Ricardo de Almeida sentiu no seu braço o tremor do braço de Margarida, quando, por noite de lua cheia, passeiavam á Beira-Douro, no sitio de Sovereiras, em S. João da Foz. N’aquelle relanço perpassára por elles um encapotado.
A franceza vira uns olhos faiscantes por sobre a fimbria avelludada da capa: eram os olhos de Nicoláo de Mesquita. Voltára o pescoço para observar-lhe o andar: reconheceu-o.
--É o Mesquita! murmurou ella assustada, amiudando o andar.
--Devagar! disse o fidalgo do Pontido. Que importa que seja?!
--Dizes bem... Que importa que seja?
Nicoláo voltára no encalço d’elles apertando o pé. Ricardo de Almeida deu tino d’isto, e affroixou o passo. Margarida tirava por elle com força.
--Que significa este medo? perguntou o moço, offendido da inquietação da franceza.
--Nada, meu amor, disse ella.
Ricardo parou, e Nicoláo foi ávante.
--Queria vêr-te indifferente á apparição d’este homem! observou Ricardo com intenção, e gesto magoado.
--Creança! ciciou ella com encantador sorriso. A indifferença é o despreso, e eu odeio.
Entraram silenciosos em casa, e viram ao longe o vulto na esplanada que entesta com a fortaleza. Ricardo saiu rebuçado e armado. O do Vidago já lá não estava. Deteve-se o indiscreto cioso nas travessas visinhas de sua casa.
Eram onze horas.
A franceza abriu as janellas, sentou-se ao piano, e cantou uma romança franceza. As vibrações da voz eram desnaturaes. Havia a paixão da saudade n’aquelle cantar.
Nicoláo de Mesquita escutava-a da janella do hotel, e Ricardo da escuridão de uma viella intransitada.
Calou-se a voz.
O marido de Beatriz sentou-se a escrever a quinta folha de uma carta a Margarida. O castellão de Aguiar foi de manso, por sobre tapetes, até ao piano de Margarida, e surprehendeu-a com os cotovellos apoiados no teclado, e o rosto entre as mãos. Tocou-lhe no hombro: ella expediu um grito argentino como a mais alta das notas que acabava de cantar, e surriu-se por lhe ser mais prompto o riso que as lagrimas.
--Tu amas Nicoláo? perguntou Ricardo com uma precipitação infantil.
--Que semsaboria! disse Margarida, e abaixou a fronte carregada.
--Porque estás triste? Que recordas?
--O tempo em que eu era feliz, meu amigo.
--Com Nicoláo?
--Não: com minha mãe, com meu marido, com a estimação propria, e com a estimação do mundo.
--E é Nicoláo quem te desperta essas recordações?
--Naturalmente... Foi elle quem tudo me roubou.
--Então não o amas? voltou elle com muita ternura, beijando-lhe as mãos.
--Nem que elle me restituisse tudo o que perdi.
No dia seguinte, o jockey de Nicoláo apresentou a Margarida, na ausencia do amo, uma carta volumosa.
--Quem te deu isto? perguntou a franceza.
--Um criado do hotel inglez.
Margarida leu as vinte laudas; quando a vista se lhe turvava, depunha a carta e enxugava os olhos. Finda a leitura, escreveu na margem da ultima folha: Esta carta é o prefacio da minha vingança. Lacrou-a e devolveu-a pelo jockey, dizendo:
--Se trouxeres outra, envio-te com ella a teu amo.
Assim que Ricardo entrou, Margarida foi cariciosamente aos braços d’elle, e disse:
--Vamos. Tens medo de fraquear, Margarida?
--Não. Se eu podesse fraquear, a mudança de terra seria debilitar-me, em vez de robustecer-me.
Na tarde d’este dia, Nicoláo de Mesquita viu passar em carro Margarida e Ricardo, caminho do Porto. Esperou-os no regresso até noite alta. Era uma cabeça perdida, a esta hora, a do miserando homem! Sabia que tinha duas pistolas entre mãos, e que sobre sua cabeça ia estalar a maior e ultima tempestade. O alvor da manhã bruniu-lhe o rosto livido de um verniz embaciado de cadaver. Ao raiar do sol foi para casa, que Margarida e Ricardo não voltaram.
Ás dez horas, estava febril no leito. Na sala do hotel, proximo do seu quarto, conversavam algumas vozes. Eram cavalheiros da provincia. Dizia um:
--O Ricardo e a franceza embarcaram para Lisboa ás nove horas.
--Gasta como um principe o transmontano!
--Que fortuna tem elle?
--Dizem que está vendendo.
--A mulher vale bem a pena de gastar-se a fortuna, e ficar a gente com a doce recordação de a ter tido a ella.
--Não pensou assim Nicoláo de Mesquita, o antigo possuidor.
--Nunca vi esse leão.
