O Anel Misterioso · Alberto Pimentel

Chapter 11: O que a vivandeira pensava

Retiraram os francezes pelo norte de Portugal, acossados pelo exercito anglo luso.

No dia 17 ganharam Montalegre, no dia 18 passaram a Alhariz, e no dia 19 entraram em Orense, depois de marchas tão violentas como trabalhosas, de perdas consideraveis, e de perseguida vivamente a sua rectaguarda pelas tropas alliadas.

Na passagem pelas povoações que medeiam entre o Porto e a fronteira, deixaram os invasores um rasto de sangue e fogo de que falam com assombro os documentos officiaes.

Á medida que fugiam foram espalhando a morte nas ultimas terras de Portugal, como se quizessem atulhar de cadaveres o abysmo cavado na gloria de Napoleão.

N'uma carta dirigida por lord Wellington ao secretario de guerra, escripta no quartel general de Montalegre, no dia 18, lê-se que: «O inimigo começou a retirada, como já informei a v. s.ª, destruindo uma grande porção dos seus canhões, e munições. Ao depois destruiu o resto d'ambos, e grande parte da sua bagagem, sem conservar mais do que quanto pudessem levar os soldados, e poucas mulas. Deixou ficar os doentes e feridos; e o caminho até Montalegre está juncado de cadaveres de cavallos, e mulas, e soldados francezes, que foram mortos pelos camponezes, antes que a nossa guarda avançada os pudesse salvar. Esta circumstancia é o effeito natural da maneira por que o inimigo faz a guerra n'este paiz. Os soldados teem saqueado e morto a paizanagem, a seu arbitrio; e eu tenho visto muitas pessoas pendentes enforcadas nas arvores ao longo das estradas, executadas por nenhuma outra razão, que eu possa saber, senão porque não eram amigas da invasão franceza, nem da usurpação do seu paiz; e podia traçar-se a rota da sua retirada, pelo fumo das aldeias a que elles lançavam fogo. Temos tomado cousa de quinhentos prisioneiros. Em tudo, o inimigo não tem perdido menos de um quarto do seu exercito, e toda a sua artilharia e equipagem, desde que nós o atacámos junto ao Vouga.»

O marechal Beresford afina pelo mesmo tom:

«Não é possivel pintar a cruel e infame conducta do inimigo; ella póde ser facilmente traçada pelos lamentos dos infelizes paizanos, das mulheres e das crianças, e pelo fumo das villas, aldeias e casas incendiadas: elle a nada perdôa: esta villa (Amarante) está inteiramente destruida: a de Mezão Frio o está em proporção do tempo que tiveram...»

Passavam, pois, os francezes, devastando, incendiando, matando.

Quiz o duque de Dalmacia que o occaso da sua invasão fosse allumiado pelas labaredas do incendio.

Eram os ultimos lampejos d'uma victoria ephemera. Mas a voz da patria, á hora do resgate, erguia-se mais alto que o crepitar das chammas no pendor das serras, que os lamentos dos velhos e das crianças que succumbiam á ultima carnificina da segunda invasão franceza.

No Porto, governado militarmente pelo coronel Trant, grande era o jubilo, se bem que não tão cego que sir Arthur Wellesley não houvesse proclamado aos habitantes que os feridos e prisioneiros estavam debaixo da sua protecção, e que seria considerado criminoso quem os offendesse.

Em Lisboa, mal que no dia 17 se teve noticia official da restauração do Porto, salvou o castello de S. Jorge, sendo correspondido pelos navios de guerra inglezes surtos no Tejo; saiu bando para que a cidade se illuminasse por trez dias, no ultimo dos quaes mandou o governo cantar um Te-Deum na Basilica de Santa Maria Maior.

Internado o inimigo no territorio da Galliza, as operações do marechal Victor na Extremadura hespanhola, ameaçando nova invasão de Portugal pelo Alemtejo, obrigaram sir Wellesley e o marechal Beresford, solicitado tambem o primeiro pela junta central de Hespanha residente em Sevilha, a marchar com seus respectivos exercitos para o sul do reino.

Retirou, pois, sir Wellesley, posto que a despeito do governo portuguez, para a cidade do Porto, d'onde passou a Coimbra, Thomar, Constancia, e Abrantes, acampando na margem direita do Tejo. O exercito portuguez acompanhou o movimento retrogrado do exercito inglez, marchando para Abrantes, no intuito de atacarem em commum o marechal Victor, que estanceava nas visinhanças do Guadiana. Não se demorou, porém, o marechal Victor n'esta posição. Avançou, com os seus 90:000 homens, para a margem esquerda do Tejo, no intuito de o passar na ponte d'Alcantara.

