A
Francisco Teixeira de Queiroz
Auctor Da Comedia do Campo
POR
BENTO MORENO
Sauda com superior admiração e indelevel reconhecimento
Camillo Castello Branco.
A MORGADA DE ROMARIZ
I
Vi esta morgada, ha tres annos, em Braga, no theatro de S. Geraldo. Estava em scena Santo Antonio, o thaumaturgo. A commoção era geral. Tanto a morgada, como seu marido, o commendador Francisco José Alvarães, choravam, ás vezes; e, outras vezes, riam se.
Era uma senhora de espavento, avermelhada, com as frescuras unctuosas e joviaes dos quarenta annos sadíos, seios altos e aflantes, pulsos roliços e averdugados pela compressão das pulseiras cravejadas de esmeraldas e rubis.
Riu-se a morgada quando aquelle Santo Antonio do seculo XIII recitou ás raparigas uma poesia madrigalêsca de Braz Martins,--bom homem que esteve quasi a regenerar o theatro nacional como elle deve ser. A poesia resava assim n'esta prosa innocente:
_Mimosa nasce a flor e vive ainda,
Se arrancada não foi logo ao nascer;
Assim a virgem nasce e vive pura,
Se o vicio não trabalha p'ra perder_.
Et coetera, com a mesma uncção e musica.
A morgada sorrira-se para o marido; e elle, para mostrar que tambem percebera o chiste, formou um tubo com os beiços carregados de chalaças mudas, e disse com atticismo velhaco:
--Versalhada...
Ora, a morgada de Romariz, lagrimando com intelligencia na proza da oratoria, assim que algum personagem pegava de rimar, ria-se. Persuadira-se de que a missão dos versos era como a das cocegas. A natureza dera-lhe ao espirito aquelle feitio.
Remirei-a de esconso por sobre a espadua do esposo.
Ella bocejava nos entre-actos, até mostrar as campainhas; elle tosquenejava, e ás vezes, espriguiçando-se, grunhia:
--Estou massado.
--Podera...--obtemperava a esposa—a comedia bonita é... mas não ha nada como estar a gente na sua cama, Zézinho!
E dava tons lubricos ao diminutivo.
--Quem me lá dera...--volvia Alvarães deslocando as botas e dando folga e frescôr aos pés no aprazivel tunel dos canos.--O polimento estorcéga-me os calos...--queixava-se com azedume.--Comedias... Ora adeus! Patranhas...
--Modos de vida, homem...
E abriram juntos as boccas spasmodicas.
--Ao menos se eu viesse ceado...--dizia elle.
--Fizesses como eu...
--Não me cabia cá...--e batia com os dedos dobrados no alto ventre como se faz ás melancias suspeitas.
--Já agora hemos de vêr a scena da gloria que é o mais bonito...--opinava a esposa.
N'este comenos, visitou-os um meu conhecido de Famalicão. Ao erguer o panno, sahiu de lá, e entrou no meu camarote. Foi elle quem me disse o nome das duas pessoas, accrescentando:
--Ali, onde a vê, tem romance; dá materia para dois tomos...
--Picarescos? Não me servem... Eu quero philosophia: os meus leitores querem philosophia, percebe o senhor?
--É o que ella tem mais que dar.
--Ora essa!... O senhor sabe que ella tem isso? Queira apresentar-me...
--Deus me defenda... Eu disse á morgada que vossê era romancista...
--E ella que disse?
--Riu-se.
--Riu-se!? É boa... E o marido...
--O marido disse: Arreda!
II
Vejamos a philosophia que elles tem.
Melhor que uma estirada narrativa, desfigurada talvez pela imaginação do informador, li um processo que o sujeito me emprestou. Correra o pleito entre partes que litigavam em materia de casamento. Figurava uma donzella depositada judicialmente. O pai da nubente impugna, e allega que o pretendente a sua filha é um birbante de vilissima relé. O noivo, contrariando, expõe que o pai da sua futura e de origem tão canalha que, apezar de ser fidalgo da casa real, é filho de um salteador de estradas, como é publico e notorio, dizia o noivo, e accrescentava: «que não havia ainda vinte annos que o seu contendor exercitára o officio de fogueteiro em Villa Nova de Famalicão.» N'este conflicto, a depositada trancára o pleito vergonhoso acceitando outro marido que o pai lhe inculcou. A menina questionada era aquella morgada de Romariz, e o marido o commendador Alvarães.
Quanto a philosophia, este acontecimento pareceu-me assaz chôcho; eu pelo menos não lh'a encontrei, por mais que virasse do carnaz os personagens do processo. Louvei o procedimento da moça injuriada na pessoa do seu progenitor; mas o fermento de tal philosophia não me dava para levedar massa de cincoenta paginas. Abri mão do assumpto, e larguei-o ás imaginações florentissimas da minha patria. Porém, transcorridos dois annos, em um livro impresso em 1815, li uns nomes que tinha visto nos autos escandalosos. Examinei de novo o processo, e trasladei certas passagens que, alinhavadas a outras do referido livro, deram esta novella em que, por felicidade do leitor e minha, não ha philosophia nenhuma, que eu saiba.
III
Quando Villa Nova de Famalicão era um burgo de cem visinhos com um juiz pedaneo, sahiu d'ali para a côrte, em 1744, um rapaz de quinze annos, que principiára com seu pai officio de pedreiro. Assignava-se Antonio da Costa Araujo, escrevia limpamente e era esperto. Chamara-o a Lisboa um tio, mercador de pannos, estabelecido na Rua dos Escudeiros, que até ao terremoto de 1755 occupava parte do terreno hoje comprehendido na rua Augusta. Mathias da Costa Araujo, irmão do pedreiro, engraçou tanto com o sobrinho que, apezar dos poucos meios, mandou-o ás aulas dos jesuitas no pateo de Santo Antão, afim de o habilitar para clerigo, contra a propensão mercantil do moço. Mathias havia sido infeliz no commercio, e dizia que era máo modo de vida aquelle em que a prosperidade se desavinha da honra.
No 1.^o de novembro de 1755, o constrangido destino do estudante transtornou-lh'o a catastrophe em que seu tio pereceu debaixo da abobada da egreja de S. Julião, onde assistia ás missas dos fieis defuntos. Os seus medianos haveres armazenados devorou-lh'os todos o incendio. Ficou portanto em desamparo grande o estudante, e cuidou de amanhar sua vida, deixando arder sem saudade a grammatica latina do padre Alvares com os cartapacios correlativos.
Nicolau Jorge, mercador abastado, visinho e amigo do defuncto Mathias, condoido do sobrinho, chamou-o, ouviu-o discorrer a respeito da especie de mercadoria em que mais seguro negocio deveria tentar-se na crise do terremoto, e, applaudindo o, emprestou-lhe duzentas moedas de ouro. Leiloavam-se então, nas ruas e praças, fazendas avariadas por agua e fogo. Antonio da Costa Araujo arrematou por preço infimo fardos equivalentes ao seu avultado capital, pagando-os no mesmo acto com grande espanto do desembargador Torcilles, presidente das arrematações. Estabeleceu-se Costa Araujo no Campo de Santa Anna, e ganhou, no primeiro anno, com estas fazendas avariadas, doze mil crusados.[6] Volvidos seis annos, era um dos mercadores mais opulentos da côrte; morava no primeiro quarteirão da rua Augusta, á esquerda, indo do Rocio, e era geralmente conhecido pela alcunha de Joia. Tinha camarote effectivo na opera, banqueteava personagens de alta condição, recebia nos seus armazens a mais luzida sociedade de Lisboa com fidalga cortezia: chamava «joias» ás damas, e d'ahi lhe pegou a elle a alcunha desmaliciosa. Confluia ao seu balcão a flôr da cidade, por que ninguem o excedia na fina escolha dos atavios, no primor do gosto e em probidade de contractos. «Ali vinham—diz o coronel Francisco de Figueiredo—comprar-se os enxovaes para os grandes casamentos, o vestuario para todas as grandes funcções, de que houve muitas, entrando n'este numero os casamentos dos nossos soberanos, nascimentos de principes, os dias de annos de toda a real familia, e os trez dias das funcções da inauguração da estatua equestre do sr. rei D. José, o 1.^o de tão gloriosa memoria.»
Costa Araujo não compellia os devedores a pagarem-lhe judicialmente; que o infortunio dos que não podiam gosar a honra e o prazer da pontualidade fazia-lhe dó. Quiz o marquez de Pombal nobilital-o como fizera a outros commerciantes, mais para abater a fidalguia historica do que para levantar a burguezia industriosa. O Joia nunca pediu nem acceitou distincções. Foi toda a vida mercador, sempre ao balcão, ou encostado á hombreira da porta como hoje o não faria um caixeiro com a cabeça cheia de socialismo e oleo de amendoas dôces.
Á volta dos sessenta annos, Antonio da Costa Araujo enfermou de paralysia. Era solteiro. Chamou para sua companhia um irmão que tinha na terra natal, pedreiro como seu pae, e que nunca deixara de trabalhar, posto que o irmão rico lhe désse boa mezada, sem todavia lhe aconselhar officio menos grosseiro, por intender que são muitos os pedreiros felizes e pouquissimos os grandes do mundo que a inveja dos pequenos não perturbe.
O paralytico fez testamento em que repartiu o seu capital por diversos amigos, e deixou a seu irmão Bento da Costa tres mil peças de 7$500 réis.
