Livro de Consolação · Camilo Castelo Branco

Chapter 19: Capítulo 19

A ira que entumece e arqueja e vibra no proprio coração dos grandes
sabios.

HOMERO.--Iliada, cant. IX.

As cartas vindas de D. Anna para Julia eram discretas e pensadas de modo que Venceslau Taveira, da sahida de Eduardo, inferia apenas que o seu amigo se desviára com plausivel prudencia dos perigos amorosos que o assediavam na alta sociedade. Esta supposição colhida de algumas phrases problematicas das cartas, que Julia não escondia, dava margem a que entre os dois esposos e padre Manoel Ferreira se conversasse sobre a desmoralisação dos costumes.

O capellão raramente perdia lanço de lamentar a filha do commendador, ferindo assim de soslaio o caracter do marido, a quem não desculpava a peralvilhice com que bandarreava nas salas, galanteando a esmo todas as damas. Venceslau, motejando a severidade do padre, attribuia os geitos galãs do amigo não á ruindade das intenções, senão ao temperamento, ao genio alegre, ao instincto da sociabilidade, que era sempre excellente prenda nos cavalheiros propensos aos futeis recreios das assembleias. D. Julia escutava estas discussões, e assentia á indulgencia do marido, sem reparar que o padre lhe estudava o pensamento nas menos expressivas alterações do semblante.

Padre Manoel—digamol-o de corrida—não lia sómente livros latinos, nem estudára nas Lesbias e Lydias as versatilidades femeaes. Parece que o sabio, antes de vir á poesia romana, tinha sido poeta por sua conta, e risco, talvez, da dignidade sacerdotal. Como vivêra trinta ou quarenta annos entre fidalgas, confidenciando-as nas salas e nos confessionarios, bem é de vêr que n'aquelle espirito escrutador se formassem desconfianças ingratas ao bom juizo de D. Julia, desde que ella se lhe figurou duvidoso exemplar de perfeição. Isto, aggravado pela secreta aversão que tinha a Eduardo Pimenta, explica o tom detrahidor com que lhe desfazia nas virtudes conjugaes e o olhar de travez que dardejava á phisionomia da desprecatada fidalga.

Uma vez o padre, invectivando contra o seculo, proferiu a palavra «adulterio», como thema de certa historia contemporanea. Venceslau avincou a fronte, recurvou os dedos para as palmas das mãos, fez uma vizagem desabrida de zanga, e cortou de golpe o discurso, sobrevindo com outro assumpto.

Padre Manoel ficou um tanto corrido, e D. Julia suspensa, e até certo ponto inquieta.

Assim que teve ensejo de fallar particularmente com o capellão, pediu-lhe o deputado desculpa do impeto com que o interrompera, e rogou-lhe que, na presença de sua mulher, se abstivesse de contar historias de vicios, e principalmente de adulterios; visto que, em historias d'esta natureza, a moralidade do conto era sempre equivoca, senão era ridicula, como nas comedias de Molière, e de todos os propaladores de taes desregramentos. E ajuntou:

--Se o meu amigo, contando os adulterios das diversas senhoras do seu tempo, rematasse a narração, mostrando-nos o castigo do crime, dou-lhe que não perdesse o tempo, o incutisse saudavel terror no animo das mulheres ou dos homens que não delinquiram ainda...

--Mas o castigo, snr. Venceslau, se não é patente, lá lh'o influe a invisivel mão de Deus na consciencia dos culpados...--objectou o padre.

--Convenho; mas eu não vejo o castigo, nem sequer vejo joeiradas da boa sociedade as mulheres, nem dos altos cargos da republica os homens, cujas consciencias o meu caro snr. padre Manoel Ferreira piamente imagina atormentadas. Essa especie de contos rematava mais edificantemente, se o meu amigo os concluisse d'este feitio: «a condessa de tal atraiçoou o marido, que era um homem de bem, extremoso por sua honra e sua mulher. Um dia, o marido, avisado da traição, matou a mulher, e matou o adultero.» Aqui tem um desenlace tragico, talvez o unico para poder dizer-se n'uma sala sem receio de fazer rir os circumstantes. Tudo mais que não for isto é prudente e honesto que não se divulgue ás pessoas que o ignorarem. Se o conde de tal vive, ha annos, na sua quinta, só, sequestrado do mundo, chorando, dilacerando-se a golpes de vergonha, em quanto sua mulher despejadamente alardêa seus vicios em Lisboa—se era essa a historia que o snr. padre Manoel ia hoje contar a minha mulher, com que moralidade tencionava encerrar o conto? O conde foragido do mundo para se não vêr escarnecido, é a moralidade? A condessa rodeada de cortezãos nas suas salas é a moralidade?

