Innocencia · Alfredo d'Escragnolle Taunay Taunay

Chapter 11: O Almoço

Comam e bebam; nada de cerimonias
commigo. Minha casa é franca; eu
tambem. Façam provisão de alegria e
de mim disponham sem constrangimento.

PLAUTO.--Miles Gloriosus.

Levantou-se de repente Cyrino da marqueza em que se sentara.

--Tenho vontade de amanhã seguir viagem...

--Que, doutor? protestou Pereira, Partir já? isso nunca... Vosmecê ainda não curou de todo minha filha. Pago-lhe todos os prejuizos da sua estada aqui ... se fôr preciso.

--Oh! Sr. Pereira, reclamou por seu turno o joven, isso quasi me offende...

--Desculpe-me, e muito: mas, antes de duas semanas, não o deixo sahir daqui...

--Porem...

--Doentes não lhe hão de faltar. A minha rancharia vae ser visitada como se fosse casa de presepe, e o senhor não poderá dar vasão aos que o vierem procurar. Olhe, hoje mesmo mandei avisar o Coelho, e daqui a pouco está elle cá, rente como pão quente. Atraz do primeiro, virá uma chusma dos meus peccados... Então quer deixar Nocencia como ainda está?...

--Verdade é, balbuciou Cyrino.

--Pois então? Nem pensar nisso é bom. Deixe tudo por minha conta; vosmecê hade aqui arranjar os seus negocios.

--Já que o senhor o diz... Eu tinha receio de vexal-o. Uma vez que até cá venham doentes...

--Hão de vir, esteja socegado...

--Ficarei, decidiu Cyrino, quanto tempo for do seu agrado.

--Ora, muito que bem, exclamou Pereira esfregando as mãos com sincera satisfacção, estou como quero. Quanto ao Sr. Maia ... Meyer, quero dizer, este ha-de crear raizes nesta casa...

--Isso tambem não: tenho tempo marcado pelo meu governo...

--Bem, bem; mas em todo o caso, fará uma boa temporada comnosco. É pena que o Manecão não chegue, porque apressavamos o casorio, e arranjavamos uma festança como nunca se viu nestes matarrões... Mas estou aqui a dar com a lingua nos dentes, sem pensar que os nossos estomagos ainda esperam sua matula[71]. O almoço não pode tardar; é um pulo só... Se consentem vou ver lá dentro.

Ao dizer estas palavras saiu da sala voltando pouco depois acompanhado de Maria, a velha escrava que trazia a toalha da mesa e a competente cuia de farinha.

--Á mesa! gritou Pereira. Almoço hoje com vosmecês. Sr. Meyer o senhor comerá d'ora em deante commigo e com a menina, lá no interior da casa; ouviu?

E, voltou-se para Cyrino.

--Bem sabe, explicou logo, é como se fosse o Chiquinho.

Depois de prompta a mesa, sentaram-se os tres alegremente.

--Olhe, Sr. Meyer, disse o mineiro servindo o allemão, isto é feijão-cavallo e do melhor. Misture-o com arroz e hervas; deite-lhe uns salpicos de farinha...

Começou o naturalista a mastigar com a lentidão de um animal ruminante, interrompendo de vez em quando o moroso exercicio para exclamar:

[Ilustração: Delicioso com effeito! Muito delicioso.]

--Delicioso, com effeito! Muito delicioso.

Comia Cyrino pouco e em silencio.

--Na Allemanha, observou Meyer contemplando um grão de feijão, a maior fava não chega a este tamanho. Aqui a fava de lá teria pollegada e meia pelo menos. Um almoço, assim, havia de custar na Saxonia dois thalers, ou pelo cambio que deixei no Rio de Janeiro, dois mil e quinhentos réis...

Interrompeu-o Pereira com gesto comico.

--Dois mil e quinhentos? Ora, que terra essa! Como é que se chama?

--Sac-sonia, respondeu o allemão com gravidade.

--Saco-sonha! exclamou Pereira. Não conheço... Mas, então, lá muita gente ha-de andar a morrer de fome...

--Pelos ultimos calculos, replicou Meyer com várias pausas durante as quaes introduzia enormes colheradas da mistura que lhe aconselhara o amphytrião, é sabido que em Londres morrem no inverno oito pessoas á mingua, em Berlim cinco, em Vienna quatro, em Pekim doze, em Ieddo sete, em...

--Salta! atalhou Pereira exultando de prazer, então viva cá o nosso Brazil! Nelle ninguem se lembra até de ter fome. Quando nada se tenha que comer, vae-se ao matto, e fura-se mel de jatahy e mandory ou chupa-se miolo de macaúbeira. Isto é cá por estas bandas; porque nas cidades, basta estender a mão, logo chovem esmolas... Assim é que entendo uma terra ... o mais é desgraça e consumição...

