O Olho de Vidro · Camilo Castelo Branco

Chapter 11: Treze annos depois

Francisca de Oliveira morreu no anno de 1730 em Italia, para onde seu marido se transferira, por 1724, a procurar-lhe ares restauradores da saude que ella a pouco e pouco perdêra em Amsterdão.

O medico, perdido o arrimo da alma aos cincoenta e cinco annos de edade, sentiu gravame e tedio da vida. Os bens da fortuna eram muitos; mas o veneno da saudade e da solidão, por ser bebido em taça de oiro, não lhe era menos lethal. Se elle fosse pobre, trabalharia, quebraria na canceira da lida suada para ganhar pão alguns espinhos da sua corôa de orfão de todos os affectos puros e sagrados, na edade, em que sómente esposa e filhos podem adoçar o amargo da velhice. Não tinha ninguem lá fóra. E em Portugal se tinha parentes nem os conhecia, nem amava, nem já esperava, nem queria ser estimado d'elles.

Vagamundeou de reino em reino, repartindo alguma parte dos muitos haveres por hebreus necessitados, e reservando para si a quantia que computou necessaria para passadio abundante de quinze annos.

Passados dois, estanceava por Marselha, quando um navio mercante estava carregado com destino a um porto de Hespanha. Quasi sem consultar os perigos da sua temeridade, como quem nenhuns vinculos já tinha que desprender dolorosamente das coisas boas d'este mundo, embarcou como hollandez, com passaporte que o abonava mercador de Amsterdão, e desembarcou na Corunha. D'aqui passou a Portugal, em navio hespanhol, e viveu alguns dias em Lisboa, separado de toda a convivencia e encontrando a miudo pessoas de Hollanda, que deviam conhecel-o, se elle em tres annos não tivesse encanecido, e oito annos antes se não retirasse d'entre os portuguezes para os pontos mais solitarios e pittorescos da Italia.

Foi o doutor a Ourem, com ares de forasteiro que vê pelo miudo as mais e menos notaveis terras dos paizes. A casa onde elle nascêra havia sido vendida pela corôa, para a qual tinha sido confiscada, depois que o dono fôra queimado em estatua. Estava sendo estalagem. Pernoitou n'ella; dormiu no quarto de sua mãe... não dormiu: chorou por todo o correr da noite vagarosa. Antes que a primeira luz do seguinte dia apontasse, saiu do quarto onde nascêra e morrêra sua mãe, viu de passagem o quarto que fôra o seu, e d'onde agora saía outro viageiro madrugador.

D'aqui se foi caminho de Coimbra, abafando os soluços para que o arrieiro e outro viajante que cavalgava e o seguia silencioso lh'os não ouvissem.

Andado um quarto de legua, perguntou-lhe o companheiro:

--Vae para Coimbra, camarada?

Francisco Luiz, fingindo uma pronuncia de hollandez que sabe algum pouco de hespanhol, disse que sim, ia ver Coimbra, porque andava examinando os monumentos celebres de Portugal.

O collocutor era homem já de annos adiantados: orçaria tambem por perto dos sessenta.

--Aquillo já foi Coimbra! disse elle. Quando eu por alli andei estudando, grandes homens liam na universidade; hoje, nem já parece Coimbra, nem cidade das letras. A vossemecê, que é estrangeiro, posso-lh'o dizer: os jesuitas deram cabo dos bons estudos.

--Ha quantos annos andou vossemecê estudando na universidade?

--Ha bons quarenta. Matriculei-me no primeiro anno de medicina em 1693.

--Noventa e tres?--perguntou Abreu com reparavel interesse; mas o ar de espanto passou, na mente do outro, como pergunta admirativa do muito longe que já ia a vida estudiosa do interrogado.

--É verdade. Ha que tempos isto vae!... Dos meus condiscipulos, que eu saiba, já não vive nenhum.

--Seria d'esse tempo—tornou Abreu—um portuguez medico que eu conheci em Hollanda?

--Como se chamava?

O doutor quedou-se a scismar largo tempo, e disse:

--Chamava-se Francisco... Francisco... Luiz...

--De Abreu?--accudiu o interlocutor—Ora se conheci!... Não era meu condiscipulo; era mais novo do que eu na universidade um anno; mas havia de regular pela minha edade. Fui amicissimo d'elle, e elle meu. Queimaram-no em estatua e mais a mulher, no auto da fé de Coimbra, em 1699, se bem me lembro. Ora se conheci! Ainda será vivo?

--Não lhe sei dizer. Ha muitos annos que viajo, e não voltei ao meu paiz. Tem familia em Portugal?