Fallecido o Joia, appareceu em Famalicão Bento pedreiro, envergando um tabardo velho de briche, que exhibia com visagens consternadas, dizendo que não herdára outra cousa do irmão, o qual, tudo gastára e morrera pobre. O pedreiro, suppondo que o acreditavam, era boçal á proporção de avarento; faltava-lhe a velhaca finura que hoje em dia illustra os minhotos. Verdade é que não havia ainda gazetas que assoalhassem as verbas testamentarias; mas a noticia da herança de Bento chegára a Famalicão primeiro do que elle. Cincoenta e seis mil crusados e tanto! Quem poderia herdar secretamente riqueza tamanha n'um tempo em que bazofeava por Lisboa um argentario a quem chamavam O tresentos mil crusados, por que elle, vindo do Brazil, manifestára aquella colossal e quasi fabulosa quantia! Cem contos de réis, hoje em dia, é quasi uma vergonha possuil-os; e quem não fingir que tem essa somma quadruplicada, é um homem que, se souber governar-se com muito prumo, poderá talvez dispensar se de ser recolhido a um asylo de mendicidade.
O pedreiro era viuvo, vivia só, e tinha um filho soldado de artilheria do regimento do Porto, aquartelado em Valença. Quando a noticia chegou ao quartel, o rapaz, insano de alegria, desertou, confiado na herança. Entupiram-n'o, porém, o espanto e a consternação, quando encontrou o pai á orla da estrada a brocar uma penedia por conta de um lavrador. Recobrado do assombro, perguntou-lhe se não herdára tres mil peças de ouro. O velho poz os olhos espavoridos no céo, abanou a cabeça como os personagens da Iliada, desfechou contra o filho um esgar desabrido, e bradou:
--Tres mil peças!? tres mil diabos que te levem a ti e mais a quem levantou essa aleivosia! O que eu herdei foi um reguingote de saragoça já no fio. Se o queres, vai buscal-o, que elle lá está pendurado n'um gancho... Com que então, Joaquim, vinhas ao cheiro das peças?
--Vinha pedir-lhe, senhor pai—respondeu o moço com tristeza e respeito—que me livre de soldado, porque já não posso com o serviço. Estou doente, e preciso mudar de vida.
--Trabalha, faze como eu, que tambem não posso, e estou aqui a furar este calhau. Quizeste ser soldado... lá t'avém.
--Senhor pai, olhe que eu sahi da praça sem licença... sou desertor...
--Não me digas isso segunda vez, que te regeito esta broca á cabeça![7]
--Faz-me vossemecê uma esmola—replicou serenamente Joaquim—que eu antes quero a morte que as chibatadas... Sabe que mais, senhor pai?--proseguiu o desertor limpando o suor e as lagrimas—ou vossemecê me livra, ou eu vou juntar-me á quadrilha que anda na Terra Negra.
--Capaz d'isso és tu, alma do diabo! Sai-me da vista dos olhos que eu já te não enxergo, ladrão!
E, arrojando a broca e o maço pelo respaldo do penedo, sentou-se com os cotovellos fincados nas pernas, e scismou alguns segundos com a cara tapada pelas mãos esfoliadas e negras de terra.
O filho esperava, indeciso entre o odio e a compaixão. Se cogitava que o pai herdára as tres mil peças, e o deixava optar ente a chibata e a malta de ladrões, Joaquim sentia-se tremer de raiva; se, porém, a herança era uma invenção, o ar afflicto do velho sujo, roto e quebrado de trabalho, compungia-o.
N'esta vacillação, ergueu o pedreiro o rosto menos descomposto, e disse:
--Vai para casa que eu vou d'aqui fallar com teu padrinho... Ahi tens a chave; procura as peças e leva-as, que eu dou-t'as...
Esta zombeteira liberalidade incutiu logo em Francisco duvidas da herança. Entrou em casa e examinou toda aquella antiga e conhecida pobreza. Na lareira, entre cinzas, a panella de barro desbeiçada, e duas tijellas na trempe; o escabello corroido de caruncho, e a espaços espumado de gorduras lustrosas: o catre de bancos, e a enxerga rota e arripiada de palhiço: a candeia de ferro inganchada na parede; por baixo, pingada de sail, uma banca de pau santo com pés torneados, mas com as roscas esborcinadas, e gavetas de pinho em bruto com puxadores de corda. Sobre a miseria dos trastes, o lixo, a sordicia que o filho do pedreiro nunca assim vira, por que sua mãe ainda vivia, quando elle assentara praça. Aos pés da cama havia uma rima de cascabulho, grabatos de lenha, ferramentas quebradas, rodilhas e cacos. Em uma furquilha de quatro esgalhos pregada na trave mestra, pendia, coberto da fuligem da lareira, o albornoz poído que o irmão do Joia dizia ter herdado.
O desertor sentou-se na arca de pinho, contemplou aquella indigencia, e pensou comsigo:
--Acho que me mentiram... Meu pae não herdou nada... D'antes ainda n'esta casa havia uns lençoes lavados e pão á farta, quando recebiamos todos os mezes a moeda que o tio nos dava... E agora que ha de ser de mim?... Estou perdido!...
N'este comenos, assomou ao limiar da porta um visinho, que vira entrar o soldado.
--Estás por aqui, Joaquim Faisca?!--perguntou o Luiz Meirinho.
Convém saber que o filho de Bento ganhára alcunha de Faisca, desde que mostrou aos dezoito annos extraordinaria destreza em ferir lume no phosphoro dos ossos dos adversarios. O outro chamava-se o Meirinho, porque o havia sido do corregedor de Barcellos, e na opinião publica passára de quadrilheiro da justiça a capitão da quadrilha que infestava a Terra Negra. Continuava o officio, diziam alguns, ganhando na carreira dois postos de accesso.
--Vieste com licença?--perguntou o Luiz Meirinho.
--Não, senhor. Pedi-a, e não m'a deram—respondeu Joaquim, com o proposito de se acolher ao valimento do visinho, se o pai lhe não acudisse.--Eu estou doente do peito, e não posso com esta vida de soldado. Ouvi lá dizer que meu pae estava muito rico com a herança de meu tio. Desertei, cuidando que elle me livraria com dinheiro; mas agora mesmo o topei no Vinhal a quebrar pedra, e elle me disse que herdára um albornoz velho que ali está.
--E tu acreditaste?--atalhou o outro velhacamente.
--Á vista da miseria em que eu encontro esta casa...
--Pois fica sabendo que teu pae herdou tres mil peças. Sabes quanto fazem tres mil peças?... Cincoenta e seis mil e tantos crusados. Sabe toda a gente da villa que teu pae está riquissimo. Posso mostrar-te a copia do testamento. Teu pai é um miseravel, é a vergonha dos homens! Mata-se á fome, come duas tigellas de caldo por dia, e diz mal do irmão, porque lhe deixou um albornoz cossado, quando toda a gente sabe que o deixou rico...
--E o dinheiro?--acudiu Joaquim circumvagando os olhos pelos cantos da casa e da lareira.
--Dizem uns que o deixára em Lisboa a render, e outros querem que elle o tenha enterrado ahi n'esse chiqueiro; mas a minha opinião é que teu pae, se trouxe o dinheiro, não o tem em casa. Metteu-o debaixo d'alguma fraga ahi da serra por onde elle anda sempre a quebrar pedra.
--E que heide eu fazer, se elle me não livrar?--perguntou Joaquim.
--Eu sei lá, rapaz! Se o teu livramento depende do dinheiro de teu pai, não quizera eu estar-te na pelle! Levas as chibatadas da lei tão certo como eu quizera valer-te e não posso. Conheço-te desde rapazito, e nunca me hade esquecer que vai agora em dez annos, na romaria das Cruzes de Barcellos, me acudiste n'um aperto, e quebraste tres cabeças em quanto eu quebrei duas. Olha, Faisca, se te vires em apuros, procura-me; livrar-te de desertor, isso não posso eu; mas das chibatadas e da farda eu te livrarei...
--Como?
--Isso são contos largos... Ahi vem teu pai ao fundo da rua. Vou-me embora, que não posso encarar aquelle sordido avarento! Se eu soubesse que elle tinha o dinheiro no bucho, tirava-lh'o pelas guelas, e dava-t'o, rapaz!
IV
O pedreiro ainda vira o visinho a safar-se da sua testada.
--Que fazia aqui o Luiz Meirinho?--perguntou elle carranqueando.
--Nada: conversavamos...
--Eu cá á minha porta não quero coversas com ladrões, ouviste?
--Ladrões!... O Luiz não me consta... que...
--Passa tu na Terra Negra com dinheiro de modo que elle t'o bispe, e lá verás quem é o Meirinho. Hade haver tres annos que deixou o officio que rendia pouco; e, desde que não tem officio, comprou casa, tem cavalgadura, trata-se á regalona, come carne do açougue, e bebe do da companhia. E eu, que trabalho ha bons quarenta annos, custa-me a amanhar para uns feijões, e bebo agua da fonte.
--O sr. pai assim o quer...--atalhou Joaquim entre receoso e risonho—Perca o amor ás peças...
--E tu a dar-lhe!...--volveu iracundo o pedreiro—Já te disse que as procures!... Não herdei nada! não herdei nada!--e berrava convulsionado freneticamente, sacudindo os braços.
--Não grite assim que não faz mingua barregar!--atalhou o filho—A gente está conversando... ás boas... ein?
No aspecto do Faisca resumbravam sentimentos pouco filiaes. A ironia franzia-lhe os cantos dos beiços, ao mesmo tempo que a ira lhe avincava a testa. No ar com que se sentara na arca, dobrando o corpo e bamboando as pernas em gingações de tarimba, denotava quebra de respeito, e disposição a questionar faceiramente com o velho.
--Com que então...--proseguiu Joaquim—Vossemecê não herdou tres mil peças?
--Não!--bradou o pai—Não! com mil diabos (Deus me perdôe), não!
--E se eu lhe mostrar a copia do testamento...--volveu Joaquim esbolhando os olhos, abrindo a bocca, e pondo fóra a lingua em todo o seu comprimento—Que me diz vossemecê, sr. pai? se eu lhe mostrasse a copia do...
