Iracema: com uma noticia biographica do auctor · José Martiniano de Alencar

Chapter 14: Capítulo 14

Os guerreiros tabajaras, excitados com as copiosas libações do espumante cauim, se inflammam á voz de Irapuam, que tantas vezes os guiou ao combate, quantas á victoria.

Aplaca o vinho a sêde do corpo; accende outra sêde maior na alma feroz. Rugem vingança contra o extrangeiro audaz que affrontando suas armas offende o Deus de seus paes, e o chefe da guerra, o primeiro varão tabajara.

Lá tripudiam de furor, e arremettem pelas sombras; a luz vermelha do ubiratan, que brilha ao longe, os guia á cabana de Araken. De espaço em espaço erguem-se do chão os que primeiro vieram para vigiar o inimigo.

--O Pagé está na floresta! murmuram elles.

--O extrangeiro? pergunta Irapuam.

--Na cabana com Iracema.

O grande chefe lança o terrivel salto; já é chegado á porta da cabana, e com elle seus valentes guerreiros.

O vulto de Cauby enche o vão da porta; suas armas guardam deante d'elle o espaço de um bote do maracajá.

--Vis guerreiros são aquelles que atacam em bando como os caetetús. O jaguar, senhor da floresta, e o anajê, senhor das nuvens, combatem só o inimigo.

--Morda o pó a bocca torpe que levanta a voz contra o mais valente guerreiro dos guerreiros tabajaras.

Proferidas estas palavras, ergue o braço de Irapuam o rigido tacape, mas estaca no ar; as entranhas da terra outra vez rugem, como rugiram, quando Araken accordou a voz tremenda de Tupan.

Levantam os guerreiros medonho alarido; e cercando seu chefe o arrebatam ao funesto lugar e á colera de Tupan, contra elles concitado.

Cauby extende-se de novo na soleira da porta; seus olhos adormecem; mas seu ouvido vella no somno.

A voz de Tupan emmudeceu.

Iracema e o christão perdidos nas entranhas da terra, descem a gruta profunda. Subito uma voz que vinha reboando pela crasta, encheu seus ouvidos:

--O guerreiro do mar escuta a falla de seu irmão?

--É Poty, o amigo de teu hospede: disse o christão para a virgem.

Iracema estremeceu:

--Elle fala pela bôcca de Tupan.

Martim respondeu emfim ao Pytiguara.

--As falas de Poty entram n'alma de seu irmão.

--Nenhum outro ouvido escuta?

--Os da virgem que duas vezes em um sol defendeu a vida de teu irmão!

--A mulher é fraca; o tabajara traidor; e o irmão de Jacaúna prudente.

Iracema suspirou: e pousou a cabeça no peito do mancebo:

--Senhor de Iracema, cerra seus ouvidos, para que ella não ouça.

Martim repelliu docemente a gentil fronte:

--Falle o chefe Pytiguara; só o escutam ouvidos amigos e fieis.

--Tu ordenas, Poty fala. Antes que o sol se levante na serra, o guerreiro do mar deve partir para as margens do ninho das garças; a estrella morta o guiará ás alvas praias. Nenhum tabajara o seguirá, porque a inubia dos Pytiguaras rugirá da banda da serra.

--Quantos guerreiros Pytiguaras acompanham seu chefe valente?

--Nenhum; Poty veiu só, com suas armas. Quando os espiritos máus da floresta separaram o guerreiro do mar de seu irmão, Poty veiu em seguimento do rastro. Seu coração não deixou que voltasse para chamar os guerreiros da sua taba; mas expediu seu cão fiel ao grande Jacaúna.

--O chefe Pytiguara está só; não deve rugir a inubia que chamará contra si todos os guerreiros tabajaras.

--É preciso para salvar o irmão branco; Poty zombará de Irapuam, como zombou quando combatiam cem contra ti.

A filha do Pagé, que ouvira callada, debruçou-se ao ouvido do christão:

--Iracema quer-te salvar e a teu irmão; ella tem seu pensamento. O chefe Pytiguara é valente e audaz; Irapuam é manhoso e traiçoeiro como a acauan. Antes que chegues á floresta, cahirás; e teu irmão da outra banda cahirá comtigo.

--Que fará a virgem tabajara para salvar o extrangeiro e seu irmão? perguntou Martim.

--Mais um sol e outro, e a lua das flores vae nascer. É o tempo da festa, em que os guerreiros tabajaras passam a noite no bosque sagrado, e recebem do Pagé os sonhos alegres. Quando estiverem todos adormecidos, o guerreiro branco deixará os campos do Ipú, e os olhos de Iracema, mas não sua alma.

Martim estreitou a virgem ao seio; mas logo a repelliu. O toque de seu corpo, doce como a assucena da mata, e quente como o ninho do beija flôr, espinhou seu coração; porque lhe recordou as palavras terriveis do Pagé.

A voz do christão disse a Poty o pensamento de Iracema; o chefe Pytiguara, prudente como o tamanduá, pensou e respondeu:

--A sabedoria fallou pela bôcca da virgem tabajara Poty espera o nascimento da lua.