--Não lhe posso dizer; mas a mim lembra-me que elle tinha um filhito natural, posto que outros diziam que o pequeno era filho de outro hebreu, que andava desterrado. Esse filho desappareceu; não sei se elle o levou, se morreu por cá em companhia de parentes.

--Tambem a mim me está lembrando que esse medico me fallava muitas vezes n'outro hebreu condiscipulo d'elle... ora que me não accode o nome!... Um hebreu que fugiu de Portugal com a filha de um fidalgo, christão velho...

--Ah! já sei de quem vossemecê me quer fallar... Ha de ser Antonio de Sá Mourão.

--Parece-me que sim...

--Não podia ser outro. Conheci-o perfeitamente. Era o melhor estudante da faculdade medica. Sei a historia d'esse desgraçado, perfeitamente...

--Então sabe que fim elle teve?--atalhou Francisco Luiz.

--Morreu, o que eu sei é que o pobre homem morreu lá fóra e por pouco lhe não matavam os paes cá dentro. A minha casa dista da casa dos Cabraes, senhores de Carrazedo, meia legua. Veja se eu não estarei lembrado de tudo isso, conhecendo a morgadinha como as minhas mãos. Imagine vossemecê qual seria o meu espanto, quando, faz agora quatorze annos, a vi.

--A viu?!--exclamou Abreu—viu? quem?!

--A morgada de Carrazedo...

E, como soffreando a expansão, o viajante disse:

--Conto estas coisas a vossemecê porque é estrangeiro, e por que ella já morreu, e não tem que temer da inquisição. Que ella andou em Portugal incognita...

--Mas vossemecê viu D. Maria Cabral?--tornou Francisco Luiz.

--Justamente, D. Maria era o nome d'ella. Vejo que sabe tambem algumas miudezas da tragedia!... Pois vi-a com estes olhos; e vossemecê poderia vel-a tambem, se ella não tivesse morrido em 1718.

--Conte-me o que souber d'essa senhora, que tenho ardentissima curiosidade de saber os successos da vida de tamanhos infelizes...

--Olhe, o modo como o marido lá morreu por fóra, não m'o disse ella... mas, o melhor é contar-lhe desde o principio. Appareceu aquella senhora em Bragança, com uma menina de vinte e dois annos.

--Menina! filha d'ella?

--Sim, filha d'ella e do judeu Sá Mourão.

Francisco Luiz de Abreu arquejava, e parecia temer que a vida se lhe acabasse antes de ouvir o remate da historia. Mortificava-o, a vontade de ingranzar perguntas em tropel; sustinha-o, porém, já o receio de se privar das miudezas que o pachorrento narrar do homem promettia, já tambem o receio de se fazer suspeito pela demasia do interesse, bem que o sujeito se lhe afigurasse bom homem, e incapaz de o denunciar.

--Então ella tinha uma filha?--insistiu Abreu.

--É verdade. Linda como a mais linda estrella; mas a mãe, d'aquillo que tinha sido, não lhe restava sombra nem vestigio. Era uma sexagenaria, não podendo ter então mais de quarenta e quatro annos, cá pelas minhas contas, porque ella tinha dezeseis quando fugiu com o judeu da Guarda... Não me lembra o que eu ia dizendo...

--Que appareceu em Bragança D. Maria Cabral com uma menina...

--É verdade. Chegou a Bragança, e fallava muito confusamente o portuguez, e a filha pouco ou nada dizia. Tomou de renda uma casinha e para alli se metteu com duas criadas, que lhe chamavam D. Antonia da Piedade.

Depois de por lá estar alguns mezes, dando muito que pensar á curiosidade da terra, começou a sair com um aspecto muito doentio, e a dar passeios a cavallo pelos arredores. Chegou á casa de Carrazedo, onde ella tinha nascido, e mandou pedir aos moradores d'ella licença para lá passar as horas da calma. Foi recebida por pessoas que ella nunca tinha visto; mas que eram seus primos e sobrinhos, que tinham ido de Chaves tomar conta da herança de Fernão Cabral. Este fidalgo desherdára a filha, porque as leis lh'o facultavam, e nomeara herdeiros os filhos de uma sua irmã, que elle odiava, por se ter casado com um capitão de cavallos menos fidalgo do que ella. Mas o odio á filha avantajou-se tanto ao odio da irmã, que, em artigos de morte, receiando que os descendentes d'elle ainda viessem perturbar-lhe o somno eterno, desherdou-a e nomeou seus herdeiros os sobrinhos.[29] D. Maria soffreu voluntariamente algumas horas de martyrio n'aquella casa, e ouviu com enchutos olhos contar a uma de suas primas a historia da morgada de Carrazedo, mulher perdida por amor de um judeu da Guarda com quem casara. Soube como tinha sido desherdada e amaldiçoada pelo pae á hora ultima; agradeceu as sôpas que lhe deram os possuidores do seu grande patrimonio, e seguiu seu caminho. Ao escurecer chegou ao portão da minha casa, e perguntou se alli morava ainda, ou se já tinha morrido o doutor José de Barredo.