--Não, senhor. A moralidade é que V. S.ª e outros homens honrados não levam suas esposas a casa da condessa.

--Está enganado. Eu conheci n'estas salas a condessa, e ouvi esta senhora, que é hoje minha mulher, chamar-lhe prima. É certo que Julia não irá lá mais, penso eu; mas não é menos certo que muitas damas de regular proceder lá vão.

--Lisboa está assim...--murmurou o padre transigindo.--É o baixo imperio... a libertinagem da França de Luiz XV que chegou a Portugal cem annos retardada, abordoando-se ás muletas da civilisação. As luzes são boas, quando não pegam fogo ao templo das velhas crenças. Corruptio optimi pessima, como diz Horacio. Bem-aventurados aquelles que circumscrevem á familia as regalias do repouso, e cerram as suas portas á ociosidade que se desenfastia a bailar, a jogar, a cacarejar frioleiras nos salões. Cada vez me felicito mais por vêr que V. S.ª vae brandamente reduzindo sua senhora ao socego da vida intima...

--Reduzindo, não, meu amigo—corrigiu Venceslau.--Não se persuada que eu reajo aos desejos de minha mulher. N'esta casa, que é d'ella, faz-se o que sua dona quer. Julia visita quem lhe praz, e recebe quem lhe parece. Acompanho-a umas vezes por vontade, outras com repugnancia; mas vou sempre com o mesmo semblante. É certo que a vejo triste; mas attribuo a mudança á natural e providencial transformação que se vae operando no animo das mulheres da sua edade e na sua posição; além d'isto, póde ser que as saudades da sua amiga Anna Vaz tenham parte n'esta melancolia. Felizmente, Eduardo volta para Lisboa na proxima semana, e eu muito estimarei que a intimidade das duas senhoras se renove como a tiveram em solteiras.

N'este ponto, padre Manoel acudiu a esfregar o nariz, onde era costume acudir-lhe a zanga em pruridos incommodos. Venceslau não reparou n'aquella réplica toda nazal, nem o capellão entendeu fazer commentarios oraes ás suas comichões freneticas. As ideias que lhe obumbravam o espirito eram negras, inexprimiveis, e taes que elle fugia de as repetir a si mesmo, sendo que um demonio contumaz lh'as estava sempre a martelar na fragua da cabeça. Não ha ahi duvidar da esclarecida razão de padre Manoel Ferreira, que sabia latim a preceito e muitas sciencias boas e más; pois, sem embargo, ás vezes via-se tão importunado de satanicas suggestões contra Eduardo, que chegava a persignar-se e a repetir mentalmente o et ne nos inducas in tentationem.

D. Anna e o marido voltaram para Lisboa; mas o affecto da esposa de Eduardo a D. Julia havia esfriado bastante. Poderemos sem grandes deslizes da verdade conjecturar que, no animo d'aquella senhora offendida pelo esposo, a amisade á outra que a fazia soffrer—bem que involuntariamente—cedeu o passo ao amor-proprio e a outros nobres sentimentos. O despeito era inevitavel, embora a sua bonissima condição lh'o demorasse. Este arrefecimento devia crescer á medida que ella deduzisse das tristezas silenciosas do marido vestigios da saudade indomavel; porque, se a saudade era prova da grande valia da mulher não esquecida, razão de mais para que Anna Vaz a considerasse perigosa; e, se o marido á custa de nobres esforços, vingasse olvidal-a, outra razão para que a esposa precavida temesse a reincidencia na aproximação.

Esta, a meu pensar, parece ser a natural interpretação das raras visitas, e essas pouquissimo expansivas, que as duas damas se trocaram.

Entretanto, D. Anna explicava as suas faltas com os cuidados da maternidade, porque já então era mãe. Venceslau achava louvavel a razão, e dizia a sua mulher que a esposa de Eduardo era uma respeitavel dama que se fazia venerar de seu marido, quando não fosse extremamente amada.

Quando estas palavras foram ditas, padre Manoel Ferreira observou com os olhos esconsos que D. Julia mordia o beiço inferior. Não sei o que elle colheu d'este acto. O homem provavelmente julgava que os máos pensamentos tanto podiam pruir no nariz como nos beiços.

Aquelle anno de 1822, trabalhoso e irrequieto para os liberaes, trouxe para D. Julia horas aborrecidas de solidão e irritantes dissabores.

