apertar o pescoço do irmão, e este começou a bradar: «Larga-me, larga-me.»

4.--Ouvindo os brados, as mulheres de Japhet e Sem acudiram tambem ao logar da lucta, e, vendo-os assim, entraram a soluçar e a dizer: «O que será de nós? A maldição cahiu sobre nós e nossos maridos.»

5.--Noé, porém, lhes disse: «Calai-vos, mulheres de meus filhos, eu verei de que se trata, e ordenarei o que fôr justo .» E caminhando para os dous combatentes,

6.--Bradou: «Cessae a briga. Eu, Noé, vosso pae, o ordeno e mando.» E ouvindo os dous irmãos o pae, detiveram-se subitamente, e ficaram longo tempo atalhados e mudos, não se levantando nenhum d'elles.

7.--Noé continuou: «Erguei-vos, homens indignos da salvação e merecedores do castigo que feriu os outros homens.»

8.--Japhet e Sem ergueram-se. Ambos tinham feridos o rosto, o pescoço e as mãos, e as roupas salpicadas de sangue, porque tinham luctado com unhas e dentes, instigados de odio mortal.

9.--O chão tambem estava alagado de sangue, e as sandalias de um e outro, e os cabellos de um e outro,

10.--Como se o peccado os quizera marcar com o sello da iniquidade.

11.--As duas mulheres, porém, chegaram-se a elles, chorando e acariciando-os, e via-se-lhes a dor do coração. Japhet e Sem não attendiam a nada, e estavam com os olhos no chão, medrosos de encarar seu pae.

12.--O qual disse: «Ora, pois, quero saber o motivo da briga.»

13.--Esta palavra accendeu o odio no coração de ambos. Japhet, porém, foi o primeiro que falou e disse:

14.--«Sem invadiu a minha terra, a terra que eu havia escolhido para levantar a minha tenda, quando as aguas houverem desapparecido e a arca descer, segundo a promessa do Senhor;

15.--«E eu, que não tolero o esbulho, disse a meu irmão: «Não te contentas com quinhentos covados e queres mais dez? «E elle me respondeu: «Quero mais dez e as duas margens do rio que ha de dividir a minha terra da tua terra.»

16.--Noé, ouvindo o filho, tinha os olhos em Sem; e acabando Japhet, perguntou ao irmão: «Que respondes?»

17.--E Sem disse: «--Japhet mente, porque eu só lhe tomei os dez covados de terra, depois que elle recusou dividir o rio em duas partes; e propondo-lhe ficar com as duas margens, ainda consenti que elle medisse outros dez covados nos fundos das terras delle,

18.--«Para compensar o que perdia; mas a iniquidade de Caim fallou nelle, e elle me feriu a cabeça, a cara e as mãos.»

19.--E Japhet interrompeu-o dizendo: «Porventura não me feriste tambem? Não estou ensanguentado como tu? Olha a minha cara e o meu pescoço; olha as minhas faces, que rasgaste com as tuas unhas de tigre.»

20.--Indo Noé fallar, notou que os dous filhos de novo pareciam desafiar-se com os olhos. Então disse: «Ouvi!» Mas os dous irmãos, cegos de raiva, outra vez se engalfinharam, bradando:--«De quem é o rio?»--«O rio é meu.»

21.--E só a muito custo puderam Noé, Cham e as mulheres de Sem e Japhet, conter os dous combatentes, cujo sangue entrou a jorrar em grande copia.

22.--Noé, porém, alçando a voz, bradou:--Maldito seja o que me não obedecer. Elle será maldito, não sete vezes, não setenta vezes sete, mas setecentas vezes setenta.

23.--«Ora, pois, vos digo que, antes de descer a arca, não quero nenhum ajuste a respeito do logar em que levantareis as tendas.»

24.--Depois ficou meditabundo.

25.--E alçando os olhos ao céu, porque a portinhola do tecto estava levantada, bradou com tristeza:

26.--«Elles ainda não possuem a terra e já estão brigando por causa dos limites. O que será quando vierem a Turquia e a Russia?»

27.--E nenhum dos filhos de Noé pôde entender esta palavra de seu pae.

28.--A arca, porém, continuava a boiar sobre as aguas do abysmo.