Qualquer honesta se abala,
Como sabe que é querida.
CAMÕES.--Filodemo.
Observou Venceslau Taveira que o seu amigo, ouvindo lêr a complacente carta do commendador, manifestou mais que moderadamente o seu contentamento. Estranhando-lhe a quasi indifferença, perguntou-lhe se a noticia lhe era desagradavel, e se a conformidade do pae ao amor da filha despoetisava a noiva.
Respondeu Eduardo, alteando a fronte, que a injuria da despedida era muito recente, e a honra da readmissão pouco desejada.
Taveira obtemperou com a sobranceria do seu amigo. Pareceu-lhe bem aquelle pundonor: achou até natural que os brios e o coração se digladiassem dentro do nobre peito do rapaz. Isto, porém, não impediu que elle desculpasse o velho e resalvasse a menina da responsabilidade, a fim de amolentar as asperezas timbrosas de Eduardo, o qual se considerava offendido em sua justa hombridade de plebeu pela propria mulher que talvez imaginasse descer os degraus de sua gerarchia para lhe dar a mão. É o que elle dizia, encaracolando o bigode e avincando a testa.
Insistiu Taveira declinando da amorosa menina as queixas do plebeu irritado. Teve que fazer. A ralé, se traja ao bizarro, e se tem nos miolos o fervilhar das aspirações, destampa em orgulhos desmesurados: faz saudades do barão feudal. Dava-se em Eduardo, ao que parecia, o sangrar da ferida antiga. O viuvo da filha dos Portugaes tinha nas cavernas da alma latibulos de rancor ás raças, aos pergaminhos, e nomeadamente aos paes que lhe não offereciam as filhas e os vinculos. De mais a mais, além d'estes pontos-de-honra, outras procellas lhe emborrascavam o animo quando elle, de subito, fez esta pergunta:
--Que dote tem ella?
--Eu sei lá!...--respondeu o outro enleado.
--Eu devia ter indagado...
--Sim, tu, e não eu, a dever ser algum. Se casas com o dote, começas pelo fim. Devias estudar o archivo do commendador, antes de pôr a sonda ao coração da filha, acho eu.
--Fallemos serios—volveu o galan dos olhos tristes e das palpebras morbidas.--Parece-te inutil isto de saber-se com quanto um homem póde contar, quando se constitue chefe de familia?
--Parece-me util; é sem duvida util mercantilismo. Mas o util nem sempre se combina com o agradavel, como aconselha o poeta romano. E, n'este caso, essa averiguação, sobre ser desagradavel, é extemporanea. Já te disse: acabas por onde devias principar. Suppõe tu que farejas os contadores de Francisco Vaz, e não achas lá aroma de vintem! Que fazes? Retiras o requerimento á mão da menina, visto que a menina se não presume herdeira?
--Se retiro o requerimento? Eu não requeri nada... não a pedi...
--É verdade, não a pediste... Fui eu quem a pediu para ti, por me haveres dito que ella se suppunha amada, e não embaida por velhacaria de mercador que anda de armazem para armazem comparando e apalavrando fazenda. Entretanto, respeito a dote, não te informes comigo. Como vês, tens aberta a porta do commendador: pergunta-lh'o. E, se elle te disser que é pobre, e as lavaredas do amor se apagarem no teu peito, suicida-te.
--Que me suicide?!--bradou espantado o sugeito, que annos antes andára a metter-se nas tezouras da parca.
--Sim, homem—voltou Venceslau tregeitando no sorrir um gesto de aborrecimento, se não era de menospreço.--Mata-te por egoismo. O amor proprio de um homem de bem deve ministrar-lhe o veneno ou o punhal suicida, quando se lhe está abrindo um abysmo de... de... não me lembra a palavra...
--É pena que te não lembre...--acudiu ironicamente o outro.
--Ah!... lembrou: de infamia.
--Mercês!--redarguiu Eduardo—se fosses um qualquer homem, respondia-te no campo da honra; mas ao amigo, que comprou com os seus favores o direito de me aviltar, digo: obrigado!
--Ao campo da honra vão os honrados—concluiu Venceslau, erguendo-se de golpe, e tomando o chapéo.--Tenho que fazer... Não me dá Deus horas baldias para palestras d'esta especie.
E sahiu arrebatadamente.
Eduardo seguiu, deu-lhe o braço já na rua, e disse-lhe em tom de muita brandura:
--Nunca te imaginei condição tão brava, Taveira! A tua honra tem espinhos...
--Pois não te firas, Eduardo... Temos duas estradas. Segue uma das duas por onde nunca possamos encontrar-nos.
--Ao menos permitte que hoje á noite nos encontremos em casa do commendador.
--Como te aprouver... adeus.
Venceslau foi para as côrtes, e Eduardo para casa de D. Julia de Miranda.
--Parabens!--exclamou ella, quando entrou á sala, onde era esperada pelo noivo de D. Anna Vaz.--Quem diria? Olhe que bonito e rapido desfecho teve o romance, que parecia complicar-se em tenebrosos enredos!
--É verdade, minha senhora!...
--Tambem me dou a mim os emboras pela auspiciosa intervenção que tive n'estes bem-logrados amores!
--Obrigado, snr.ª D. Julia—respondeu elle glacialmente.
