O Olho de Vidro · Camilo Castelo Branco

Chapter 17: O inferno, como elle é possivel

Eu negaria minha fé a quem me dissesse que a prece dos infelizes sem culpa não ha Deus que a ouça e attenda. Se ha!...

N'um dia de junho de 1735, ao sexto mez de professa, soror Josepha da Cruz, depois de tres semanas de aturada hemoptyse, amanheceu com uns spasmos convulsos, chamando pelas filhas, que a rodeavam, e ella não via. Accudiram as freiras, e ordenou a prioreza que fosse chamado confessor e medico. Avisaram o padre Braz, syndico do convento. Estava elle resando as contas, e voltou o rosto da pessoa que lhe levou o aviso, para atar um pater noster interrompido no fiat voluntas tua. Tres vezes repetiu com seraphico arrobamento o fiat voluntas tua--«faça-se a tua vontade»--e de si para si entendeu que aquelle seu despego em tamanho transe, ao annunciarem-lhe que sua mulher estava em trabalhos de morte, era egual ao de muitos lances de natureza identica, e santo stoicismo, contados no Flos-Sanctorum, e Vita patrum.

Concluido o ultimo mysterio do rosario, aspergiu-se de agua benta, e foi caminho do convento, resmuneando o psalmo:... Amplius lava me ab iniquitate mea: et a peccato meo munda me. Quoniam iniquitatem meam ego agnosco... etc.

Ao avisinhar-se da cella da enferma o syndico, disse a prelada:

--Irmã Josepha, aqui está o nosso padre syndico Braz Luiz.

Soror Josepha não vellou o rosto, porque já não entendera o aviso da prioreza.

Braz Luiz deu de olhos fitos na sua companheira de quinze annos. Ressumou-lhe ao rosto um suor frio, cambaleou, e amparou-se á ombreira da porta.

Depois, tornou em si; invocou a força dos santos, compoz o semblante, acercou-se do catre da moribunda, e balbuciou:

--Soror Josepha da Cruz!

A enferma estremeceu, despregou as palpebras, circumvagou as pupilas esgazeadas, e retrahiu-as logo, como se a face do padre lhe fulminasse faiscas de raio aos olhos.

--Os aprestos para a extrema-uncção—disse o syndico.

--Venha o capellão ministrar-lh'a—ajuntou a prioreza.

--Não, nossa madre: serei eu—disse o padre Braz.

Accorreram os aprestos, emquanto Braz Luiz desceu á egreja a envergar uma cotta com estola roxa. Deu signal o sino, ajuntaram-se as freiras acolytas, uma com a cruz, outras com velas, outra com a caldeirinha, e muitas cantando alternadamente os versos do psalmo Miserere mei Deus. Entrou á cella o padre, precedido da cruz e da caldeira. A prioreza observou que as uncções deviam ser feitas com presteza, omittindo-se as ceremonias usadas quando não ha receio de que o enfermo expire antes de ungir-se. Principiou o padre a ungir-lhe os olhos; e logo notaram que os dedos lhe tremiam convulsivamente. Esteve com a mão suspensa, esperando que o tremor aquietasse. Desfitou os olhos da face da moribunda, e viu as cinco filhas ajoelhadas em carreira com os cirios empunhados, e os rostos caídos sobre os seios. Contemplou-as com olhar embaciado de lagrimas, e na bocca um sorriso triste, que poderia ser qualquer coisa do usual sorrir dos santos, e tambem poderia ser a expressão vulgar da insania. Esta equivoca expressão, porém, sumiu-se, e as lagrimas saltaram a quatro. Depois, foi um conflicto aquelle para ser visto dos que apenas conhecem alguns milhares de flagellos n'esta vida! Caiu em joelhos, pegou das mãos ambas da enferma, e exclamou:

--Leva-me comtigo, leva-me comtigo, ó santa, ó martyr!

As cinco meninas levantaram um alarido de gemidos, e romperam por entre as freiras a cobrirem com os braços a moribunda... a morta.

Braz Luiz arquejava encostado ao leito. Não ousavam pôr-lhe as freiras as suas mãos para o retrairem d'alli; mas, todas a um tempo, lhe pediam que offerecesse a Deus, em beneficio da alma de Soror Josepha, as angustias por que tão santa e heroicamente quizera passar e ser provado.

O padre levantou-se de impeto, olhou em torno de si, e disse:

--E que me dá Deus? Sim! que me dá Deus?

As freiras contemplaram-se estarrecidas e frias de religioso medo.

--Pois então!--proseguiu elle com tregeitos de louco e semblante descomposto—pois então, não houve um raio de graça para esta santa mulher! não seria divina justiça que ella achasse aqui as alegrias de uma consciencia pura, de um coração sem mancha! Por fim... é certo que eu te matei minha innocente victima?

E, dizendo, acurvou-se sobre o cadaver, beijou-lhe os olhos soffregamente e cobriu-lhe a testa de lagrimas.

Era isto já uma vertigem, que terminou pelo deliquio.