--Tu acho que vieste cá para dar cabo de mim!--interrompeu Bento, desentalando-se da sua afflicção por aquella estupida replica—Amaldiçoado sejas tu!...--E, com os dentes cerrados, e as mãos na cabeça, ia e vinha da lareira para a porta, considerando-se o mais desgraçado homem que Deus criara.
--Sr. pai!--continuou mansamente o filho—isto não vai a matar. Tome fôlego, e escute o seu Joaquim. Lembre-se que não tem outro filho a quem deixar os seus cincoenta e seis mil cruzados...
--Olha o diabo!--regougava o velho.
--O que eu lhe peço pouco monta. Livre-me de soldado, e dê-me alguma coisa para eu casar com a Rosa de S. Martinho. O pai d'ella decerto m'a dá, se eu levar mil crusados. Vou ser lavrador, terei saude e alegria, e nunca mais lhe peço nada, sr. pai.
Joaquim, desde que proferira o nome de Rosa de S. Martinho, mudára de tom e gestos. Os olhos imploravam, e a voz tinha as modulações do respeito. O seu amor de dez annos, golpeado de saudades, quebrara-lhe os pulsos. Se o pai n'aquelle instante abrisse no rosto uma tenue claridade de esperança, Joaquim acabaria a supplica de joelhos.
--Mil cruzados!--resmuneava o pedreiro—onde queres tu que eu os vá roubar?
Esta interrogação varreu do semblante do Faisca os signaes da boa reacção.
--Eu não quero que os vá roubar, valha-me Deus!--respondeu Joaquim—Mas, a fallar verdade, quem tem tres mil peças de seu tambem pode ser ladrão da felicidade de um filho que ainda lhe não custou seis vintens desde que pode trabalhar... Olhe, sr. pai, repare bem no que vou dizer-lhe... Eu para a Praça não torno. Sou desertor.
--Venho de casa de teu padrinho—acudiu o pai menos tôrvo—o sr. coronel Lobo da Igreja dá-te uma carta para o commandante, e diz que tudo se hade arranjar.
--Não torno para o quartel, já lhe disse. Estou doente, preciso mudar de vida.
--Que te leve a breca... Não quero saber de contos. Lá t'avem. Dinheiro não tenho; só se queres que eu venda a casa, e me vá depois pedir um eido nos palheiros dos lavradores á beira dos cães.
--Está bom—concluiu Joaquim erguendo-se e espreguiçando-se—vou ouvir a opinião do Luiz Meirinho, que d'um modo ou d'outro prometteu livrar-me da farda e da chibata...
--Vaes fallar com o Meirinho para isso, ó alma perdida?
--Pois então? Aquelle é amigo do seu amigo, e, se me fôr necessario dinheiro...
--Ensina-te a roubal-o...
--E elle que sabe onde o ha...--respondeu Joaquim bocejando, e fazendo tres signaes da cruz na bocca escancarada.
--Eu te deito a minha maldição!--bradou o velho com solemnidade bastante para a scena final d'um acto; porém insufficiente para abalar o 32 da 7.^a companhia do regimento de artilheria do Porto.
O Faisca sorriu, e murmurou:
--Vossemecê parece que tem mais maldições que pintos... Pois eu cá vou com a sua maldição, e depois... veremos se ella nos impece a ambos.
Bento, ao pular-lhe o coração em saltos de ruim presagio, ainda deu tres passos para chamar o filho, e avençar-se com elle mediante a quantia necessaria ao livramento; mas a imagem de um pote de ferro cheio de peças bateu-lhe rija no peito. Quedou-se como empedrado a olhar para a soleira da janella de peitoril, cujas portadas quatro travessas de castanho esfumado immobilisavam.
V
Poucos dias depois, o juiz de fóra de Barcellos incumbia ao ordinario do julgado de Vermuim a prisão do desertor Joaquim da Costa Araujo, d'alcunha o Faisca. A gente mais grada de Famalicão, convencida da riqueza do avarento sem entranhas, advogou a favor do infeliz moço, rodeando o pedreiro com rogos e até com insultos e ameaças. O pedreiro, assustado, foi ter-se com seu compadre o coronel Lobo da Igreja Velha; e, bem aconselhado pelo fidalgo, cujo credor era, deu o dinheiro necessario para abafar o processo militar, comprar a baixa e substituir a praça no regimento.
Em seguida, quando se viu esbulhado das economias que amealhara antes de herdar as trez mil peças, entrou-se de tamanha paixão—espicassaram-no tantas saudades do seu dinheiro, que morreria abafado, se não desafogasse no odio ao filho. As vinte e quatro moedas de oiro que lhe custara a liberdade de Joaquim, representavam fomes e sêdes, desconfortos de frio em noites de inverno, muitos suores em dias de estio no trabalho da serra a horas de sesta. E lembrava-se com bastante remorso que sua mulher padecera sem cirurgião e morrera sem botica, e fôra indigentemente enterrada, tudo isto assim desgraçado e infame, porque elle não quizera bolir n'aquellas vinte e quatro moedas.
No entanto, Joaquim, bem que muito grato ao pai, não se mostrou tão penhorado que prescindisse de o julgar obrigado a dar-lhe modo de vida. O velho mostrou-lhe um ferro de monte, um pico, um camartello, e disse-lhe:
--Se queres modo de vida, segue o meu. Anda d'ahi brocar uma fraga, e saberás quanto me custaram a ganhar as minhas vinte e quatro...--E, ficando entallado, esfregava os olhos debruados de rôxo com o encodeado canhão da jaqueta.
O filho não se compadecia d'aquellas lagrimas; antes se sentia bravejar de condição com remoques e até com odio á avareza do pai. Máo foi convencer-se Joaquim da herança, e suppor que o velho podia morrer sem testamento nem declaração do escondrijo do thesouro.
Debalde lhe espiava os movimentos, os olhares, as caminhadas no monte, afim de farejar a lota das tres mil peças. Bento d'Araujo ia frequentemente quebrar esteios de pedra nos penhascaes de Vermuim e vendia-os aos lavradores para especar parreiras. As desconfianças do filho seguiam o velho entre fragoedos, chamados o Castello; e o pai, que se julgou espreitado, alegrava-se secretamente, e não se mostrava offendido.
Entretanto, continuára Joaquim a sua velha affeição a Rosa de S. Martinho; e, confiando que a fama da riqueza do pedreiro seria bastante a que o abastado lavrador, esperançado na herança, lhe cedesse a filha, pediu-a affoitamente; mas o pai de Rosa tinha mediana confiança em sapatos de defuncto, e disse que só daria sua filha, se o noivo trouxesse mil cruzados em dinheiro ou terras. O moço namorado abriu de novo o seu peito ao pai, que parecia apertar os cordões da bolsa á medida que o coração do rapaz se abria. Joaquim, bem aconselhado pelo seu amor, soccorreu-se do padrinho, o coronel da Igreja Velha, pedindo-lhe que movesse o velho a dotal-o.
Era o fidalgo a unica pessoa que exercia influencia em Bento de Araujo, e tamanha que podera arrancar-lhe alguns mil crusados a juros, sob juramento de não dizer a alguem que lh'os devia. Mandou-o chamar, e aconselhou-o a que désse dote a Joaquim. Avultou lhe as funestas consequencias da sua teimosia em querer passar por pobre, quando toda a gente estava convencida do contrario; pintou-lhe os perigos em que elle punha o filho sem officio que o salvasse da camaradagem de vadios suspeitos com quem patuscava nas tavernas da Lagoncinha e outros logares infamados. A final, como o velho insistisse desaforadamente em dizer que não tinha senão o dinheiro que seu compadre lhe devia, o coronel rendeu o com esta honrada deliberação:
--Pois bem: tudo se arranja, querendo Deus e tu. Devo-te tres mil crusados; não t'os posso pagar, em quanto algum dos meus filhos não trouxer esposa com dote; mas irei tirar quatrocentos mil réis a juro em alguma Confraria, e esse dinheiro vaes tu dal-o a teu filho para casar com a rapariga, que é de boa gente, e hade ter dobrado ou mais do que elle tem.
As ultimas palavras de Bento, n'esta pendencia, definem cabalmente a sua natureza. Quando o compadre lhe disse:
--Tu virás de hoje a oito dias receber os quatrocentos mil réis para os dares ao teu Joaquim no acto da escriptura de casamento—Bento acudiu impetuosamente:
--Eu não quero vêr o meu dinheiro! Arranje v. s.^a cá isso, de modo que eu não veja o meu dinheiro!...
Elle sabia que, no acto da contagem dos mil crusados, seria capaz de agarrar a sacca e fugir com ella do escriptorio do tabellião.
Assim mesmo, o pedreiro, se tinha muitas maldades de avarento, possuia tambem algumas bellas qualidades de pae; e uma, digna de bastante memoria, é que, tendo elle em casa arsenico para matar os ratos, não o administrou ao filho.
VI
Joaquim de Araujo entrára na vida por má porta. Oito annos de caserna bastariam a degenerar-lhe as boas qualidades: mas, com certeza, o Faisca já tinha ganho esta alcunha á custa de turbulencias, quando assentou praça, e não se regenerára, como é de suppôr, no officio de soldado.
A sua nova posição de lavrador não lhe quadrava; a pesada rabiça do arado dava-lhe engulhos ao estomago, quando a sacudia do rêgo aberto para romper outro; o cabo da enxada empolava-lhe as mãos; de çafaras não sabia nada; ignorava todo o trafego da lavoira; e, em vez de aprender, como queriam a mulher e o sogro, ia bandarrear por feiras, quatro vezes por semana, na sua egua rabona, de pau de choupa debaixo da perna, mão direita á cinta, chapeu braguez na nuca, e besta travada que não havia outra d'aquella andadura.
