--Então a pequena está incommodada?--perguntou Melchior a sua mulher, que não declinava os olhos do cepo informe do sr. João José Dias.
--Um pouco incommodada.
--Vaes dizer-lhe que venha á sala, menina?
--Irei.
--Estou boa, papá--disse Ludovina entrando subitamente, e cortejando o hospede, que ella reconhecera de o ter visto outra vez.
--Tem a bondade de sentar-se, snr. Dias?--disse Melchior ao acanhado brasileiro, que mal pudera gaguejar um «creado de vossa senhoria» que corrigiu bruscamente em «vossa excellencia.»--Minha filha, quando hontem te disse que a Providencia me deparára para ti um digno marido, era d'este senhor que te falava.
--Tenho muito prazer em conhece'-lo—atalhou Ludovina com uma affabilidade e desembaraço que espantou a mãe, alegrou o pae, e lisonjeou o noivo.
--Para satisfazer a uma exigencia d'este cavalheiro—continuou Melchior--é preciso que tu digas se acceitas livremente a minha escolha, ou direi melhor a escolha com que te distinguiu o sr. Dias.
--Acceito muito de minha livre vontade—respondeu com firmeza D. Ludovina.
--Não lhe restam escrupulos?--tornou Melchior inclinando-se para o brasileiro.
--Não, senhor—disse elle—Estou satisfeito; o que eu não queria era que a menina viesse um dia a arrepender-se... e...
--Não espero tal desgraça...--interrompeu Ludovina, sem fitar os olhos no brasileiro.
--Da minha parte, hei-de fazer o possivel por lhe não dar desgosto, porque o meu natural é bom, e ninguem, até hoje, se deu mal comigo.
Ludovina ergueu-se, e pediu licença de retirar-se por um instante. D. Angelica entendeu-a, e seguiu-a pouco depois. Foi encontra'-la no quarto, afogada em soluços, curvada sobre o leito.
--Que é isto, filha?
--Nada, minha mãe...
--É muito, Ludovina; que tens?
--Precisão de desabafar assim. Estas lagrimas não fazem mal a ninguem. É uma victima que se entrega ao sacrificio, mas deixem-a chorar... Que vida, que futuro, meu Deus!
--Ludovina, não chores, e escuta-me. Eu não imaginava que teu pae te dera a semelhante homem. Tens razão... É repugnante, e horroroso. Não casarás com elle, menina.
--Hei-de casar, minha mãe. Mal o vi ainda; não tive ainda tempo de sentir repugnancia ou horror... Choro como victima, mas não d'elle; é do outro que me matou.
--Isso é que é cobardia, Ludovina! Pois não te fez nojo esse miseravel?
--Fez, fez; mais que nojo... É preciso que elle se não persuada que minha mãe lhe mentiu, quando lhe disse que a sua intenção era dar-lhe parte do meu casamento. Devo casar muito depressa, o mais breve que seja possivel.
--Casar por vingança?... Isto é um desforço desgraçado...
--Não caso por vingança, que elle não vale o odio. Caso para salvar a nossa dignidade, minha mãe. Hei-de simular quanto possa o contentamento da mais feliz mulher. Não tenho já coração para sentir desgostos. Será tudo estupidamente alegria na minha vida. Toda a gente dirá que eu amo... meu marido. As pessoas que souberem do meu namoro com esse infame, dirão que devia ama'-lo muito pouco a mulher que se deixou casar com um homem ridiculo. Quero que se diga isto; quero que me assaquem a calumnia de que eu sou mais uma das mulheres que se venderam á riqueza. O que nunca ninguem dirá é que eu infamei o homem que me comprou... nunca, meu Deus!... Pois a mãe está chorando agora, depois de me ter ensinado a ver o mundo como elle é? Não se arrependa, minha boa mãe. Deu—me a maior prova de amor fazendo-me escutar o que esse homem disse... palavras de tanta afflicção como vergonha para mim... Fiquei bem, estou desopprimida... vê? já não choro.
D. Angelica abraçou com vehemencia a filha, beijou-a como beijaria a creancinha de peito, e saíu, enxugando as lagrimas. Entretanto, conversavam assim, na sala, os snrs. João José Dias e Melchior Pimenta:
--Gostou dos modos da pequena, snr. Dias?
--Gostei muito; mas, a falar-lhe a verdade, pareceu-me que ella não olhava direita para mim!
--Recato de moça, pejo, e acanhamento, não acha que é muito natural?
