Humus · Raul Brandão

Chapter 9: Outra Villa

12 de fevereiro

O tempo era limitado, a paciencia pegajosa, o gesto lento. Agora que a vida dura seculos ninguem espera um minuto.

Tenho aqui a villa sufocada de espanto, e, n'este momento de silencio e mudez, todos encaram com desespero os proprios phantasmas. Está aqui o fel—e o fel está vivo. Está aqui a mentira—e a mentira está viva. Está aqui a D. Leocadia e o dever, a D. Bibliotheca e o postiço, o Anacleto e as conveniencias. Estão todos. Não falta ninguem á chamada. Está aqui tambem o espanto e a mania, e a mania tem os cabellos em pé. Custa-me a admitir-te na minha companhia, custa-me a arrancar-te de profundidades ignotas... Tudo o que fiz era um simulacro, reconheço-o. Passei a vida a arremedar a vida. Passei a vida com uma voz a prégar-me:--Não metas ahi o nariz.--E a minha vontade era meter alli o nariz.--Passei a vida a cumprir o meu dever e a amargar o meu dever. Passei a vida a arredar-te e agora tenho por força de viver comtigo. E tu?--e tu?--e tu?...--Gastei-me, gastei-a...--exclama a D. Leocadia. Cumpri sempre o meu dever. Cumpri-o com fel. Para cumprir o meu dever lhe repeti a toda a hora que os pobres teem um logar marcado na vida. Fil-o por dever. Não transijo nunca com o meu dever. Assim como devia tiral-a do asilo por ser do meu sangue, assim o meu dever era educal-a para pobre e reduzil-a a um sêr passivo e inerte. Vesti-a com um sacco e gastei-me um dia, gastei-a outro dia, a ponto de usarmos as feições e de não nos reconhecermos. Espiamo-nos ambas, uma em frente da outra, no silencio gelido da villa, onde se ouvia o trabalho lento das aranhas no fundo dos saguões.--Dei-te o sustento, tens de ser agradecida. Tirei-te do nada, livrei-te da fome, é preciso seres agradecida. Cumpre o teu dever. Eu cumpri sempre o meu dever. Cumpri-o contrariada, n'um perpetuo dize tu direi eu, n'uma eterna contradição, mas cumpri-o. Cheguei a tiral-o á bocca para a poder manter. Cumpri o meu dever e amarguei o meu dever. Usei assim a vida a arremedar a vida. E tenho-a aqui na minha frente, com a barriga á bocca, á espera que eu cumpra o meu dever até final. Qual é o meu dever? Reconheço que a odeio—odiei-a sempre. Mas qual é o meu dever? pergunto. Qual era afinal o meu dever? Se fazia o bem, amargava o bem; e tu não me largavas se tentava o mal. A minha vida tem sido um perpetuo inferno, contrariada e impelida, e sempre a cumprir o meu dever amargo, o meu dever estupido.--E os olhos não se lhe despegam do phantasma coçado e verde, de ferro e verde. Grita-lhe:--Cumpri sempre o meu dever! Se não cumprisse o meu dever ia parar a uma viella.--Queda-se estrangulada e surpreza, mais estrangulada e surpreza ainda, diante da voz que lhe diz não sei o quê de temeroso...--E tu?--pergunto—tiveste inveja?--Tive e recalquei-a. Arranquei tudo, destrui tudo, por ti que não existias.--Mas isto é infame, isto não sou eu!--És, és, mais do que nunca o foste.--Eu mesmo reconheço que sou outra casta de intrujão. Tenho outros preconceitos, falo outra lingua e julgo-me superior. Na realidade sou outra casta de intrujão. O que me falta é desplante. Prendo-me a inutilidades, e, para me engrandecer, admiro os meus escrupulos e dou importancia ás minhas teias de aranha. A minha vida é uma serie de transigencias secretas—e por cima medo...--Fala mais alto! fala mais alto!--A minha vida tão bem construida é uma aparencia, a minha serenidade, aparencia. Talvez um pouco de logica, um pouco de acaso e mais nada. No fundo de mim mesmo tudo isto me parece um sonho monstruoso e sem nexo, e ás vezes surprehendo-me a pensar:--Sou um doido? sou um doido?