Os Trabalhadores do Mar · Victor Hugo (translated by Machado de Assis)

Chapter 39: Compradores Nocturnos e Vendedor Tenebroso

Clubin não foi á pousada João, nem na noite de terça-feira, nem na noite de quarta-feira.

Nesta noite, ao escurecer, dous homens entraram pela viella Coutanchez; pararam diante da Jacressarde. Um delles bateu na vidraça. Abrio-se a porta da loja. Entraram ambos. A mulher da perna de páo deu-lhes o sorriso reservado aos burguezes. Havia uma vela sobre uma mesa.

Os dous homens eram effectivamente burguezes.

O homem que tinha batido na vidraça disse:

--Boa noite, mulher. Venho por aquillo.

A mulher da perna de páo sorrio segunda vez e sahio pela porta que dava para o páteo. Minutos depois abrio-se de novo a porta, e appareceu um homem pela fresta, trazendo bonet e blusa, debaixo da qual havia um objecto volumoso. Tinha uns fios de palha nas dobras da blusa e pelos olhos via-se que acabava de acordar.

O homem avançou. Olharam-se todos. O homem da blusa tinha um ar turvado e esperto.

--O senhor é o armeiro? disse elle.

O homem que tinha batido respondeu.

--Sim. O senhor é o Parisiense?

--Chamado Peaurouge. Sim.

--Deixe vêr.

--Aqui está.

O homem tirou debaixo da blusa um instrumento; muito raro na Europa naquella época, um revolver.

O revolver era novo e brilhante. Os dous burguezes examinaram-no. O que pareceu conhecer a casa e a quem o homem da blusa chamou armeiro, fez mover o mecanismo. Entregou depois a arma ao outro burguez, que parecia não ser morador na cidade, e que se conservava com as costas voltadas para a luz.

O armeiro perguntou:

--Quanto custa?

O homem da blusa respondeu.

--Venho da America. Ha pessoas que trazem macacos, papagaios, animaes, como se os francezes fossem selvagens. Eu trouxe isto. É uma invenção util.

--Quanto custa? perguntou de novo o armeiro.

--É uma pistola que faz molinete.

--Quanto custa?

--Paf. Primeiro tiro. Paf. Segundo tiro. Paf... é uma saraivada! Isto faz obra.

--Quanto custa?

--Tem seis canos.

--Mas quanto custa?

--Seis canos são seis luizes.

--Quer cinco luizes?

--Impossivel. Um luiz por cada bala. É o preço.

--Quer fazer negocio, seja razoavel.

--Já disse o preço. Examine-me esta obra, Sr. arcabuzeiro.

--Já examinei.

--O molinete anda de roda como o Sr. Talleyrand. Podiam pôr este molinete no diccionario das ventoinhas. É uma joia.

--Já vi.

--Os canos são de fabrica hespanhola.

--Já reparei.

--São lavrados. A cousa arranja-se assim. Deita-se na forja uma alcofa de ferros velhos, cravos, ferraduras quebradas...

--E velhas laminas de fouces.

--Ia dizel-o, Sr. armeiro. Depois deita-se em cima uma boa porção de fogo, e sahe disto tudo um magnifico instrumento de ferro.

--Sim, mas póde ter gretas e buraquinhos; póde sahir esconço.

--Sim. Mas tudo se arranja.

--O senhor é do officio?

--Tenho todos os officios.

--Os canos são brancos.

--É belleza, Sr. armeiro. Faz-se isto com borra de antimonio.

--Diziamos nós que isto custa cinco luizes...

--Tomo a liberdade de observar que eu tive a honra de dizer seis luizes.

O armeiro abaixou a voz.

--Ouça, Parisiense. Aproveite a occasião. Desfaça-se disto. Isto para vocês não vale nada. Chama a attenção.

--Na verdade, disse Parisiense, é um tanto vistoso. É melhor para um burguez.

--Quer cinco luizes?

--Não, seis. Um por cada buraco.

--Pois bem, seis napoleões.

--Quero seis luizes.

--Não é bonapartista. Prefere um luiz a um napoleão?

Parisiense sorrio.

--Napoleão é melhor, disse elle, mas luiz vale mais.

--Seis napoleões.

--Seis luizes. É para mim uma differença de oitenta francos.

--Então não fazemos nada.

--Pois sim. Guardo o revolver.

--Guarde.

--Abater o preço! pois não! não se dirá que eu me desfiz sem mais nem menos de uma invenção destas!

--Então, boa noite.

--É um progresso sobre a pistola, que os indios chesapoakes chamam Nortay-u-Hoh.

--Cinco luizes á vista, é ouro.

--Nortay-u-Hoh, quer dizer espingarda pequena. Muitas pessoas ignoram isto.

--Quer cinco luizes e mais um escudo?

--Eu já disse que custa seis.

O homem que estava de costas para a luz e que ainda não tinha fallado, fazia mover o mecanismo. Approximou-se do armeiro e disse-lhe ao ouvido:

--A arma é boa?

--Excellente.

--Eu dou os seis luizes.

Cinco minutos depois emquanto Parisiense apertava em um buraco feito na manga da blusa, os seis luizes de ouro que acabava de receber, o armeiro e o comprador, levando no bolso da calça o revolver sahiram da viella Coutanchez.