Livro de Consolação · Camilo Castelo Branco

Chapter 13: Capítulo 13

Sempre bom, sempre douto, sempre amigo
Da honra e da virtude.

FILINTO ELYSIO.--Ode.

«Se eu podesse amar um homem!»--verbo de recondito mysterio que passou nos labios de Julia, por entre umas crispações, que tanto podiam ser nervosas como sanguineas.

Estas mesmas palavras repetiu ella á sua amiga D. Anna Vaz, um mez depois de celebrado o casamento.

Vieram ellas de molde no seguinte dialogo:

--Diz o meu Eduardo que tu não amaste nunca meu mano Antonio.

--Ora essa! O teu Eduardo não tem senso commum! Em que funda elle essa calumnia?

--Diz que tem estudado o teu genio; que te não acha nos olhos, nem nas palavras a doçura e tom de mulher,--a meiguice que elle chama feminilidade. Disse mais que tens uns ares varonís, e umas attitudes fortes, inflexiveis e refractarias á ternura.

Julia soltou uma cascalhada de riso, exclamando entre froixos de tosse:

--Teu marido é admiravel! Não tem graça, mas faz-me rir! Com que então tenho ares varonís! Espera talvez que eu, se os francezes voltarem a Portugal, vista a armadura da donzella de Orleans para salvar a patria! Desconfia provavelmente que eu trago na algibeira do vestido a faca de Carlota Corday! Ai, filha, dize-lhe que não! Assevera-lhe que eu dou um grito pavoroso quando vejo uma carocha...--Continuou a casquinar e a dizer:--Estas más qualidades do sexo forte em que m'as viu elle? Nos olhos sem doçura, e nas palavras... sem quê? Não te lembras?... Ah! sem tom de mulher. Olha que injustiça, ó Annica! O timbre da minha voz é feio de fino que é; e os meus olhos, na opinião da gente que me faz favor de olhar para mim, são tristes e ternos. Não sei quem foi que me chamou antilopa de olhos scismadores... Ainda hontem ao Venceslau Taveira ouvi que nos meus olhos brilhava uma congelação de lagrimas. Vê tu, meu amor, que opiniões tão oppostas!

--Ai! a proposito... Sabes o que Eduardo me disse, Lulu?

--Que o Taveira me fazia a côrte?

--Isso... como adivinhas tu, feiticeira?--perguntou D. Anna maravilhada.

--Como adivinho eu!... Isto não é feitiçaria, é raciocinio. Elle que diz que eu não posso amar, é porque sabe que os meus pretendentes indefiridos são muitos. Ora, sendo Taveira o unico sugeito com quem fallo na presença de teu marido, este ha de ser por força o meu namorador rejeitado...

--Mas elle ama-te decerto?--contraveiu D. Anna Pimenta.

--Ó menina, a pergunta é seria?

--É, Lulu... Quem me déra vêr-te casada e tão feliz como eu sou!...

--És realmente feliz?...

--Porque duvídas?!

--Isto não é duvidar, minha filha... é o vivo jubilo que sinto quando me repetes todos os dias que o teu Eduardo é o ente digno de ti. Queres tu saber? Teu pae estava hontem triste e só na sala, quando eu entrei: Perguntei-lhe que tinha... e elle...

--Ah! eu te digo... O Eduardo lembrou-se de dar um baile para festejar os meus annos. O papá observou-lhe que os annos de uma pessoa querida festejavam-se em familia, e que o prazer de festas vaidosas e estrondosas era cerceado pela canceira de quem dava bailes em que os divertidos eram os de fóra. Eduardo ficou descontente; mas não respondeu. O que elle particularmente me disse não o soube o pae.

--Que foi?...

--Desculpa-me, Lulu... não t'o digo... prometti segredo...

--Desculpa-me tu a curiosidade, minha querida amiga. Foi uma inadvertencia que a tua amisade me releva... Mas então não me illudi... A tristeza do teu papá tinha relação comtigo; e por isso insisti em perguntar se...

--Mas—atalhou a filha do commendador—ias contar-me a respeito do Venceslau...

