O Olho de Vidro · Camilo Castelo Branco

Chapter 10: Os expatriados

Trinta e quatro annos antes, se o leitor se lembra, tinham fugido para a India, em uma náo mercantil, o doutor Francisco Luiz de Abreu e sua mulher, disfarçados em mercadores de drogas indostanicas.

Assim que aportaram a Goa, antes que os quadrilheiros da inquisição os farejassem com aquelle olfacto d'elles, subtilissimo em esquadrinhar sangue judaico, apressaram-se em fugir do territorio portuguez. No primeiro navio britannico aproado á costa do Malabar, conseguiram os incognitos embarcar-se, e saltaram em Cochim, na cidade querida do grande Affonso de Albuquerque, qual, desde 1663, pertencia aos hollandezes. Estavam salvos.

O doutor Abreu começou exercitando a medicina e o commercio, e auferindo mais ganancia da camphora, do beijoim e do chumbo, que da sciencia das drogas salutiferas. Corridos dois annos, como os bens de fortuna lhe sobrassem, visto que já de Portugal saira com sobejos para viver meãmente, passou á Europa e estabeleceu-se em Hollanda.

Aqui, recebido nos braços de centenares de portuguezes, voltou á profissão de medico, e poz os seus cabedaes a logro, com prosperos resultados. Hollanda era o paraizo terreal dos perseguidos hebreus. «Em parte nenhuma do mundo,--escrevia Daniel Lavi de Barros—gosam maior segurança que em Amsterdão, tanto pela liberdade de consciencia nas sete provincias unidas, como pela bondade de seus engenhosos habitantes.»[25]

Hebreus portuguezes e hespanhoes tinham alli sua synagoga, independente dos israelitas de procedencia allemã. Foi a primeira edificada em Amsterdão, consoante o affirma Antonio Alvares Soares na sua Sylva:

La primera Synagoga Amstelodama
Fundada fué del grand Jacob Tirado
Que por su nombre Bet Jahacob la llama,
I por el pueblo de Jacob sagrado.

Tanto crescera a opulencia dos hebreus da peninsula hispanica, desde que a lerda piedade dos reis os expulsaram que, em menos de quatro annos, levantaram e consagraram em 1673, o mais soberbo edificio que ainda hoje sobreleva a todos de Amsterdão. No crer dos hebreus, aquelle templo era o milagre que Deus lhes havia promettido por Ezequiel: «Porque os puz longe entre as gentes, e porque os lancei dispersos por varios paizes, eu serei para elles um pequeno sanctuario dos paizes para onde forem.»[26]

Francisco Luiz de Abreu, assim que se viu de assento e pouco menos de esquecido da patria, logo que a occasião se lhe amoldou, sem risco do seu amigo Moraes de Villa Flor, escreveu-lhe, pedindo-lhe a ida do filho de Antonio de Sá Mourão para Hollanda. O pae de Heitor Dias da Paz, respondendo á carta, pedia-lhe com lagrimas que lhe não tirasse o pequeno, porque, além de magoar penetrantemente seu filho, que o estremecia como irmão, podia ser que lhe tolhesse o futuro, ou, com a ida, suggerisse á inquisição suspeitas e aparelhasse desgraças para os que lhe estavam debaixo da vista fulminante.

Relatava-lhe a perseguição que os Oliveiras de Ourem estavam soffrendo, desde a fuga na náo da carreira da India, e o certo perigo que corria a creança, se levissimas suspeitas o indigitassem como filho de Francisco de Abreu.

O medico desvaneceu as esperanças da sua mulher, que era a mais fervorosa em pedir o seu filho adoptivo. D'esta correspondencia nem palavra Francisco de Moraes revelava á creança, por medo que a indiscrição propria dos annos acareasse desconfianças da espionagem, que sem treguas espreitava os actos dos judeus abastados. Moraes pedia ao seu amigo que lhe escrevesse pouco e com muita segurança, para que as suas cartas não tivessem destino egual ás de Pedro Lopes, residente em Damasco.

Senhor do seu tempo e liberdade, o doutor Francisco Luiz foi a França inquirir de novo informações de Antonio de Sá. Nada adiantou ás colhidas pelo joalheiro de Villa Flor. O navio, que navegava para o Canadá, parecia que as ondas o tinham engulido e pulverisado nas profundezas dos seus abysmos. Nem a mais ligeira suspeita de que existisse um folego vivo d'aquella náo, a não ser que as duas galeotas de flibusteiros, então ancoradas na costa de S. Domingos, podessem dar noticia do naufragio.

Recolheu o doutor a Amsterdão com as esperanças de todo perdidas.

Seis annos decorridos, chegou á familia dos Moraes, residente em Hollanda, a nova de estar nos carceres da inquisição de Lisboa Heitor Dias da Paz. Foi grande luto e choro nas familias portuguezas de Amsterdão, entre as quaes tinha sido creado e educado o mocinho. Abriram-se as synagogas, e prostraram-se os de Israel, pedindo ao seu Deus que lhes redimisse da morte affrontosa do garrote e do fogo o mancebo, cuja genealogia promanava já da tribu de Levi. Bem sabiam elles que Heitor Dias da Paz havia de morrer profitente da lei de Moysés, e sómente por milagre do Senhor poderia salvar-se de morrer queimado.