--De certo! corroborou o allemão, o Brazil é um paiz muito fertil e muito rico. Dá café para meio mundo beber e ainda o ha-de dar para todo o globo, quando tiver mais gente ... mais população...

--Bem eu sempre digo, acudiu Pereira tocando no hombro de Cyrino e deitando-lhe uns olhos de triumpho. Lá fóra é que nos conhecem, nos fazem justiça. Não acha patricio? Homem, agora reparo ... vosmecê está tão calado! ... meio casmurro, que é isso? sempre aquelle negocio?

De facto, Cyrino, depois que ouvira o convite a Meyer para conviver no interior da casa de Pereira, tornara-se sombrio, inquieto, meditabundo. O corpo ali estava, mas a sua imaginação vigiava zelosa o quartinho onde repousava aquella menina febricitante, tão bella na sua fraqueza e pallidez enferma.

--Se são mulheres, ponderou Pereira, deixe-se disso: não ha maior asneira... É fazenda que não falta.

No meio dos exercicios mandibulares, julgou Meyer que o seu hospedeiro considerava o sexo feminino do ponto de vista meramente estatistico e acreditou conveniente assentar melhor a idéa, um tanto vagamente aventada.

--Na raça slava, disse dogmaticamente, a proporção é de duas mulheres para um homem; na germanica, ha approximadamente numero equivalente, na latina de dois homens para uma mulher. Na França, a proporção para o lado masculino é de...

--Mas o senhor contou? interrompeu Pereira. Deixe-lhe dizer uma cousa: eu cá não engulo araras...

--Ni eu, affirmou Meyer com alguma surpreza e energia, nem sei como o senhor me vem falar nessas aves agora... Se as considera como caça. deve saber que os trepadores têm a carne dura, preta e...

Riu-se Pereira do equivoco e, explicando-o continuou a discutir com o seu interlocutor, que não discrepava uma linha dos seus principios de methodo e escrupulosa polidez.

--Póde o senhor falar um anno inteiro, disse o mineiro para concluir; mas quanto a mim, não entendo patavina das suas contas e gigajogas. Quem me tira da taboada, bota-me no matto... E agora, vamos agradecer a Deus Nosso Senhor Jesus Christo o ter-nos dado esta comida, ainda que insufficiente e mal temperada.

E, unindo o exemplo á palavra, levantou-se e, de mãos postas ao peito, orou em voz baixa com uncção, no que foi imitado pelos dois hospedes.

--Esteja comvosco o Senhor, disse ao terminar em voz alta, persignando-se.

--Amen, responderam Cyrino e Meyer.

--Agora, annunciou o mineiro sahindo da mesa vou dar um giro pela minha roça, onde estão na capina tres negros cangueiros[72] um dos quaes é o meu fazendeiro[73]: depois, hei-de visitar uns conhecidos meus, avisando os da sua chegada, doutor. Ah! acrescentou todo desfeito em amavel sorriso, falta-lhe mostrar minha filha, Sr. Meyer.

--Sua filha! exclamou o allemão. Então tem filhos?

--Sim, senhor. Não se lembra que o seu vulto[74] é o do mano Chiquinho? Pois então? Que maior prova lhe posso dar de confiança e amizade?... Não é verdade, Sr. Cyrino?

--Sem duvida, balbuciou a custo o mancebo.

--Minha filha chama-se Nocencia e só hoje é que se levantou da cama... Esteve doentinha ... Assim mesmo, não sei se as maleitas a deixaram... O corpo é ás vezes caroavel[75] dessas malditas e...

--Isso está ao meu cuidado, atalhou Cyrino com alguma pressa. Ainda ao meio dia hade tomar quina...

--Vosmecê faça o que for melhor... Quer vir Snr. Meyer?

--Pois não! pois não! respondeu amavelmente o allemão.

--É a unica pessoa da familia que tenho aqui alem de um marmanjão que está agora na carreira[76]? por essas estradas, agenciando a vida... Então, vamos! Venha tambem, continuou elle voltando-se para Cyrino, um cirurgião é quasi de casa.

Sahiram, pois, os tres. Pereira na frente, seguiu o oitão da direita, e, abrindo uma tranqueira do cercado dos fundos entrou pela cozinha, onde a velha preta Conga estava lavando pratos e arrumando louça numa prateleira.

[Nota 71: Matolotagem.]

[Nota 72: Sem prestimo.]

[Nota 73: Fazendeiro, no sertão de Matto-Grosso, é, não o proprietario das terras, mas o capataz, o feitor.]

[Nota 74: Pessoa.]

[Nota 75: Acostumado, affeito.]

[Nota 76: Trabalho.]