O Olho de Vidro · Camilo Castelo Branco

Chapter 14: O segredo horrivel

Ao outro dia, Francisco Luiz foi convidado a jantar com o seu medico. A condolencia a que o movera a infelicidade do hebreu Sá Mourão atou mais n'alma os liames de sympathia com que o Olho de Vidro o entranhára na intimidade dos seus.

O israelita de Ourem ia triste. Dir-se-ia que nunca elle, até á vespera d'aquelle dia, devéras se convencêra da morte do seu Antonio de Sá. Tantos annos idos, e elle ainda a querer-lhe e como que a esperal-o! Já o seu contemporaneo Barreto lhe havia dito na summa o que Braz de Abreu lhe dissera, e todavia o convencimento da morte do marido de D. Maria não o tinha ainda penetrado, ao que parecia.

Durante o jantar, como nenhum estranho assistisse, a fóra o hespanhol—que nunca se esquecera de o ser na linguagem—praticaram largamente ácerca dos actos do santo officio na Peninsula. O hespanhol relatou a sorte dos judeus em diversas partes do mundo, para concluir que em Portugal e Castella eram elles mais perseguidos do que poderia sel-o no inferno se, como piamente cria, Deus os tinha castigado com fogo infinito.

Braz de Abreu, posto que familiar do santo officio, recebeu de boa sombra aquella um tanto ironica reflexão do commensal, attribuindo a genio espanholado a comparação faceta.

Voltando á conversação da noite anterior, reflexionou Francisco Luiz que, tendo estudado algum tanto os factos da inquisição de Portugal, notára que a santa bandeira de S. Domingos de Gusmão era pouquissimo misericordiosa com os hebreus medicos ou estudantes de medicina. E ajuntou:

--É sabido segundo me fizeram crer alguns foragidos de Portugal, que os estudantes de medicina apenas licenciados, ou se acreditavam como familiares do santo officio, ou se expatriavam antes que a inquisição os desterrasse d'este mundo. Dou como exemplo Henrique de Castro Sarmento...

--Foi meu condiscipulo—atalhou Braz de Abreu.

--Pois então sabe vossemecê que elle está em Londres, com o nome de Jacob de Castro Sarmento, em tanto credito e dignidade que, pouco ha, foi elevado á cathegoria de membro do collegio real dos medicos, e socio da sociedade real de Londres? Este grande sabio, e co-reformador da sciencia, que seria hoje em Portugal, se não se evadisse d'aqui uns quatro annos depois de licenciado? Seria porção d'essa vasa do Tejo por onde se misturam as cinzas de muitissimos da sua raça e do seu alto entendimento. Outro medico houve ahi em Coimbra, segundo me disseram, que chegou a pertencer ao corpo cathedratico, e teve de fugir com sua mulher para a India hollandeza.

--Quem era? perguntou o doutor.

--Se bem me lembro, tinha elle um nome assaz parecido com o de vossemecê. Chamava-se Francisco Luiz de Abreu.

--É verdade!--acudiu D. Josepha—que nome tão similhante!...

--E não sei—disse meditativo Braz Luiz—como esse nome me desperta coisas da minha primeira mocidade!

--Póde ser—tornou o hospede—que, no tempo em que vossemecê estudou, se fallasse ainda no lente fugitivo.

--Creio que sim: ha de ser d'esse tempo que me vem estas vagas memorias—redarguiu o Olho de Vidro.--Creio até que elle teria sido contemporaneo de meu sogro.

--Provavelmente seria—obtemperou Francisco Luiz.

--E a mim me está parecendo—acrescentou D. Josepha—que alguma vez ouvi meu pae proferir esse nome.

--Ouviu?--perguntou o hospede com o coração sobresaltado.

--Ouvi, sem duvida... Francisco Luiz de Abreu... Pois não ouvi? quantas e quantas vezes?... Que fim teria esse homem?

--Provavelmente morreu, senhora—respondeu o hebreu; e proseguiu sem sensivel mudança de rosto:--Pois ahi tem, senhor doutor Braz, outro exemplo de perseguição á medicina. Ainda bem que vossemecê não teve de provar que o seu apellido nada tinha que ver com o do medico fugitivo.

--Nada—balbuciou Braz Luiz, receando que, depós isto, disparasse a affrontosa pergunta de quem era filho.

Francisco Luiz, n'este lance, lembrou-se da resposta que o Olho de Vidro lhe mandára bastantes annos antes, e sorriu-se interiormente do dito d'aquelle hebreu, que ao mesmo lhe escrevia presumindo que Braz Luiz de Abreu era filho sacrilego de um frade, senão fosse filho de tres frades ao mesmo tempo.

A pratica ficou por aqui, visto que a physionomia do dono da casa expressava nenhuma satisfação de que ella se proseguisse.

