A festa correu animada, posto o reunião fôsse restricta. Algumas voltas da valsa, duas ou tres quadrilhas, jogo e musica, muita conversa e muito riso, tal foi o programma da noite, que a encheu e fez mais curta.
Se as honras da casa foram feitas por Helena, a alma da festa era Mendonça, cujo espirito havia ja recebido e colhido o suffragio universal. Eugenia dera-lhe, antes de todos, o seu voto. Havia entre ambos tal ou qual afinidade de indole, que naturalmente os approximava. Mendonça lisongeava os caprichos de Eugenia, applaudia-a, comprehendia-a, obedecia-lhe sem constrangimento nem reparo. Quando Mendonça valsava com Eugenia, todos os olhos se concentravam nelles. Eram valsitas de primeira ordem. As ondulações voluptuosas do corpo de Eugenia e a serenidade e segurança de seus passos, adaptavam-se maravilhosamente áquella especie de dança,--a unica que nossos costumes formalistas possuem. Era bello vel-os percorrer o vasto círculo deixado a seus movimentos; vel-os emfim parar com a mesma precisão e sem o menor symptoma de cançasso. Eugenia punha toda a sua attenção naquelle gesto de braço com que as mulheres, logo que interrompem ou cessam de todo a valsa, conchegam ao corpo a saia do vestido, cujo movimento rotatorio póde dar lugar a alguma indiscrição. O prazer com que ella fazia esse gesto, e a graça com que o acompanhava de uma leve inclinação do corpo mostravam que, mais ainda a faceirice do que a necessidade, lhe movia o corpo e a mão.
Ésta sorte de triumphos enchia a alma de Eugenia; e, porque ella não possuia nem a modestia nem a arte de o simular, via-se-lhe no rosto o orgulho e a satisfação. A dança não era para a filha de Camargo um goso ou um recreio somente; era tambem um adorno e uma arma. Dahi vinha que o valsista mais intrepido e constante era tambem o principal parceiro do seu espirito; e ninguem disputava esse papel ao filho do commerciante.
--Sua filha é a rainha da noite, murmurou o Dr. Mattos ao ouvido de Camargo, em um intervallo do voltarete.
--Não é verdade? acudiu o médico.
E a alma do pae voava enrolada nas pontas da fita que apertava a cintura de Eugenia, não regressando ao domicilio se não quando a moça parava. Então volvia Camargo um olhar em torno de si, como pedindo egual admiração. Depois ficava sombrio, e mais do que usualmente, cahia em longos e mortaes silêncios. Tres ou quatro vezes approximára-se de Helena sem lograr detel-a, nem adiarem si mais que duas palavras triviaes. Insistia; não a perdia de vista, parecia ancioso de a conversar sôbre alguma cousa.
Helena repartia-se entre todas as pessoas, attenta aos mil cuidados que a noite requeria. Cantou uma vez, dansou uma quadrilha, e não valsou. Em vão Mendonça insistira com ella; a moça desculpou-se dizendo que a valsa lhe fazia vertigens. Na opinião do filho do coronel-major ésta razão encobria somente a ignorancia de Helena. Estacio pensava antes que era a castidade selvagem da irmã que lhe não permittia o contacto de um homem, ideia que lhe fez bem ao coração.
Pela volta da meia noite, terminada a ceia, começou aquella hora de repouso, que precede a total dispersão. As senhoras trocavam impressões e commentarios, os rapazes fumavam, os jogadores decidiam as últimas remissas. A noite não refrescara, e a agitação augmentára o calor. Helena, tão cançada como D. Ursula, retirára-se por alguns instantes para a sala contigua á principal; alli sentou-se n'um sopha, e derreou levemente o corpo, deixando cahir os cilios, não sei se pensativos, se pesados de somno. Seu espirito não tivera tempo de encadear duas ideias ou esboçar um sonho, quando uma voz a accordou:
--Ja dormindo!
Era Camargo.
Helena abriu os olhos sobresaltada. A voz de Camargo, produzira-lhe a impressão de desagrado, que lhe fazia sempre. Sorriu a moca contrafeitamente, e vendo que elle se dispunha a sentar-se no sopha, não arredou o vestido, como se quizesse deixar entre ambos larga distância: Camargo sentou-se.
--Parece que se assustou? disse elle.
--Um pouco.
Camargo agitou entre as mãos os perendengues do relogio,--tão numerosos como elles se usavam naquelle tempo; depois pegou familiarmente no leque da moça, abriu-o, contou as varetas, tornou a fechal-o e restituiu-o com um elogio. Helena respondeu-lhe com um sorriso. Ia levantar-se, quando elle a deteve com éstas palavras:
--Estimei achal-a só, por que precisava pedir-lhe um conselho.
A testa de Helena contrahiu-se interrogativamente.
--Um conselho e um favor, continuou o médico. Não será, creio eu, a primeira vez que a velhice consulte a mocidade. Demais, trata-se de assumpto em que a gente moça lê de cadeira.
Helena olhou para elle desconfiada. Nunca vim o médico tão affavel, e essa mudança de maneiras e de tom é que lhe fazia medo. Verdade é que elle ia pedir-lhe alguma cousa; e a experiencia ensina que o interesse é muito mais eloquente que o vinho e muito mais meigo que o amor. Camargo não se deteve. Fez uma exposição rapida de suas relações com a familia do conselheiro, do sentimento de amizade que o ligava a ella.
