Amanheceu festivo para a cidade do Porto o dia 15 d'agosto de 1814.
Ainda de noite começaram a povoar-se as janellas, e a animar-se as ruas com enorme multidão.
Ás sete horas da manhã já não havia casa que não estivesse adornada de ricas tapeçarias, pendentes dos balcões, que competiam com as galas das damas da cidade e da provincia debrusadas nos peitoris.
Muitas das janellas estavam emmolduradas em grinaldas e arcos de flôres; outras ladeadas por bandeiras; ao longo das ruas corria um verdejante tapete de hervas aromaticas.
Em muitos olhos brilhavam lagrimas d'alegre commoção, e em todos os labios desabrochavam sorrisos que eram espelho do jubilo da alma.
Que motivo havia, pois, para tamanha festa na cidade cujos habitantes, no lento curso de cinco annos, estavam costumados ao luto e á saudade dos que pereceram na catastrophe da ponte, nas linhas de defeza, nos hospitaes de sangue e dos que posteriormente haviam succumbido na demorada campanha peninsular contra os francezes?
Não eram estranhos os jubilos d'esse dia a tão funestos acontecimentos. Esperava-se a brigada de infantaria do Porto, composta dos regimentos 6 e 18, que victoriosa regressava de França depois de haver pelejado com egual denodo pela restauração d'estes reinos e de toda a peninsula.
Os feitos da brigada de infantaria do Porto haviam soado, com assombro dos portuguezes, em Portugal inteiro, mórmente os que praticára na batalha da estrada de Bayona, em França, no dia 13 de dezembro do anno anterior.
O senado da camara tinha-se reunido nos primeiros dias d'agosto para assentar nos festejos com que se devia celebrar o regresso das tropas. Resolveu que se levantassem arcos de triumpho, fazendo-se outras mais demonstrações de alegria, e encarregou da direcção dos preparativos o vereador decano José de Sousa e Mello.
Tratou-se, pois, com febril afan, de executar o programma dos festejos.
Construiu-se sobre a ponte do Poço das Patas a Porta da cidade[13], guarnecida com os castellos que lhe são proprios, e com as insignias concedidas por carta regia de 13 de maio de 1813; collocando-se na cimalha da porta a imagem de Nossa Senhora, que entregava a seu Divino Filho uma fita com a legenda Civitas Virginis.
O gosto da pintura, imitando velha cantaria, muito deu na vista das pessoas que percorriam as ruas e estacionavam boqui-abertas em frente do arco.
Tambem na cimalha foi embutida uma lamina de bronze com este distico:
HINC GENTI HOMEN;
HINC REGNO PLURIES SALUS;
HINC EUROPAE, ORBI
PRIMA LIBERTATIS LUX NOVISSIME AFFULSIT.
No alto da rua nova de Santo Antonio levantou-se um arco de triumpho, de ordem composita, firmado em quatro columnas; resaltavam dos intercolumnios arnêzes, grévas, escudos, bandeiras e lanças entrelaçadas com listões de murta, ramos de oliveira, palmas e louros. Nos dois grandes pedestaes sobre que descançavam as columnas, lia-se:
Sempre engrandeça a patria lusitana
Vosso nome immortal, claro, e subido;
E a Casa restaurada de Bragança
Tenha em thesouro seu vossa lembrança.
Condest.
Esta Cidade forte, e populosa,
Colonia antiga do poder Romano,
Cavou a sepultura temerosa
D'um gigante nas obras deshumano.
Affons. Afric.
Egualmente estavam enfloradas as cornijas, architraves e os frizos. Sobre o portico erguia-se o escudo das armas da cidade; por cima da balaustrada que corria ao longo do arco, havia quatro estatuas que figuravam:
A SAUDADE
Mostrava um livro aberto em que se lia: 1.º e 2.º de Setembro de 1809. (Dias em que saíram do Porto as tropas.) No pedestal estava escripto:
Deixando a Patria amada, e proprios lares
Se mostraram nas armas singulares.
Cam.
A ALEGRIA
Indicava em outro livro a data: 15 d'agosto de 1814. (Dia da entrada das tropas.) Lia-se no pedestal:
A Deus, ao Rei de quem a paga esperam
Fazer maior serviço não puderam.
Malac.
A VICTORIA
Desenrolava os annaes das acçoes em que a brigada entrára. Legenda do pedestal:
Aonde falta o premio a quem milita
Não habita a razão, nem gente habita.
Dest. d'Esp.