--Conheci-o eu. Foi elle quem a tirou ao marido. Teve-a por ahi com modesto recato. Depois, foi casar-se na provincia com a mais bonita creança que os meus olhos viram em Chaves, e nas primeiras cidades da Europa. Aquillo é que é saber viver!
--Mas a Margarida Froment é uma grande mulher!... confessem!...
--Confessamos, mas quem a faz maior é o patavina do Ricardo! Estas soirées que elle dá são de um ridiculo monumental! Apresentou-m’a como sua hospeda! Que baboseira! A gente faz-se tola, e vae ser apresentado á hospeda...
--Assim é que se faz o escandalo por grosso.
--Quando elle tiver vendido as ameias de um castello, que tem na provincia, a hospeda muda de hospedaria.
--Tomáras tu que ella mandasse preparar aposentos em tua casa...
--Pagando-m’os.
--Maganão! por tua vontade não espera ella que o Ricardo venda os torreões do solar dos Almeidas por quem sempre o Tejo chora...
--Era publica e notoria a tua paixão.
--Gostava d’ella: não ha nada mais humano.
--Mas parece que não mareaste bem n’aquelle rumo... Foste a pique, eim?
--Ha derrotas que são triumphos. Fez-me o favor de me offerecer a sua amisade fraternal.
--Que irmã! É uma honra ser irmão d’aquella Margarida...
--Confessemos que a mulher é leal. Ave rara n’esta terra!
--E mais rara nas aves arribadas de França.
O fallarío proseguiu. Nicoláo ouvira tudo encostado aos alisares da porta.
Entrou um novo interlocutor, que foi muito festejado. Era Raphael Garção que chegava de Chaves.
--Aqui está quem conhece Ricardo de Almeida... Sabes que elle foi hoje para Lisboa com a franceza?
--Foi! ó diabo! eu vinha conquistar a franceza! disse Raphael. Nunca a vi! E eu não posso ser mais que Cesar. É preciso vêr para vencer; por em quanto, apenas fiz o que pude: cheguei.
--Vens mal informado! É de uma fidelidade, que toca o limite do escandalo. Vinhas a isso?
--Algum de vossês conhece Nicoláo de Mesquita? perguntou Raphael.
--O antecessor de Ricardo?...
--Como antecessor de Ricardo?! Que tem a franceza com o Mesquita?
--Estás em dia!... Pois não sabes que o Mesquita veio de França com esta mulher?
--Na provincia ignora-se essa coisa... Pois... Vocês teem a certeza...?
--Vi-os eu no Porto, em 1834 até 1839. Isto é do dominio universal desde a rua da Reboleira até á viella de Fradellos, na cidade invicta!
--Sabem se elle está por ahi, o Mesquita?
--Não.
--Deve estar, e eu vim procural-o. Saí de Chaves a buscal-o em casa. Disseram-me que elle tinha saído para Villa Real. Em Villa Real tive noticias que elle passára em Amarante. Em Amarante disseram-me que o tinham encontrado em Baltar. O homem está aqui e agora me convenço de que a franceza não é estranha a esta mysteriosa jornada. Pobre Beatriz! Lembras-te d’aquella minha prima que te mostrei em Chaves, Albuquerque?
--Ainda ha pouco falei d’ella. Que linda mulher! Já sei que ella casou com o Mesquita. Não lhe fazias tu a côrte n’aquelle tempo?
--Amei-a com o unico amor nobre e santo que tenho experimentado; mas, como tudo que é nobre e santo não apega n’esta lama do mundo, assim que a vi despregar o vôo para as serenas regiões do matrimonio, agarrei-me ao pandeiro de uma andaluza, e fui terras de Castella dentro, em conquista d’aquelle gallego coração, que só me comprehendeu, depois que eu lhe mostrei um porte-monnaie maior que o coração. Quando voltei, achei minha prima casada com o primo Nicoláo. As melhores flores d’aquelle rosto estavam amortecidas; mas ainda assim, não sei de outra mais linda. Ha de haver seis dias que cheguei a Chaves, e encontrei grande agitação em casa do tio Martinho Xavier. Era Beatriz que estava em perigo de vida a lançar golphadas de sangue...
Abriram-se de golpe as portas de um quarto, e appareceu Nicoláo de Mesquita, com as faces incendidas e os cabellos descompostos. Volveram todos áquelle ponto os olhos, e Raphael Garção vacillou em reconhecel-o.
--O sr. Raphael Garção pode entrar no quarto de Nicoláo de Mesquita—disse o morgado n’um tom solemne, que pareceria ficção theatral, se elle não estivesse febricitante.
O de Fayões entrou como espavorido d’aquelle aspecto esgazeado.
--Minha mulher que tem? perguntou Nicoláo com a respiração anciada.
--Não a vi. Encarregou-me o tio Martinho de procurar o senhor Mesquita, e dizer-lhe que a prima Beatriz estava em perigo. Quiz desempenhar o recado, e vim dar-lh’o ao Porto.