Reportemo-nos ao dia 14, dia assignalado pela brilhante defeza d'esta ponte durante mais de seis horas.

Eram oito da manhã quando o inimigo, em trez columnas, rompeu o ataque por differentes pontos.

D'uma e outra parte foi terrivel o fogo da artilharia até que, cerca do meio dia, vendo o regimento de milicias de Idanha-a-Nova consideravelmente dizimadas as suas fileiras, retirou em debandada, deixando ficar no campo apenas a legião lusitana.

Em tão desesperada conjunctiva, o coronel Mayne mandou incendiar as minas da ponte, rompendo a explosão apenas por um lado, e ao major Grant confiou o commando das baterias para proteger a retirada dos nossos, que se realisou pelas trez horas da tarde.

A cavallaria franceza vivamente perseguira então a nossa pequena divisão, sem que todavia pudesse impedir que se acautelassem os feridos e juntassem os dispersos.

Ora um dos feridos na defeza da ponte d'Alcantara chamava-se José Maria da Graça Strech.

Quando, em logar seguro, o tiraram d'um carro, onde lhe eram companheiros outros valentes portuguezes, a muda alemã, como geralmente chamavam a Rosina Regnau, esteve a ponto de trair o segredo do seu disfarce, vibrando um doloroso grito, o qual se apagou n'um rouco murmurio, que é, em lances afflictivos, o supremo esforço dos que não teem voz.

E logo correu a encostar ao peito a cabeça do ferido, a examinar a ferida, e a perguntar por gestos se poderia resultar perigo.

Os soldados, condoídos de tão carinhosa dedicação, responderam logo, desde muito costumados a prognosticar sobre ferimentos, gesticulando negativamente.

E a muda poz as mãos, levantando os olhos ao céo e entrou de affastar os cabellos de Graça Strech, banhados de suor frio, para contemplar-lhe a physionomia levemente alterada.

Elle sorria-lhe com os olhos marejados de lagrimas e serenava-a acenando-lhe meigamente com a mão.

Um dos soldados, abeirando-se de Graça Strech, disse curvando-se para elle:

--O que tu tens de valente tem ella de boa! Sois dois irmãos dignos um do outro.

Graça Strech encarou n'elle e meneou a cabeça; a muda ficou indifferente a curar as feridas do irmão.

E só depois que não podia ser vista nem ouvida de estranhos, começou, alternando palavras com beijos, a falar-lhe tão baixinho, tão baixinho, como se até dos ouvidos d'elle guardasse o seu segredo, e só quizesse que a escutasse a alma...

--Não é nada, José, meu José. Elles disseram e eu agora bem vi. Sabes que fui vivandeira e que tambem entendo o meu pouco de feridas. Não! A morte não te rouba d'esta vez á tua vingança e ao meu amor.

--Rosina, minha adorada Rosina! Alma pura! Coração nobilissimo! Obrigado. Curva-te sobre a minha bocca; queiro beijar a tua face...

--É o primeiro beijo! murmurou ella circumvagando um olhar cauteloso.--É o primeiro beijo que de ti recebo... Obrigada, meu Deus!

--Sim, tu és muito melhor do que eu... Tens-me dado tantos, tantos.. Mas—e perdoa-me, Rosina, perdoa-me—a minha alma só agora te póde beijar livremente...

--Ó felicidade!... Praza a Deus que se este beijo me abre a tua alma eu a chegue a possuir inteiramente, porque o amor, meu José, é tão egoista, tão egoista...

--E não crês possuil-a ainda?

--Não. Todavia tenho esperança... Virá um dia. Cala-te, que te faz mal falar... Já não foram pequena felicidade estas palavras, por que, tu bem sabes, eu só tenho palavras para ti e para... Deus.

Foi longo e reparador o primeiro somno do ferido.

Rosina Regnau velou á cabeceira da tarimba, absorta nos seus pensamentos pela primeira vez illuminados por um raio de sol. Estava folheando o roseo poema do primeiro beijo, decompondo em estrophes maviosas a harmonia que da alma subira aos labios. Era a primeira gotta de orvalho na aridez do seu destino, uma parcella de ternura em recompensa dos thesouros que ella por tanta vez prodigalisára sobre as faces de Graça Strech.

O primeiro beijo! A santa loucura das almas que se amam, como diz a trova:

Foi aqui mesmo, á tremula
Sombra do olmeiro,
--Dizia o pastor Lícidas--
Aqui, aqui,
Que eu hontem n'estes labios
Tive o primeiro
Beijo da minha Flérida,
E endoideci![10]

E baralhavam-se-lhe os pensamentos com a precipitação da ephemera demencia que a felicidade dá.