--Ah! sim... O Venceslau é um rapaz que merece ser admirado. É serio e melancolico. Tem certa graça contrafeita no rir, quando se alegra por condescender. Em outro homem, cuidaria eu que a sua grave compostura e madureza intempestiva é artificio. N'elle, não. Eu sei o que é... A sua paixão é a politica; os seus namoros são os livros; a sua noiva é a Liberdade; e o seu céo ou inferno é a gloria. Homens assim não amam mulheres feminís nem mulheres varonís; podes dizer isto ao teu Eduardo. Dize-lhe mais que eu não repellí a declaração do Taveira. Ainda lhe não ouvi palavra que me assuste nem lisongeie...

--Mas se elle te dissesse que te amava?...--inquiriu com malicioso tregeito D. Anna.--Que fazias?

--Eu sei!... Forte aperto!--respondeu ridentissima D. Julia, a deplorativa Arthemisa do defuncto emigrado.

--Ah!... entrei-te no coração, Lulu!... Cuidas que me enganas?

--Enganar-te!... Quando te menti eu, filha? Perguntaste-me se me elle amava, disse-te que não. Perguntas-me se eu o amaria... Olha, minha amiga... se eu podésse amar um homem...

--Ainda agora te ouvi dizer que se elle declarasse que te amava...

--Que mais ouviste?

--As reticencias... o embaraço... aquelle eu sei!

--Sim, eu sei! Provavelmente ouvia-o com senhoril delicadeza, pedia-lhe que me deixasse pensar, e depois...

--Que dizias depois?

--Se eu ainda não pensei para responder a elle, como hei de responder a ti! Que indagadora! Se não fechassem a inquisição no anno passado, e fosses varoníl como eu, vestias a tunica dos dominicos, e ias interrogar judeus e feiticeiros!

--Vou fazer-te uma prophecia—disse solemnisando o gesto de sibylla a esposa de Eduardo.

--Vá, sóbe á cadeira, já que não temos tripode, e prophetisa de lá, na certeza de que és oraculo por tal modo transparente que eu já sei o que vaes vaticinar.

--Casarás com Venceslau Taveira!--exclamou D. Anna, alongando o braço em postura esculptural.

--Era isso mesmo. Desce o braço, propheta! podes apagar a chamma divina que te alumia o futuro, e convida-me para jantar comtigo, visto que o teu homem foi jantar com o general Sepulveda, e podemos parolar toda a tarde... Olha, não gósto d'estas deserções que faz teu marido a jantares alheios. Casado ha um mez, e jantar fóra...

--Que tem isso?

--Eu não no consentia a meu marido.

--Pois sim... eu tambem não gósto; mas o papá deseja que elle se empregue, e o general Sepulveda prometteu-lhe não sei quê no commissariado. Diz o Eduardo que é preciso fazer a côrte ao general. Ora agora, tu, que tens quinhentos mil cruzados, se casasses, não consentias que teu marido fizesse a côrte aos que dispõem dos empregos. Olha, casa com o Taveira, e verás que elle janta sempre em casa...

--O Taveira? olha quem!... O Taveira jantaria comigo, se a santa Liberdade o não convidasse a comer o caldo negro dos spartanos. A politica é uma amante que supplanta as esposas. Em quanto houvesse leis que fazer e costaneiras que rabiscar para vestir a Liberdade, com trapos reduzidos a papel sujo, meu marido apenas me daria a honra de me lêr os seus artigos e discursos. Venceslau ha de ser um bom esposo, se a Liberdade morrer; mas depois tambem a mulher, que o acceitasse viuvo de tamanha deusa, corria o perigo de o ir procurar aos sertões da America, onde ha tanta liberdade, sem constituição nem hymno, que toda a gente faz o que quer e traja o mais livremente que é possivel.

N'este estylo, que denota frescura, desafogo e irrisão, proseguiu D. Julia de Miranda até á chegada do commendador. A pratica, durante o jantar, correu á conta do soberbo discurso que Venceslau proferira n'aquelle dia, captando o assombro das galerias, e consolidando a reputação de primeiro orador, em tão verdes annos. Francisco Vaz, á medida que realçava os talentos do deputado, vibrava de esconso á filha uns olhares expressivos de mágoa e censura, como se quizesse d'esta sorte arguil-a de ter-se esquivado a consultar o pae na escolha do marido.