--Eu parto sem demora. O senhor Raphael Garção vae dar-me sua palavra de honra de occultar de minha prima que me encontrou aqui?--disse solemnemente Nicoláo.
--É escusada a solemnidade do juramento, senhor Mesquita.
--Dirá que me foi procurar á quinta da Murça.
--O que vossa excellencia quizer que eu diga.
--E, se ella tiver morrido, meu Deus! exclamou o morgado. Pois o ceu ha de castigar-me assim, por eu não saber esconder n’este perdido coração aquelle anjo! Oh!... que infernaes abysmos eu tenho cavado em redor de mim!... Hei de afinal despedaçar-me, como aquella maldita vaticinou!... Alli fóra, senhor Raphael, contaram-lhe o meu opprobrio! Não sabe, não sabe que aviltada alma é a minha!... Eu vim aqui por amor de uma mulher perdida, que passeia orgulhosamente a sua devassidão á luz do sol. É uma condemnação de que não póde salvar-me a mulher sem nodoa, a doce e celestial creatura, que eu amo tanto!... Deus não m’a ha de levar! Tão nova e tão linda!... Como eu a adoro, senhor Garção!... Creia que eu amo minha mulher com o ardentissimo fogo de um remorso, que me está sendo a tortura dos reprobos!...
Raphael ouvia-o espantado. A gesticulação e o cavernoso do clamor impressionavam; mas Raphael era futil de mais para ponderar a ingente dôr, que se desentranhava em termos de tragedia velha.
O leitor naturalmente faz o que não fez o frivolo morgado de Fayões; é capaz de rir-se, e perguntar-me que especie de doidice é a de Nicoláo de Mesquita.
É uma especie de doidice, que se chama a razão humana. Á gente de juizo pode offendel-a a resposta paradoxal; mas os philosophos, que tambem são uma especialidade de doidos, hão de admittir-m’a em sã e escorreita dialectica.
Levantemos o véu, onde elle não estiver roto, de sobre o coração do morgado da Palmeira.
Chegára elle da Foz com a alma lanhada de remorsos, e a cabeça estonteada de uma vertigem de amor. Estas duas paixões exacerbavam-se uma á outra. Sem a saudade o remorso seria chimera.
Margarida, era, ou parecia, feliz: despontaram-se logo os espinhos do remorso. Ficou o amor. Repelliu-o Margarida devolvendo-lhe a carta com um sarcasmo: esvaiu-se o amor. Logo, nem amor, nem remorso.
Outras duas paixões o assaltearam logo: o orgulho e o rancor. Estas paixões queria Nicoláo de Mesquita desabafal-as pelas boccas das pistollas; porém como as victimas se furtaram á hecatomba, sobrevieram as agonias da vingança mallograda, e logo a febre. Ora, desde que as doenças moraes se consubstanciam no corpo e se submettem ás prescripções da pathologia medica, a individualidade da alma anniquila-se, e a paixão, degenerada em desconcerto dos systemas sanguineo e nervoso, ou se cura medicinalmente, ou mata, com o pseudonymo de congestão cerebral, febre typhoide, ou qualquer nomenclatura significativa de que a pessoa sem duvida nenhuma, está bem morta. Os convalescentes d’estes ataques—e raros são os que succumbem—assim que o sangue lhes funcciona normalmente, sentem-se por egual alliviados de alma e corpo. A vertigem, que os quebrantou, deixa leves estragos no espirito, remediaveis com a mera acção do tempo. Nicoláo de Mesquita, agudissimamente affectado, como se viu, fez crise em menos de vinte e quatro horas, porque a seu favor conspiraram calmantes muito efficazes. A palestra dos provincianos, desdourando Margarida embaciara-lhe o prestigio. Bem sabem que thermometro é este do prestigio para graduar a temperatura do coração humano. Ao mesmo tempo, os encarecimentos á formosura de Beatriz, sem palavra que a desairasse, sobredouravam a aureola na fronte da esposa virtuosa. Depois, n’este conflicto, entre o odio a Margarida, e o amor escandecente a Beatriz, chega a nova da perigosa enfermidade. Nicoláo, se podesse escrever o relatorio das suas sensações e revoluções sanguineas e um medico as pozesse em termos de se lerem com um embrechado de nomes gregos, a gente não entendia nada; mas acreditava que se deram grandes phenomenos no coração do morgado. O capitalissimo de todos é que elle, depois da explosão que lhe ouvimos, não fallou mais em Margarida Froment, e galopou noite e dia arrebentando cavallos, até chegar a Chaves.
Beatriz estava á janella, quando seu marido e Raphael apearam.
Nicolau expediu, ao vel-a, um grito de jubilo. No topo da escada tomou-a nos braços, e beijou-a soffregamente. Era um phrenesi de ternura assustador!
Estava ella encantadoramente desmaiada. As mulheres assim pallidas, se a pallidez é symptoma de irem breve a outros mundos, devemos crer que o seu creador começa então a namoral-as para depois as levar para si.