--José de Barredo! disse Abreu, sem ter mão da impetuosa reminiscencia que lhe accudiu.

--Sou eu. Parece-me dar vossemecê a entender que já ouviu o meu nome?!

--Não me é novo... tartamudeou Francisco Luiz.

--Póde ser que Francisco Luiz de Abreu lhe fallasse alguma vez em mim, quando lhe referiu a historia de Antonio de Sá, porque eu, não sei porque fatal compaixão de D. Maria, alguma parte tive nos amores funestos d'elles, prestando-me a receber da Guarda as cartas que elle escrevia á morgada.

--Naturalmente é de Francisco Luiz que eu conheço o nome de vossemecê, disse o doutor Abreu, olhando muito em fito as feições d'aquelle velho, que tinha sido em Coimbra um dos seus mais affectos contemporaneos.--Deixe-me apertar a mão de um amigo de Francisco Luiz—tornou Abreu, apertando-lh'a com estremecido enthusiasmo.--Se elle o podesse encontrar, senhor Barredo, estou que choraria, estreitando ao coração o homem talvez unico n'este mundo que lhe resta dos que na mocidade o prezaram...

--Certamente—disse José de Barredo enternecido a lagrimas.--Se elle vivesse, seria o meu mais velho amigo... que todos os outros morreram... A opinião que elle e Antonio de Sá tinham do meu natural, sendo elles judeus e eu christão velho, bem se deixa ver no procedimento de D. Maria comigo; pois, escondendo ella o seu nome e nascimento de todos, procurou-me a mim com o proposito de se declarar. E assim o fez.

Logo que me avisaram de estarem alli duas damas, uma das quaes tinha cara de doente, fui recebel-as ao pateo, cuidando que era consulta de medico. Conduzi-as á sala, e ahi D. Maria, com os olhos desfeitos em lagrimas, e muito embaciados, entrou a olhar-me, e a tremer, até que, expedindo um grande ai, se lançou nos meus braços, clamando: «eu sou a sua amiga da infancia, sou Maria Cabral, morgada de Carrazedo!»

N'este ponto da narrativa, pararam os arreeiros á porta da estalagem de Thomar. Os cavalleiros apearam, subiram ao sobrado da estalagem e pediram almoço.

José de Barredo proseguiu, atando o fio com as palavras de D. Maria.

--Eu sou a sua amiga da infancia!--clamou ella—Sou Maria Cabral, morgada de Carrazedo! Faça idéa, e continuou Barredo—faça idéa do meu assombro, senhor... senhor... póde dizer-me a sua graça?... Um amigo do meu amigo da mocidade, não deve hesitar em querer a amizade que lhe offereço, e dizer-me o seu nome...

--Direi—balbuciou commovido o outro no mais correcto portuguez:--mas ha de ser com o coração bem perto do teu, José; abraça-me, e ouve-me muito baixinho esta revelação feita á tua alma: Eu sou Francisco Luiz de Abreu.

José de Barredo abriu a bôca até onde lh'o permittiam as articulações das mandibulas. A expressão d'aquelle seu grandissimo espanto foi um som rouco, similhante a um brado de terror. Em seguida, rebentaram-lhe subitas as lagrimas, e então sómente pôde o velho atirar-se todo aos braços do amigo, e exclamar:

--Ó Francisco!... se a inquisição te conhece!

--Tu sómente me conheces em Portugal—disse o doutor Abreu—E não temas por mim, que, se eu cair nas garras do santo officio, pouco mais se doerá do fogo d'elle este corpo empedrenido do que ha trinta e sete annos a minha estatua. Morto estou eu já, meu amigo. Que me faz a mim agonisar sobre as brazas da minha tristeza irremediavel, ou expirar mais depressa nas torturas da polé ou nas do garrote? Como quizerem...

