O Olho de Vidro · Camilo Castelo Branco

Chapter 18: Catequeze

Francisco Luiz planeou mover o filho de Antonio de Sá Mourão a saír de Aveiro, sob pretexto de fazer entrar na carreira das lettras ou das armas os dois moços, já habilitados para as começarem.

O padre passou a consultar os filhos sobre a escolha de seu futuro. Tinham-se os meninos habituado a pensar no destino para que o pae os encaminhára, desde que os entregou aos frades de Santo Antonio. N'aquelles dias, as carreiras abertas aos espiritos mais arremessados em esperanças e cobiça de nomeada gloriosa, eram a milicia, já então decadente, e a companhia de Jesus, ou a ordem de S. Domingos, as duas mais poderosas e florentes hostes evangelicas n'estes reinos, e as mais conjuradas em realisar o absolutismo theocratico.

Os filhos de Braz não entendiam nada d'estes intentos; mas entreviam a grandiosa estatura do jesuita e do dominicano, em cujas frontes se estavam sempre cerzindo as mytras, e no interior d'essas frontes se elaborava o pensamento dos reis, a palavra directora dos governos, o enlace mystico do céo com a absoluta soberania da terra.

Portanto, os dois netos do hebreu da Guarda, respondendo á consulta de seu pae, disseram que entrariam em conventos. Agostinho escolheu a companhia de Jesus, e Pedro a ordem de S. Domingos.

Francisco Luiz encarou n'elles com desprezo: não podia ser de piedade, nem de odio aquelle sorriso que entre-abriu os beiços do velho judeu de Ourem.

Passados momentos, murmurou, sorrindo ainda:

--Este Pedro já não virá a tempo de me queimar... nem eu lhe deixo filhos ou netos, cujos ossos lhe sirvam de degráos para escalar a bem-aventurança dos carnifices... Se o avô d'este menino se lembraria de que um seu neto seria frade dominicano!...

E, voltado ao padre Braz, continuou com mal fingida serenidade:

--Conjecturava eu, senhor Braz Luiz, que um homem de sua indole e saber, vestido com as insignias de uma religião qualquer, e mormente da christã, se empenharia em lavar-lhe com lagrimas as nodoas de sangue, e no amaciar-lhe as cruezas que ella trouxe das tradições pagãs. O homem de grande entendimento e muitas luzes devia ser lustre e honra de qualquer religião que elle assentasse de converter em policiamento e bem-fazer da humanidade. Não lhe perguntei ainda, meu amigo, se applaudia o proceder da christandade portugueza contra os paes de Antonio de Sá, contra Maria Cabral, contra Heitor Dias da Paz. Pergunto-lh'o agora, na occasião em que vossemecê manda um filho alistar-se nos aprendizes do santo officio, e estudar as physionomias das antigas rezes do açougue dominicano penduradas na galilé da egreja de S. Domingos. Bem póde ser que lá veja retratos de seus avós.

--Basta! que me está mortificando, senhor!--atalhou o padre.--Sou um desgraçado, á volta de quem se assanham todas as tentações! Quem vem contender em pontos de religião com um homem tão quebrado de espiritos? Oh! deixem-me como a um leproso, abandonado de Deus e dos homens...

--Abandonado de Deus! como assim?--accudiu o israelita.--Pois as tres divindades christãs, o Padre, o Filho e o Espirito Santo assim abandonam quem tanto lhes sacrifica! Onde está a compensação das suas afflicções, meu amigo? Que bem aventuranças infinitas são bastantes a galardoar uma só das suas torturadas noites? Por minha fé! Consterna ver o desamparo em que o Moloch d'estas voluntarias hostias deixa affogar-se em lagrimas e derreter-se ao fogo da desesperação um homem que tinha direito a receber consolações analogas á devoção com que se deixa esmagar na carne e no espirito!... Ah! eu cuidei que, na minha retirada de Portugal, o deixaria enlevado na beatifica visão e antegosto da eterna e perennal mão direita do Deus-Padre! E a minha consciencia sabe que eu muitas vezes pensei em me converter ao christianismo, se Braz Luiz de Abreu estivesse, a esta hora, conformado e alegre sobre o peso da sua cruz!...

