Recebeu Braz Luiz de Abreu aviso para ir ver um hespanhol que pousara enfermo na estalagem.
Francisco Luiz queixou-se de varias molestias, ouviu o parecer do medico, pagou-lhe generosamente e pediu-lhe que o visitasse todos os dias.
Dos remedios receitados não se aproveitou, porque os achaques eram phantasticos, e bem sabia o doutor Abreu como era facil enganar outro doutor Abreu.
No dia seguinte, o Olho de Vidro encontrou melhorado o seu doente, e sentiu-se ufano do acerto com que cortára pela raiz uma doença, com a qual se tinham enganado os principaes medicos de Hespanha, segundo a confissão do doente.
Já o doutor Braz queria espacejar as visitas: o hespanhol, porém, instava, pagando-as a brio, que não lhe faltasse diariamente com ellas.
Estava sendo celebrado em Aveiro este triumpho recente do Olho de Vidro.
Já o convalescente se julgava restaurado, e o doutor como tal o déra; o forasteiro, porém, affeiçoado á terra onde se recobrara, determinou passar n'ella a primavera de 1732, e voltar nutrido a Castella, de modo que os medicos madrilenses se comessem de inveja dos seus collegas portuguezes.
O doutor Braz, como visse no seu enfermo D. José Aristizaval (assim era conhecido em Aveiro) excellentes qualidades, contando n'estas a bizarria indicativa de riqueza, convidou-o a servir-se de sua casa e da convivencia de sua esposa e filhos, os quaes, dizia Braz Luiz, são tantos que bastam a formar uma assembléa em Aveiro ou saráo d'aldeia, que monta o mesmo.
Agradeceu e aceitou o convidado o offerecimento; e, logo á primeira visita, brindou a esposa do seu medico e as cinco meninas, formosuras muito de se verem, cada uma com sua joia de preço. Reparou logo e de relance em D. Josepha, e recordou uma por uma as feições de D. Maria Cabral.
Ficaram as meninas contentissimas dos presentes, que eram braceletes de oiro, mandadas comprar ao Porto, com a designio já posto no destino que tiveram. Entretido n'estas coisas, mistura de puerilidade e bons sentimentos, o espirito de Francisco Luiz ía cobrando alento e certa energia. Grande parte n'esta sua insolita actividade era por certo a esperança de saber pelo miudo a vida tragica do seu amigo Antonio de Sá.
Seguiram-se as visitas e foi-se apertando a intimidade. As meninas e os rapazes folgavam muito de ouvir o velho D. José contar historias curiosas das suas navegações. Um dia, veio ao ponto uma batalha de corsarios com uma náo hollandeza, em que elle viajava na costa de S. Domingos.
--De S. Domingos!?--exclamou D. Josepha.--Já esteve n'esses sitios vossemecê?
--Avistei-os—disse o hospede.
E inventou uma rija peleja entre hollandezes e piratas, descripção temerosa que tinha os ouvintes espavorecidos.
Terminou o saráo d'aquella noite; e, na seguinte, Braz Luiz de Abreu, cada vez mais entrado de affecto ao hespanhol, lhe disse:
--D. José Aristizaval, hoje sou eu o narrador de desventuras de navegantes. A historia que eu vou referir só a sabe em Portugal minha mulher e eu: de hoje ávante ficam-na sabendo o meu honrado hospede, que a não ha de repetir a portuguezes, e os meus filhos, que por interesse seu, hão de calal-a.
--Honrado sou eu por benevolencia do doutor—se vossemecê me considera egual com seus filhos no merecimento de entrar no segredo de seus paes, respondeu Francisco Luiz.
--É segredo de tanto porte—accrescentou o medico, abaixando a voz—que não sei d'outro em minha vida com que possa mostrar-lhe a confiança que me merece, senhor D. José.
E, passados alguns segundos, Braz Luiz de Abreu, silenciosos profundamente os ouvintes, principiou assim:
--Minha sogra era filha de um dos primeiros fidalgos de Traz-os-Montes. O solar dos Cabraes de Carrazedo é um dos mais antigos de Portugal. Meu sogro era hebreu, e chamava-se Antonio de Sá Mourão, natural da Guarda.
Fugiram de Portugal com admiravel fortuna, e casaram-se segundo o ritual hebraico, presumo eu. Meu sogro, ao tempo da fuga, estudava medicina, e tomou gráo em uma das universidades estrangeiras. Esteve alguns annos na Europa; e, como o dominava a paixão de ser rico, aceitou partido muito vantajoso que os francezes lhe offereciam no Canadá, e embarcou em Marselha, quando minha mulher era creancinha.
