O famigerado author do Portugal Medico appareceu em Lisboa, cingido pelo cordão franciscano, sobraçando o manto pardo, fronte abatida, faces sulcadas, e desfeitas, a luz dos olhos amortiçada, e um amarellido de rosto accusando tanta afflicção interior, que não havia olhos enchutos que o vissem.
Por casas de bispos e mais jerarchias da egreja andava o irmão professo da ordem terceira, solicitando a sua ordenação de missa, e a concessão de recursos que o ajudassem a converter em convento o conservatorio de S. Bernardino, onde tinham sido recolhidas D. Josepha e suas filhas.
D. João V, informado da resolução mysteriosa do celebre Olho de Vidro, cujas facecias o tinham muito alegrado, quando sua magestade, em hora de pachorra, consentia que o seu medico lh'as lesse, desejou ouvir da bocca do famoso Braz Luiz uma historia escassamente conhecida dos altos dignitarios da egreja.
Braz Luiz foi levado ao paço pelo doutor José Rodrigues de Abreu, medico de el-rei. O filho de Pedro II revelou o desejo que tinha de saber que fundo reviramento se operára no espirito de um pae de sete filhos, para, no vigor dos annos, se privar das caricias da familia, e defraudar a esposa de marido e os filhos de pae.
O medico referiu a sua historia, a sós com o curioso monarcha, depondo na consciencia e religiosidade de el-rei os pontos melindrosos e secretos da sua vida. Sensibilisou-se o soberano, e em paga da confidencia lhe fez mercê das rendas do real d'agua para que as elle applicasse á fundação do convento de D. Josepha. Ordenou mais el-rei, de harmonia com o nuncio, que se não delongassem a Braz Luiz de Abreu as ordens solicitadas, de modo que entre umas e outras não interferisse mais tempo que o necessario, em conformidade com o maximo gráo da dispensação em taes casos usada. Por maneira que Braz Luiz, ao cabo de seis mezes, estava clerigo de missa. O concilio tridentino permittia e explicava santissimamente todas estas coisas, que hoje se nos affiguram monstruosas irregularidades. N'este anno da graça de 1866, póde qualquer novelleiro citar o concilio tridentino, por que é presumivel senão certo, que por amor do casamento civil toda a gente de alguma curiosidade reveza a leitura das decretaes com a dos concilios.
Pois o logar do concilio tridentino que permittia desatarem-se esposos, e vestirem habitos, e professarem, e deixarem os filhos sem paes, é a Sess. 24 de Matrimonio, Can. 9.
Ao mesmo tempo, o padre Braz Luiz de Abreu foi nomeado syndico do convento permittido, e, por um breve, tambem nomeado medico d'elle.
Tornou-se o padre de Lisboa para Aveiro, e entendeu logo nas obras do convento novo. Podia, se quizesse, dizer logo missa nova, mas reservou-a para o dia em que sua mulher e filhas professassem.
A edificação do convento fez-se n'um anno. Sobravam os recursos, além do subsidio real. Os cavalheiros da terra concorriam com grandiosos donativos, e muitas esmolas de procedencia desconhecida iam dar ás mãos do syndico. O hebreu Francisco Luiz observou que o seu dinheiro maldito não queimava as mãos ungidas do sacerdote.
Algumas vezes o padre Braz Luiz de Abreu entrou ao locutorio ou grade para se entender com a mãe de seus filhos sobre coisas attinentes á profissão. Dizem as memorias que nunca jámais lhe elle vira o rosto, porque D. Josepha o velava com um espesso véo negro.[31]
Aos vinte e quatro de dezembro de 1734, passados trinta e tres mezes de noviciado, de cruelissimas dores, de inenarraveis desmaios, as cinco filhas de D. Josepha, trajadas para a festa do martyrio como sua mãe, ajoelharam ao lado d'ella, e abdicaram nas mãos da prioresa tudo que podesse parecer ao mundo coisa melhor do que o escuro abysmo em que de repente se viram despenhadas.
Aquelle acto era uma crucificação atrocissima para a filha de Antonio de Sá, porque ella tinha perdido a fé. Nunca se lhe haviam entranhado muito as crenças na religião do Calvario, porque da indifferença religiosa, em que lhe correra a infancia, passara a ser educada em convento francez, onde a piedade sincera de alguma peccadora contricta era mettida a riso por alegres peccadoras, de quem poderia ser que os proprios anjos andassem namorados.
Sua mãe tinha vivido uniforme com a religiosidade do marido; e, por fins de vida, rejeitara e apagara da alma os vislumbres da piedade, porque, dizia ella: «Ha certas lagrimas, que apagam toda a luz da religião, seja ella qual fôr.»