Ás impertinencias do sogro respondia que não precisava labutar sujamente na terra, porque seu pai tinha o melhor de cincoenta mil crusados em peças; e aos queixumes da mulher amante e ciosa voltava as costas enfastiado. O lavrador de S. Martinho, a fim de se desfaser do genro, repartiu a casa por tres filhos, resalvou uma pequena reserva, deu em terras o dote estipulado a Rosa, e mandou-os viver onde quizessem.
A libertinagem do Faisca foi até onde os dois mil e tantos crusados da mulher chegaram; e, n'aquelle tempo, quem os desbaratasse em seis annos alcançava a reputação dos que em nossos dias derivam á miseria sobre ondas do ouro. Antes de conhecer as primeiras necessidades, Rosa morreu na flor da idade, deixando um filho de seis annos entregue ao avô, porque o marido havia muitos mezes que demorava pela Galliza, amaltado com jogadores de esquineta, seus antigos camaradas, uns com baixa, outros desertores.
O filho de Rosa breve tempo viveu da caridade do avô, que falleceu pouco depois. Quando Joaquim de Araujo voltou a S. Martinho por saber que estava viuvo, encontrou o menino de sete annos esfarrapado, sem amparo de parentes, a esmolar o pão e o gasalhado dos visinhos, por que seu pai não tinha casa propria, e todo o patrimonio de sua mãe estava vendido. Quem recolhera o rapazinho era um fogueteiro, o mais remoto e desprezado parente de sua mãe. O pequeno ajudava-o a afeiçoar as canas e encher os canudos para os foguetes com bastante geito e disposição para o officio. Perguntara-lhe o pai porque não fôra procurar o avô a Famalicão. O fogueteiro respondeu que lá fôra com elle quando a mãe morreu; mas que o avô dissera que estava tambem muito pobre, e apenas lhe déra estopa para umas calças, e um chapeu de Braga mais rapado que a escudela d'um cão. Lembrou-se Joaquim do padrinho; mas a morte cortara-lhe esse recurso. Foi ter-se com o filho successor na casa, a vêr se quereria protegel-o como seu pai. O fidalgo da Igreja recebeu-o com furiosas declamações contra o Bento pedreiro, a quem chamava ladrão, por que lhe pedia dois mil crusados e juros que o pai lhe ficara devendo.
N'este tempo, o irmão do honrado Joia já não podia trabalhar. Passava os dias sentado ao sol no degrau da porta, e dava alguns chorados vintens por semana a uma visinha que lhe levava as couves e a broa. N'esta situação o achou o filho, quando voltou da Corunha, trajando á castelhana, mas delatando na jaqueta safada e suja a miseria que o trazia á porta do pai. Pediu-lhe dinheiro com supplicante brandura, com muitos actos de arrependimento e promessas de reformação de costumes.
--Se poderes reformar os teus costumes, fazes bem; eu é que não posso desfazer-me em dinheiro—dizia o velho.--Tudo o que eu tinha estava na mão de teu padrinho: elle morreu, e o ladrão do filho não me paga.
--O que o padrinho lhe devia—disse Joaquim—são dois mil crusados; mas vossemecê herdou cincoenta e tantos...
--Não sei o que herdei—replicou o pedreiro—tudo o que eu tinha dei-o a guardar ao coronel, Deus lhe falle n'alma, e tudo lá ficou.
--O meu padrinho não era capaz de o roubar, senhor pai! Vossemecê está mettendo a sua alma nas mãos do diabo! Ha de morrer para ahi como um mendigo, e o seu dinheiro ha de ajudal-o a cahir nas profundas do inferno!...
No calor da discussão figurou-se ao velho que o filho seria capaz de praticar alguma violencia. Teve medo—o medo que devia ser-lhe uma agonia fulminante, se o goso de sentir-se rico não prevalecesse ás angustias de recear-se em perigo na presença do filho. Abriu com as mãos tremulas a arca, tirou um pé de meia, atado pelo calcanhar com uma guita, deu-o ao filho, e disse-lhe com voz cortada de soluços:
--É tudo quanto tenho. Recebi hontem esses vinte crusados novos dos esteios que vendi. Se queres dar-me metade, dá; se não queres, leva tudo.
Joaquim quedou-se alguns minutos a olhar para o pai com piedoso aspecto; e, depois de pensar na repartição dos pintos, ouvindo filialmente a consciencia e a razão, deliberou... não repartir nada. Sahiu com mais duas maldições tacitas, e foi relatar o caso ao Luiz Meirinho.
N'este tempo, o antigo aguazil do corregedor de Barcellos andava muito acautellado das justiças da comarca. A sua reputação de salteador de estradas estava feita; mas as provas que legalisassem a captura eram insufficientes. Os latrocinios de encruzilhada amiudavam-se na Terra-Negra, na Lagoncinha, e nas serras distantes do Ladario e Labruja. Algumas casas afamadas de dinheirosas eram assaltadas por quadrilhas que venciam pelo numero a resistencia; e, quando esses roubos estrondeavam, Luiz Meirinho e outros sujeitos da sua familiaridade nunca estavam em Famalicão ou nas aldeias circumvisinhas. Era sabido que as maltas se reuniam em um grupo de cabanas n'uma cafurna de pinheiros chamados os Ribeiraes, não longe da vetusta egreja dos templarios de S. Thiago de Antas. Ainda hoje estão em pé, mas ninguem as habita, essas choupanas execradas pela tradição de serem ahi enterrados os ladrões que voltavam mortalmente feridos dos seus assaltos.
Como quer que fosse, a maledicencia não calumniava Luiz Meirinho, nem elle por modestia escondeu do Faisca a superior cathegoria de capitão de ladrões a que o promovêra a voz publica.
Joaquim ouviu estas confidencias intimas sem pavor nem se quer estranheza. A esquineta era-lhe bastante iniciação para ser admittido aos mysterios da Terra-Negra. O Meirinho encareceu-lhe as vantagens, e desfez nos perigos do officio. Principiando pelo argumento mais insinuante a favor dos ladrões, offereceu-lhe de uma grande sacca dinheiro que elle affiançava ter adquirido sem escandalo nem effusão de sangue. Uma das suas regras de bem-viver era (dizia elle ao Faisca) matar sómente em ultima necessidade: talvez a «justa defeza» que a lei indulta. Romulo, o salteador que fundou Roma, não exhibia idéas mais benignas.
A grangearia de um bravo para a jolda foi facil. O Faisca, em uma das proximas noutes, foi apresentado na estalagem da Lagoncinha aos seus irmãos d'armas, e achou-se em melhor sociedade do que elle previra. Condecoravam a cáfila alguns sujeitos que pareciam andar n'aquella vida aventurosa por amor das impressões rijas: eram artistas, como hoje diriamos. Filhos segundos de casas honradas e coutadas desde os reis da primeira dynastia, recrutas foragidos, desertores, jornaleiros, individuos barbaçudos vindos de longes terras, facinorosos escapulidos das cadeias ou dos degredos, gentes varias, como se vê mas todos alegres, chalaceadores, bem-quistos nas aldeias por onde residiam temporariamente, liberaes nas tavernas com conhecidos e desconhecidos, armados até aos dentes, e, segundo a excellente maxima do capitão, matando sómente em ultima necessidade. A malta, por espirito de imitação, chamava-se Companhia do olho vivo. Florecera outra, com egual denominação, na côrte, capitaneada por José Nicós Lisboa Corte Real. Quarenta annos antes haviam sido inforcados os mais graduados da companhia, salvante o capitão, por que era protegido pelo infante D. Antonio, tio de el-rei D. José I. Um dos mais novos d'essa horda de ladrões, que teve um periodo de esplendor, fugindo á perseguição, ainda funccionou na malta do Minho, á qual legou o saudoso nome da outra.
A «Companhia do olho vivo» não prosperou no anno em que o filho de Bento de Araujo se alistou. O terror afastára os passageiros dinheirosos do transito por serras infamadas, e os proprietarios das povoações sertanejas mudaram para as villas e cidades as suas residencias.
No programma de Luiz Meirinho estava desde muito inscripto Bento de Araujo; mas, como ainda ha pessoas de bem, ao capitão repugnava-lhe propor em conselho que se planeasse o expediente maís plausivel na exhumação das tres mil peças do pai do Faisca. Os socios mantinham entre si estes decoros, o que não succede em todas as companhias com estatutos legalisados.
Entretanto, como a necessidade apertava, e á noticia do Faisca chegara a má nova de que seu pai, acariciado por uns sobrinhos de Gondifellos, tratava de se passar para a companhia d'elles, o capitão, forte de rasões aconselhadas pela prudencia e applaudidas por Joaquim, poz em discussão a materia, quando ao modo de obrigar o pedreiro a confessar a lura do thesouro. O Faisca tirou a salvo, porém, que o haviam de dispensar de assistir ao assalto, por que, em fim, o homem... sempre era seu pai, e o sangue gritava. Ninguem se riu na assembléa da sentimentalidade d'aquelle filho: é que as ideias grandes e fundas abalam toda a casta de alma. Foi apoiado calorosamente Joaquim, e até abraçado por um socio de Felgueiras, processado por parricida.
VII
N'aquelle tempo, Famalicão, ás nove horas de uma noite de novembro, negrejava silenciosa e rodeada de pinheiraes e carvalheiras. Aquelles palacetes brazonados com seus titulares campeam hoje onde então rebalsavam extensos nateiros de lama, a espaços habitados por cabaneiros. A quadrilha de Luiz Meirinho podia manobrar sem temor e desassombradamente no centro da villa como nas Rodas do Marão.
Em uma d'essas noites, o chefe, com uma duzia de escolhidos, entrou na Congosta de Enxiras, onde morava Bento de Araujo. Elle, com mais dois, acercaram-se da porta; os outros, postaram se de atalaias nas extremidades da viella.
