A noite era escura. Calcando a terra e a areia das largas calhes da chacara, Melchior, em sua imaginação, refloria o passado, nem sempre feliz, mas geralmente quieto, dessa quietação que é tanta vez a superficie da vida. Mais de uma vez buscára dissipar a sombra pezarosa que alguns erros do conselheiro accumularam na fronte da consorte. Haveria naquella casa uma geração de dores, destinadas a abater o orgulho da riqueza com o irremediavel expectaculo da debilidade humana?
--Não, dizia elle comsigo mesmo. A verdade é que tudo se encadeia e desenvolve logicamente. Jesus o disse: não se colhem figos dos abrolhos. A vida sensual do marido produziu o infortunio calado e profundo daquella senhora que se foi em pleno meio dia; o fructo hade ser tão amargo como a árvore; seu sabor é travado de remorsos.
Neste ponto chegava ao portão. Ahi deteve-se um instante. O passo cautelloso e timido de alguem fel-o voltar a cabeça. Um vulto, cujo rosto não via, tão escuro como a noite, alli estava e lhe tocava respeitosamente as abas da sobrecasaca. Era o pagem de Helena.
--Seu padre,--disse este,--diga-me por favor o que aconteceu em casa. Vejo todos tristes; nhanhã Helena não apparece; fechou-se no quarto... Me perdoe a confiança. O que foi que aconteceu?
--Nada, respondeu Melchior.
--Oh! é impossivel! Alguma cousa ha por fôrça. Seu padre não tem confiança em seu escravo. Nhanhã Helena está doente?
--Socega; não ha nada.
--Um! gemeu incredulamente o pagem. Ha alguma cousa que o escravo não pode saber; mas tambem o escravo póde saber alguma cousa que os brancos tenham vontade de ouvir...
Melchior reprimiu uma exclamação. A noite não lhe permittia examinar o rosto do escravo, mas a voz era dolente e sincera. A ideia de interrogal-o passou pela mente, do padre, mas não fez mais do que passar; elle a regeitou logo, como a regeitára algumas horas antes. Melchior preferia a linha recta; não quizera empregar um meio tortuoso. Iria pedir a Helena a solução das difficuldades. Entretanto, o pagem, como interpretasse de modo afirmativo o silêncio do sacerdote, continuou:
--Nhanhã Helena é uma sancta. Se alguem a accusa, accusa o bom procedimento della. Eu lhe direi tudo...
Melchior ia recusar, mas um incidente interrompeu a palavra do pagem, contra a vontade deste, e talvez contra o desejo de Melchior. Ouviram-se passos; era um escravo que vinha fechar o portão.
--Vem gente,--disse Vicente,--amanhã...
O pagem tacteou nas trevas em procura da dextra do capellão; achou-a emfim, imprimiu-lhe um ósculo do respeito e affastou-se. Melchior seguia para casa, abalado com a meia revellação que acabava de ouvir. Outro qualquer podia duvidar um instante da sinceridade do escravo; podia suppor que o acto delle em menos expontaneo do que parecia; emfim, que a propria Helena suggeríra aquelle meio de transviar a expectação e congraçar os sentimentos. A interpretação era verosimil; mas o padre não cogitou de tal cousa. A elle é principalmente applicavel a maxima apostolica; para os corações limpos, todas as cousas são limpas.
A seguinte aurora alumiou um ceu puro de nuvens. Estacio accordou com ella, depois de uma noite mal dormida. Nunca a manhã, lhe pareceu mais rumorosa e jovial; nunca o ar apresentára tão fina transparencia, nem a folhagem tão lustrosa, côr. Da janella a que se encostára via as flôres de todos os matizes, quebrando a monotonia da verdura, e enviando-lhe a elle uma nuvem invisivel de seus aromas: aspecto de festa e ironia da natureza. Estacio achava-se alli como um sahimento em horas de carnaval.
Almoçou sosinho; D. Ursula estava com Helena. Logo depois do almôço recebeu uma carta de Mendonça, que tendo ido na vespera a Andarahy, recebêra a resposta dada a todos, e mandava saber se havia molestia em casa. Estacio respondeu affirmativamente, accrescentando que, posto não se tratasse de cousa grave, só o esperava dous dias depois. A resposta podia ser mais circumspecta; no estado em que elle se achava, pareceu-lhe excellente.