--É que eu sou lodo... atalhou o padre.

--É que eu não vi ainda bem remunerada a renunciação dos direitos do homem, em hecatomba de uma equidade convencional, chamada a justiça das religiões. São todas muito artificiaes para que alguma d'ellas possa ser verdadeira. As menos sobre-humanas são as mais equitativas; e estas mesmas estão manchadas pela miseria do homem, que não comprehende a virtude aconselhada pela razão; carece de a ouvir trovejada no Sinay, legislada pelo alfange mahometano, ou introduzida no cerebro das nações selvagens com o gume da espada dos Cabraes e dos Pizarros. Pois está Deus n'estas carniçarias? O creador das florestas e dos mares, do oução e do elefante, se quizesse revelar-se mais sensivelmente ao homem, careceria de morrer n'uma cruz ignominiosa, ou permittiria que aos pobres cegos, que o não sabem ver, lhes queimassem os olhos nas lavaredas do santo officio?!

--Jesus, soccorrei-me! exclamou o padre, tapando com as mãos a fronte, em que as palavras d'aquelle homem coavam luz de infernal claridade.

Depois murmurou palavras inaudiveis que deviam ser orações efficazes contra a tentação da heresia, da philosophia, da razão indocil, do demonio, que é tudo um.

O hebreu era pertinaz, porque o estimulo, a razão nua, sem minima compostura de fé, lhe espicaçava a consciencia. O homem vinha dos focos da heresia. Comprehendêra a loucura do hebraismo e a loucura dos heresiarcas. Reformara-se na philosophia de Spinosa, e facilmente derivara do pantheismo á completa abstinencia de deuses, coisas desnecessarias para explicar a ordem do universo, e inintelligiveis para as fazer presidir á creação. A causa das causas parecia-lhe sempre effeito dos effeitos. O atheismo, se o não consolava, tambem lhe não mettia em trabalhos as molas da imaginação.

As expansivas demonstrações de sua incredulidade eram todavia inefficazes para apagarem a luz do calvario no coração do padre. O dique do terror de Deus represava as torrentes de sabedoria rebelde com que o hebreu pretendia levar de rojo o amigo, cuja victoria estaria indecisa; se o christão convicto aceitasse o cartel. Não. Braz Luiz vencia com o silencio. O argumento triumphal é o calar-se aquelle, cujo coração bafejou o Senhor.

Não obstante, as asperezas da vida, os jejuns, as penitencias, as orações mentaes e exercicios fatigantes de piedade foram diminuindo de dia para dia. No fim de tres mezes, o padre fallava ainda tres horas á milagrosa imagem de S. Francisco, e conversava seis horas com Francisco Luiz de Abreu.

Estava, pois, reduzido á piedade rasoavel. Não mortificava a carne para manter o espirito na energia que se lhe requer em meditação das coisas divinas. Tinha horas regulares de oração, de alimento, de visitar os seus enfermos, e de procurar no locutorio de S. Bernardino as quatro freiras.

Foi para Lisboa com o hebreu e com os filhos. Renovou a consulta sobre o destino d'elles. Permaneciam constantes na sua resolução. Um entrou no noviciado da ordem dominicana em Bemfica; e outro no collegio de Santo Antão.

O padre Braz foi beijar a mão de el-rei, que se compungiu da extemporanea velhice do celebre Olho de Vidro. Ouviu-lhe a historia pathetica da morte de soror Josepha e da filha, saudosa de sua mãe, e o definhar-se das quatro meninas para quem a vida claustral fôra sempre incessante martyrio e desesperação de que a misericordia divina talvez pedisse contas a elle pae. Observou-lhe D. João V que levasse para sua companhia as quatro meninas.

--São freiras, são professas, real senhor!... murmurou o padre.