José de Barredo quiz suspender a narrativa do tocante á viuva de Antonio de Sá Mourão para ouvir a dos successos de Francisco Luiz. Não lh'o permittiu a anciedade do amigo. Conformou-se o confidente de D. Maria, e continuou, ordenando aos arrieiros que fossem adiante e os esperassem no Arneiro, onde haviam de jantar, cinco leguas adiante na estrada de Coimbra. Continuou o doutor Barredo:

--O alvoroço que me fez o apparecimento d'aquella senhora alquebrada e de todo desfigurada, dizendo-me que era a formosa morgada de Carrazedo, só t'o posso comparar com aquelle que, ha pouco tu me causaste, Francisco. São dois lances da minha vida que já não podem repetir-se. Não tenho mais ninguem que esperar da minha mocidade. Era ella e tu; por que Antonio de Sá, esse não póde mais voltar...

--Creio que seria o mais ditoso dos teus amigos...--balbuciou Francisco Luiz.

--Oh! não!... pois tu desconheces a doçura d'estas nossas lagrimas? Dois velhos, que se amaram moços, e se encontram nos umbraes de outro mundo para se despedirem! Que é isto, senão o derradeiro calor da vida que ainda nos aquece os corações?... Demos graças ao nosso Deus, que é o mesmo Deus, ou elle se chame Jesus de Nazareth, ou Messias, ou simplesmente creador do céo e da terra. Suppliquemos-lhe que nos deixe já agora acabar estes ultimos dias um á beira do outro... Tu vaes para minha casa, não é verdade, Francisco?

--Irei a tua casa, irei, José; mas... estou a receiar que te esqueças da nossa pobre senhora...--disse Abreu, sorrindo, e enchugando as lagrimas.

--Tens razão; mas deixa-me ser feliz um poucachinho... Temos tanto tempo em que fallar dos outros desgraçados...

--Oh! se tu podesses dizer-me que ella ainda vive...

--Não posso, e pouco tenho que te contar antes da morte d'ella... Ahi vae o mais que sei. D. Maria perguntou-me se devia considerar perdido o seu patrimonio; e eu respondi lhe que sim; e pedi-lhe que nem fallasse em tal pretenção, se a trazia, porque os individuos possuidores d'elle seriam capazes de a denunciar ao santo officio, e de lançarem rezina aos páos da fogueira com as proprias mãos. Então me relatou ella a desgraçada vida que tivera por espaço de quinze annos, captiva de corsarios e mais o marido e filhinha: é uma historia longa, que eu te hei de mostrar escripta, em minha casa. Não t'a sei dizer de memoria porque ha quatorze annos que fechei e mais não vi os taes papeis, e já era minha tenção queimal-os para que por elles se não venha a descobrir quem é D. Josepha, a filha do judeu Antonio de Sá. Esteve D. Maria alguns poucos mezes em minha casa, soffrendo, sem treguas, molestia incuravel: estava ethica. Lembrou-se de ir consultar medicos famosos: bem sabia eu a inutilidade do passo; mas deixei-a ir ao Porto, a consultar um famoso medico chamado o Olho de Vidro.

--Braz Luiz de Abreu—atalhou Francisco Luiz.

--Esse mesmo, cujo nome tantas vezes me fez lembrar o teu, que cheguei a perguntar se elle seria teu parente; mas logo me disseram que não, e, para prova de que não era, bastou-me saber que o Olho de Vidro era familiar do santo officio.

Francisco Luiz interrompeu a narração para referir a correspondencia que tivera com o tal medico portuense, imaginando que elle, por um acaso maravilhoso, poderia ser o filho de Antonio de Sá, uma creança que...

--Muita gente—accudiu José de Barredo—e eu mesmo pensei que fosse teu filho...

--E admiro que não soubesses que era filho de Antonio de Sá!

--Não sabia; porque, desde a fuga da morgada, nunca mais tive novas d'algum d'elles, e bem sei eu por que: fiz repugnancia ao desvariado procedimento d'ella; cheguei a fazer-lhe ameaças de a denunciar ao pae, a ver se a dissuadia. Tu mesmo, se bem me lembro, ignoravas onde estivessem alapados, e cuidavas comigo que se tinham embarcado para a India. Depois desappareceste de Coimbra, e quando voltaste nada me disseste, nem eu t'o levo a mal, porque sei quão perigosa era a tua situação, e a dos paes de Antonio de Sá que o santo officio prendera na Guarda. Sabia eu que uma mulher creava em Coimbra uma creancinha que tu algumas vezes visitavas. Suppuz, como quasi toda a gente, que era teu filho... Morreu esse menino?

--Não sei. Presumo que sim. Ninguem me pôde informar, e bastas vezes pedi novas d'elle. Acaso te lembras da morte de Heitor Dias da Paz, de Villa Flor?

--Lembro, foi em 1707.

--Nunca ouviste dizer que em poder d'esse hebreu estivesse um moço, que então devia ter entre quatorze e quinze annos?

--Não ouvi dizer nada.