Pela volta do meio dia, chegou Melchior. Na sala de visitas achou D. Ursula, que o espreitava de uma das janellas.
--Helena? perguntou elle ancioso.
--Ja hoje desceu,--respondeu D. Ursula. Está mais tranquilla. Não lhe perguntei nada, mas dizendo-lhe que o senhor viria falar-lhe, mostrou-se anciosa por vel-o, e pediu-me até que o mandasse chamar.
Seguiram os dous até á saleta que ficava ao pe da sala de jantar. Helena estava sentada, com a cabeça cahida sôbre as costas da cadeira, e os olhos meios cerrados. Logo que o padre entrou, Helena abriu os olhos e ergueu-se. Vivo e passageiro rubor coloriu-lhe as faces pallidas da vigilia e da afflicção. Ergueu-se e deu dous passos para o padre, que lhe apertou as mãos entre as suas.
--Imprudente! murmurou Melchior.
Helena sorriu, um sorriso pallido e tão passageiro como a côr que lhe tingira o rosto, D. Ursula dispoz-se a ir chamar Estacio, que estava no andar de cima. Apenas a viu sahir, Helena segurou em uma das mãos do padre.
--Queria vel-o! disse ella. Não tenho ânimo de falar a ninguem mais, de dizer tudo...
--É inutil; tudo sei, interrompeu Melchior sorrindo. O Vicente foi hoje de manhã á minha casa; foi de movimento proprio; relatou-me quanto sabia; disse-me que esse homem é seu irmão; que a senhora o ia ver, a occultas, não podendo ou não querendo apresental-o em casa de seus parentes. O escrupulo era excessivo, e o acto leviano. Porque motivo dar apparencia incorrecta a um sentimento natural? Teria poupado muita afflicção e muita lagryma a si e aos seus, se tomasse antes o caminho direito, que é sempre o melhor.
Helena ouvia éstas palavras do padre com a alma debruçada dos olhos. Não parecia sequer respirar. Quando elle acabou, perguntou soffrega:
--Com que intento lhe falou elle?
--Com o mais puro do todos; desconfiou que a senhora padecia por isso e veiu contar-me tudo.
Helena cruzou os dedos e ergueu os olhos. Melchior não a quiz interromper nessa ascenção mental ao ceu; limitou-se a contemplal-a. A belleza de Helena nunca lhe parecêra mais tocante do que nessa attitude implorativa. A contemplação não durou muito, por que a oração foi breve.
--Orei a Deus,--disse ella, descendo as mãos,--por que infundiu ahi no corpo vil do escravo tão nobre espirito do dedicação. Delatou-me para restituir-me a estima da familia. Aquillo que ninguem lhe arrancaria do coração, tirou-o elle mesmo no dia em que viu em perigo o meu nome e a paz de meu espirito. Infelizmente, mentiu.
Melchior empallideceu.
--Mentiu sem o saber, continuou a moça. Disse o que suppunha ser verdade,--o que eu lhe dei como tal. Não é meu irmão esse homem.
Melchior inclinou-se para a moça e pegando-lhe nos pulsos, disse imperiosamente.
--Então quem é? Seu silêncio é uma delação; não tem ja direito de hesitar.
--Não hesito, replicou Helena; em taes situações uma creatura, como eu, caminha direito a um rochedo ou a um abysmo; despedaça-se ou some-se. Não ha escolha. Este papel,--continuou, tirando da algibeira uma carta,--este papel lhe dira tudo; leia e refira tudo a Estacio e a D. Ursula. Não tenho ânimo de os encarar nesta occasião.
Melchior, atordoado, fez um leve signal de cabeça.
--Lido esse papel,--estão rotos os vínculos que me prendem a ésta casa. A culpa do que me acontece não é minha, é de outros; aceitarei contudo ás consequencias. Poderei contar ao menos com a sua benção?
A resposta do padre foi pousar-lhe um beijo na fronte, beijo de absolvição ou de clemencia, que ella lhe pagou com muitos na dextra enrugada e trémula de commoção. Helena precipitou-se depois para o corredor, deixando o padre só, com a carta nas mãos, sem ousar abril-a, receioso dos males que iam dalli sahir, sem certeza ao menos de que ficaria no fundo a esperança. Ia abril-a, e hesitou se o devia fazer na ausencia de Estacio e D. Ursula; venceu o escrupulo e leu.
