O dia ennegreceu; era noite já.
O Pagé tornára á cabana; sopesando de novo a grande lage, fechou com ella a bôcca do antro. Cauby chegára tambem da grande taba, onde com seus irmãos guerreiros se recolhera depois que bateram a floresta, em busca do inimigo Pytiguara.
No meio da cabana, entre as redes armadas em quadro, extendeu Iracema a esteira da carnauba, e sobre ella serviu os restos da caça, e a provisão de vinhos da ultima lua. Sé o guerreiro tabajara achou sabor na ceia, porque o fel do coração que a tristeza expreme não amargava seu labio.
O Pagé bebia no cachimbo o fumo sagrado de Tupan, que lhe enchia as arcas do peito: o extrangeiro respirava, ar ás golfadas para refrescar-lhe o sangue effervescente; a virgem distillava sua alma como o mel de um favo, nos crebros soluços que lhe estalavam entre os labios tremulos.
Já partiu Cauby para a grande taba; o Pagé traga as baforadas do fumo, que prepara o mysterio do sagrado rito.
Levanta-se no resomno da noite um grito vibrante, que remonta ao céo.
Martim ergue a fronte e inclina o ouvido. Outro clamor semelhante resoa. O guerreiro murmura, que o ouça a virgem e só ella:
--Escutou Iracema, cantar a gaivota?
--Iracema escutou o grito de uma ave que ella não conhece.
--É a atyaty, a garça do mar, e tu és a virgem da serra, que nunca desceu as alvas praias onde arrebentam as vagas.
--As praias são dos Pytiguaras, senhores das Palmeiras.
Os guerreiros da grande nação que habitava as bordas do mar, se chamavam a si mesmos Pytiguaras, senhores dos valles; mas os Tabajaras, seus inimigos, por escarneo os apellidavam Potyuaras, comedores de camarão.
Iracema não quiz offender o guerreiro branco; por isso falando a respeito dos Pytiguaras, não lhes recusou o nome guerreiro que elles haviam tomado para si.
O extrangeiro reteve por um instante a palavra no seu labio prudente, emquanto reflectia:
--O canto da gaivota é o grito do guerra do valente Poty, amigo de teu hospede!
A virgem estremeceu por seus irmãos. A fama do bravo Poty, irmão de Jacaúna, subio das ribeiras do mar ás alturas da serra; rara é a cabana onde já não rugiu contra elle o grito da vingança, porque em quasi todas o golpe de seu valido tacape deitou um guerreiro tabajara em seu camocim.
Iracema cuidou que Poty vinha á frente de seus guerreiros para livrar o amigo. Era elle sem duvida que fizera retroar o buzio das praias, no momento do combate. Foi com um tom misturado de doçura e tristeza que replicou:
--O extrangeiro está salvo; os irmãos de Iracema vão morrer, porque ella não falará.
--Saia essa tristeza de tua alma. O extrangeiro partindo-se de teus campos, virgem tabajara, não deixará n'elles rasto de sangue, como o tigre esfaimado.
Iracema tomou a mão do guerreiro branco e beijou-a.
--Teu sorriso, continúa elle, apagou a lembrança do mal que elles me querem.
Martim ergueu-se e marchou para a porta.
--Onde vae o guerreiro branco?
--Adeante de Poty.
--O hospede de Araken não pode sahir d'esta cabana, porque os guerreiros de Irapuam o matarão.
--Um guerreiro só deve protecção a Deus e a suas armas. Não carece que o defendam os velhos e as mulheres.
--Não vale um guerreiro só contra mil guerreiros; valente e forte é o tamanduá, que mordem os gatos selvagens por serem muitos e o acabam. Tuas armas só chegam até onde mede a sombra de teu corpo; as armas d'elles voam alto e direitos como o anajê.
--Todo o guerreiro tem seu dia.
--Não queres tu que morra Iracema, e queres que ella te deixe morrer!
Martim ficou perplexo:
--Iracema irá ao encontro do chefe Pytiguara e trará a seu hospede as falas do guerreiro amigo.
O Pagé sahiu emfim de sua contemplação. O maracá rugiu-lhe na dextra; tiniram os guisos com o passo hirto e lento.
Chamou elle a filha de parte:
--Se os guerreiros de Irapuam vierem contra a cabana, levanta a pedra e esconde o extrangeiro no seio da terra.
--O hospede não deve ficar só; espera que volte Iracema. Ainda não cantou a inhuma.
Tornou a sentar-se na rede o velho. A virgem partiu, cerrando a porta da cabana.