O pedreiro estava ainda sentado á lareira. Desde que lhe disseram que o filho pernoitava ás vezes em casa do Meirinho, velava até ser dia claro. O receio de ser assaltado era tamanho que já tres vezes, em noites tempestuosas, gritára á d'el-rei. Os visinhos, á primeira, acudiram vozeando das janellas com invulneravel intrepidez, e viram d'essa feita que um porco vadio, attrahido talvez pelo cheiro de possilga, foçava contra a porta de Bento. Depois, ainda que elle gritasse, ninguem se mexia, attribuindo a porco as aggressões incommodas ao avarento.
Foi o que aconteceu n'aquella noite de novembro. O pedreiro sentiu o abeirar-se gente da sua porta, e deu tento do raspar de ferro entre a hombreira e o batente. Gritou; mas parecia já gritar com os colmilhos apertados. A lingua da fechadura estalou, e a porta foi diante de dois possantes hombros tão rapidamente que os homens, como duas catapultas, entraram de roldão, e só pararam filando-se á garganta do velho empedrado. Por entre elles, e á luz do canhoto que flammejava, o pedreiro viu lampejar o aço de uma navalha, e ouviu, atravez dos lenços com que os hospedes cobriam as caras, uma voz disfarçada:
--Se grita, vossê morre aqui já. Se quer viver, entregue as tres mil peças que herdou, e ande depressa. Não nos conte lerias, nem faça lamurias. É decidir: o dinheiro ou a vida.
Bento erguera as mãos supplicantes, e pedira soluçante que o não matassem.
--Onde estão as tres mil peças?--perguntou o Meirinho.
--As tres mil peças?!--gaguejou o velho como tolamente espantado de que lhe perguntassem por tres mil peças não tendo elle de seu tres moedas de seis vintens.
--Mate-se este diabo!--accrescentou o Meirinho—e vamos levantar o soalho.
--Eu não tenho aqui o dinheiro, meus senhores...--acudiu o pedreiro desfeito em lagrimas.
--Então, onde o tem vossê?
--Enterrei-o debaixo de uma fraga...
--Perto d'aqui? Avie-se.
--Não, senhor, muito perto não é. São tres quartos de legua... em Vermuim.
--Bem—concluiu o capitão.--Salte para diante de nós, e venha desenterrar o dinheiro. Mexa-se!
O homem sentiu certos alivios n'esta mudança de situação como se expor a vida, salvando o dinheiro, lhe fosse uma consideravel melhoría de fortuna.
A malta, precedida do velho, embrenhou-se nos matos, atravessou o outeiro que toca nas faldas da serra de Vermuim, e por S. Cosme do Valle trepou ao espinhaço de penhascos que lá chamam o castello.
--Vossê não vá afflicto—dizia-lhe o Meirinho—por que hade ter o seu quinhão com que pode viver regaladamente. O necessario não se lhe tira; nós o que queremos é o que lhe sobeja. Somos honrados ou não, seu velhote?
E dava-lhe palmadas nos hombros.
--Sim, senhor—dizia o Bento, e recolhia-se a scismar na situação perigosa em que se via, e no modo de a esconjurar.
--Ande depressinha—tornava o chefe empurrando-o brandamente.
--Será bom ajudal-o com alguns pontapés—alvitrava outro, receando que a manhã lhes viesse tolher a empreza.
Chegados ao cabeço da serra, espigado de rochas, disse o Meirinho:
--Cá estamos. Onde é a fraga?
--Não enxergo bem... Só quando fôr dia é que eu conheço o sitio—respondeu Bento.
--Temol-as arranjadas...--tornou o Meirinho com um sorriso agoureiro de más coisas.--Ó Freiamunde, petisca lume, e faze ahi um archote de codêços para este tio ver onde está o arame.
--Parece-me que o melhor seria alumial-o com a luz da polvora...--observou Freiamunde, bebendo alguns tragos de aguardente de uma cabaça que trazia a tiracollo.--Quer lá, capitão? Se lhe parece, dou dois goles ao velho como se faz aos perús...
--Tio Bento—insistiu Luiz Meirinho—vossê acha a pedra ou não acha? O dinheiro ficará enterrado; mas vossê tambem fica de papo ao ar á espera que o enterrem. Veja lá no que ficamos; lembre-se que está tratando com homens de palavra.
No entretanto, um da companhia petiscara fogo, e communicara o lume da mecha á manada de fetos sêccos apanhados de baixo de uma rocha que figurava um dolmen.
--Ali tem luz que farte—disse Luiz.--Veja lá agora qual é a pedra, tio Bento.
--Parece-me que é aquella...--respondeu elle a tiritar, já convencido de que estava chegado ás ultimas.
--Parece-lhe ou é?--insistiu raivoso o Meirinho.--Ande. Mostre lá o sitio. Ó Zé Landim, se fôr preciso desenterrar o morto serve-te da tua faca. Patrão, estamos ás suas ordens, diga onde quer que se cave; a cova ha de fazer-se ou para sahir o dinheiro ou para entrar vossê.
Bento cahira sobre os joelhos como ferido de subita apoplexia, e começou a gaguejar uns sons inintelligiveis.
--Este alma de dez diabos que está a mastigar?--disse Freiamunde.
N'este momento, o pai de Joaquim cahiu de borco, batendo com a face na pedra; e, quando dois homens o levantaram de repellão e o viram á luz dos fetos, estava morto.
Este incidente nem levemente impressionou aquelles homens fortes. Ninguem fez a minima reflexão ácerca do lance em theatro tão lugubre. Os mais preoccupados bebiam aguardente a froixo, dizendo que o homem morrera de frio. Nem uma ideia philosophica, nem sequer um dito elegiaco! Luiz Meirinho discorreu brevemente sobre a certeza de que o morto os tirára de casa para os desviar do logar onde tinha o dinheiro. Decidiu que se aproveitasse o restante da noite, indo a casa revolver a terra quanto se podesse; e, no caso de lá não apparecer o dinheiro, viriam na seguinte noite escavar debaixo da rocha, no castello.
Assim se fez. Bento de Araujo ficou deitado de costas sobre uma moita de codeços, com os braços hirtos e abertos em cruz, os punhos cerrados, e os olhos envidraçados de lagrimas. Ao alvorecer do dia, uma nuvem pardacenta, que ondolava pela crista da serra, rasgou-se em saraivada glacial, que lhe batia no rosto e saltava pelo peito nú e descarnado. Chovera e nevara depois, durante muitos dias. Nenhum pastor subira com o rebanho áquellas cumiadas, sempre escondidas na negridão da nevoa, e perigosas se o lobo uiva faminto.
Quando o tempo estiou, quem denunciára o cadaver já disforme no rosto fôra uma revoada de corvos que crucitavam pairando sobre os restos do seu banquete disputado ás feras.
VIII
Contava-se assim o caso em Famalicão.
Que o Bento de Araujo, receando os ladrões seus visinhos, desenterrara as suas riquezas que tinha debaixo da lareira, e indo escondel-as nos montados de Vermuim, em uma noite de grande invernia, morrera tolhido pelo frio e traspassado da neve. Fundavam-se os d'esta versão em que a pedra da lareira estava deslocada, e no seu logar uma cova funda; e debaixo dos bancos da cama outra escavação, e no entulho uns cacos de panella, onde com certeza estava porção do thesouro, e a outra porção debaixo da lareira.
Outro boato:
Que a malta da Terra-Negra assaltára o pedreiro, roubara-o, matara-o, e levara o cadaver ao castello de Vermuim. Não se dava a rasão d'este sahimento a tres quartos de legua; mas tambem não era necessaria a logica para explicar tal coisa.
A versão, porém, mais popular e que tinha o suffragio das pessoas mais rasoaveis, era que o Joaquim assassinára o pai na serra, quando o velho voltava do seu trabalho de brocar pedra; e, depois, deixando-o morto, viera a casa desenterrar o dinheiro. Em confirmação do boato, allegava-se o facto de elle ter apparecido em Famalicão a procurar o pai, e a indagar dos visinhos se tinham dado conta do arrombamento da casa—isto no dia em que o pai já estava morto.
A voz publica forçou a auctoridade a prender o Faisca; mas, na noite seguinte á da prisão, algumas duzias de homens armados arrombaram a cadeia de Famalicão, e tiraram de ferros o innocente.
Esta fuga completou a ruina de Joaquim de Araujo. Acreditou-se geralmente no roubo e no parricidio. As aldeias do julgado de Vermuim, com Famalicão á frente, deram montaria á quadrilha da Terra-Negra, com o reforço militar de Guimarães e Braga. A malta dispersou, mortos alguns dos mais audazes; e os dispersos engrossaram, na Povoa de Lanhoso, a celebrada quadrilha que tem a sua historia em um livro dignamente esquecido.[8]
O filho de Bento pedreiro morreu em 1809 no Carvalho-d'Este, defendendo a patria da invasão franceza commandada por Soult. Bateu se com o heroismo do suicida, ao cabo de desoito annos de salteador, arrostando a todos os perigos, mas fugindo a que o filassem vivo, por que tinha grande horror á forca. Afinal, inscreveram-no entre os valorosos defensores da nossa autonomia, e o seu cadaver foi mais acatado que o do general Bernardim Freire, assassinado por outros patriotas da laia do Faisca.
IX
Hão de lebrar-se que Joaquim de Araujo tinha um filho, que aprendera em S. Martinho do Valle o officio de fogueteiro com o parente de sua mãe.
Aos vinte e seis annos, quando seu pae acabou, estava elle ainda na companhia do velho bemfeitor e mestre, ganhando alegremente o seu pão. Fallecido o parente, alguem lhe disse que elle tinha em Villa Nova de Famalicão a casa, boa ou má, de seu avô, que ninguem lhe podia disputar.