--Que brilhante futuro aguarda este rapaz!--insistiu o enthusiasta, apezar da voragem que o deputado abria para sorvedoiro das commendas rendosas.--Dizia-se ha pouco no Rocio que é bem de esperar que elle seja chamado ao governo. Que admira? Quando o talento se allia á honra, que monta a falta dos cabellos brancos! Vida immaculada com profunda sciencia combinam o grande prodigio, n'estes tempos de muito vicio com muitissima ignorancia! Ó snr.ª D. Julia, que homem aquelle quando o fogo do genio e a consciencia da justiça lhe alumiam a fronte! Tenho pena que as damas portuguezas se considerem tão alheias dos negocios publicos. Se a instrucção mulheril ou a moda levassem senhoras ao parlamento, quantas não sahiriam de lá hoje, não direi convencidas pela oração, mas apaixonadas pelo orador!...

Ao gracejo do velho respondeu D. Julia:

--É bom que as senhoras não frequentem o parlamento. Pobre deputado, se as apaixonadas o assaltassem á sahida da camara, a repucharem-no cada uma de seu lado, e elle a defender-se d'essas mulheres de Pharaó, com argumentos de irreprehensivel rhetorica! O pobre rapaz havia de julgar-se novo Orpheu dilacerado pelas donzellas da Thracia.

O commendador franziu a epiderme da testa, revelando assim o desgosto que lhe causavam as demasias de sal, com que a sua hospeda, desde certo tempo, polvilhava as facecias.

--As damas portuguezas—tornou o commendador sisudamente—quando admiram os bons ingenhos não os assaltam na rua; e, se os prézam, não se desprezam a si mesmas.

--Perdão, snr. commendador,--emendou D. Julia, despeitada pela censura—eu respondi gracejando, por me parecer que V. S.ª não calculava com a maior seriedade o numero das damas apaixonadadas pelo orador. Eu tenho a honra de ser uma das leitoras, que admiram Venceslau Taveira, e já n'esta casa o ouvi improvisar luminosos discursos; porém...

--Não se apaixonou...--accudiu o velho.

--Não, senhor. As mulheres portuguezas, em geral, não têm a sensibilidade erudita que se extasia e captiva de discursos politicos. Comprehende-se que um poeta leve de poz a sua lyra mulheres, como Amphião levava pedras. A poesia é musica, e a musica, não sei onde li isto, fascina cobras e outras alimarias ferozes. Mas um discurso sobre a liberdade de imprensa e a egualdade perante a lei não seria capaz de me arrebatar grandemente.

--Desconheço-a, minha amavel senhora!... replicou o commendador, alongando os beiços, e tomando na mão um prato, cujos relevos japonezes parecia examinar em quanto fallava.--Essa linguagem, adubada de chistes e epigrammas, d'onde lhe veiu? A menina, d'antes, conversava em termos ingenuos, modestos e familiares: revia candura no pensar e no dizer. Hoje, porém, e n'estes dous ultimos mezes, as suas phrases têm novidade, que me desconsola. Ouço dizer que os emigrados trouxeram de França uns livros que apagam os lumes do coração e accendem os fogos fatuos do espirito... Dar-se-ha caso que a minha Juliazinha haja lido muito?

--Leio desde os quinze annos, como V. S.ª sabe—respondeu com altiva seriedade a fidalga.--Meu pae era rapaz quando o Pombal expulsou os jesuitas e abriu as barreiras aos livros francezes. Meu pae estudou então, e mandou-me ensinar a mim o que lhe pareceu bom que eu soubesse. Li muito, durante os annos que estive inclausurada em castigo de amar seu filho. Lia para distrahir-me, e arrancar das presas da desesperação a alma que eu guardava para elle. Os livros, que li então, são os livros que hoje recordo. Dos que ultimamente vieram com os emigrados não conheço nenhum que me abraze nem que me géle. Ha todavia para mim dois optimos exemplos de que os ares que os emigrados respiraram não impestam. Bem lidos e sabios da sciencia dos francezes devem ser Eduardo e Venceslau; não obstante, elles são homens de bons costumes e excellente porte.

--São...--murmurou o commendador.--Não duvido... não devo duvidar que sejam...

E, balbuciando como se as palavras resistissem á repressão da vontade, levantou-se da mesa, onde se havia demorado, concluido o jantar.

