O Mistério da Estrada de Sintra · Eça de Queirós and Ramalho Ortigão

Chapter 7: Capítulo 7

Contei-lhe hontem como inesperadamente havia encontrado á cabeceira da cama um cabello louro.

Prolongou-se a minha dolorosa surpreza. Aquelle cabello luminoso, languidamente enrolado, quasi casto, era o indicio d'um assassinato, d'uma cumplicidade pelo menos! Esqueci-me em longas conjecturas, olhando, immovel, aquelle cabello perdido.

A pessoa a quem elle pertencia era loura, clara de certo, pequena, mignonne, porque o fio de cabello era delgadissimo, extraordinariamente puro, e a sua raiz branca parecia prender-se aos tegumentos craneanos por uma ligação tenue, delicadamente organisada.

O caracter d'essa pessoa devia ser doce, humilde, dedicado e amante, porque o cabello não tinha ao contacto aquella aspereza cortante que offerecem os cabellos pertencentes a pessoas de temperamento violento, altivo e egoista.

Devia ter gostos simples, elegantemente modestos a dona de tal cabello, já pelo imperceptivel perfume d'elle, já porque não tinha vestigios de ter sido frisado, ou caprichosamente enrolado, domado em penteados phantasiosos.

Teria sido talvez educada em Inglaterra ou na Allemanha, porque o cabello denotava na sua extremidade ter sido espontado, habito das mulheres do norte, completamente extranho ás meridionaes, que abandonam os seus cabelos á abundante espessura natural.

Isto eram apenas conjecturas, deducções da phantasia, que nem constituem uma verdade scientifica, nem uma prova judicial.

Esta mulher, que eu reconstruia assim pelo exame d'um cabello, e que me apparecia doce, simples, distincta, finamente educada, como poderia ter sido o protagonista cheio de astucia d'aquella occulta tragedia? Mas conhecemos nós porventura a secreta logica das paixões?

Do que eu estava perfeitamente convencido é que havia uma mulher como cumplice. Aquelle homem não se tinha suicidado. Não estava decerto só, no momento em que bebera o opio. O narcotico tinha-lhe sido dado, sem violencia evidentemente, por ardil ou engano, n'um copo d'agua. A ausencia do lenço, o desapparecimento da gravata, a collocação do fato, aquelle cabello louro, uma cova recentemente feita no travesseiro pela pressão de uma cabeça, tudo indicava a presença d'alguem n'aquella casa durante a noite da catastrophe. Por consequencia: impossibilidade de suicidio, verosimilhança de crime.

O lenço achado, o cabello, a disposição da casa, (evidentemente destinada a entrevistas intimas) aquelle luxo da sala, aquella escada velha, devastada, coberta com um tapete, a corda de seda que eu tinha sentido... tudo isto indicava a presença, a cumplicidade de uma mulher. Qual era a parte d'ella n'aquella aventura? Não sei. Qual era a parte de A. M. C.? Era o assassino, o cumplice, o occultador do cadaver? Não sei. M. C. não podia ser extranho a essa mulher. Não era de certo um cumplice tomado exclusivamente para o crime. Para dar opio n'um copo de agua não é necessario chamar um assassino assalariado. Tinham por consequencia um interesse commum. Eram amantes? Eram casados? Eram ladrões? E accudia-me á memoria aquella inesperada referencia a 2:300 libras que de repente me tinha apparecido como um novo mysterio. Tudo isto eram conjecturas fugitivas. Para que hei de repetir eu todas as idéas que se formavam e que se desmanchavam no meu cerebro, como nuvens n'um ceu varrido pelo vento?

Há de certo na minha hypothese ambiguidades, contradicções e fraquezas, ha nos indicios que colhi lacunas e incoherencias: muitas cousas significativas me escaparam por certo, ao passo que muitos pormenores inexpressivos se me gravaram na memoria, mas eu estava n'um estado morbido de perturbação, inteiramente desorganisado por aquella aventura, que inesperadamente, com o seu cortejo de sustos e mysterios, se installara na minha vida.

O senhor redactor, que julga de animo frio, os leitores, que socegadamente, em sua casa, lêem esta carta, poderão melhor combinar, estabelecer deducções mais certas, e melhor approximar-se pela inducção e pela logica da verdade occulta.

Eu achava-me só havia uma hora, quando o mascarado alto entrou, trazendo o chapeu na cabeça e no braço uma capa de casimira alvadia.

--Vamos, disse elle.

Tomei calado o meu chapéu.

--Uma palavra antes, disse elle. Em primeiro logar dê-me a sua palavra de honra que ao subir agora á carruagem não terá um gesto, um grito, um movimento que me denuncie.