Todavia, D. Josepha, quando já estavam sentados á lareira, porque a tarde era de março, disse:

--Não me sae da lembrança o nome de Francisco Luiz de Abreu!... A gente, quando entra a envelhecer, recorda-se de coisas da infancia, esquecidas no correr de muitos annos...

--A envelhecer!--disse risonho o hospede—vossemecê, minha senhora, está ainda muito no vigor da vida. Terá quando muito...

--Trinta e sete annos—concluiu D. Josepha.

--Pois ahi tem: ainda não chegou a meio caminho. E quem ha de dizer que já aqui tem esta senhorita, que representa dezoito, e apenas terá...

--Treze—disse a mãe, correndo a mão pelos cabellos negros da sua primogenita Anna Maria.

--E estes mocinhos, doutor? que destino tenciona dar-lhes?--perguntou o hospede.

--Se o meu plano fôr ávante, irá um para a companhia de Jesus, e outro para medicina.

--Cuidado com a medicina!--observou jovialmente Francisco Luiz—Faço-os ambos jesuitas, que os fará ambos dois grandes homens.

--Pois D. José receia—dizia Braz Luiz algum tanto acrimonioso—que um meu filho, se fôr medico, possa parecer judeu?

--Deus me livre de receiar similhante coisa! mas a mim quer-me parecer que a inquisição, quando não ha judeus, encarrega-se de os fazer, talvez por ter lido as santas palavras de Jesus que resam: é necessario que haja escandalos.

--Como amigo—acudiu Braz Luiz—lhe peço que não falle assim diante de alguem. Lembre-se que está em Portugal, D. José!...

--Bem sei, meu amigo; e, se outra vez me esquecer, rogo-lhe que m'o lembre. Agora me estava eu imaginando entre pessoas que muito me estimam, por isso me deixei levar d'uma invencivel propensão a estigmatisar as injustiças, ou ellas partam dos reis, ou dos ministros, dos papas ou dos inquisidores. D'isto, d'esta perigosa exempção e rudeza de espirito, procede não ter eu paragem certa sobre este solo cavado de abysmos, e andar-me sempre perigrinando de solidão em solidão, para ser ouvido da minha consciencia sómente...

--Em nossa casa póde fallar—retarquiu o doutor—como falla a sós com a sua consciencia, D. José Aristizaval. A observação peço-lhe que m'a receba de bom animo, porque entende com o seu socego e deve servir-lhe n'um paiz que vossemecê conhece pouco.

--Mercês, meu amigo!--tornou Francisco Luiz de Abreu.--O que eu sei de Portugal é verdadeiramente a historia da sua inquisição, e pouco mais... Ha pouco lembrou-me o nome de um condemnado ao fogo... tambem medico ou estudante de medicina... mas... passou-me... Deixe estar... Deixe ver... Ah! recordo-me... Chamava-se elle Heitor Dias da Paz... Vossemecê havia de ouvir fallar de Heitor Dias da Paz, que, segundo me affirmaram, andaria por Coimbra desde 1701 até 1704, uma coisa assim, pouco mais ou menos.

Braz Luiz fitara os olhos n'um ponto da fogueira, como quem finge que se está recordando, e disse, corridos dois segundos, com profunda tristeza:

--Conheci-o.

--Pessoalmente?

--Pessoalmente.

N'este comenos, Braz Luiz, fitando o ouvido, como se ouvisse voz no interior da casa a chamal-o, ergueu-se.

--Ninguem te chamou, Braz—disse D. Josepha.

--Parece-me que sim... ouvi que me chamavam.

--Não serão familiares do santo officio, que me requeiram para maior gloria de Deus!...--observou o hebreu como comico tregeito de quem se esconde.

--Venha comigo á sala, D. José, se não tem muito frio—disse o Olho de Vidro.

--Quem fallou na inquisição que sentisse frio? Estas praticas são excellentes no inverno...--respondeu Francisco Luiz, cuidando que o seu hospedeiro amigo lhe ia solemnisar com toda a gravidade possivel os sustos de o ver a braços com o santo officio.

Braz Luiz, entrado á sala, deu alguns passeios meditativo, examinou as portas receiando a curiosidade da familia, e disse a meia voz ao muito attento e como espantado hospede:

--Conheci-o, e conheci-o muito.

--A quem?! perguntou como já esquecido Francisco Luiz.

--A Heitor Dias da Paz.

--Ah... já me não lembrava que estavamos fallando n'esse infeliz mancebo, cujos parentes conheci em Amsterdão... Devo dizer-lhe, meu amigo, que Heitor e o pae de Heitor, que se chamava...

--Francisco de Moraes Taveira...

--Justamente... são considerados santos no martyrologio ou cathalogo dos martyres hebreus. Isto presenciei eu e li nas dypticas da synagoga hollandeza chamada a Casa de Jacob... Com que então conheceu vossemecê mui de perto...