A ETERNIDADE
Tinha, entre o symbolo da serpente enroscada, os nomes dos regimentos: Infantaria 6 e 18. No pedestal:
Ajudados dos céos em mar e em terra,
Tem fechadas na mão a paz, e a guerra.
Malac.
Sobreposta a uma longa inscripção latina, rematava o grupo do arco uma esphera armilar, sustentada por Genios que entornavam flôres.
Nos intercolumnios posteriores correspondiam armas, espadas, tambores e alabardas unidos com feixes de louro, ramos de carvalho e oliveira.
Nos grandes pedestaes havia gravadas epigraphes em verso, correspondendo os ornatos aos da frente e as estatuas da balaustrada estas quatro:
O PORTO
Offerecia com a mão direita uma corôa de louro e empunhava na esquerda um ramo de carvalho, tendo no pedestal:
Orno os heroes que a patria eternizaram
E por ella seu sangue derramaram.
Elp.
O AMOR DA PATRIA
Offerecia com a direita um coração e apontava com a esquerda para o peito. No pedestal:
Meu valor, minha nobre fortaleza
Será gloria da gloria Portugueza.
Affons. Afric.
A PAZ
Offertava com a mão direita o ramo de oliveira, e sustentava na esquerda um feixe de palmas. No pedestal:
Que mais ditoso fim se lhe esperava
Que este agora que merecido estava!
Affons. African.
A DOCILIDADE
Arremessava com a mão esquerda um montão de cadeias, e com a direita segurava uma estreita fita. No pedestal:
O Soberano Author da redondeza
Da minha redempção deu-vos a empreza.
Bocag.
A tarja que, do outro lado, correspondia á inscripção lapidar, tinha figurados em relevo todos os petrechos de guerra, e os Genios, que d'esse lado sustentavam a esphera, desenrolavam uma fita em que estava escripta uma quadra do Condestabre.[14]
Ahi se agrupava impaciente a multidão, não só attrahida pela magnificencia do arco, senão tambem pelo variegado espectaculo das tropas da guarnição, que estavam postadas em alas até ao largo de Santo Eloy; bem como para ver pegar fogo á bateria collocada no topo da calçada dos Clerigos e destinada a salvar com vinte e um tiros de peça a passagem da brigada pelo arco.
Na rua nova do Almada baralhavam-se dois formigueiros de povo: um que, receoso do tumulto na aproximação das tropas, demandava o Campo de Santo Ovidio; outro que, tendo visto o obelisco levantado no meio d'este campo, ia procurar logar, na hypothese de encontral-o, junto ao arco da rua nova de Santo Antonio.
Era tambem sobremodo esplendoroso o obelisco n'aquelle campo. Rodeava o pedestal uma espaçosa varanda, adornada com ricas bandeiras portuguezas.
Sobre o pedestal, e em frente da rua nova do Almada, estava o retrato do principe real, com a seguinte legenda escripta na almofada correspondente:
Diga-o a Augusta Effigie contemplando:
Foi este o forte, o justo,
João, da Patria Pae, que a patria alçando
Deu pasmo a naturaes, e a estranhos susto.
Elp.
Em frente da rua da Boa Vista, resaltava o retrato da rainha, lendo-se no pedestal:
O louvor que se ganha pelos meios
Da virtuosa vida, este só dura,
Este de se perder não tem receios.
Bern.
E em frente da linha dos predios foi disposto o retrato da princeza, tendo no pedestal:
Que affavel se olharia a tua face,
Se o céo a nossos votos sempre amigo
Na fria estatua espiritos soprasse!
Filint.
Do lado da Lapa, em frente do quartel, viam-se as armas do reino e da cidade, unidas por um listão, em que estava escripto o dia da restauração do governo nacional
18 DE JUNHO DE 1808
lendo-se no pedestal os seguintes versos de Horacio:
HIC DIES VERE NOBIS FASTUS ATRAS
EXIMIT CURAS.
Todos os retratos foram collocados entre tropheus de bandeiras, e eram cingidos pelos emblemas da paz e do heroismo...
O bom povo portuense, na cegueira do seu jubilo, não reparava que esses emblemas, á beira dos augustos retratos, deviam ser uma pungente ironia se a familia real tivesse olhos para os ver atraves de enorme distancia, e interposto o mar!
No cimo do obelisco assentava a corôa real cingindo um manto de preciosa bordadura.
Pouco depois das oito horas e meia, um unisono grito de alegria annunciou a chegada da brigada ao Alto do Senhor do Bomfim.