--Isso sim; mas dava aquellas respostas tão... tão... tão desenganadas, que parecia ter por mim sympathia de mais tempo...
--Minha filha tem muito juizo, snr. Dias...
--Não duvido.
--E então quiz desde logo agradar a seu pae e a seu futuro marido.
--Ora, olhe; o senhor não se lhe dá que eu tenha com sua filha, cá em particular, uma conversasita?
--Pois não, snr. Dias! todas as vezes que quizer. Eu mesmo desejo que sonde o coração de Ludovina, e reconsidere a sua tenção, se vir que ella o não merece. Eu vou manda'-la.
--Faça-me esse favor.
Melchior procurou a filha, reparou nos indicios das lagrimas, e fingiu que os não percebia. Dizendo-lhe que viesse á sala, accrescentou:
--Lembra-te que fazes a tua felicidade e a de tua familia. Esse homem não será só teu marido, será um protector de todos os teus, e fará a tua independencia n'uma sociedade onde a formosura se estima como um meio de alcançar «fortuna», e a «fortuna» como um meio de se alcançar tudo. Entendeste-me, filha?
--Entendi, meu pae.
Ludovina entrou jovialmente na sala.
--Minha senhora,--disse o brasileiro, gaguejando—Eu fui toda a minha vida negociante, apenas sei ler e escrever, e digo as cousas assim como ellas me vem á idéa. Ora bem; a menina está resolvida a ser minha companheira de toda a vida?
--Sim, senhor, disse ainda ha pouco que sim.
--É verdade que disse; mas póde ser que o dissesse para contentar seu pae, e lá no interior sentisse outra cousa.
--Disse o que sentia, e repito o que disse.
--Quem sabe se a senhora tinha alguma sympathia por ahi, e que lá por eu ter alguns vintens seu pae a fizesse voltar-se para outro lado?
--Não, senhor, eu não tenho affeição a alguem.
--Porque depois eramos ambos desgraçados; e eu devo dizer-lhe, que tudo o que eu mais tenho estimado n'este mundo é a minha honra; até hoje, louvado Deus, ninguem lhe pôz o dedo sujo; e seria mais facil eu deixar que me tirassem a vida do que a honra. Trabalhei muito anno para a conservar, cheguei até esta edade sem ser offendido, e assim d'estes cabellos brancos que me vê, se alguem me atacasse a minha honra, tornava aos meus vinte e cinco annos. A menina entende-me?
--Creio que entendi, e sinto que v. s.ª me esteja offendendo com as suas supposições injuriosas.
--Isto é um modo de falar, sr.ª D. Ludovina, e perdoará se a offendi. Tudo o que lhe digo é em bem seu, e meu. Eu sou o que está vendo; a menina é nova e linda; se vê que se ha de arrepender, diga-me a verdade do seu coração, que eu arranjarei as cousas de modo que seu pae se queixe de mim e não da senhora.
--Já disse a v. s.ª que desejo ser sua esposa; não sei que mais deva dizer-lhe. Não me hei de arrepender, porque espero merecer sempre a sua estima e confiança; mas tenho um favor a pedir-lhe.
--Diga lá, seja o que fôr.
--Desejava que ficassemos na companhia de meus paes.
--Ficaremos; e quando formos passar algum tempo á nossa casa de Celorico, a nossa familia irá comnosco. Era só isso?
--Não tenho outra ambição.
--Isso pouco é... Ha-se de fazer tudo que a menina quizer: graças a Deus, temos mais que o preciso para satisfazer as nossas vontades. Agora, se quizer dizer a seu pae que já lhe disse o que tinha a dizer, vá lá, que eu fico á espera d'elle e de sua mãesinha para me despedir, até á noite.
D. Ludovina chamou o pae, sem saír da sala. Melchior, lendo o bom resultado das suas reflexões na cara jubilosa do radioso capitalista, convidou-o a jantar, quando elle se despedia. João José disse que jantára tres horas antes, e jantaria segunda vez com tão amavel companhia. Estava inspirado!
E cumpriu a promessa. Jantou, fez muitos brindes, e o ultimo, e mais solenne que fez foi o seguinte:
Á saude de quem de hoje a um anno ha de ser meu compadre, e minha comadre!
Melchior Pimenta agradeceu.
D. Angelica franziu a testa, fez-se branca de cera, e levou o calix aos labios.
D. Ludovina córou até ás orelhas.
A leitora faça o que quizer.
Eu não ri, nem córei: deu-me para chorar como uma vide, quando me contaram isto.