--Conheci, como se conhece um irmão—acudiu Braz Luiz.--Não lh'o disse diante de meus filhos, porque é meu dever de pae e de christão esconder d'elles coisas tristes da minha mocidade, por isso que o mundo, se m'as soubesse, faria d'ellas espinhos, que me entrassem pela fronte dentro e me levassem a morte ao coração. Vou contar-lhe com egual sinceridade á da historia de meu sogro, o que eu sei de Heitor Dias da Paz e... de mim. As mais antigas reminiscencias da minha infancia prendem-se a Heitor Dias da Paz.

Ditas estas palavras, Francisco Luiz de Abreu ouviu o bate de uma forte pancada no coração. Braz devia ver-lhe a subita alteração do aspecto, se tivesse mais claridade a sala, e elles não estivessem sentados no recanto mais escuro d'ella.

Braz Luiz continuou:

--Lembro-me de algumas coisas dos meus seis annos. Vejo uma mulher que me aperta ao coração, e desapparece para nunca mais ser vista. Nem já sei que feições ella tinha, nem sei onde a vi. É a recordação de um sonho isto, e pouco mais. Perguntei depois quem era aquella mulher, e responderam-me que fôra uma visão; e, se não era visão, mais tarde eu o saberia. Ora, as pessoas que podiam dizer-m'o, porque assim m'o tinham promettido, morreram. Uma era Francisco de Moraes, e outra era o filho, o suppliciado Heitor.

Francisco Luiz arfava ancioso: ia-lhe no intimo coisa mais attribuladora que o susto da morte. Braz deu conta do que havia indissimulavel em tamanha anciedade; mas attribuiu tal inquietação ao natural condoimento do seu ouvinte.

E, proseguindo, disse:

--Heitor Dias chamava-me irmão; e Francisco de Moraes abençoava-me como a filho.

--Vossemecê vivia em casa d'elles?

--Vivia, desde os seis annos, como já lhe contei. Passados alguns, Heitor foi para Coimbra, e levou-me comsigo. Prestacionou-me para eu entrar no collegio de S. Paulo. No principio do anno de 1704. Heitor Dias foi preso, e sómente depois de 1707 alguns mezes, soube que a inquisição o condemnára a ser queimado vivo, e que o ancião—o desgraçado que não tinha outro filho, e chorava a mulher na sepultura ainda fresca—saindo ao encontro da procissão do auto da fé, se suicidara em presença de Heitor.

Francisco Luiz de Abreu levantou-se hirto, de golpe, tremente e pallido.

Este movimento como que levantou o marido de D. Josepha pelos cabellos, sem que elle comprehendesse a força mysteriosa que o repuchava.

--Que tem, D. José?--perguntou o medico.

--Eu não comprehendo o horror da sua situação!--murmurou Francisco de Abreu em legitima lingua portugueza, tapando os olhos com as mãos convulsivas.

--Não comprehende o que?!--interpellou Braz estranhando grandemente a mutação de linguagem.

--Como se chamava seu pae?--perguntou com palavras intercortadas pela abafação o hospede.

--Não sei...--tartamudeou o interrogado.

--Porque se chama Braz Luiz de Abreu? Como ajuntou este sobrenome e appellido ao seu nome baptismal?

--Porque assim o achei escripto n'um abcedario da minha infancia.

--Que desgraça!--exclamou Francisco Luiz, e começou passeando vertiginosamente na sala!--Que desgraça, Deus do céo!...

Braz encarava-o com terrivel spasmo procurando nos olhos do seu hospede algum symptoma de demencia.

N'isto, Francisco Luiz vae direito ao medico, como que o força a fazer pé atraz de espavorido, e diz-lhe:

--Vossemecê ama muito sua mulher?

--Se amo muito minha mulher? Como a Deus, mais do que a Deus! mais do que aos meus filhos!...

Fitou-o com os olhos cheios de lagrimas o hospede, e disse-lhe:

--Não me falle por alguns minutos... não me falle... deixe-me pensar... mas o melhor é que eu me vá, e voltarei n'outro dia.

--Não... ha de explicar-me o que é isto... A sua linguagem é outra... Ha terrivel segredo aqui, ou o meu amigo enlouqueceu... Tire-me d'esta incerteza, por quem é...

Deteve-se silencioso largo espaço o hebreu. Estava aquelle afflictissimo homem perguntando á sua consciencia, se não seria mais grato a Deus e á humanidade que um peregrino vindo d'além mar não entrasse um dia aos paços de Manuel de Sousa Coutinho a dizer a D. Magdalena de Vilhena que não podia ser mulher do homem que lhe chamava esposa! Se não seria mais humano e santo que aquelle peregrino passasse por diante da casa dos felizes, e dissesse: «Deixae-os viver e morrer ditosos na vossa ignorancia! Não serei eu quem vá vestir-vos a mortalha, e dizer-vos: sepultae-vos!»