Então começou o estrondear dos morteiros, o repicar dos sinos e o alarido dos vivas. Quando as tropas chegaram ao topo da rua nova de Santo Antonio, o enthusiasmo attingiu as raias do delirio, tamanho era o alvoroço da multidão que saudava com brados, com os lenços e os chapeus os dois regimentos portuenses. Durante todo o percurso até ao Campo de Santo Ovidio as flôres, as grinaldas e os ramos, que desciam das janellas, figuravam uma chuva iriada e espessa que ia orvalhar de petalas as fardetas dos soldados.
Se nos fosse dado ouvir os breves dialogos que se perdiam no borborinho geral, de grupo a grupo iriamos recolhendo vozes, posto que variadas, todas concernentes á festa d'esse dia.
N'uma das janellas da rua nova do Almada chalravam as visinhas da familia Strech, as quaes cinco annos antes tivemos occasião de conhecer em lances que verdadeiramente contrastavam com o espectaculo a que estamos assistindo.
Passava o regimento de infantaria 18, e diziam ellas.
--Vamos a ver se conhecemos o José Maria!
--Vem tenente e condecorado!
--Já sei. Mandou dizel-o o homem da Victorinha.
--Deve vir muito mudado!
--Será aquelle?
--Aquelle, menina! Aquelle militar tem mais de vinte e cinco annos...
--Vamos a ver se elle olha para a casa onde morou...
--Vês? Não olha! Vae até a olhar para o chão...
Era elle, effectivamente.
No meio da rua dialogavam dois velhos:
--Que pena não assistir o Trant!
--Está doente.
--Bem sei.
--E elle que tanto trabalhou para esta recepção!
No Campo de Santo Ovidio, antes da chegada das tropas: Um velho perguntando a um sujeito que estaciona junto d'elle:
--Falta-me a vista! Quem são aquelles que estão nas janelas do quartel?
--É o juiz e a camara. Olhe... Não vá mexer-se agora uma cabeça?
--Vejo, mas não distingo.
--Pois é o José de Sousa e Mello.
--Acho que elle tem de falar pelo senado?
--O programma dizia que sim.
--Esperaremos. Sempre não ter vista! Perco metade!
Chegaram as tropas ao Campo de Santo Ovidio e, depois de formar quadrado, fizeram continencia aos retratos da familia real, que, diga-se em abono da verdade, não responderam.
Os originaes estavam no Brazil; não viram.
Em seguida o brigadeiro Carlos Ashworth, commandante da brigada, levantou vivas ao principe regente e á rainha...
Os retratos não se mexeram.
Quando porém se ouviu um enthusiastico viva em honra da cidade do Porto, a cidade respondeu delirantemente pela bocca das tropas, do povo, e pelo acenar vertiginoso dos lenços nas janellas.
Dada a voz de descançar armas, desceu o já nomeado vereador decano, José de Sousa e Mello, que pouco antes viramos a uma das janellas do quartel. O brigadeiro commandante, tendo-se apeiado, dirigiu-se para elle. Então o camarista Mello recitou uma allocução que terminava por estas palavras: «A camara roga a vossa excellencia queira fazer-lhe a honra, não só de jantar hoje n'este quartel, mas de convidar em seu nome toda a officialidade d'estes dois regimentos, mandando vossa excellencia que, além d'isto, se distribua pelos sargentos, cabos e soldados o dinheiro que ali se acha para lhes supprir o jantar d'hoje.»
O brigadeiro Ashworth agradeceu amavelmente o convite, e asseverou que a officialidade acceitaria reconhecida.
A immensa multidão que enchia o Campo de Santo Ovidio rompeu n'este lance em freneticos vivas e, ao som das bandas marciaes, recolheram as tropas a quarteis, sendo seguidas por grande numero de pessoas, parentes, amigos, e conhecidos, que esperavam lhes fosse permittido abraçar soldados e officiaes.
Concedidas duas horas para desafogo de saudades, cinco annos retraídas, e gastas em ardentes expansões que as volveram momentos, foi o regimento de infantaria 18 ouvir missa á egreja da lapa e o regimento de infantaria 6 á egreja da Graça. Em ambos os templos houve lausperenne e Te-Deum.
Cumpridos os deveres do coração e da alma, começaram os da cortezia.