Facilmente se habilitou herdeiro de Bento de Araujo e tomou posse do casebre, deshabitado desde 1790. Ás vezes os mendigos, nas noites quentes, levantavam a aldraba, que era um cavaco de castanho, e albergavam-se no sobrado podre, contando casos horrendos que ali passaram—o parricidio e o roubo. As covas estavam ainda abertas, e o desentulho em monticulos de redor.
Silvestre de S. Martinho, o filho do Faisca, não usava dos paternos appellidos: do pai aproveitára sómente a casa, transigindo com a honra o necessario sem prejuizo seu.
Apossado da casa, deu-lhe um geito para poder habital-a, e pendurou meia duzia de foguetes e bombas reaes á porta. Era habilidoso, principalmente para as bonecas de polvora. Gabava-se de haver inventado o barbeiro a amolar navalhas na roda, e levára á perfeição da indecencia a velha que despedia contra a cara combustivel do barbeiro um repucho de chispas pela parte posterior, tudo com uma graça portugueza que era um estoirar de riso o arraial!
Corria-lhe bem a vida, e já tinha casado com uma rapariga dura e trabalhadeira, quando o descuido de um aprendiz, na ausencia dos patrões, deixou pegar o lume em um feixe de bombas. Houve explosão que sacudiu em estilhas o tecto da casa, e abrasou todas as madeiras. Quando Silvestre voltou com a mulher da romagem da Santa Eufemia, nas terras da Maya, encontrou quatro paredes denegridas, e o interior da casa a fumegar, cheio da brilhante claridade da lua. O aprendiz, carbonizado, estava já na cova.
Tiveram compaixão do pobre fogueteiro os villanovenses. Diziam-lhe que contruisse uma cabana com as esmolas que lhe iam tirar pela freguezia; mas que a fizesse n'outra parte, por que n'aquella casa, onde um filho matára seu pai para o roubar, pezava a maldição de Deus. Um visinho comprava-lhe o terreno da casa amaldiçoada para accrescentar á sua; mas deixava-lhe a pedra que era boa para o fogueteiro edificar n'outra parte. Silvestre acceitou, convencido de que o sangue de seu avô funestára para sempre aquelle theatro do grande crime.
Recebido o terreno de esmola, principiou Silvestre a demolir as paredes da casa queimada. Fazia elle este serviço, com ajuda da mulher, em quanto o carreteiro ia carreando a pedra.
Ás tres da tarde de um sabbado, o carreteiro, consoante o costume, despegara do serviço; mas Silvestre e a mulher continuaram a desfazer o ultimo lance de parede que lhe restava, com o fim de na proxima segunda feira acabarem o trabalho da demolição. Observára o fogueteiro que este lado da parede quadrilatera era mais grossa um palmo que os outros que formavam o recinto, reintrando para o interior o excedente da grossura. Estava coberta de pasta de barro e caleada como as outras. Divisava-se ainda no barro gretado o risco traçado pelo atrito de qualquer corpo que se encostára á cal ainda fresca.
Por esta raspadura, conjecturou Silvestre que ali devia estar o banco da cama do avô, até porque ouvira dizer que parte do thesouro estivera enterrado debaixo da cama; e elle, quando tomara posse da casa, ainda vira a cova aberta, dois palmos distante d'aquella parede.
--A pedra aqui é mais larga—disse o fogueteiro á mulher.
--Agora é!--emendou ella—o que a faz parecer mais larga é a camada de barro; se não, olha.
E começou a picar ao longo da parede com a extremidade aguda da alavanca, e o barro, esboroando-se e desacamando a pedaços, deixava descobrir a superficie da pedra que não era mais grossa que a outra.
--Dizes bem, é isso—approvou o marido.--Vamos apeando a parede por esse lado, que o barro elle se despegará.
E, dizendo, pegou d'outra alavanca e começou a derribar as capas da parede, em quanto a mulher, para não estar com as mãos debaixo dos braços, ia descaliçar a camada barrenta. Quando atirava rijamente com a ponta da alavanca á parede, notou que o ferro batera e se cravara em páo.
--Aqui ha madeira—disse ella.
--É alguma cascaria que tinha mão no barro—explicou Silvestre.
A mulher repetiu os golpes em diversos pontos na circumferencia de dois palmos, e tirou sempre o mesmo som.
--Parece que bate em vão...--notou ella.
--O quê?!--acudiu o marido, descendo do andaime em que trabalhava.--Bate em vão! que dizes tu?!
--É o que te eu digo... Olha... Ouves?
--Ó mulher!--exclamou elle, cravando-lhe os olhos cheios de palpites que a lingua não ousava formular.
E como n'esse comenos passasse gente, e parasse a olhar para as ruinas, o fogueteiro fez um tregeito á mulher, que ella intendeu, calando-se.
--Ajunta a ferramenta, Maria, e vamos embora que já mal se enxerga—disse elle.
--Lá vai a casa do Bento pedreiro, Deus lhe falle n'alma!--disse o mais ancião dos curiosos.--Que dinheirão aqui esteve n'este pardieiro! Cincoenta e seis mil cruzados! Era o homem mais rico da villa e seu termo, e tanta necessidade passava aquelle alma do diabo, Deus lhe perdôe, para a final o dinheiro ser repartido pela quadrilha do Luiz Meirinho, que tambem o levou berzabum com duas balas que lhe metteram na barriga ali á ponte de S. Thiago!
--São fadarios, tio Simeão!...--disse Silvestre.
--Vossê podia a esta hora estar rico como um porco, se tivesse outra casta de pai...--tornou o velho.
--Assim é; mas não o quiz Deus. Desgraças...
--Ora faça vossê de conta que tinha achado ahi o dinheirame do seu avô!
--Ainda venho a tempo!...
--Pois sim; mas faça de conta que o topava! Vossê que fazia, ó sôr Silvestre?
--Eu sei cá, tio Simeão!
--Foguetes é que vossê não fazia mais! aposto dobrado contra singelo!
--Não fallemos n'isso... Foguetes é que eu heide fazer toda a minha vida, e Deus me dê saude para os fazer.
--Amen; mas vossê, se se pilhava com as tres mil peças, mettia a villa toda n'um chinello, e pintava ahi o diabo a quatro!
--Está enganado! não pintava nada... Comprava uns bemzinhos, e havia de trabalhar n'elles, como trabalho nos foguetes.
--Vem d'ahi, homem—disse Maria já aborrecida das impertinentes perguntas do Simeão que, encostado á sachola, parecia jubilar nas pachorrentas hypotheses, e nas delicias de cossar uma perna com a outra alternadamente.
Simeão foi seu caminho com os outros; e o fogueteiro e a mulher seguiram para casa; mas, assim que as portas e janellas se fecharam na rua, ahi estavam elles outra vez sobre o cascalho, raspando com ferramentas pouco ruidosas a parede no espaço em que o som do vacuo respondia ao toque do ferro.
No termo de curta fadiga, tinham descoberto uma superficie liza de madeira, invasada na parede como a portada de um postigo. Facilmente desencaixilharam a tabua do invasamento de pedra, por que não tinha dobradiças nem outra firmeza além da que lhe dava a espessa camada de barro. Silvestre introduziu a mão, e topou um corpo frio.
--Que achas?--perguntou Maria offegante com as mãos postas.
--É uma panella de ferro...--balbuciou elle.--Ó mulher!... tem mão em mim, que não sei o que me dá pela cabeça!...
--Nossa Senhora!--exclamou ella—Nossa Senhora!...
E, em vez de ter mão no homem, metteu ambos os braços até achar a panella, em quanto Silvestre abria e fechava a bocca em tregeitos de tão estupida felicidade, que só a suprema desgraça os poderá fazer iguaes.
N'isto, a rija mocetona arrancava da lura o peso enorme de ouro; e, cahindo de cocoras com o pote no regaço, exclamou suffocada:
--Ai Jesus! que eu morro de alegria!...
Sivestre apertava o ventre com as mãos. Esta postura não é ridicula nem inverosimil para os que sabem que os intestinos quasi nunca são estranhos ás commoções grandes.
Aos primeiros assomos da seguinte aurora, a parede estava arrazada. Os visinhos ouviram o ruido da assolação, e cuidaram que a derribára um pegão de vento.
Mas, na proxima semana, a obra da casa nova parára. O fogueteiro dizia aos seus bemfeitores que ia mudar de terra, e talvez mudar de vida
X
Por esse tempo, um fidalgo da côrte de D. João VI mandou vender as suas vastas propriedades na provincia do Minho. Nos arrabaldes de Barcellos demorava a principal das quintas, que havia sido paço senhorial. Chamava-se a Honra de Romariz, e já fôra dote de D. Genébra Trocozende, no seculo XII, casada com D. Fafes Romarigues, filho de D. Egas, que gerara D. Fuas, e tão copiosa e compridamente se geraram uns dos outros que a final degeneraram na pessoa do fidalgo que mandou vender a casa solarenga, para cruzar ricamente uma dançarina sobre os leões rompantes do seu escudo.
Chamava-se Silvestre de S. Martinho o comprador, que contara na mesa do tabellião de Barcellos vinte e cinco mil cruzados em peças de 7$500 réis. Quantos casaes e leiras o filho de Joaquim Faisca poude comprar á volta da Honra de Romariz incorporou-as no cinto de muralha que foi alargando a termos de arredondar a mais vasta e formosa vivenda do coração do Minho.
Em 1826, quando Silvestre já desesperava da fecundidade da esposa, em annos bastante serodios, deu-lhe ella uma menina que se chamou Felizarda. Aos oito annos, a moça, filha unica, e conhecida pela morgadinha de Romariz, já bastante espigada e gorda, levava folgada infancia. Aos dezoito annos, compozeram-se-lhe as feições com proeminencias grandes, mas esbeltas. A fertilidade do peito dizia com a curva tumescente das espaduas. Felizarda tinha uns archejos de cansaço que lhe alindavam o carmim do bom sangue.