--É que me vem não sei d'onde, não sei de que confins ou de que recanto d'alma que tenho medo de explorar, um bafo que me entontece. Serei eu doido?--Cada velha se põe a recuar deante de si mesma; cada sêr procura afastar-se; cada um a si proprio se repele. Mas todos são enrodilhados no pé de vento, que os leva sufocados e atonitos, balouçados entre a vida e a morte, entre o assombro e o inferno. E é grotesco este encarar com o sonho, pé atraz pé adeante, esta hipocrisia que teima em ser hipocrisia, esta mentira que quer ser mentira até á ultima extremidade.--Tu não deste um passo na vida sem obedeceres ás conveniencias e sem consultar o teu codigo de meticulosidade. Tens um Deve e Haver do tamanho d'um predio. A praça considera-te, Deus considera-te. E tu torturaste-a segundo as conveniencias, habituaste-a a conter as lagrimas e a ser correcta com o mesmo grito recalcado ao fundo do coração. E esse drama correcto, torna-se mais correcto ainda, e, seculo atraz de seculo, há-de acabar por atingir a correcção suprema.--Não tenhas medo, avança um passo, outro passo ainda...--Que é isto? que é isto que se me pega, diz a Telles, diz a Reles—e que me não deixa pensar na mania?--E nos olhos de idiotia, a vida, camada atraz de camada, chega a vir á superficie.--Ah, a mania D. Telles, das Telles das Reles, a mania! Pensar n'este trapo um dia, e só pensar n'este trapo! Fazer de ti e de mim mania e só mania!--Dois castiçaes de prata foram a minha vida. Pensei n'elles com minucia. Um nada—ou Deus—bastou para me encher a vida. Acordei com elles, dormi com elles. Taparam-me o mundo. Isto foi o meu sonho e a razão do meu sêr. Criei-o. Dei-lhe o meu leite. Vivemos juntos; ia morrer com esta mania, levava-a para a cóva, sem ter pensado no resto, e agora encontro-me sós a sós comtigo, desprevenida e sósinha. Foste para mim um filho. Alimentei-te e alimentaste-me. Reservei-te sempre o melhor cantinho do meu sêr. Salvaste-me do desprezo de mim propria, peor que o desprezo alheio. Quando me sentia mais humilhada e mais pobre, recorria a ti, e encontrei-te nas horas em que a gente até de si duvida, quanto mais dos outros. Trouxe-te sempre comigo. Sorrias-me. Foste a carne da minha carne e o osso do meu osso. Um filho podia-me morrer; tu não me deste um desgosto. Escondeste-me a vida e a morte—e eras um trapo, uma corôa de lata, dois castiçaes de prata! Agora mesmo procuro agarrar-me—mas isto pega-se-me, deslumbra-me e ofusca-me... Há só uma coisa que eu queria ainda dizer, e não a sei dizer diante de isto que tenho ao pé de mim, dentro de mim e me não larga...--Ai! ai! ai!--Tambem tu, tambem tu, prima Angelica, que passaste a vida debruçada sobre a meia, tambem tu te ergues n'um arrebatamento, passa-te não sei que dôr na escuridão cerrada, e procuras, com a agulha afiada como um punhal, furar os olhos de todas as pessoas que te fizeram bem!... Mas tanta inveja ruminaste que sorris e te curvas submissa sobre a mesma meia eterna, a que mãos caridosas já não desfazem as malhas, e que tem tres metros de comprido...--A meza da bisca lambida cahiu por terra, e de tal maneira se olharam nos olhos, que não foi possivel tornar a juntal-as. Só a mesma voz persiste dentro de nós mesmos, no silencio e na mudez da noite infinita, tal qual a D. Leocadia:--Mas eu não posso! eu não posso! Tu obrigas-me a fazer o que não devo! Tenho aqui fel e hei-de, para cumprir o meu dever, fazer o contrario do que sinto: dominar-me todos os dias, moer-me todos os dias, prégar-me todos os dias:--A gente só vem a este mundo para cumprir o seu dever!...--O que há de peor no mundo é arrancar os desgraçados á desgraça! O que há de peor no mundo é não haver outra vida e passar esta vida a arremedal-a!