N'este acto, annunciou-se Venceslau Taveira.

D. Julia deu-lhe os emboras do seu triumpho que elle recebeu com um silencioso gesto de respeitosa gratidão.

Perguntou por Eduardo; e, como lhe dissessem que jantára com Sepulveda, a quem empenhára na sua collocação, disse:

--Eu obtive o despacho de Eduardo...

--Mas ninguem lhe tinha pedido esse favor, meu amigo!--disse com jubilosa commoção o velho.

--Não, senhor. Eduardo nada me pediu; vi na secretaria o requerimento. É bem de crêr que o ministro o attendesse; mas com as delongas usuaes. Ora, como eu melhor do que ninguem podia depôr do merecimento e probidade do meu amigo, fallei ao secretario de estado, e alcancei sem esforço que o decreto seja lavrado.

--Nobilissima alma!--exclamou o commendador, abraçando-o.

D. Anna apertou-lhe tambem a mão com vehemente agrado; e, n'este lance, disse alegremente o deputado:

--Dou-lhe os parabens, snr.ª D. Anna, porque, despachado o nosso Eduardo, não terá V. Ex.ª o desgosto de jantar sem elle. O emprego é sempre uma felicidade na vida intima, quando traz a uma esposa extremosa mais duas horas de convivencia com seu marido.

--Mas tem percalços o officio...--disse D. Julia.

--Qual officio, minha senhora, o de chefe do commissariado?

--Esse ou qualquer outro que involva nas alternativas da politica o socego de Eduardo.

--D'accordo, minha senhora; mas o socego é um egoismo improprio do homem que deve ao pobre paiz o obulo da sua actividade e talentos.

--A mulher, primeiro—redarguiu a dama.

--A esposa primeiro nas prerogativas do coração—obviou Venceslau—mas nos dons do espirito a humanidade, o commum de nossos concidadãos, que constituem a patria. Eduardo Pimenta deve arrotear os maninhos em que seus filhos hão de colher as messes. Aos fundadores da familia corre maior obrigação de desaffrontar os herdeiros do seu nome dos vexames do despotismo e da ignorancia d'este paiz, para que não hajam de envergonhar-se os que nasceram n'elle...

--Vês, Anna?--disse Julia intencionalmente á sua amiga.--Não é isto que eu te dizia ha pouco?

Venceslau, olhando alternadamente para as duas senhoras, disse:

--Vê-se que eu tive a honra de ser discutido por V. Exas. ...

--Foi—tornou a fidalga das Amoreiras.--Dizia Anna Vaz que V. S.ª, se fosse casado, nunca deixaria de jantar com sua esposa; e dizia eu que a sua esposa teria de succumbir rivalisando-se com os interesses da patria.

--V. Exas. ambas tinham razão. Se eu fosse casado, deixaria de jantar com minha mulher, quando as obrigações indeclinaveis de cidadão me não deixassem jantar n'outra parte. Se esse infortunio, porém, acontecesse muito repetido, e eu deixasse de jantar alguns dias successivos, minha mulher choraria amargamente quando lhe restituissem o cadaver do marido morto de fome... no altar da patria.

Riram as duas senhoras da facecia expressada com seriedade despretenciosa; mas o commendador que entreviu no dizer engraçado uma indirecta censura ao genro, murmurou:

--Democrito dizia eternas verdades, rindo.

--Não me dê foros de philosopho, meu bom amigo—volveu o deputado, atinando com o intuito do velho.--Verdade é que, se a philosophia é ou foi officio de gente mal enroupada e mal alimentada, eu, pelo que toca ao alimento, estou a ponto de professar o stoicismo dos famintos mais celebres da Grecia e Roma. São seis horas e não jantei ainda. Recebo as ordens de V. Exas.

--Se recebe as nossas ordens—disse D. Julia--ámanhã irá jantar comnosco á sua casa das Amoreiras.

--Beijo as mãos de V. Ex.ª por tamanha honra...

--Mas se a patria o impedir?--tornou ella.

--É vão o receio, minha querida senhora. A patria por em quanto janta, e deixa jantar os seus filhos. Não se trata de lhe matar a fome; da indigestão de lautos banquetes é que eu e outros mezinheiros a queremos curar.