Um bacharel formado, que aspirava de longe os olores d'esta flôr de gira-sol, queixando-se da demora que ella posera em chegar a uma festividade de igreja, fez-lhe o seguinte improviso, depois de trabalhar tres dias a rima:
_Eu, que sou fogo, não tardo,
ella, que é gelo, é que tarda,
Se eu, que amo, feliz ardo,
Felizarda feliz arda_.
Ella deu pulos a rir como se tivesse a critica de mad. Girardin.
Por esse tempo, 1846, Silvestre de S. Martinho estava muito rico, mas muitissimo aborrecido na diluente ociosidade de tantos annos. Ás vezes, mandava comprar polvora bombardeira, furava canudos, apertava-os com guita alcatroada, e fazia foguetes para se distrahir. Felizarda, bastante entretida com a arte, pedia á mãe que lhe ensinasse a fazer valverdes e bichinhas de rabear.
A sr.^a D. Maria, excellente matrona e mãe, não se enfastiava, como o esposo, por que moirejava sempre na casa e na quinta, fiava ou dobava nas noites grandes com as creadas á lareira, e envergonhava os servos calaceiros batendo as meadas no lavadouro, ou padejando as broas na cosinha.
Mas o marido que, tirante as diversões pyrotechnicas, não fazia nada, andava dispeptico e clorotico, quando teve de optar entre fogueteiro e politico.
Era no tempo da patulea. Silvestre manifestara-se progressista nas bellicosas eleições de 1845 em Barcellos, e sentiu-se invadido pela paixão sociologica por causa do canibalismo dos fuzilamentos de Alvarães. No anno seguinte, influiu no movimento de maio, e manteve-se nas idéas avançadas até outubro em que os agentes da junta do Porto lhe embargaram no Largo da Aguardente, duas cavalgaduras que iam á praia da Foz buscar a mulher e a filha. N'este conflicto, oscillou politicamente entre os irmãos Passos que amamentavam a republica nos seios dessorados da liberdade cachetica, e o padre Casimiro José Vieira, o Defensor das Cinco Chagas, que proclamava D. Miguel I no Bom Jesus do Monte.
Alliciaram-no ao seu partido alguns sectarios da realeza absoluta, que viam desde a ponte de Barcellos a politica europea, e traçavam com as bengallas no Campo das Cruzes as evoluções militares e triumphaes dos exercitos russos. Silvestre não subia n'estas comprehensões tão alto como os seus foguetes de tres respostas, mas intendia que, tendo as coisas de dar volta, não lhe seria máu adoptar o partido vencedor. Offereceu dinheiro ao doutor Candido de Anêlhe e ao advogado Francisco Jeronimo para se enviar á Lua.[9]
Á sua generosidade respondeu magnanimamente a assembléa realista, condecorando o com a commenda de S. Miguel da Ala. Elle já era Rosa cruz, graduado na hoje extincta viella da Neta, por José Passos. Abriu-se um pleito de liberalidades entre Silvestre e a cabeça visivel de el-rei absoluto. Boa porção das peças intactas do defunctissimo Joia passaram para o cinturão do aventureiro escocez Macdonnell, e depois para os burnaes dos soldados de caçadores que o espingardearam em Sabroso. Ó fados do dinheiro! Que estremeções não daria na cova o cadaver do Bento pedreiro, se os corvos e os lobos o não tivessem comido na serra!
Extinctas as facções politicas, Silvestre, por insinuações da mulher, entrou a desconfiar que era tolo, e que o sr. D. Miguel não o conhecia. Retirou-se da politica, cheio de desenganos, e ridiculo. Os funccionarios administrativos e judiciaes de Barcellos zombavam d'elle, e no Pereodico dos Pobres, um Amigo da verdade escreveu que o Silvestre de Romariz, no auge da sua dor, fabricava foguetes de lagrimas. Allusão perfurante que elle soletrou na folha.
A respeito de soletrar, a morgada recebia cartas de um amanuense da camara de Barcellos; mas só abriu sete que ajuntára quando uma costureira lh'as leu. Felizarda creara-se sem lettras, e vivia, a respeito de litteratura, como as raparigas gregas antes de Cadmo, filho de Agenor, introduzir na Grecia o alphabeto phenicio; mas, em compensação, tinha muita flôr nativa e fresca de acres aromas n'aquelle afflante seio, e folgava de ouvir trovas de chula e desafios de cantares em que ás vezes a phrase estava pedindo a intervenção da policia.
Direi do amanuense da camara municipal de Barcellos.
Era um sugeito que perlustrara as regiões da sciencia por toda a extensão do Manual Encyclopedico do sr. Emilio Achylles de Monteverde. Era author de charadas impressas. Só a Felizarda 6. Tinha este moço, José Hypolito de nome, immensa fé na briza, no paul, na junça, e no archanjo da poesia de 1840. Os duendes das suas visões nocturnas nas margens do Cavado sangravam-no. Era melancolico e magro como um galgo doente. A sua paixão grande, não fallando na falta de dinheiro, era Felizarda. Ganhava tres tostões na escrivaninha da camara, e devoravam-no aspirações a ter cavallo e carrinho. Entretanto, andava pelas casas a recitar a poesia de Palmeirim:
_Que poeta que não era
Da linda Ignez o cantor_;
ou da Lua de Londres, o
_É noite; o astro saudoso
Rompe a custo o plumbeo ceo_, etc.
E chorava quando os versos toavam funebres.
Felizarda não parecia talhada (sem calemburgo) para este homem; elle, porém, talhara-se para ella. Far-se-hia boi, como Jupiter, para arrebatal-a, bem que os seus instinctos volateis o levassem para cysne, se Felisarda tivesse, além dos proprios, os instinctos um tanto bestiaes de Leda.
Escreveu-lhe sete missivas profuzas e tristes como os sete peccados mortaes. A costureira que as leu debulhava-se em lagrimas, e decorava periodos para responder ás cartas de um furriel do 13 de infanteria. Felisarda ouvia aquellas coisas com a attenção de uma rã que imerge á flôr do lago os olhos espantadiços e escuta um rouxinol. Como as prosas levavam recheio de quadras, assim que a morgada dava tento da rima, espirrava um froixo de riso, tal qual como no lyrismo de Santo Antonio, no theatro de S. Geraldo. Tinha aquelle aleijão! Era—quem sabe?--a preexistencia d'esta enorme gargalhada que hoje atabafa os golphos da poesia subjectiva.
A costureira interpretou a, e respondeu, vestindo a ideia de Felizarda, com palavras innocentes, mas facinorosas em orthographia. O amanuense amava-a deveras: leu a carta, em que era chamado Bem da menina com V; e, dando os pezames ao seu Monteverde, fez votos de educar Felizarda nas quatro partes da grammatica, se um dia conjugassem o verbo amar, que só é verdadeiramente regular quando o matrimonio o defeca.
Trocaram-se cartas assiduas. Felizarda começava a ser um pouco séria, pouzeira e semsaborona. Amava. Entre a psyche e a outra abriram-se as valvulas de communicação. Tinha morbidezas de Ophelia e indigestões por falta de exercicio. Não sahia do mirante que olhava para o caminho do carro. José Hypolito passava por ali aos sabbados de tarde; e, se a solidão era absoluta, perguntava-lhe como passou. E Julieta, debruçada sobre o barandim do miradouro, com a face rubra e o seio ondulante, dizia-lhe que passou bem.
Nas cartas, fallou lhe em matrimonio, o amanuense. Ella respondeu que sim. José Hipolito, esporeado pelo amor, abalançou-se á interpreza de que os amigos o dissuadiam. Pediu-a ao pai, e arrependeu-se. Silvestre perguntou-lhe quem era e quanto tinha. Ouvida a resposta, disse gesticulando um esgar de desprezo:
--Ora adeus... O senhor, se não é tolo, parece-o.
Despediu-o apontando-lhe para a porta. Depois, chamou a filha e perguntou:
--Que diabo é isto? onde conheceste o pelintra que te veio pedir para mulher?
Ella contou ingenuamente o caso, mostrou as cartas, confessou quem lh'as lia, quem lhes respondia, e concluiu:
--Assim como assim, já agora quero casar com elle.
O pai expediu berros cortados de interjeições brutas. A filha fugiu, a soluçar, e não appareceu ao jantar nem á ceia.
E a mãe, a mulher laboriosa que nunca pensára nas soberbías implacaveis da riqueza, dizia ao marido:
--Se ella gosta do rapaz, deixa-a casar... Bem me prégava meu pai que não casasse comtigo porque tu eras filho de quem eras. E d'ahi? Casei e nunca me arrependi.
--Queres dizer na tua que dê a minha filha com oitenta mil cruzados a um troca-tintas que não tem casa nem leira nem...
--Tem-no ella, homem. A riqueza chega para os dois. Trata de saber se elle é bom rapaz; e, se fôr, deixa-a cazar que tem vinte annos.
XI
José Hipolito creára protectores esperançados no bom exito da tentativa. Os inimigos politicos de Silvestre de Romariz coadjuvaram-no a tiral a judicialmente.
O juiz prestou se a interrogar a morgada, visto que ella não podia requerer por seu pulso. Suppridas legalmente as formalidades, Felizarda foi depositada em Barcellos, no seio da familia Alvaraens.
Trava-se então a lucta nos tribunaes. O pretensor, mal dirigido pelo seu advogado, responde com retaliações pungentissimas a insultos que o argentario lhe dirige ao seu nascimento obscuro e á sua pobreza. A pugna passara a ser um assanhado pugilato dos dois causidicos.
Um dos membros da familia Alvarães era moço, chamava-se Jose Francisco, e estudava o quinto anno de latim a ver se aprendia o necessario para conego da collegiada barcellense. Tinha quatro reprovações conscienciosas em Braga; mas ao quinto anno já distinguia o verbo do complemento objectivo, e traduzia com poucos erros a Ladainha.