15 de fevereiro.

Até agora a mentira fez-me suportar a vida, a insignificancia e as palavras tornaram-me a vida possivel, a vida onde á custa de palavras cheguei a ser Eleutheria da Fonseca, Balsamão, Elias de Mello ou Melias de Mello. Só á custa d'isto pude aturar a vida e o horrôr da vida. Só por não a vêr, pude encaral-a. Só emquanto fui feito de pequenas miserias e de palavras inuteis a pude suportar. Mas agora que me resta se tudo é vazio de significação?

Custa muito a construir uma vida ficticia, a ser Telles ou a ser Santo, a crear um Deus ou uma mania. Custa a melhor parte do nosso sêr. É certo que metade d'isto—metade pelo menos--é representado. Se te confessasses dirias:--Eu sou um actor, eu sou um actor de mim mesmo: represento sempre até quando sou sincero; até quando digo o que sinto, é outro, e noutro tom de voz, que diz o que sinto... Cá estou a vel-o representar... Mais de metade, muito mais de metade dos meus sentimentos, são postiços. Todos estamos ligados por compromissos, aceitamos certas leis e vivemos de aparencias. Existe entre nós e dentro de nós um acordo tacito. No fundo bem sei que o que me dizes é mentira, mas sei tambem que tenho obrigação de ajudar a mantel-a. Respeitamos um compromisso vital. Mais alto! mais alto!... Para podermos viver só lidamos com uma parte convencional da vida. A outra não existe: se existisse seriamos bichos. Esta vida é uma mentira—a outra vida é monstruosa. Desabada a architectura aparente, ficamos ignobeis. Isto que ahi está por terra custou muito desespero, primeiro na inconsciencia e na obscuridade, atravez da inconsciencia e da obscuridade, e depois atravez de terrores e de indescriptiveis esforços. Custou aos vivos e aos mortos a dôr das dôres, poderem discernir dois ou tres factos essenciaes na treva condensada, na treva compacta d'uma noite que durou seculos. Esforço inconsciente de larva, com um destino a cumprir e legoas de granito a romper. Tiramos o mundo do nada. Levou seculos e seculos—mas tiramol-o do nada. No principio só fomos almas, creamos depois a casca. Tambem as arvores só a poder de tempo se revestiram d'um envolucro. Eramos todos phantasmas. Creamos tudo—e a mentira. Tudo—e o habito. Tudo—e a paciencia. O sonho não é senão uma reminiscencia. Todas as inutilidades não passam de adaptações á vida. Essas pequenas coisas são ao mesmo tempo temerosas e ridiculas. Bem encarada a ninharia é uma tragedia. D'estes sêres saem outros sêres grotescos e terriveis—terriveis e grotescos. No silencio a mania toma proporções chimericas, e não sei como hei-de juntar estas duas coisas—mania e desespero.

Dentro de cada sêr resurgem os mortos. Crescem dentes ás velhas, afiam-se-lhes as unhas debaixo dos chales. Adquiriram outra expressão. Quasi toda a gente emagreceu. Aguçam-se ferros no escuro. Procuram-se. Qual é o teu verdadeiro ser? Eu mesmo não sei. Dá-me um trabalhão encontral-o e acho-me sempre em frente de cacos, a que não consigo dar unidade. Uma ninharia—um impulso—um habito. É isto que constitue o meu ser, ou é esta serie de imagens, já desaparecidas, que formam a minha e a tua vida? Não, o meu verdadeiro sêr sacode a poeira na colera, na paixão, no amor ou no odio,--porque aos sentimentos tambem é preciso desenterral-os—e actua n'um phrenesi. Acabaram as hesitações e as duvidas, porque já não sou eu quem mando, a minha razão ou a minha vontade: são os mortos. E é quando me sinto viver.