El-rei mandou-o voltar no dia seguinte, e ordenou que lhe entregassem provisão regia e breve do nuncio para que as quatro freiras de S. Bernardino vivessem por tempo illimitado na companhia de seu pae.

Voltou o padre a Aveiro, e Francisco Luiz de Abreu acompanhou-o.

N'este homem andava encavalgado o Lucifer da mais desenfreada philosophia que viu aquelle seculo. O pensamento que o esporeava era generoso; mas no inferno iria um dia de festa se elle vingasse a idéa execravel. Venceram os anjos custodios, que faziam guarda ao espirito do padre e das quatro filhas, promettidas esposas de quatro serafins que as esperavam, posto que nem todas correspondessem ao convite amoroso dos serafins.

Queria Francisco Luiz de Abreu restituir a felicidade áquellas meninas, a felicidade terreal, mentira em que o hebreu ainda acreditava. Preparava o animo do filho de Antonio de Sá, inoculando-lhe a peçonha da duvida no dogma, e pelo conseguinte na moral. Discutia os chamados sacramentos da egreja. Dizia que o sacerdocio era a mais convencional e estupida das instituições humanas, com grave ultrage de Deus, chamado a sanccional-a, se Deus por acaso podesse existir e ser ultrajado por affrontas do homem, chamado irrisoriamente o rei da creação, á mingua de besta-fera que se proclame com eguaes direitos á mesma realeza. Dizia que esta bestial instituição cedia a primasia a outra, que era a da profissão da mulher; e que de estupida passava a ferocissima quando a professa era violentada a jurar a perdição das suas alegrias de mocidade, e das suas esperanças de familia nas tristezas da velhice.

Amartelladas por largo tempo estas e similhantes idéas sobremodo impias, o hebreu puzera a pontaria em tirar de Portugal o padre e as freiras, leval-os onde rasgassem os habitos, e se vissem de repente restituidos á simpleza de creaturas formadas á imagem e similhança do Creador, o qual, a ter existido, formára certamente homens e não padres, mulheres e não freiras: gente, no dizer de Moysés, apta e escorreita para formar individuos, aldeias, cidades, reinos, mundos.

Ouviu o padre as theses do seu amigo, defendidas por longo tempo com erudição digna de melhor serventia. Prodigioso poder da fé, quanto eu te admiro e venero! O padre resistiu nervosamente á seducção, e por pouco, no calor da refesta, não apresentou uma idéa que destruisse os preconceitos do judeu luciferino. Prodigioso poder da fé! exclamava tambem Francisco Luiz, quando, inventariando os argumentos do seu amigo, não topava um que merecesse redarguição grave. E perguntava elle a si mesmo como era que aquelle homem tão embotado em agudezas de dialectica pudera escrever as «Aguias que voavam sobre a lua, e o sol nascido no occidente e posto ao nascer do sol!»

Desistiu: mas já lhe foi grandissimo contentamento ver á beira de seu pae as quatro meninas, quatro exhumadas da lobrega crypta do convento, onde deixaram sem lagrimas as grammas que rastejavam na claustra sobre a campa de sua mãe.

Dizia elle, todavia, ao pae:

--Crê que as caras marmóreas d'estas meninas tornem a reflorir?

--Espero que sim.

--Nunca mais. Estão mortas. Se as quer vivas, rasgue-lhes a mortalha, Braz Luiz!--exclamou elle abraçando-as todas contra o seio.--Dê-me estas meninas, deixe-me salval-as, deixe-me fugir com ellas para o ar abençoado da liberdade! Eu prometto aviventar-lhes o coração, e depois estão salvas. Dê-m'as que eu ainda, sou bastante rico para deixal-as ricas. E, se eu fosse pobre, dar-lhe-ia a cada uma um amor para o coração resuscitado, um esteio para a alma, um companheiro para toda a vida!

O padre ergueu-se de repellão, travou das filhas, arrancando-as aos braços do hebreu, e exclamou:

--Que maldição traz comsigo este homem!... Quer perder-me as minhas filhas!... Ha infernal predestinação na sua mensagem ao seio da minha familia, homem da horrivel fatalidade!