--Pois era elle, se existisse. Vamos ao fim da historia de D. Maria. Valeu-lhe alguma coisa a medicina do tal Olho de Vidro?

--Nada. Passados trinta e tantos dias, chegou a Bragança a nova de que ella tinha morrido, com o nome de D. Antonia da Piedade, e que sua filha D. Josepha tinha casado com o medico Braz Luiz de Abreu. Aqui tens o que sei. Haverá cinco annos que eu fui ao Porto e procurei o Olho de Vidro, no intento de ver D. Josepha. Disseram-me que elle, em resultado de inimigos seus collegas, que assanhára com a publicação d'um livro chamado Portugal Medico, tivera de afastar-se do Porto, e fôra estabelecer-se em Aveiro, onde tinha comprado muitos bens de raiz e vivia abastadamente. As minhas occupações não me deixaram ir a Aveiro, e já agora morrerei sem ver D. Josepha, que deve estar perto dos quarenta, ou quem sabe se já estará na eternidade!

--Irás agora a Aveiro comigo—disse Francisco Luiz.--Quero vel-a, sem que ella saiba que eu fui o maior amigo de seu pae. É preciso temer-lhe o marido, visto que elle tanta familiaridade tem com o santo officio. Tu a procurarás, e darás azo a que eu a veja e lhe falle como desconhecido. Uma boa lembrança... Irei consultar-lhe o marido, fingindo de doente estrangeiro, a quem chegou a nomeada de tão abalisado medico. Contar-lhe-hei muitissimos padecimentos que elle ha de classificar de muitissimas maneiras, e assim estarei mais ao alcance de ouvir D. Josepha dizer-me alguma coisa de seu pae. Ora, dize-me tu: nunca, D. Maria te disse que deixára um filho em Portugal, quando fugiu para Hespanha?

--Disse que esse menino o considerava morto: uma só vez me fallou d'elle; mas as lagrimas eram tantas que eu me esquivei a pedir-lhe pormenores da creança, de modo que nem soube que o menino ficára em tua companhia, nem depois passára á dos Moraes de Villa Flor. Eu não te disse ainda que D. Maria, ás temporadas, parecia cair em modorra e paralysia de entendimento. Esquecia-se e quedava-se n'umas cogitações taciturnas; e, se lhe tiravam muito pela falla, respondia disparates. De sorte que eu, a respeito do filho, que ella dizia ter deixado em Portugal, não cheguei a fazer perfeito juizo, nem a mesma filha estava convencida de que elle tivesse existido: a prova era que ella ouvia com certa estranheza as revelações confusas que a mãe me fazia sobre as desgraças do seu longo desterro e captiveiro. Póde ser que tu, Francisco, se te deres a conhecer a D. Josepha, venhas a obter muitos esclarecimentos, que eu mal posso dar-te porque sinto enfraquecida a memoria, e preciso espertal-a com a leitura dos meus apontamentos. Quem melhor te poderá referir a vida de Antonio de Sá, a meu ver, é o marido da filha; mas quererá elle—o familiar do santo officio e author da vida de Santo Antonio—que tu saibas a procedencia hebraica de sua mulher, embora possa ufanar-se de serem netos de Fernão Cabral os seus filhos? Não terá elle medo de que o santo officio lhe sáia ainda a pedir contas á mulher dos delictos do pae e da mãe?

--Isso é claro—observou Abreu.--Nem eu lh'o perguntaria, nem elle me contaria coisa alguma allusiva á filha de Antonio de Sá. De mais a mais, já eu te disse que resposta me elle deu para Amsterdão. Devemos ir prevenidos contra o genio irritavel do homem; é preciso muitissimo cuidado, que não vamos indiscretamente perguntar-lhe de quem é filho.

No dia seguinte ao meio dia, os dois velhos chegaram a Coimbra, e andaram procurando as differentes casas em que tinham morado.

Ao segundo dia de repouso, cuidaram em jornadear para Aveiro. Pouco antes da partida, chegou a Coimbra um proprio enviado da casa de José de Barredo; noticiando-lhe que sua mulher estava em perigo de vida. Desfez-se o plano de irem juntos a Aveiro, e foram juntos para Bragança; Francisco Luiz de Abreu quiz acompanhar o velho amigo, no proposito de lhe desacerbar as lagrimas da viuvez, se a desgraça fosse inevitavel.

Era. Francisco Luiz assistiu aos funeraes da esposa de José de Barredo. E quando o velho parecia conformar e esquecer-se entre as caricias de muitos filhos, despediu-se por alguns dias, e saiu sósinho de Bragança em direitura a Aveiro.