Dei a minha palavra.

--Bem! continuou, agora quero dizer-lhe mais: aprecio a dignidade do seu caracter, a sua delicadeza. Ser-me-hia doloroso que entre nós houvesse em qualquer tempo motivos de desdem, ou necessidades de vingança. Por isso affirmo-lhe: sou perfeitamente extranho a este successo. Mais tarde talvez entregue este caso á policia. Por ora sou eu policia, juiz e talvez carrasco. Esta casa é um tribunal e um carcere. Vejo que o doutor leva d'aqui a desconfiança de que uma mulher se envolveu n'este crime: não o supponha, não podia ser. No emtanto, se alguma vez lá fóra fallar, a respeito d'este caso, em alguma pessoa determinada e conhecida, dou-lhe a minha palavra de honra, doutor, que o mato, sem remorso, sem repugnancia, naturalmente, como corto as unhas. Dê-me agora o seu braço. Ah! esquecia-me, meu caro, que os seus olhos estão destinados a ter estas lunetas de cambraia.

E, rindo, apertou-me o lenço nos olhos.

Descemos a escada, entrámos na carruagem, que tinha os stores fechados. Não pude vêr quem guiava os cavallos porque só dentro do coupé achei a vista livre. O mascarado sentou-se ao pé de mim. Via-lhe uma pequena parte da face tocada da luz. A pelle era fina, pallida, o cabello castanho, levemente annelado.

A carruagem seguiu um caminho, que pelos accidentes da estrada, pela differença de velocidade indicando acclives e declives, pelas alternativas de macadam e de calçada, me parecia o mesmo que tinhamos seguido na vespera, no começo da aventura. Rodámos finalmente na estrada larga.

--Ah, doutor!, dizia o mascarado com desenfado, sabe o que me afflige? É que o vou deixar na estrada, só, a pé! Não se póde remediar isto. Mas não se assuste. O Cacem fica a dois passos, e ahi encontra facilmente conducção para Lisboa.

E offereceu-me charutos.

Depois de algum tempo, em que fomos na maior velocidade, a carruagem parou.

--Chegámos, disse o mascarado. Adeus, doutor.

E abriu por dentro a portinhola.

--Obrigado! accrescentou. Creia que o estimo. Mais tarde saberá quem sou. Permitta Deus que ambos tenhamos no applauso das nossas consciencias e no prazer que dá o cumprimento de um grande dever o derradeiro desenlace da scena a que assistiu. Restituo-lhe a mais completa liberdade. Adeus!

Apertámo-nos a mão, eu saltei. Elle fechou a portinhola, abriu os stores e estendendo-me para fóra um pequeno cartão:

--Guarde essa lembrança, disse, é o meu retrato.

Eu, de pé, na estrada, junto das rodas, tomei a photographia avidamente, olhei. O retrato estava tambem mascarado!

--É um capricho do anno passado, depois de um baile de mascaras! gritou elle, estendendo a cabeça pela portinhola da carruagem que começava a rodar a trote.

Via-a affastando-se na estrada. O cocheiro tinha o chapeu derrubado, uma capa traçada sobre o rosto.

Quer que lhe diga tudo? Olhei para a carruagem com melancolia! Aquelle trem levava comsigo um segredo inexplicavel. Nunca mais veria aquelle homem. A aventura desvanecia-se, tinha findado tudo.

O pobre morto, esse lá ficava, estendido no sophá, que lhe servia de sarcophago!

Achei-me só, na estrada. A manhã estava nevoada, serena, melancolica. Ao longe distinguia ainda o trem. Um camponez appareceu vindo do lado opposto áquelle por onde elle desapparecia.

--Onde fica o Cacem?

--De lá venho eu, senhor. Sempre pela estrada, a meio quarto de legua.

A carruagem, pois, tinha-se dirigido para Cintra.

Cheguei ao Cacem fatigado. Mandei um homem a Cintra, á quinta de F., saber se tinham chegado os cavallos; pedi para Lisboa uma carruagem, e esperei-a a uma janella, por dentro dos vidros, olhando tristemente para as arvores e para os campos. Havia meia hora que estava ali, quando vi passar a toda a brida um fogoso cavallo. Pude apenas distinguir entre uma nuvem de pó o vulto quasi indistincto do cavalleiro. Ia para Lisboa embuçado em uma capa alvadia.

Tomei informações a respeito da carruagem que passara na vespera comnosco. Havia contradicções sobre a côr dos cavallos.