Quando chegou a Hollanda a noticia do suicidio de Francisco Moraes Taveira e da imperterrita morte de seu filho, estes nomes gloriosos nas dypticas da nação fiel foram inscriptos no martyrologio hebreu. Assim o tinha sido o do medico Silva, que, apoz treze annos de carcere, fôra queimado em Lima, no anno de 1693, e, ao tempo que o fogo o devorava, um pegão de vento esboroou o tribunal onde elle havia sido condemnado.[27] Assim fôra santificado um judeu portuguez, o qual, apenas a fumarada da fogueira lhe levou aos pulmões as primeiras agonias, desataram-se-lhe os ferros, e foi arrebatado por um anjo, a tempo que os algozes exclamavam que o diabo o transportava em corpo e alma. Deus, para salvar o seu servo das angustias do supplicio horrendo, o arrancara d'entre as chammas, segundo o asseverado nas actas dos martyres. Não menos illustres em santidade eram para os hebreus o religioso da Assenção, queimado em Lisboa no anno de 1603, e o medico Sobremont, suppliciado em Lima, depois de vinte e dois annos de masmorra. Na Sylva, de Antonio Alvares, vem commemorada assim a crucificada vida d'aquelle martyr:

Veinte y dos annos in prison penosa Por defender de Dios la verdad pura, Termino arrastra la cadena dura Que le da el ser la sacra ley su esposa.

Heitor Dias da Paz foi comparado na coragem da morte ao hespanhol Lopo de Vea, filho de paes christãos velhos, o qual se fizera judeu, e se circumcidára no carcere. A constancia de sua morte obrigou o inquisidor geral a dizer que nunca vira tão ardente desejo de morrer, nem tamanha confiança de salvação, nem tão completa firmesa, como a d'aquelle moço na flor da edade.[28]

O medico Abreu, para não arriscar a segurança dos seus parentes e amigos de Portugal, absteve-se de pedir informações de Braz, nos primeiros annos seguidos á morte dos judeus de Villa Flor. Corria o anno de 1710 quando elle se animou a indagar com a maxima cautela. Algumas pessoas foram disfarçadas a Coimbra, averiguaram com todo o resguardo, e nenhum esclarecimento alcançaram. Ninguem dava novas nem rastreava o destino do moço. Eram obvias as razões d'esta ignorancia: Braz Luiz nunca em Coimbra estivera na companhia de Heitor Dias da Paz, nem o collegial de S. Paulo ousava dizel-o, admoestado pelos frades, os quaes, por sua parte, movidos de compaixão do estudantinho, cuidavam em salval-o da nota infame de amizade com taes protectores.

O medico Francisco Luiz, se não esqueceu o filho de Antonio de Sá, desistiu de perguntar, como diligencia inutil, a paragem d'elle. Facilmente acreditaram que tivesse morrido, ou caísse em obscura indigencia, depois do auto de fé de 1706.

Em 1718 appareceu em Amsterdão a obra de Braz Luiz d'Abreu, publicada em 1717, com o titulo: «Aguias filhas do sol que voam sobre a lua.» O nome do author produziu estranho reparo em Francisco Luiz d'Abreu. Braz era o nome da creancinha, que elle entregára a Francisco de Moraes; o sobrenome e o appellido eram os d'elle.

--Quem sabe!--dizia elle á esposa—Cuidaria o filho de Antonio de Sá que era nosso filho?! Dir-lh'o-hia alguem, depois da morte de Heitor Dias da Paz? Por que ha de ter este homem o nome que lhe deixámos, e o appellido que eu tenho?...

--Pergunta a alguem de Portugal onde reside o author d'esse livro—lembrou Francisca.

De Portugal disseram ao israelita que Braz Luiz de Abreu era um medico residente no Porto.

Sem medeação de alguem, Francisco Luiz escreveu directamente ao medico do Porto estas palavras: «Pessoa interessada em querer saber quaes foram ou são os paes de vossemecê, pede-lhe que os indique, se os conheceu. Responda para Amsterdão.»

E deu o pseudonimo Elias Sarmento, a quem devia ser dirigida a resposta.

Braz Luiz de Abreu entendeu que a pergunta era um escarneo a elle desgraçado, que não tinha conhecido seus paes, e que, na maledicencia de inimigos, passava como exposto na roda de Villa Flor. Affrontado por tão certeira azagaia á sua immensa dôr e pejo de não poder dizer cujo filho era, respondeu n'estes termos: «Braz Luiz de Abreu responderia com um tagante ao judeu ou burro que lhe faz a pergunta, se não tivesse de ir longe procural-o a chatinar no templo, como Jesus Christo nosso Senhor fez aos avós de quem se esconde na terra dos impios, dos hereges, e dos crucificadores do Messias para o insultar.» N'um homem, chamado Elias, a allusão insultante devia de acertar infallivelmente.

Francisco Luiz de Abreu, lida a resposta, riu-se da sua illusão e da catholica ira do medico portuense. N'esse mesmo correio, foi-lhe de Portugal uma carta do amigo a quem elle perguntára onde residia o medico. A carta dava sobre o sujeito os seguintes esclarecimentos: Tinha sido creado com frades, á custa d'elles se licenciára, e era familiar do santo officio, e denominado o Olho de Vidro, porque, tendo perdido um olho em desordem, o substituira por outro artificial. Accrescentava mais que, na opinião de algumas pessoas, o tal Olho de Vidro era filho de um frade, se não fosse filho de tres frades.

Á vista d'isto e da resposta do author das Aguias, o hebreu acreditou evidentemente que este Braz não tinha de commum com o outro senão o nome.