E a insignificancia? Até a insignificancia. A insignificancia com orgulho, a insignificancia com desespero.

21 de fevereiro

Aqui está a villa toda—mas as figuras mudaram. São disformes. O proprio Santo cheirou as velhas, sacudiu as velhas e atirou com as velhas á rua. Do alto dos montes vomita coleras sobre a villa passada de terrôr. O silencio redobra, a dôr redobra. E com isto uma alegria a que falta o resaibo de tristeza que se misturava a todos os nossos sentimentos. Falta-lhe equilibrio e harmonia. Tem a maior ferocidade. E produz o mesmo efeito que este scenario d'assombro, que o vento e a chuva esfarelam, e onde sobrenadam restos. E com isto a voz que não nos dá tregoas e que atinge o desespero:--Não grites, D. Leocadia, não grites. Reconheço que és feita d'uma peça só. Foste sempre inteiriça.--Tirei-o á bocca para a manter...--Tiraste-o. Tomaste a vida a serio. Entendeste sempre que pobres se educam como pobre, passaste a vida a azedar a vida, e o dever, que fizeste amargar aos outros, começou por te amargar a ti. E a esta luz intoleravel as coisas tomam a teus olhos aspectos ignorados...--Mas então não há dever nenhum e eu não sou a D. Leocadia, 29-3.^o-D.?--Outro passo, D. Leocadia, mais outro passo ainda...--Que exiges tu de mim então, que não comprehendo? Que exiges tu de mim contra a minha vontade? Que me aniquile? Que me dispa para te vestir?--Não grites...--Que exiges tu de mim de absurdo com que não posso arcar? Um esforço sobrehumano? Ou exiges apenas que eu faça o bem que posso, uma parte do bem? Ou é o mal que tu exiges de mim e o bem é um pecado? Melhor será deixar a cada um a sua parte de desgraça e de colera?... Eu posso talvez despir-me, posso cumprir o meu dever, mas que mais exiges tu de mim com que, ainda que queira, não posso! Que exiges tu de mim?!--Mas, D. Leocadia, eu não exijo nada de ti, cada um se aguenta conforme pode n'este balanço...

--Mas então não há dever nenhum? não há bem nenhum? Que fiz eu d'este sêr apagado e inerte com um filho do meu filho na barriga?--Oh D. Leocadia como tu educada sempre com as mesmas palavras e no mesmo dever, um dia de dever, outro dia de dever, e erguendo, no silencio e no tedio, uma construcção de trapos e de palavras que chegou ao céo e substituiu o céo—como tu tapas os olhos com desespero para não vêr! Hás-de aguentar com este pezo, que não podemos suportar... Talvez fiquemos cegos, talvez saiamos d'aqui aos gritos, os maniacos sem a sua mania, os bons sem a sua bondade, e os pobres só fél e vinagre, mas temos de ver o que não nos estava destinado. Para largar a pelle, D. Leocadia, até a cobra adoece. Tanto importa que resolvas como que não resolvas o problema—todos temos de dar o passo. A villa é a mesma villa, as pedras as mesmas pedras. Nós mesmos não mudamos. A nova vida obriga-nos apenas a discutir o que estava ao nosso lado. Tudo existia no mundo, até este desespero; tudo estava vivo, até este grotesco. Nós é que estavamos mortos.

Passou no mundo a extranha ventania, e a morte de tal maneira se entranhou na vida que custa a separal-as. Mas já lá vão as formulas, os alicerces e os usos... No alto, sobre este absurdo, entre o borralho remexido, com a cinza e as faulhas atiradas indiferentemente para a escuridão, só a Via Lactea mudou de côr e alastra de lez a lez na aboboda recurva uma nodoa viva de sangue.