Assim pensava Francisco Luiz, e curava já de remediar o alvoroço em que pozera o seu amigo, quando este o abraçou com impeto, e lhe disse em tom violento:

--Quem é meu pae? Quem sois vós, homem! Respondei, que eu sinto o peito alanceado de mortaes agonias!

--Falle baixo, senhor Braz Luiz de Abreu—disse moderada e placidamente o hospede—Falle baixo, que está alli dentro a mãe com sete filhos.

E desapertou-se dos braços d'elle para fugir.

--Não!--exclamou o medico—não irá de minha casa, sem me dizer o que sabe do meu nascimento. Que importa que me diga que sou filho de um hebreu? que meu pae morreu queimado? que Heitor Dias era meu irmão? que o meu appellido é o de algum facinora? Diga, diga tudo, que a mim basta-me a consciencia da minha vida honrada para me acobertar dos insultos do mundo! Farto d'elles estou eu, por que me chamam engeitado! Diga-me seja o que fôr, que eu lh'o peço com as mãos erguidas! Por Deus não minta, senhor! Conheceu meu pae? conheceu minha mãe?

--Conheci.

--Jura-m'o pelos Santos Evangelhos?

--Eu não reconheço a santidade dos Evangelhos. Juro-lh'o pela honra d'este homem, d'este hebreu queimado em estatua, d'este homem sem terra nem familia, chamado Francisco Luiz de Abreu. Jura-lh'o o homem que recebeu nos braços ha quarenta annos uma creancinha, que depois se chamou Braz Luiz de Abreu. Jura-lh'o o homem que depositou essa creancinha, quando os esbirros da inquisição o perseguiam, nos braços de Francisco de Moraes Taveira, de Villa Flor. Jura-lh'o o maior amigo de seu pae! Jura-lh'o o homem que enchugou no seu rosto as ultimas lagrimas de sua mãe...

--Mas o nome de meu pae—atalhou Braz de joelhos, com as mãos erguidas e trementes.--O nome de meu pae, senhor Francisco Luiz de Abreu.

--Dir-lh'o-hei ao ouvido—disse o hebreu, inclinando-se á orelha do medico.

Braz expediu um brado estridente, ergueu-se de salto, e clamou:

--E o nome de minha mãe?

--Pergunte a sua irmã, á mãe dos seus sete filhos, como se chamava a mãe d'ella.

--Como é, meu Deus?! como é?! por caridade, salve-me d'esta duvida atroz... Minha irmã!... quem é minha irmã, senhor?

--É a filha de sua mãe.

Abriram-se os batentes de uma das portas da sala. A mulher que entrou, fechando a porta para que os sete filhos a não seguissem, impetuosa, como cega de furia, ou impulsada de um grande terror, terror como de incendio que ameaçava devorar-lhe as creanças, ia lançar-se nos braços do marido; e, como lhe faltasse o amparo d'elles, caiu de rosto no pavimento, e soltou do peito uma soada rouca, similhante ao estallido de todas as fibras da vida.

O quadro era de mais pavor do que póde exprimir lingua humana.

Francisco Luiz poz a mão na fronte glacial e disse entre si:

--Maldito eu seja, que trouxe a desgraça e a vergonha a esta familia!

Braz Luiz inclinou-se a levantar a mãe de seus filhos nos braços que a não podiam suster. Chamou as filhas mais velhas, e mandou-lhes que levassem sua mãe ao leito. Acercou-se de Francisco de Abreu que estava chorando com a face encostada ao alisar de uma porta, e disse-lhe brandamente:

--Senhor Abreu, não se arrependa; foi Deus que o enviou. Não chore, que as minhas lagrimas ámanhã estão enchutas: ha de seccar-m'as o fogo sagrado da minha religião. Tenho Jesus Christo na minha alma. Agora comprehendo que milagres se operam nas maiores angustias do homem. Os meus filhinhos serão sempre os bens que Deus nosso Senhor me confiou. Minha irmã está debaixo da mesma divina mão. Ha de resignar-se, ha de santifical-a a saudade, incenso de lagrimas que o Senhor lhe ha de aceitar e retribuir em consolações...

Susteve-se n'esta exclamação arrobada e ungida de santa resignação. Momentos passaram silenciosos... Depois, levando freneticas as mãos á cabeça, exclamou:

--Mas eu hei de separar-me para sempre de minha esposa... do anjo bemdito de toda a minha vida!...

E atirou-se ao peito soluçante do homem que, quarenta annos antes, o aquecera ao calor de suas faces, creança de vinte e cinco dias.