Voltou de Cintra o homem que eu ali mandára, dizendo que na quinta de F. tinham sido entregues os cavallos por um criado do campo, o qual dissera que os senhores ao pé do Cacem, tinham encontrado um amigo que os levara comsigo em uma caleche para Lisboa. D'ahi a momentos chegou a minha carruagem. Voltei a Lisboa, corri a casa de F. O criado tinha recebido este bilhete a lapis: Não esperem por mim estes dias. Estou bom. A quem me procurar, que fui para Madrid.

Procurei-o debalde por toda a Lisboa. Comecei a inquietar-me. F. estava evidentemente retido. Receei por mim. Lembraram-me as ameaças do mascarado, vagas mas resolutas. Na noite seguinte, ao recolher para casa, notei que era seguido.

Entregar á policia este negocio, tão vago e tão incompleto como elle é, seria tornar-me o denunciante de uma chimera. Sei que, em resultado das primeiras noticias que lhe dei, o governador civil de Lisboa officiou ao administrador de Cintra convidando-o a metter o esforço da sua policia no descobrimento d'este crime. Foram inuteis estas providencias. Assim devia ser. O successo que constitue o assumpto d'estas cartas está por sua natureza fóra da alçada das pesquizas policiaes. Nunca me dirigi ás authoridades, quiz simplesmente valer-me do publico, escolhendo para isso as columnas populares do seu periodico. Resolvi homiziar-me, receando ser victima de uma emboscada.

São obvias, depois d'isto, as rasões por que lhe occulto o meu nome: assignar estas linhas seria patentear-me; não seria esconder-me, como quero.

Do meu impenetravel retiro lhe dirijo esta carta. É manhã. Vejo a luz do sol nascente atravez das minhas jelozias. Oiço os pregões dos vendedores matinaes, os chocalhos das vaccas, o rodar das carruagens, o murmurio alegre da povoação que se levanta depois de um somno despreoccupado e feliz... Invejo aquelles que não tendo a fatalidade de secretas aventuras passeiam, conversam, moirejam na rua. Eu—pobre de mim!--estou encarcerado por um mysterio, guardado por um segredo!

P. S. Acabo de receber uma longa carta de F. Esta carta, escripta ha dias, só hoje me veiu á mão. Sendo-me enviada pelo correio, e tendo-me eu ausentado da casa em que vivia sem dizer para onde me mudava, só agora pude haver essa interessante missiva. Ahi tem, senhor redactor, copiada por mim, a primeira parte d'essa carta, da qual depois de ámanhã lhe enviarei o resto. Publique-a, se quiser. É mais do que um importante esclarecimento n'este obscuro successo; é um vestigio luminoso e profundo. F... é um escriptor publico, e descobrir pelo estylo um homem é muito mais facil do que reconstruir sobre um cabello a figura de uma mulher. É gravissima a situação do meu amigo. Eu, afflicto, cuidadoso, hesitante, perplexo, não sabendo o que faça, não podendo deliberar pela reflexão, rendo-me á decisão do acaso, e elimino, juntamente com a letra do autographo, as duas palavras que constituem o nome que firma essa longa carta. Não posso, não devo, não me atrevo, não ouso dizer mais. Poupem-me a uma derradeira declaração, que me repugna. Adivinhem... se poderem. Adeus!

+INTERVENÇÃO DE Z.+

Nota do Diario de Noticias.--No original da carta publicada hontem havia algumas palavras a lapis, nas quaes só fizemos reparo depois de impresso o jornal. Essas palavras continham esta observação: A photographia do mascarado foi feita em casa de Henrique Nunes, rua das Chagas, Lisboa. Talvez ahi possa haver noticia do sujeito photographado.

Antes de darmos á estampa a longa carta de F..., cuja primeira parte nos foi hontem enviada pelo medico, é dever nosso tornar conhecida uma outra importantissima que recebemos pela posta interna, assignada com a inicial Z., e que temos em nosso poder ha já tres dias. Esta carta, que tão estreitamente vem prender-se na historia dos successos que constituem o assumpto d'esta narrativa, é a seguinte:

Senhor redactor do Diario de Noticias.--Lisboa, 30 de julho de 1870.--Escrevo-lhe profundamente indignado. Principiei a ler, como quasi toda a gente em Lisboa, as cartas publicadas na sua folha, em que o doutor anonymo conta o caso que essa redacção intitulou O mysterio da Estrada de Cintra. Interessava-me essa narrativa e segui-a com a curiosidade despreoccupada que se liga a um canard fabricado com engenho, a um romance á similhança dos Thugs e de alguns outros do mesmo genero com que a veia imaginosa dos phantasistas francezes e americanos vem de quando em quando acordar a attenção da Europa para um successo estupendo. A narração do seu periodico tinha sobre as demais que tenho lido o merito original de se passarem os successos ao tempo que se vão lendo, de serem anonymas as personagens e de estar tão secretamente encoberta a mola principal do enredo, que nenhum leitor poderia contestar com provas a veracidade do caso portentosamente romanesco, que o auctor da narrativa se lembrara de lançar de repente ao meio da sociedade prosaica, ramerraneira, simples e honesta em que vivemos. Ia-me parecendo ter diante de mim o ideal mais perfeito, o typo mais acabado do roman feuilleton, quando inesperadamente encontro no folhetim publicado hoje as iniciaes de um nome de homem—A. M. C.--accrescentando-se que a pessoa designada por estas lettras é estudante de medicina e natural de Vizeu. Eu tenho um amigo querido com aquellas iniciaes no seu nome. É justamente estudante de medicina e natural de Vizeu! O acaso não podia reunir tudo isto. Havia por tanto o intuito de fazer cobardemente uma insinuação infamissima. Isto não é licito a romancista nenhum.

A primeira impressão que senti foi a da repulsão e do tedio. Saindo de casa pouco depois da leitura do seu periodico, procurei o meu amigo para lhe ler a passagem que lhe dizia respeito, e pôr-me á sua disposição no caso que precisasse de mim para pedir quanto antes á redacção do Diario de Noticias a satisfação de honra, que homens de educação e de brio não poderiam de certo recusar a semelhante aggravo.

Em casa do meu amigo acabo porém de saber, cheio de confusão e de surpresa, que elle desappareceu e que é ignorado o seu destino!

Este desapparecimento e a coincidencia achada na carta do doutor levam-me desgraçadamente a acreditar que por extranhas fatalidades o meu infeliz amigo se acha involuntariamente envolvido n'este tenebroso negocio. A data do desapparecimento d'elle condiz perfeitamente com a que encontro na carta do seu correspondente. É claro que ha pois em volta da pessoa de A. M. C., uma intriga real, uma emboscada talvez, uma traição.

Serei tristemente obrigado a ter por veridica, no todo ou em parte, a noticia que leio na sua folha?

Julgo do meu dever assegurar o seguinte:

Não sei o que o meu amigo A. M. C. ia fazer alta noite a essa casa desconhecida, tendo uma chave d'ella, martello e pregos. Não sei porque se declarou auctor do assassinato, negando-o depois. Ignoro a intima verdade d'estas contradicções.

Mas o que sei, aquillo de que posso já dar testemunho, e não só eu, mas amigos, mas numerosas pessoas, é que na noite que se mostra ter sido a do assassinato elle esteve, até quasi de madrugada, em minha casa, conversando, rindo, bebendo cerveja.

Saiu talvez ás tres horas da noite.

Declaro tambem, e isto póde ser egualmente apoiado por seguras testemunhas: que ás nove horas da manhã do dia seguinte estive no quarto d'elle. Ainda dormia, acordou sobresaltado á minha voz, e tornou a adormecer em quanto eu procurava entre os seus livros um volume de Taine.

As donas da casa que o hospedam disseram-me que elle entrara pela madrugada.

--Ali pela volta das tres e meia, conjecturavam ellas.

Ora da minha casa, d'onde saiu ás tres, até casa d'elle, onde entrou ás tres e meia, o caminho que é longo, occupa justamente este espaço de tempo.

Por consequencia, respondam: quando commetteu elle o crime? O emprego do seu tempo está todo justificado: das nove da noite até á madrugada em minha casa, n'uma conversa jovial e intima; da madrugada até ás nove, n'um somno pacifico em sua propria casa.

Resta unicamente a meia hora do caminho, da qual não ha testemunhas. É crivel que em meia hora podesse ir alguem a essa casa, preparar opio, fazel-o beber a um homem, falsificar uma declaração e vir socegadamente dormir? Tem isto logica?

Demais o crime foi commettido n'uma casa, o opio foi deitado n'um copo d'agua, dado traiçoeiramente. O cadaver estava meio despido. Tudo isto indica que entre o assassino e o desgraçado houve uma entrevista, tinham conversado intimamente, tinham rido decerto; o que depois morreu tinha talvez calor, poz-se livremente, tirou o casaco, contaram porventura anedoctas, e n'um momento de sede, o opio foi dado n'um copo d'agua. E tudo isto se faz em meia hora! em meia hora! Devendo, meus senhores, descontar-se d'esta meia hora o tempo que vae de minha casa á casa do crime, e d'ahi a casa de A. M. C.! Póde isto ser?