A religião de Braz Luiz pareceu-lhe a ella muitas vezes ostentosa, pouco menos de hypocrita, e sustentada á custa da razão. Todavia, como discreta e amantissima d'elle, não lh'a impugnava, nem se esquivava a seguil-o nas publicas demonstrações de sua piedade.
Quando ella, desde os reconcavos d'alma, caíu aos pés de Christo, foi na hora tremenda em que se ouviu nomear filha do pae e mãe de seu marido. Orou então, para não morrer, ou póde ser que orasse para ser arrebatada á sua angustia pela mão de Deus, ou fulminada por poder satanico. N'aquellas orações ninguem sabe o que a alma pensa.
Encerrada n'um convento, com cinco formosas meninas, que se encostavam ás rexas de ferro a olhar cheias de saudades por esse céo fóra, e seguiam as avesinhas de arvore para arvore, de monte para monte, a infeliz mãe adivinhava os colloquios das pobrinhas com o céo impassivel, e fugia-se d'ellas, para que a não vissem chorar. Voltava a vêl-as, e trazia ainda vidrados na face os prantos. Ellas aqueciam-os com beijos, e, em vez do fervor piedoso e consolativo de sua mãe, ouviam-lhe supplicas com que ella lhes pedia perdão de as ter gerado. As meninas perguntavam-lhe porque estavam assim captivas e desterradas da vida tão sem vontade, e a mãe não podia responder-lhes: «É porque sois filhas de meu irmão, e minhas filhas.»
Que importava?
Tinham ajoelhado, tinham renunciado, tinham professado, tinham assistido á missa nova de seu pae, d'aquelle homem de faces lividas, que as não apparentava mais translucidas de uma alegre consciencia do que as teria um sacrilego, que houvesse cuspido no ciborio e calcado aos pés a hostia. E depois, viram-no assomar no pulpito, e prégar com elegancias de primoroso lapidario de palavras o sermão da profissão, o sermão d'aquelle enterro de seis vidas, de seis corações apunhalados, mortos, com authoridade do concilio tridentino, e com muitos applausos dos prelados, do rei e dos edificados espectadores da tragedia.
Estavam professas. A de trinta e nove annos, que representava vinte cinco formosas primaveras, ao entrar n'aquelle antro de S. Bernardino, a filha de D. Maria Cabral estava desfigurada como na ultima velhice. Anna Maria, de dezeseis, e Sebastiana Ignacia, a mais nova, de onze—onze annos e professa com um breve de Sua Santidade!--todas cinco, seguindo sua mãe da egreja ao claustro, olhavam contra o chão como a procurarem a cova que se lhes abrira.
E depois, se choravam, saía-lhes a prioresa e dizia-lhes:
--Filhas, lagrimas de penitencia, de penitencia...
E se, do interior do convento, ia ao padre Braz a noticia de que suas filhas estavam deperecendo e morrendo, o santo, calejado para uns dardos que varam e matam todo homem menos santo, respondia:
--É o Senhor que as chama... Deixal-as, deixal-as ir para o côro das virgens.
E, rodeado de muitos e piedosos livros, escrevia a Lusiada sacra, a origem ecclesiastica do imperio lusitano, e levava mão do trabalho para assistir aos seus doentes, que curava ou enviava a melhores mundos gratuitamente.
Os moços Agostinho e Pedro lá estavam estudando latinidade no convento de Santo Antonio. Ao principio perguntavam por sua mãe, por seu pae e por suas irmãs. Um doutissimo frade, lente jubilado, respondia-lhes:
--O melhor pae é Deus, a melhor mãe é Nossa Senhora, as melhores irmãs são as tres pessoas da Santissima Trindade.
Sã theologia; mas os mocinhos queriam saber de sua mãe, de seu pae e de suas irmãs.
Deram em não estudar, de tristes que viviam. Foram accusados ao padre Braz, que entrou a admoestal-os no convento. Os meninos abraçaram-se n'elle, e pareciam contentes.
--E nossa mãe? perguntava Agostinho.
--E nossas irmãsinhas? perguntava Pedro.
E Braz Luiz baixava os olhos sobre o seio, permanecia n'um recolhimento angustiado, e saía com estas palavras:
--É verdade!... e vossa mãe!... e as vossas irmãsinhas?
Mas, apenas as orelhas da sua alma escutavam estas lastimas do coração, o padre ajoelhava na postura de mentecapto, batia punhadas no peito, e clamava:
--Pequei! pequei! perdão, meu Redemptor!