O brigadeiro Ashworth foi cumprimentar o senado á sala da secretaria do quartel de Santo Ovidio, convenientemente preparada para a solemnidade da recepção, recolhendo-se depois ao quartel general da rua nova do Almada, onde, pelo meio dia, recebeu a visita dos vereadores.
Cerca da uma hora da tarde, quando o brigadeiro já estava desembaraçado de felicitações officiaes, annunciou-se no quartel general o tenente Graça Strech.
O brigadeiro acudiu a recebel-o com a maxima familiaridade, que era testemunho de maxima consideração.
--Vem tambem cumprimentar-me? galhofou o brigadeiro.--Ora sente-se e fale.
--Venho solicitar um grande obsequio, respondeu o tenente.
Razão tinham as meninas da rua nova do Almada para não reconhecer n'elle o gentil e vigoroso José Maria dos dezeseis annos. Estava velho aos vinte e um, velho das geadas do infortunio que requeimam as flores da alma, e apagam nos olhos o brilho da mocidade. Tinha a magreza viril do soldado, mas cruzavam-se na sua physionomia umas sombras espessas que á primeira vista inculcavam que espirito e corpo haviam soffrido por egual. Como as palreiras meninas da janella disseram, figurava ter mais de vinte e cinco annos.
Mas, voltando ao dialogo do tenente com o brigadeiro:
--Que grande obsequio é esse? perguntou com affabilidade Carlos Ashworth.
--Venho pedir dispensa de assistir hoje ao jantar.
--Ah! meu amigo, isso não póde ser! O galardão é para todos; cumpre, pois, que cada um receba o quinhão que lhe cabe.
--Eu creio que já em França tive a honra de lhe dizer, meu brigadeiro, que precisava descanço porque soffria...
--E de me pedir a sua baixa, bem sei. D'essa vez não pude annuir ao pedido do meu bravo tenente, porque havia recebido instrucções particulares do senhor marechal marquez de Campo Maior para não licenciar soldados nem officiaes. Era justo que o Porto conhecesse todos os heroes d'esta brilhante campanha. O marechal tinha razão. Agora, meu bom amigo, tambem não posso ser-lhe agradavel como desejava. O tenente foi dos militares que mais se distinguiram desde Portugal a França. As ordens do dia falaram muita vez no seu nome. Conhecem-n'o. Seria uma affronta para o Porto que estivesse entre os seus muros, e recuzasse o talher que lhe offerece. Isso—disse o brigadeiro curvando-se amigavelmente para elle—são saudades, não quero saber de quem. Tambem eu as tenho... Vamos, assista ao jantar, que eu me empenharei por obter a sua baixa o mais breve possivel.
E estendeu-lhe cordealmente a mão.
O tenente Graça Strech saiu d'ali com os olhos no chão para não vêr a casa onde nascera, e atravessou as ruas da cidade absorto na triste concentração de quem está em terra onde não conhece ninguem.
Ia entregue aos seus pensamentos, e assim andou ao acaso até que outro tenente do mesmo regimento lhe bateu no hombro e disse:
--São quasi cinco horas e meia. Vamos lá ao jantar, homem. Está marcado para as seis.
Effectivamente, á hora designada, reunida a officialidade no quartel de Santo Ovidio, passou com os vereadores á sala do banquete, cuja ornamentação era brilhante.
A um e outro lado corriam arbustos, d'entre os quaes appareciam as armas de Portugal e Inglaterra. A um grupo de trophéus de guerra, com bandeiras d'uma e outra nação, que cobriam a cabeceira da mesa, fazia pendant um nublado em que se enleiava a serpente, symbolo da eternidade, tendo escripto no centro—Ashworth.--Guarneciam o nublado duas bandeiras com os nomes dos dois regimentos, atadas por uma fita em que se lia a data de maior gloria para a brigada do Porto—13 de dezembro de 1813.
No fim do banquete, ao som da banda de musica de milicias que tocava á porta do quartel, levantaram-se enthusiasticos vivas ao principe regente, á familia real, aos monarchas alliados, aos governadores do reino, generaes do exercito combinado, ás tropas victoriosas, e a todas as mais entidades que iam lembrando e mereciam a homenagem d'um calis de vinho.
Um só conviva correspondeu a esses ruidosos brindes com um movimento de labios: foi Graça Strech. E á noite, quando toda a cidade se illuminava festivamente, era profunda a escuridão na sua alma.
[13] É fiel a descripção d'estes festejos; O auctor
encontrou-a n'um opusculo da epoca.
[14] Poema heroico de Francisco Rodrigues Lobo.