O deputado nunca fôra tão politico e cidadão afreimado. Quatro successos importantes lhe absorviam a maior parte das suas horas diurnas e nocturnas. Primeiro, a independencia do Brazil, d'onde elle inferia que Portugal ficava sendo uma grande cabeça sem cerebro, um gigante paraplegico, bracejando, sem pernas que o movessem. Depois, a reunião das tropas francezas nos Pyreneos, ameaçando cassar as cartas de alforria dadas pelos reis ás nações amotinadas. Em seguida as facções liberticidas conjuradas com o titulo de Junta Apostolica. Por ultimo a formal recusa da rainha D. Carlota Joaquina em jurar a constituição.

Nas fogosas luctas que então se travaram no congresso, entre gladiadores inveterados de absolutismo, e outros exaltados fautores da liberdade, Venceslau Taveira ia na vanguarda dos liberrimos. Os seus discursos poderiam ser acoimados de demagogos, se a audacia dos adversarios não lhes justificassem a iracundia. Depois que a rainha pediu licença para sahir de Portugal, visto que a lei a obrigava não jurando a constituição, as duas parcialidades do congresso defrontaram-se rancorosamente, até ao extremo de se arcarem peito a peito.

Uma noite Venceslau entrou no seu escriptorio, e demorou-se largo tempo a passear agitadissimo. D. Julia, admirando a insolita demora, desceu á livraria, e viu sobre a banca da escripta um par de pistolas novas e um pacote de polvora e balla.

--Pistolas!--exclamou ella—isto que é?... Nunca te vi d'estas coisas!

--São hoje necessarias, minha filha—disse brandamente o deputado, desenrugando a fronte assim que viu a esposa alvoroçada.

--Para quê? tens inimigos?

--Tenho, e enormes: são os mil algozes symbolisados na palavra «despotismo». Hoje, mais do que nunca, me sinto obrigado a combatel-o. Preciso defender a felicidade que me déste. D'antes era eu um homem, que podia morrer, sem o pezar de ser chorado. Hoje, que a vida me é mais cara, mais me devo prevenir na defeza d'ella. Não te assustes, Julia...--proseguiu elle abraçando-a.--O despotismo ainda cá não metteu a garra; mas eu tenho collegas no congresso que nos estão atraiçoando, e já vão tomando nota dos que hão de apontar ás alçadas se o infante D. Miguel for acclamado absoluto. Eu hei de ser o primeiro, se antes d'isso me não poderem apunhalar traiçoeiramente. Contra os traidores é que os homens de bem se armam. Ámanhã espera-se estrondoso escandalo no congresso, onde vae debater-se a recusação da rainha. Eu hei de votar pelo cumprimento da lei que a manda sahir de Portugal; mas suspeito que alguns atrabiliarios lhe vão entoar vivas. Se tamanha protervia couber na alma vendida dos deputados absolutistas, é preciso expulsal-os da camara; e, se reagirem, será forçoso que deixem a vida onde alardearam a deshonra.

--Mas que necessidade tens tu de te arriscares?--perguntou Julia.--És rico, pódes viver tranquillo; em qualquer parte do mundo achas a liberdade sem receios, e a independencia das alternativas da politica... Olha, Venceslau, deixa ficar Portugal aos que o exploram, e vamos viajar.

--Iremos forçados—disse Venceslau--; mas, por emquanto, não. Eu hasteei no congresso a bandeira mais odiada dos despotas. Se eu desertar d'entre os poucos que me seguem, o meu nome ficará infamado de covardia, e a tua riqueza será a alavanca de ouro com que eu arrazei o honroso edificiosinho que ha dez annos estou levantando. Não póde ser, minha querida Julia... O teu amor quer-me desviar d'um perigo onde a tua razão me deve aconselhar que esteja. Conciliaremos o amor com o dever. Quanto mais direitos eu for grangeando á gratidão da patria, por mais digno me hei de ter da tua estima...

--Mas eu—volveu D. Julia com meiguice—desejo que tu não penses mais na patria do que em mim, Venceslau. Não me disseste hontem que Eduardo, desde que era pae, te parecia mais meditativo...

--Sim... disse.

--Pois então, lembra-te que és pae d'aqui a pouco tempo, e que a patria, se tu faltares aos teus filhos, não t'os ha de indemnisar do amor que perderam.

Venceslau beijou a fronte da esposa, e murmurou:

--Minha filha, quando o alento me esmorecer no cumprimento dos meus deveres, anima-me tu, dizendo-me que o sacrificio d'um pae na causa santa da liberdade é um legado precioso a seus filhos. Que elles herdem de ti os bens da fortuna, e de mim a parte que eu tiver na liberdade da patria, para que se não envergonhem de ser portuguezes.