--Sim... eu começo a ser feliz. Diz-me o coração que o serei... Mais provas! mais provas, senhor meu coração! Mostre-se digno d'aquella enorme alma, inspire-lhe confiança para lhe recolher os segredos, e possua-a, e juntem-se, e prendam-se, e identifiquem-se, tão unidos, tão unidos, que nem a morte os possa separar... Sem isso não ha felicidade completa... Sim, bem vês, pobre coração, meu pobre coração que tanto tens soffrido, que se aquelle annel fecha ainda a saudade de um amor redivivo, não pódes por emquanto conquistar a fortaleza que se não renderá. Tu sabes lá como a saudade se bate entrincheirada detraz de um tumulo! Então terás ainda muito que soffrer e que luctar, pobre doente para quem hoje raiou o primeiro symptoma da cura, meu triste coração tão soffredor! Mas forceja, vá, porfia, esforça-te por arrancar-lhe o segredo... Se aquella é a ultima memoria de uma irmã querida, alegra-te, pobre louco, porque nem a amante desluzirá a irmã, nem a irmã desluzirá a amante. A alma d'elle é tamanha que chega para mim e para ella. Para o que não chega é para duas amantes, que se disputam palmo a palmo o terreno, que luctam, que combatem, que oppõem ciume a ciume, despeito a despeito, embora uma esteja morta e outra viva... Não, «a gentil vivandeira» não soffre competencias. Já se fez amar d'um exercito; é preciso que se faça amar d'um homem. Pois então perde-se tudo, a patria, a liberdade, o socego, as florestas das Ardennas, as minhas queridas florestas das Ardennas, que talvez não mais torne a ver, e as montanhas do Hainaut e do Luxembourg, que eu conheço desde pequenina, e o Semoy e o Lesse e o Ourthe e o Eure, tudo, n'uma palavra, perde-se uma vida inteira de dezoito annos, para amar um homem, para ser a sua sombra, o seu cão, e não se ha de possuir ao menos todo o seu coração, todos os seus pensamentos, os seus segredos todos? Quem me diz porém que não hei de vencer? Não vi eu porventura tantas batalhas, não as vejo ainda, e não posso tirar da incerteza da victoria um bom agouro para o meu futuro? Dize-te, pobre Rosina, diz a ti mesma o que são os combates que tantas vezes tens visto. Pinta um quadro para ti. Anima-te! Olha... São duas as montanhas alcantiladas, sombrias, enormes... Uma defronte da outra... No meio um rio sereno, e crystalino a principio... depois vermelho de sangue. Sobre o rio uma ponte, e sobre a ponte, como a desabarem para ella, as montanhas. E n'uma e outra os exercitos, os uniformes variados, os kepis multicôres, as espadas reluzentes, os cavallos pendurados das fragas, os cavalleiros pendurados dos cavallos, as carretas suspensas na ladeira, as peças que abrem a sua bocca de fogo para vomitar o fumo e a morte, a voz dos clarins e a voz dos commandantes, pragas, juras, maldições, gemidos, blasphemias, sacrilegios, e a turba ora a estreitecer, a apertar-se, a juntar-se em pinha, ora a crescer, a alargar-se, a fazer-se onda, a trasbordar, ora a rolar como avalanche pelo monte abaixo, ora a marinhar por elle, a trepar, a agarrar-se, tão espessa, tão escura, tão confusa como se fosse uma nuvem que saísse do rio, e o sol a doiral-a agora e logo o fumo a envolvel-a, e já se desencadeiam d'um e d'outro lado ameaçando chocar-se sobre a ponte, que corta o valle, e que afundará com elles, e baralham-se, enovelam-se, redemoinham, e apparecem uns, e desapparecem outros, e tombam cadaveres ao rio, e estruge no ar a grita, e corre ensanguentada a agua, e são aquelles os que vencem, os que estão em maior numero, e vão esmagar os outros, e arvorar a bandeira... mas rolam de novo, precipitam-se, confundem-se, e são estes agora os que triumpham, lá se embrenham por entre o inimigo, passam como corisco, e assombram-n'o, fulminam-n'o, e a victoria é sua! Bem, Rosina Regnau, assim foi em Amarante e ainda agora em Alcantara; assim póde ser para ti. Quem te diria no hospital de sangue, quando o estavas contemplando adormecido, tão pallido, tão mergulhado no somno, e tu te lembravas de que eras franceza e elle portuguez, quando tu já o amavas e elle dormia, quem te diria, ó vivandeira ignorada, que dias depois havias de seguil-o por toda a parte, e perder a tua voz para que te não conhecessem, e encostar ao teu peito a cabeça d'elle, que caira ferido, e recber-lhe o primeiro beijo? Ninguem! Nem aquelle endemoninhado do Beauvier, que era o bruxo do exercito, e andava sempre a olhar para os astros, e adivinhava quando chovia, e a lua havia de ser cheia, aquella bonita lua cheia da França!... Ninguem, Rosina, ninguem! Pois tambem não ha magico na terra que saiba dizer se tu chegarás a vencer o seu coração de modo que te julgues tão poderosa, tão senhora do mundo como o imperador, e por feitio que sejas tão ambiciosa como elle, que não deixa palmo de terra a ninguem!...