Foi chamado o capellão e alguns frades visinhos de Santo Antonio. Levaram d'alli o padre para accommodarem logo os escrupulos das freiras escandalisadas. Ia sem accordo, nos braços dos antoninos. As filhas viram-no ir sem lastima. Estavam em volta da barra de sua mãe. Aquelle homem fazia-lhes terror, senão odio. Poderia ser que elle tivesse por si a côrte celestial; mas n'este mundo não havia alma que o pranteasse. Propriamente os frades incriminavam-no de pusillanime e vacillante na reforma de vida. As freiras—santo nome de Deus!--davam como perdida a alma d'aquella que morrera sem confissão; e, porque eram santas, foram em côro exorar ao Senhor que não pesasse na sua balança sem o contrapeso da misericordia, as palavras blasphemas do padre syndico.

Braz Luiz, quando cobrou sentimento, achou-se na sua pobre alcova, com dois frades á cabeceira. Escutou-os. O que elles diziam eram coisas formidaveis sobre o inferno sem fim. Stygmatisavam-lhe a fraqueza, a impenitencia, a temeridade de se aproximar da religiosa moribunda, se não ia santamente disposto a dar um exemplo de desprendimento dos affectos que havia renunciado no acto da sua sagração a Deus.

O padre pediu perdão do escandalo, e rogou que o deixassem só para examinar sua consciencia.

Deixaram-n'o os frades e foram-se ao seu convento, d'onde tinham saído em jejum.

Braz Luiz de Abreu soffria tanto, que duvidava do poder da oração ou não sabia orar. Punha os olhos na face do Christo, e logo os descia como aterrado do pensamento sacrilego que a intercadencias lhe agonisava a alma.

Aquella religiosidade, que, horas antes, parecia robusta e sentida como a dos martyres, estava a desfazer-se miseravelmente na incerteza, no desprezo, na negação das mais santas coisas do christianismo! Alli se estava vendo o que em verdade é o homem, e quanto são morredoiras as phantasias do espirito arrancado ás leis da humanidade, quando a mão da desgraça descarrega a maça de bronze no peito que tem dentro sangue e fibras. O grande edificio d'aquelle selvagem ascetismo estava a derruir-se. O coração de quarenta e tres annos dava pulos como para espedaçar o arnez apertado com arcos de ferro debaixo do habito franciscano. A imagem de Francisco Luiz perpassava-lhe execrandissima por diante dos olhos, cravados n'um revolutear de visões extravagantes que o assediavam, á volta do cadaver d'aquella mulher assassinada sem culpa nem fé para aceitar de boamente uma tão grande quanto immerecida penitencia.

Fez-se em volta d'elle a solidão dos grandes desgraçados, que já nem sequer podem captar a benevolencia dos grandes hypocritas, nem a estima dos ferventes devotos. Os mais virtuosos frades fugiam d'elle, desde que do convento de S. Bernardino sairam peioradas em blasphemia as phrases do syndico ao pé do corpo ainda quente de sua mulher. Além d'isto, entraram em averiguações os mais escrupulosos sobre os factos antecedentes á resolução de entrar aquella mulher na religião e elle no sacerdocio. O prior dos antoninos esquadrinhou em Lisboa no secreto gabinete da nunciatura, e vingou descobrir que o rompimento fôra sequencia de um casamento incestuoso.

Calou o frade a infanda noticia, por caridade; apenas a revelou a metade dos seus conventuaes; e estes, por caridade tambem, disseram-n'a á outra metade, sentindo não ter mais a quem a revelassem.

Por isso, á volta d'elle se fez a solidão dos grandes desgraçados.

Entregaram-lhe os dois filhos, que estudavam humanidades no convento, para que elle lhes désse destino. O padre levou-os para si, e desde esse momento principiou a sentir quebrarem-se os aguilhões que o cravejavam e atiravam impenitente á sepultura.

Cogitou em mudar-se com elles para algum ermo, onde lhe ignorassem o nome e os infortunios. Mas alli, ao pé da sepultura de Josepha, estavam as cinco filhas, que elle, se podesse, tiraria do convento. Era aloucada fantasia similhante intento. Aquellas meninas estavam perdidas para elle e para Deus; porque já não podiam amar o algoz de sua mãe; e, diante do poder do Altissimo, apenas podiam tremer de medo, medo sem amor. Nem pae, nem Deus!

E d'este modo, com a alma assim vasia, sem embrião de esperança n'algum reconcavo d'ella, não ha vida.

A mais velha das meninas, Anna Maria, sobreviveu dois mezes a sua mãe, e acabou em phrenesis, não obstante os exorcismos com que valentes demonifugos de todos os conventos de Aveiro lhe medicavam a alma. Expirou com reputação de precíta aquella gentil creatura com dezoito annos incompletos, a mansissima menina que seus paes quatro annos antes denominavam, á conta da sua indole branda e sujeita, a pomba da familia, o exemplo angelico de suas irmãs.

Quando o padre Braz recebeu a nova da morte de sua filha, quizera a Providencia que ao lado d'elle estivesse um peito que lhe désse amparo.

Francisco Luiz de Abreu, n'aquelles dias, descêra dos arrabaldes de Bragança, onde fôra despedir-se do seu amigo José de Barredo, e passára por Aveiro, onde conjecturava encontrar ditoso e embevecido nas delicias do céo o sacerdote de Jesus.