Não era visionario desvairado pela paixão politica Venceslau Taveira.

Quadraram os disturbios das côrtes, no dia seguinte, aos seus presentimentos.

Ventilava-se afogueadamente a questão da recusa de D. Carlota na casa legislativa. Os liberaes pediam o cumprimento da lei com desabrida virulencia, provocada pelos murmurios de alguns deputados sequazes das conspirações de Queluz. Venceslau Taveira, vibrante da eloquencia da justiça, resoluto a pôr peito aos perigos que lhe ameaçavam a singular coragem em meio dos seus correligionarios abatidos pelo terror do exilio, dos carceres e dos patibulos, irrompeu em apostrophes á Junta Apostolica, á facção infame que viera arrebanhar vilissimos escravos ao gremio da representação nacional.

N'esta conjunctura, um deputado dilecto da rainha, por nome Antonio José da Silva Peixoto, coadjuvado pelo foliculario José Accursio das Neves, levantaram-se e proromperam em «vivas» á rainha nossa senhora, e «morras» aos carbonarios, agitando os lenços. Os membros da sua facção, incitados pela audacia dos dois absolutistas, conclamaram a rainha absoluta, e tal houve que no tumultuar do alarido vingou avantajar-se em brados, offerecendo o nome do infante D. Miguel á espectação dos deputados para quem a desthronisação de D. João VI era a traça gizada pela rainha.

Venceslau, interrompido por aquelles brados, perdeu a serenidade do aspecto que sempre mantivera nas mais degladiadas controversias. Os seus collegas convisinhos, coevos das formidaveis tempestades de 93, e identificados ás tradições dos magestosos tribunos da carnificina, disseram que no afuzilar dos olhos e convulsão vertiginosa de Venceslau havia a colera de Mirabeau. Mas este juizo inoffensivamente plastico ficou áquem da ambiciosa comparação, quando o viram correr por entre a camara turbulenta, com duas pistolas aperradas, de encontro ao grupo onde se bradavam vivas a D. Carlota Joaquina.

Difficilmente impedido na passagem, os seus amigos deram tempo a que a facção da rainha se evadisse pela cêrca das Necessidades.

Serenado o tumulto, Venceslau, descido do impeto da ira, e corrido do acto, pediu perdão aos seus collegas; mas assim mesmo appellou da sua propria consciencia, que o accusava, para a justiça dos vindouros; e, como, apezar da prostração moral, a alteza da ideia lhe não fallisse, consta do Diario das Camaras que elle dissera: «aos meus collegas, que estremeceram por me vêr pistolas engatilhadas, peço que se vão afazendo a vêr instrumentos de morte, para que não se aterrem quando, vestidos com a alva de condemnados, se defrontarem com os patibulos.»

Desde este dia, o nome de Venceslau Taveira foi inscripto na lista dos votados á morte nos conciliabulos de Queluz.

Quando o governo descobriu n'aquelle anno a celebrada conspiração da rua Formosa, entre os papeis encontrados no subterraneo da officina typographica, estava um com as bazes do projecto revolucionario.

O artigo 3.º dizia: «Assassinar aquelles entre os membros das côrtes e do ministerio que são os mais celebres defensores dos direitos nacionaes.»

O primeiro nome era Venceslau Taveira.[3]

O conflicto do congresso parecia ter sido apenas um sonho máo no espirito do deputado, quando entrou no seu escriptorio, onde Julia o esperava assustadissima. Um sorriso de paz lhe deu elle com o beijo da sua extrema ternura, e na firmeza de voz e bom concerto das ideias denotava que os transportes de uma coragem honrosa, depois de o abalarem, lhe repunham a alma descansada no reclinatorio da consciencia.

--Fujamos de Portugal!--disse-lhe Julia vivamente.

--Não fujamos, minha amiga... Jantemos—disse serenamente o marido.

E, durante o jantar, perguntou padre Manoel Ferreira:

--E, se V. S.ª, cego na sua justa ira, matasse o Peixoto ou o Neves...

--Ou ambos...--ajuntou Venceslau.

--Sim, ou ambos... suppomos...

--Suppomos...

--Que acontecia?--insistiu o capellão.

--Que elles estavam a esta hora mortos—respondeu o deputado.

D. Julia fitou com certo assombro o placido rosto do marido, e disse:

--Pois tu... eras capaz de matar...

--E de morrer, minha filha.