A familia Alvarães era antiga e abastada; contava muitos frades bernardos na prosapia, e um governador em uma praça da Azia, d'onde trouxera navios de especiarias que formaram o casco da riqueza. A casa tinha pedra d'armas, e uma liteira brazonada que antigamente ia a Alcobaça buscar os frades a rusticar nas pescarias do Cavado, e a encher as roscas da caluga balofas pela inercia do claustro.
José Francisco, o estudante, era sanguineo, nedio, com as maçãs do rosto vermelhas, e os olhos enfronhados nas palpebras somnolentas. Felizarda, a noiva depositada, pareceu-lhe bem, ao passo que o amanuense da camara lhe era um antipathico bandalho, desde que em plena praça o enxovalhára perguntando-lhe, no terceiro anno de latim, o accusativo de Asinus. Oppozera-se José Francisco á recepção da morgada para haver de casar com José Hypolito, filho do Manuel Colchoeiro; mas força maior obrigara os Alvarães a protegerem o amanuense.
Ás vezes, o futuro conego pasmava-se a contemplar Felizarda, e sentia em si as suaves dôres da natureza em parto do primeiro amor. Se ella, a morgada, olhava para elle a fito, produzia-lhe no rosto o effeito do sol que aponta em dia de calma—avermelhava-o até aos globulos das orelhas; e José cossava-se a disfarçar, ou esbofeteava as moscas que lhe passeavam sobre a epiderme oleosa, e faziam titilações incommodas nas fossas nazaes.
A morgada achava-o bonito, e dizia ás irmãs que era pena fazerem-no padre. José, quando soube isto, creou umas esperanças que o tresnoitavam, e tinha as sentimentalidades doloridas de Jocelin, e d'um ou outro clerigo de Barcellos que deixava vingar-se a natureza.
Procuràva José Francisco Alvarães modos de conversar com Silvestre de Romariz, e contava-lhe o que a filha dizia a respeito do Hypolito. Levava á depositada cartas do pai, e lia-lh'as ás escondidas da familia. O amanuense suspeitara-o, e tratava de remover o deposito, allegando subornos que a lei não facultava.
Ora, n'aquellas confidentes leituras, estabelecera se intimidade bastante entre a morgada e o interprete das lastimas de seu pai. D'uma vez que Felizarda enxugava as lagrimas, ouvindo ler o adeus que o pai enfermo lhe enviava, José Francisco, transportado n'um rapto inconsciente de enthusiasmo, pegou-lhe da mão e disse com ternissima meiguice:
--Não case contra vontade de seu pai... Tenha pena d'elle, que está tão acabadinho...
A morgada poz-se a torcer e a destorcer o seu lenço branco, e a lamber uma lagrima que lhe pruía no beiço superior; mas não respondeu.
Alvarães foi contar isto ao velho. Silvestre pegou do processo que o seu advogado lhe enviara, e disse-lhe:
--Faça-me o sr. Josésinho o favor de levar estes autos, e ler a minha filha o que o tal patife, que quer ser seu marido, aqui diz de seu pai; leia-lhe isto, e veja o que ella diz.
O leitor já sabe, por eu lh'o haver dito nas primeiras paginas d'este livrinho, que o indiscreto amanuense consentira que se escrevesse que o pai de Silvestre fôra salteador de estradas, e que o pai de Felizarda exercitara o baixo mester de fogueteiro em Famalicão.
Tudo isto era expendido na tréplica de José Hypolito com grande lardo de zombarias e sarcasmos em estylo piccaresco. A morgada ouviu ler as injurias entoadas com vehemencia por Jose Francisco, que as declamou como se estivesse traduzindo um periodo de Eutropio.
Concluida a leitura, Felizarda, antes que o leitor a interrogasse com os olhos, exclamou:
--Quero ir para casa de meu pai, e hade ser já. O Josésinho vai commigo. Mande dizer a meu pai que me mande a burra.
José foi dar parte á familia da subita resolução da morgada; o depositario foi dar parte ao juiz, e o juiz respondeu que a lei não podia empecer á vontade da depositada. Quando estas altercações chegaram á noticia de José Hypolito, a filha de Silvestre ia já caminho de casa, acompanhada pelo estudante e pelas irmãs.
O pai e a mãe receberam-na nos braços, offegantes de jubilo, a pedir-lhes perdão da sua doudice. Silvestre abraçava José Francisco Alvarães, chamando-lhe o salvador da sua filha e da sua honra. A santa mãe de Felizarda olhava para o estudante com os olhos cheios de riso, e dizia:
--Não queira ser padre, sr. Josésinho... Olhe que o meu homem já disse que se vossa senhoria quizesse a nossa rapariga, que lh'a dava, e eu tambem.
José olhou estupefacto para o velho; Silvestre intendeu o espanto, e disse-lhe:
--Não olhe para mim, que eu não sou o que caso; olhe para a minha filha, e veja o que ella diz. Felizarda, queres casar com o sr. José Francisco?
--Se o pai quizer... tambem eu.--E escondeu o rosto no seio da mãe com umas visagens que pareciam de entremez; mas que eram da maior naturalidade.
As irmãs de José Francisco rodearam-na e beijaram-na soffregamente, em quanto o noivo, alumiado por aquelle improviso e inesperado lampejo de felicidade, achou no coração estas phrazes que balbuciou, abeirando-se da morgada:
--Se a menina casasse com o outro, eu acho que morria de paixão, e mais nunca lh'o disse.
CONCLUSÃO
Quando os vi em Braga, no theatro de S. Geraldo, estavam casados havia já vinte e cinco annos. Na casa de Romariz, durante essa temporada, apenas pezaram dias funestos, quando se fecharam as sepulturas de Silvestre e sua mulher.
José Francisco Alvareães era um modelo raro de continencia conjugal. Em Portugal só se conhecem dois exemplares: el-rei D. Affonso IV e elle. As diversões da vida, convencionalmente chamadas prazeres, não perturbaram a suave monotonia de Romaris. D. Felizarda apenas conhecia na arte dramatica o «Santo Antonio» de Braz Martins, e a «Degolação dos innocentes» por onde entrou na vida infame de Herodes. As noites de dezembro aligeiravam-se em Romariz a dormir. Ceavam e digeriam serenamente. Ao pé de um bom estomago coexistiu sempre uma boa alma. Acordavam alegres, para continuar as funcções animaes. Viviam para credito da physiologia: eram duas pessoas que se adoravam e faziam reciprocamente o seu chylo em um só orgão. Tinham um coração, um figado, e um pancreas para os dois. N'esta vida vegetal havia ternuras cupidineas como as das cylindras e acacias florecentes; e, quando extravasavam da orbita physiologica, jogavam a bisca de trez; mas ordinariamente entretinham-se mais com o burro.
De S. Miguel de Seide—julho de 1876.
FIM
Notas:
[1] Meu caro doutor Thomaz de Carvalho, lembra-se d'elle ha oito annos, no Hotel Gibraltar, já encanecido, mas tão galhardo velho que o invejavam os moços?
[2] «Chico Bellas» era D. Francisco de Castello Branco, irmão do conde de Pombeiro. Foi official de cavallaria, teve vida de amores aventurosa e altissima, morreu em 1862 cancerado, podre de embriaguez e de devassidão. Conheci-o, em 1861, idiota, a babar-se, e a pedir um pataco para genebra. Os seus nobilissimos parentes não poderam nada contra o destino d'este homem, que exercitara o magisterio na esgrima, na gineta e na galanteria bruta e... feliz!
[3] Ecloga III do Lima.
[4] Cant. 2.^o est. XXXVI.
[5] Alludia á novella intitulada o Senhor do Paço de Ninães.
[6] Vou condensando estas noticias colhidas em um livro do coronel Francisco de Figueiredo, escriptor coevo dos successos. É um tomo que fórma o 14.^o da obra intitulada Theatro de Manuel de Figueiredo. Este livro raro, malissimamente escripto, é precioso repositorio dos costumes portuguezes do decimo oitavo seculo. A proposito do negociante Araujo, informem-se os curiosos desde pag. 632 até 640.
[7] Em provincia nenhuma, salvante o Minho, ouvi ainda empregar este verbo regeitar (de rejicere) como quem diz arremessar. Arma que fere de arremesso, em bom portuguez, chamou-se antigamente regeito. O povo usa o verbo que é excellente e onomathopaico. Os minhotos, que fizeram exame de bachareis, e de instrucção primaria (o que é mais difficil), riem-se quando o gentio analphabeto diz: «regeitou-lhe uma pedra.»
[8] O Demonio do ouro.
[9] Os realistas usavam nas suas correspondencias termos convencionaes. Lua era o general em chefe Macdonnell. Este general, quando foi batido pelo conde de Casal em Braga, deixou ali um volumoso diccionario manuscripto, curiosamente elaborado pelos realistas de algum vulto lexicologico, com bastantes documentos que hoje estão esquecidos, e mais tarde a historia não saberá onde procural-os. N'este diccionario cryptographico os vocabulos mais engenhosamente disfarçados são estes:
Inimigos—BESTAS.
Inimigos em movimento—BESTAS DESINQUIETAS.
Inimigos em marcha contra nós—BESTAS DE JORNADA.
Os liberaes, se interceptassem a correspondencia, não suspeitariam decerto que os miguelistas chamassem aos seus adversarios—bestas.
Leia-se a carta dirigida ao cavalheiro José Hume, membro do parlamento sobre o ultimo debate havido na camara dos communs a respeito dos negocios de Portugal etc. Lisboa, 1847.
O traductor e annotador anonymo d'esta obra, a mais noticiosa que temos da revolução chamada da Maria da Fonte, foi Antonio Pereira dos Reis, notavel escriptor politico, fallecido em 1850.
End of Project Gutenberg's Novelas do Minho, by Camilo Castelo Branco