D. Ursula, que entrou na occasião em que elle fechava a carta, recuou aterrada. Melchior estava pallido como um defuncto. Antes que nenhum, delles falasse, entrou Estacio na saleta. Melchior dirigiu-se a elle e entregou a carta. Leu-a Estacio e dizia assim:
«Minha boa filha. Sei pelo Vicente que alguma cousa ahi ha que te afflige. Presumo adivinhar o que é. O Estacio esteve commigo, logo depois que daqui sahiste a ultima vez. Entrou desconfiado, e deu como razão ou pretexto a necessidade de curar algumas feridas feitas na mão. Talvez elle proprio as fizesse para entrar aqui em casa. Interrogou-me; respondi conforme pedia o caso. Suppondo que elle soubesse de tuas visitas, não lhe occultei a minha pobreza; era o meio de attribuil-as a um sentimento de caridade. A virtude serviu assim de capa a impulsos da natureza. Não é isso em grande parte o theor da vida humana? Fiquei, entretanto, inquieto; talvez lhe não arrancasse o espinho do coração. Pelo que me disse o Vicente receio que assim acontecesse. Conta-me o que ha, pobre filha do coração; não me escondas nada. Em todo o caso, procede com cautella. Não provoques nenhum rompimento. Se fôr preciso, deixa de vir aqui algumas semanas ou mezes. Contentar-me-ha a ideia de saber que vives em paz e feliz. Abençoo-te, Helena, com quanta effusão pode haver no peito do mais venturoso dos paes, a quem a fortuna, tirando tudo, não tirou o gôsto de se sentir amado por ti. Adeus. Escreve-me.--Salvador.»
P.S. Recebi o teu bilhete. Pelo amor de Deus, não faças nada; não saias dahi; seria um escandalo.»
Estacio não comprehendeu desde logo o que acabava de ler. A verdade parecia inverossimil. Seu primeiro movimento foi sahir dalli e ter com Helena. Melchior deteve-o a tempo.
--Não precipitemos nada, disse elle. Socegue primeiro.
Estacio deixou-se cahir n'uma cadeira; Melchior communicou o conteudo da carta a D. Ursula, cujo pasmo foi ainda mais profundo que o do sobrinho, porque ella não soltou uma palavra, não fez um gesto; ficou a olhar estupidamente para o papel. Houve então entre aquelles tres personagens dez minutos de mortal silêncio. D. Ursula não pensava; olhava para a carta, logo depois para o sobrinho e o padre, como a esperar uma conclusão que seu proprio espirito não podia deduzir dos acontecimentos. Estacio ficára desorientado; em vão procurava um fio de deducção entre suas ideias; a revellação nova era uma complicação mais. Se a carta era sincera, como explicar a declaração testamentária de seu pae? Se o não era, como explicar a audacia de semelhante invenção? Elle não podia discernir o que era favoravel a Helena, nem ousava affirmar o que lhe era adverso.
No meio daquella familia, arriscada a dispersar-se, Melchior considerava a superioridade da morte sobre alguns lances terriveis da vida. Se o obito de Helena tomára o logar da carta, a dor seria violenta; mas o irremediavel desfecho e o consolo da religião teriam contribuido para sarar a alma dos que ficassem e converter o desespêro de alguns dias na saudade da vida inteira. Em vez disto, estava elle talvez diante de um destino aniquillado; via um abysmo possivel entre corações que a vontade de um morto vinculára. Qualquer que fôsse a veracidade da carta, o resultado era talvez esse.
Melchior foi dalli ter com Helena, para alcançar mais detida explicação do quê acabava de ler. Ella ergueu-se quando o viu, e pareceu reviver ao contemplar o gesto benevolo com que elle lhe falou. Um longo suspiro de alivio rompeu-lhe do coração; seus braços cahiram sobre os hombros do padre, em cujo seio escondeu o rosto e repousou emfim,--um minuto—das dores que a affligiam.
--Perdoaram-me? disse ella.
--Hão de perdoar; conte-me tudo.
--Oh! não posso, não sei; sei que é meu pae.