Na altura da costa de S. Domingos, a náo em que elle se embarcára perdeu o rumo, e foi levada contra a costa, por não ter tempo de fazer-se ao mar quando a tormenta se levantou. Antes que o navio se despedaçasse, alguns passageiros aventuraram-se n'uma lancha a ganharem a praia por entre as fauces da morte. Com os aventureiros ia meu sogro, e a esposa com a filhinha nos braços, dispostos a descerem ao abysmo abraçados.
Já perto de terra, onde levavam postos os olhos, avistaram dois navios de pequeno lote, e chusmas de tripulantes vestidos de trajos extravagantes. Um conhecedor d'aquelles mares reparou nos homens da patria, que se moviam vertiginosamente, e exclamou:
--São os demonios do mar! São flibusteiros![30] Vejam lá o que querem: morrer no mar ou no captiveiro d'aquellas bestas-feras?
Ninguem optou por morrer no mar. Os passageiros da lancha, bebendo a morte a cada instante, conclamaram que antes queriam o captiveiro do que a morte horrivel de afogados.
Antes de chegarmos a terra, ouviu-se uma grande celeuma do mar a dentro. Olhámos todos para a náo, e vimol-a sossobrar, e uma montanha de vagas abater-se sobre ella. Soltámos um grito unisono de consternação! Alguns dos aventureiros gritavam por esposas, por paes e filhos!... Que situação, senhor D. José! D'um lado, aquelle naufragio horroroso, do outro os flibusteiros, que esperavam anciosos a prêsa, que se lhe ia entregar aos ferros. Assim que a lancha bateu em terra, os bandidos rodearam a prêsa, e mal ouviram não sei que palavras ditas por meu sogro a sua mulher, bradaram todos: «Cá temos um cão de hespanhol!» E a um tempo se lançaram todos a elle, como se entre si disputassem com especial odio a posse d'aquella victima distincta das outras. Como se explicava o particular rancor que os flibusteiros tinham aos hespanhoes?
--Se eu não receasse interromper a sua interessante historia—disse Francisco Luiz—lhe daria a razão d'esse odio, se é que sua esposa não quer explicar-lh'o melhor do que eu sei, por m'o haverem contado e não por experiencia.
--Minha mulher, disse Abreu, ignora-o, porque muitos annos viveu longe do trato de tal gente, e não sabe explicar-m'o.
--Em poucas palavras o farei—tornou o hospede.--Os pontos essenciaes da ilha e costa de S. Domingos pertenceram aos hespanhoes. Um dia, chegaram á costa septentrional d'aquellas possessões algumas galeotas de aventureiros francezes, mesclados com malfeitores foragidos de todas as nações, homens sem patria, escapados do cadafalso, feras tremendas, que precisavam embriagar-se de sangue para gosarem algum prazer n'este mundo. A estas escorias sociaes congregaram-se outras da mesma indole saidas de Guadelupe, de Granada e da Martinica. N'aquellas vastas florestas acharam que farte sustento, na abundancia de manadas de toiros bravos, de javalis, e vaccas mansas, que os hespanhoes por lá deixaram medrar e multiplicar. A riqueza de cada um de estes bandidos compunha-se de uma boa matilha de rafeiros, d'uma enorme espingarda, duas camisas, uma jaleca, um chapéo de feltro, um calção, e uma grossa correia á cinta com uma espada curta e tres facas de matto pendentes. As casas d'elles, durante as sortidas á rapina, eram barracas de fina lona, com a qual se defendiam das ferroadas dos moscardos e das geadas homicidas. Viviam aos dois, antes que a França lhes mandasse mulheres, e, por morte de um, era herdeiro o outro. Raras vezes se desavinham, e quando se desafiavam matavam-se a tiro de espingarda. Se o morto não recebesse os pelouros pela frente, o assassino era logo degolado como traiçoeiro.
O principal commercio d'elles era carnes seccas e pelles, que iam vender ás enseadas da costa, mediante uns assalariados, que tratavam entre elles e os compradores, na esperança de voltarem ricos da America, onde se lhes ia a vida em durissimo captiveiro.
Quando os hespanhoes da ilha de S. Domingos deram tento dos salteadores nas visinhanças das ilhas, tiraram-se da lethargia de suas riquezas, pediram tropas ao rei de Hespanha e fizeram guerra implacavel aos flibusteiros, matando-lhes muitos dos mais audazes. D'este começo de exterminio se gerou o odio dos bandidos á Hespanha, e mais ainda por causa do golpe mortal que soffreram, quando as tropas entraram ás mattas, e mataram os rebanhos mansos e bravos, que o mesmo foi seccar as fontes de subsistencia d'aquellas hordas. Eis aqui, a meu ver, a origem do inquebrantavel rancor dos chamados demonios do mar. Agora, vamos á historia do senhor Antonio de Sá, meu sogro.