Agora outro argumento: Eu conheço A. M. C.: o seu caracter é digno, impeccavel; o seu coração é compassivo e simples; a sua vida é laboriosa e isolada; não existe n'ella nem mysterio, nem aventura, nem pathetico: estava para casar, sem romance, trivialmente.

Eu sabia de todos os seus passos, conhecia as suas relações. Estou certo que nunca viu o assassinado, o qual, no dizer do doutor, parecia extrangeiro, sem relações aqui, e domiciliado ha pouco tempo em Portugal!

Poderia ser um encontro casual, uma rixa inesperada? Impossivel. Se o homem foi encontrado estendido n'um sophá, morto com opio!

Poderia M. C. ter sido assalariado para commetter este crime? Que loucura! Um homem da sua intelligencia, do seu caracter, da sua elevação de espírito! Além de que, hoje o emprego de homicida, regular e devidamente retribuido como uma funcção publica, não existe nos costumes.

Póde-se conceber que um homem que premedita um crime esteja até ao momento decisivo distrahido, espirituoso, desabotoando os seus paradoxos, bebendo cerveja? E que depois vá socegadamente dormir, e que um amigo que o visite na manhã seguinte encontre sobre a sua banca de cabeceira, uma chavena de chá e um livro de historia?

E dê-se isto com um homem de caracter timido, de habitos modestos, homem de estudo, sem energia de acção, e de uma notavel franqueza de impressões!

Se me perguntarem, porém, porque apparece M. C. de noite n'aquella casa com um martello, com pregos, e se declara assassino,--isso não o sei explicar.

Suspeito que haja uma grande influencia que peza sobre elle, alguem que com promessas extraordinarias, com seducções indisiveis, o obriga a apresentar-se como auctor do crime. M. C. evidentemente sacrifica-se. Por quem, ignoro-o. Mas sacrifica-se, e na ignorancia de que estas dedicações são sempre desapreciadas perante o trabalho da policia, quer expiar o crime de outro; perde-se para salvar alguem.

Com que interesse? por que seducções? Não sei explicar. Elle, tão indifferente ao dinheiro! tão rigido de costumes e de sensações!

Pois bem! M. C. póde sacrificar-se; póde-o fazer. Nós, seus amigos, é que não podemos consentil-o. O seu corpo, que lhe pertence exclusivamente, póde dal-o á infecção d'um carcere, ou ao peso d'uma grilheta. Mas o seu caracter, a sua honra, a sua reputação, a sua alma, essa pertence tambem aos seus amigos, e a parte que nos pertence havemos de defendel-a corajosamente.

Não! M. C. não foi o assassino. Dil-o a evidencia, a fatal logica dos factos, a terrivel mathematica do tempo, o conhecimento do seu caracter, e a coherencia dos temperamentos, que é uma verdade nas sciencias physiologicas. Não, não é o assassino. Se o diz, está louco, mente. Digo-lh'o claramente, em frente, diante dos seus proprios olhos fitos sobre os meus:--Se te declaras o auctor d'esse crime, mentes!

Elle tem de certo o senso moral transviado. Se me deixassem fallar-lhe!... Esclareçam-lhe, pelo amor de Deus, aquella rasão cheia de escuras nuvens da paixão e da dôr! Isto é afflictivo! Honra, amor, familia, esperança, tudo esqueceu esse homem! Que se lembre, o desgraçado, que não é só n'este mundo. Que se lembre que talvez a estas horas, no fundo da provincia, sua mãe, suas irmãs, sabem já que elle está aqui apontado como assassino! Que se lembre da terrivel deshonra, do seu futuro perdido, das horas solitarias da prisão, da atroz vergonha de um interrogatorio publico, e do echo profundo que faz na alma humana o ruido sinistro dos ferros da grilheta.

Não ponho no fim d'esta carta o meu nome, porque presinto vagamente n'este grupo de successos, confusamente conglobados perante a minha apreciação, a passagem mysteriosa e fatal de um crime que vae poderosamente na direcção do seu fito, esmagando e despedaçando os estorvos que o impecem. Ora eu não quero que a publicidade do meu nome leve os cumplices no attentado de que se trata, ou porventura a policia, a aniquillar ou a embaraçar de qualquer modo a intervenção expontanea que eu proprio vou ter no descobrimento dos reus. Conto com os meus recursos, mas preciso para os pôr em pratica de toda a minha liberdade.

Creia-me, senhor redactor, etc—Z.

+DE F... AO MEDICO+