O capellão não insistiu; voltou aos outros dous, a quem achou na posição em que os deixára. Interrogaram-n'o com os olhos.
--Nada, disse elle. Seu coração não possue nesta occasião a necessaria fôrça para responder a quanto se lhe devia perguntar; demais não sabera tudo. Temos a primeira confissão da verdade....
--Da verdade? interrompeu melancholicamemte Estacio. Quem sabe se é verdade o que lemos nesse papel?
--É, deve ser. Faltam-nos, é certo, os fundamentos da asseveração; mas eu incumbo-me de ir buscal-os.
--Iremos ambos.
D. Ursula quiz dissuadir o sobrinho de ir á casa do homem, causa dos desastres da familia; não tanto por que lhe parecia que entre Estacio e elle nenhuma relação convinha estabelecer, mas sobretudo por que ella precisava de alguem que a acompanhasse em tão graves circumstâncias. Melchior inclinou-se ao alvitre de D. Ursula.
--Irei eu só, disse elle; depois conduzil-o-hei até ca, se fôr preciso.
--Não posso esperar, insistiu Estacio; preciso falar a esse homem, ouvil-o, ler-lhe a verdade ou o embuste nas linhas do rosto. Talvez o decoro da familia exigisse outra cousa; mas, padre-mestre, meu coração goteja sangue.
Era impossivel dissuadil-o; Melchior tratou somente de o moderar. De resto, a crise era violenta; cumpria resolvel-a sem demora nem hesitação. O padre animou D. Ursula, e sahiu acompanhado de Estacio, cujo coração, convalecido do primeiro abalo, deixava as regiões da dúvida para entrar na atmosphera da verdade,--pelo menos da esperança. Quaesquer que fossem as consequencias da nova revellação, vinha ésta como um balsamo, apos tão dolorosas commoções; era um rasgão azul no ceu tempestuoso daquelles dias. Ia elle pensando assim,--ou antes sentindo,--por que o pensamento não ousava regel-o, desde que a vida inteira do moço se lhe concentrára no coração.
Chegando em frente da casa, Estacio desviou os olhos; custava-lhe encaral-a, mas venceu-se. Houve demora em abrir a porta; abriu-se ésta emfim, e a figura do dono da casa appareceu aos dous. Vendo-os, empallideceu um pouco, mas um sorriso procurou disfarçar a impressão. Estacio foi direito ao fim.
--Supponho que se lembra de mim? disse elle.
--Perfeitamente.
--Sabe que motivo nos traz a sua casa?
--Não, senhor.
--Confessa a autoria desta carta?
Salvador estremeceu; depois respondeu com um gesto affirmativo.
--Pretende que Helena é sua filha, disse o moço depois de um instante. Confirma verbalmente o que escreveu?
--Helena é minha filha.
Melchior interveiu.
--Ha um anno, fallecendo, o meu velho amigo conselheiro Valle, reconheceu Helena, por uma clausula testamentária; recommendava á familia que a tratasse com affecto e carinho e designava o collegio em que ella estava sendo educada. O facto do reconhecimento e as circumstâncias que apontou dão toda a veracidade á palavra do morto. Que prova apresenta o senhor em contrário a ella?
--Nenhuma, disse Salvador; não tenho prova de nenhuma natureza.
--Na falta de provas, proseguiu o capellão, poderia dizer-nos como suppor da parte do conselheiro uma falsificação tratando-se de disposição tão grave como essa de introduzir uma pessoa extranha na familia?
Salvador sorria amargamente.
--Supponha,--disse elle,--que eu havia illudido a confiança do conselheiro, e que elle acreditava ser pae de Helena.
--Era isso?
--Não era. Na posição em que nos achamos já não ha logar para meias palavras. Fôrça é referir tudo. Dez minutos apenas.
Os tres sentaram-se. Melchior olhava para o dono da casa com a persistencia e a curiosidade naturaes da occasião. Salvador esteve alguns instantes calado; emfim voltou-se para o capellão.
--Estimo, disse elle, que o Sr. padre viesse; sua caridade temperará a legítima indignação deste mancebo; e eu farei as declarações indispensaveis na presença das duas pessoas a quem mais amo, abaixo de Helena.
--Queira falar, disse seccamente Estacio.