--Que seccura, santo Deus! que frieza a sua, snr. Eduardo! E eu a imaginal-o doido de alegria como todos os que amam anjos com o rosto e o coração da minha Annica! Ai! se ella agora o visse decerto...
--Me não amava?
--Decerto abafava de mágoa de o ter amado... Que tem? que genio é o seu? que é isso?!
--É a fatalidade—respondeu funeralmente o joven pallido.
--Não sei o que é a fatalidade... Explique-se.
--Quer V. Ex.ª que eu lhe diga o que é a fatalidade?... Ah! não queira ouvir...
--Quero... diga... Preciso entender o enigma da sua alma...
--A fatalidade é o calix intransmissivel. É a attracção do abysmo. É o resvalar por despenhadeiro onde não ha aresta de rocha em que se recravem os dedos. É o supplicio de Tantalo, a braza viva nos labios e a torrente da agua a derivar por diante da enorme agonia da sêde. É o tormento de Mezencio: o vivo enleiado ao cadaver. A fatalidade é o abutre que roía o figado immortal do acorrentado do Caucaso. É o estanque de lagrimas onde se afogam as esperanças, apenas nascidas. É o clamor incessante d'uma alma, que sóbe até o céo nas azas da fé, e desce até ao inferno abatida com o pezo das suas maldições. É duvidar de Deus, quando a face bate nas lageas do templo, e o coração se confrange e arde sem aura refrigerante. A fatalidade é o holocausto forçoso da vida n'um altar onde a victima não leva sequer a compaixão dos que sabem que alli se está suicidando um homem. É a vacillação incomportavel de quem balanceia entre matar-se para esquecer e sacrificar-se para que o não deshonrem as vaias das multidões. A fatalidade, snr.ª D. Julia, é não ter eu morrido quando me atirei á bayoneta e ás balas no fragor das pelejas. A fatalidade é ter eu olhos e alma, e o torturar da vaga esperança, quando a imagem d'uma mulher predestinada me appareceu a apontar-me a voragem onde eu devia engolphar-me. A fatalidade, emfim, senhora, é tel-a eu visto; é... tel-a eu amado.
Esbofada a vulcanica declamação, D. Julia ergueu-se placidamente, soberanamente, hirta, severa, formosa de magestosos assomos, e disse:
--Se é o snr. Eduardo Pimenta quem está em casa de Julia de Miranda, amiga de Anna Vaz, peço-lhe que se esqueça de ter aqui entrado.
--Perdão, minha senhora!--balbuciou o galan, como quem não trazia mais diamantes no thesouro da memoria.--Perdão!
--Perdoei, porque... esqueci.
--Perdôa—volveu elle com alguma felicidade—perdôa, porque... matou. Eu vou ser marido de D. Anna Vaz, snr.ª D. Julia. Ha de vêl-a feliz...
--Praza a Deus... mas... duvído.
--Ha de vêl-a feliz... ha de vêl-a sorrir para mim sem suspeitar que lhe sorri nos meus labios a morte... o sorrir do martyr para o cutello, a palavra indulgente do Christo para os seus verdugos. Agora, uma supplica... Segredo, minha senhora! Que ella o não saiba... Não me prive da gloria de ser eu só desgraçado. Se ella vê em mim o coração que se abraza do seu amor, deixe-a ser feliz; diga-lhe que eu a amo... prometto a V. Ex.ª que nunca a desmentirei...
--Mas... enganou-a... mentiu-lhe... para quê? objectou D. Julia, enredada nos amphiguris d'aquellas tiradas de Arlincourt.
--Não a enganei... forçou-me a fatalidade a adoral-a...
--E então?... Que incomprehensivel!... que indecifravel adoração!... Pois não me diz que adorava a minha amiga? Por que deixou de adoral-a?!
--Porque a mão do anjo negro me trouxe, desde o tumulo da primeira mulher que amei, até ao segundo calvario onde eu devia amar a segunda, mostrou-me... V. Ex.ª Eu disse tudo, senhora! Agora odeie-me; mas não me denuncie. O seu silencio ha de deixar-me agonisar lentamente; a sua denuncia... fulminar-me-ha... A minha morte é desnecessaria á sua glorificação.
Disse e sahiu.
Não era odio o mais caustico sentimento que Eduardo incutiu no animo de Julia. Tambem não era asco nem sequer desprezo. A fidalga ficára agitada, mas não febril dos estos da indignação. Viu-se escarlate no espelho, e nenhuma das hypotheses explicativas da congestão sanguinea das faces lhe pareceu realmente ser pudor. Vêr-se ao espelho seria acaso; curiosidade de remirar o seu aspecto rubente de colera é que não era. Ella não sabia que estava iracunda e rubra. Fulgurou-lhe no espirito um relampago de electricidade tão offuscante que fechou os olhos. Teve pejo de si:--pudenda alma que se sentia estremecer no lapso da candura ao indecoro! Atirou-se a uma cadeira estofada, e abarcou o rosto nas mãos convulsas. Quando se levantou, as lagrimas embebiam-se no ardor das faces. Aquellas lagrimas eram as perolas que o seu bom anjo derramava sobre o seio onde os latejos do coração respondiam aos clamores da consciencia. N'este lance, enclavinhou os dedos das mãos, e comprimiu com ellas o arfar do peito. E, depois, tirando um profundo gemido, murmurou: «Se eu podesse amar um homem!»