--Meu sogro, minha mulher e filho—continuou Braz de Abreu—foram remettidos á Martinica n'uma galé, que vogava com mais de cem homens. O capitão dos flibusteiros residia alli, como governador, e chamava-se Duparquet...
--Devia ser filho—atalhou Francisco Luiz—de um francez tambem chamado Duparquet, levado ás honras de governador em 1637 por Luiz XIII de França, a quem convinha aliançar-se com tão honrados vassallos.
--Duparquet, sabendo que o hespanhol captivo era medico, tratou-o com alguma affabilidade, e encarregou-o de lhe curar de cameras uma filha. Meu sogro saiu felizmente do encargo, e foi considerado por isso medico da casa do governador. N'aquelle anno, que me parece seria o de 1697 ou 98, segundo as confusas lembranças de minha sogra, meu sogro foi mandado embarcar n'uma náo de quatro peças, da qual se arvorára almirante um francez chamado Legrand, o mais temivel flibusteiro d'aquelles mares. Antonio de Sá curou muitos mutilados n'uma abordagem aos galeões de Hespanha, e, pela pericia com que o fez n'um grave ferimento de Legrand, ficou desde logo nomeado escravo e medico do almirante. Meu sogro assistiu ao assalto de Maracaibo, riquissima cidade e bem guarnecida, que se deixou entrar e saquear por quatrocentos salteadores.
Tambem assistiu á tomada de Carthagena pela esquadra franceza, auxiliada por flibusteiros, que lhe deram a victoria.
No afogo d'esta peleja, Antonio de Sá, quando estava pençando as feridas de seu senhor, foi gravemente ferido de bala. A convalescença foi longa. N'este intervallo, em que elle se tornára inutil, pediu licença para ir vêr á Martinica sua mulher e filha. Negaram-lh'a; mas concederam-lhe que a familia o fosse visitar nos arraiaes movediços de sobre as ondas.
Legrand tinha residencia em S. Domingos, onde se desfadigava das batalhas navaes, exercitando os seus leões do mar. Obrigou, portanto, o prezadissimo escravo a viver com elle. D. Maria, minha sogra, passou á companhia do marido, e minha mulher que tinha então seis annos, ficou em casa do governador da Martinica, por que a filha predilecta de Duparquet se habituára a consideral-a a sua escrava loura.
Por muitas vezes, Antonio de Sá Mourão supplicou a Legrand, que, em paga de seus serviços, o deixasse passar com sua familia á Europa. O francez, importunado pela teimosia de taes rogos, ameaçou-o de o mandar matar, se elle tentasse fugir! É onde podia chegar a gratidão do flibusteiro almirante!
Minha sogra me disse que, decorridos cinco annos, o marido escrevera desde S. Domingos a um amigo muito querido, que tinha em Portugal. A carta, porém, foi devolvida passados dias a Antonio de Sá, com a seguinte reflexão do governador almirante: «Os escravos dos flibusteiros, se teimam em escrever cartas para Hespanha, correm o perigo de não poderem já ler as respostas, quando ellas voltarem.»
Nunca mais Antonio de Sá escreveu ou tentou escrever para Portugal.
O medico ia enriquecendo com as liberalidades dos flibusteiros; porém, um dia, achou-se roubado, não obstante ser pouquissimo vulgar o latrocinio entre elles. Seria porque ao portuguez ou hespanhol o consideravam estranho á sua tribu, e como tal indigno de se gosar dos foros de lealdade, que uns com outros guardavam.
Minha mulher corria por este tempo nos seus dez annos. O pae consternava-se de a ver crear-se entre gente brutal, e rodeada de creaturas ignobeis do seu sexo, recenseadas nos lupanares de Paris e de Marselha, enviadas como presas ás colonias.
Antonio de Sá, aproveitando o lanço de ter captivo o animo do governador, depois da cura de doença grave, pediu-lhe licença para enviar a filha a educar-se n'uma casa de religiosas francezas. O governador condescendeu, e enviou duas netas ao mesmo collegio, na primeira náo que saiu para França.
Meus sogros presumiam que lhe seria menos embaraçada a fuga podendo passar a filha á Europa. Enganaram-se; por que Duparquet, arrependido da concessão, redobrou de vigilancia sobre os menores passos do seu medico.