Interrompeu-lhe este intimo monologo uma contração do ferido, que balbuciou monosyllabos.

--Sonha!--pensou ella—e quem sabe o que sonha? Estou aqui tão perto d'elle, a vel-o, feição por feição, linha por linha, a examinal-o tanto, que dir-se-ia querer contar-lhe um por um os seus cabellos, e sinto-lhe o halito na minha face, e fala, e só eu o oiço, e todavia não sei de quem são os seus pensamentos, nem o que querem dizer, o que está recordando, o que está sonhando, finalmente! Tenho diante de mim, como livro aberto, a sua physionomia e não posso lêr na sua alma! Sei que ha ali um mar mysterioso, e não posso sondal-o. D'uma vez—recordou ella—lia o meu pae Regnau os jornaes, e disse: «Fulano e sicrano foram á pesca das ostras.» E acrescentou: «E o imperador que as tem bem boas na Corsega!» E eu perguntei ao pae Regnau para que iam elles pescar as ostras, tão longe, se podiam pescar outros peixes no Sena. «Tontinha!--respondeu elle—porque das ostras é que se tiram as perolas, e é preciso metter-se uma pessoa ao mar para pescal-as!» Bem me ensinaste tu, pae Regnau! O mar esconde tanta coisa... que até esconde as perolas. Aqui estou eu á beira do oceano e não as vejo... As que eu procuro, vivem escondidas ali...

E apontou para o coração do ferido.

Os labios de Graça Strech pareceram descerrar um sorriso. Rosina, que, apesar dos seus pensamentos, estava attenta ao menor movimento, ao mais subtil perpassar d'uma sombra, estremeceu ao rebramir da tempestade interior:

--Sorri! pensou ella.--Havia n'este seu sorriso a melancolia de quem está recordando a felicidade perdida... Lembra-se talvez d'uma hora em que, rosto a rosto, juntas as mãos, sorrindo, falando, sonhando, lhes fugia o tempo mais rapido que o pensamento... E ella, a mulher que elle amava, era decerto formosa, muito formosa, e dizia-lhe que jámais haveria no mundo quem viesse a amal-o como ella... E elle acreditou-a, e por isso a ama ainda no tumulo, e jurou que, viva ou morta, lhe seria eternamente leal, porque o coração lh'o havia dado para todo o sempre... Ah! mas quem sabe, durante o combate, a quem ha de pertencer a victoria? O teu quadro, Rosina Regnau, é verdadeiro. Lucta até o fim, vivandeira, faze como os soldados que foram teus irmãos. Combate a saudade com a esperança. Soffre, porque o soffrer é de quem lucta. Mas porfia, conquista resignadamente esse coração onde desejas reinar, porque todo elle é preciso para o throno da tua felicidade.

Abriu Graça Strech os olhos e relanceou a Rosina um olhar suavemente triste.

--Sempre aqui!--segredou elle.

--Aqui é o meu posto de enfermeira voluntaria.

--Eu dormi, Rosina: dormi e sonhei... com minha irmã. Estava-a vendo aos cinco annos, vestidinha de branco, quando a fomos levar ás Chãs, e quando eu tinha seis... Nunca isto me esqueceu! Trepámos a uma cadeira para descer as maçãs que o padre capellão tinha a amadurecer no friso da sala. Augusta subiu denodadamente, mas faltou-lhe a coragem para saltar ao chão... E começou a gritar, a gritar, de sorte que o padre capellão a veiu surpreender com as maçãs escondidas na abada do seu pequenino vestido...

Sentiram-se passos.

--Cala-te! apostrophou Rosina. Cala-te! Rosina Regnau já aqui não está. Fica apenas a muda allemã.

[10] A invenção dos jardins por Gessner; tradução do sr.
Visconde de Castilho (Antonio Feliciano).