Alvaro da Silveira sentira-se capaz de converter um impio. Ha pouco ainda, balbuciára as primeiras palavras de fé, e crê-se já robusto para vibrar a funda contra o gigante do materialismo cuja arrogancia não vencem forças de homem, sem o impulso divino, que arrojára a pedra que prostrou o gigante philisteu.
--Que tens tu?--repetiu o conde.
--O que eu tenho—respondeu Alvaro--é o desejo de um amigo; mas queria um amigo, que nascesse n'este momento, e n'um momento me comprehendesse. Não podes avaliar-me, conde. Se pudesses, ser-te-hia bastante uma só palavra...
--Pois bem—replicou o conde—diz ao menos essa palavra... ou diz sequer tres palavras conceituosas como as de Cesar...
--Ora attende-me. Tendo nós vivido sempre juntos nunca me persuadi que pudesse estar tão longe de ti como estou agora.
--Serás tu romantico?! atalhou o conde dando-se uns ares grutescos de espanto.
--Se ouvisses—tornou Alvaro sorrindo—a definição que ha pouco ouvi do que é ser romantico, e se concordasses com ella, respondia-te que estava romantico.
--Pois quem anda cá por casa a dar definições? Teu pae deu agora n'essa?
--Não foi meu pae... Meu pae o que soube foi definir a minha posição.
--Apre! Estás mysterioso como o boi Apis! Vou-me embora, que não sei ler geroglyphos humanos. Palavra de honra! Soletra lá o conceito d'essa charada, do contrario vou-te mandar preparar quarto na enfermaria de S. José.
--Então queres saber quem define os homens e as cousas cá em casa?
--Quero conhecer esse escolastico; deve ser um monstro de paciencia humana!
--É um padre!
--Um padre? exclamou o conde, erguendo-se, e apertando as mãos á cabeça—um padre em casa de Alvaro da Silveira! Malagrida em 1844 a fazer exercicios espirituaes contra os exercicios da materia!...