--A perda do meu finado amigo,--concluiu elle, não póde ser supprida por nenhuma cousa; mas ha alguma compensação na affeição que sobrevive e me faz considerar ésta familia como minha propria. Estou certo de que seu irmão e D. Ursula sentem a meu respeito do mesmo modo. Quanto á senhora, é recente na familia, mas não tem menor direito que ella. Vi-a tão pequena!
--A mim? perguntou Helena.
Camargo fez um gesto affirmativo, em quanto a moça olhava em volta da sala, receiosa de que alguem tivesse entrado e ouvido. Uma vez segura de que ninguem havia, recebeu impressão contrária á primeira; envergonhou-se daquelle receio. A vergonha augmentou quando o médico accrescentou em voz baixinha:
--Não falemos nisso...
--Pelo contrário! exclamou ella. Pode falar com franqueza; diga tudo. Era minha mãe. Não sei o que foi para o mundo; mas se me perdoaram a irregularidade do nascimento, não creio que me pedissem em troca a renúncia do meu amor de filha; a lei que o poz em meu coração é anterior á lei dos homens. Não repudio uma só das minhas recordações de outro tempo. Sei e sinto que a sociedade tem leis e regras dignas de respeito; aceito-as taes quaes; mas deixem-me ao menos o direito de amar o que morreu. Minha pobre mãe! Vi-a expirar em meus braços; recolhi o seu último suspiro. Tinha apenas doze annos; contudo, não consenti, que outra pessoa velasse á cabeceira a ultima noite que passou sobre a terra... Oh! não a esquecerei nunca! nunca! nunca!
Helena proferiu éstas palavras n'um estado de exaltação que até alli se lhe não vira. Em vão Camargo procurou duas ou tres vezes interrompel-a, receioso de que a ouvissem fóra, por que a moça tinha levantado a voz. Helena não obedeceu; não viu se quer o gesto supplicante do médico. O seio, castamente velado pelo corpinho, que subia até ao pescoço, estava offegante e onduloso como a agua do mar batida pelo vento. Á ultima palavra sahiu-lhe como um soluço. Camargo sentiu-se sorprehendido com aquella explosão de ternura. Era evidente que elle esperava outra cousa. Seguiu-se um breve silêncio, durante o qual Helena mordia a ponta do lenço, como para conter a palavra que lhe tumultuava no coração. O médico proseguiu emfim:
--Ninguem lhe pede que a esqueça, disse elle; todos respeitam esses sentimentos de piedade filial. O passado morreu, e o menos que se deve aos mortos é o silêncio. A senhora tem o direito de lhe dar o amor e a saudade. Mas falemos dos vivos; e perdoe-me se lhe toquei, sem querer, em tão dolorosa recordação.
--Não! não é dolorosa! disse ella abanando a cabeça.
--Falemos dos vivos. Não está certa do amor de sua familia?
Helena fez um gesto affirmativo.
--Não poderia encontrar outra melhor nem tão boa. D. Ursula é uma sancta senhora; Estacio um caracter austero e digno. Venhamos agora ao conselho. Ha muito tempo ando com ideia de ir á Europa; estou caminhando para a velhice; não quero deixar de ir ver alguma cousa além do nosso Pão d'Assucar. Ja desfiz o projecto mais de uma vez. Cuido que agora vou definitivamente realisal-o. Dá-se porém uma circumstância grave. Sabe que minha filha ama seu irmão? Meus olhos descobriram desde muito essa inclinação de um e outro, por que tambem seu irmão ama minha filha. Merecem-se; e de algum modo continuam si affeição dos paes; a natureza completa a natureza. Ésta é a situação. O que eu desejava, porém, é que me dissesse se devo partir ja, levando-a; ou se é melhor esperar que elles se casem.
Helena ouvira o médico sem olhar para elle; quando elle acabou, fitou-o admirada e curiosa. A puerilidade da pergunta era tão evidente que a moça procurou ler no rosto do interlocutor o pensamento verdadeiro e occulto. Camargo apressou-se a explicar-se.
--Estacio,--disse elle,--póde amar Eugenia com ideias matrimoniaes; mas tambem pode não passar isso de um capítulo de romance, como o que se lê em uma viagem da Corte a Nictheroy. Seu caracter é serio; mas o coração tem leis especiaes. Confesso que o procedimento de Estacio nada me affirma a tal respeito. Ha nelle umas mudanças pouco explicaveis. O tempo decorrido é mais que muito sufficiente para que... Está reflectindo!
--Estou.
--E...
--Supponho que pede mais do que me disse. Quer que eu indague a tal respeito as intenções, de Estacio!
--Isso.
--Mas porque não se dirige a elle mesmo?
--Não havia inconveniente; estabeleceu-se porém que um pae não deve ser o primeiro a falar em taes cousas. É preciso respeitar a dignidade paterna. Accresce que Estacio é rico, e tal circumstância podia fazer suppor de minha parte um sentimento de cobiça, que está longe de meu coração. Podia falar a D. Ursula; creio porém que ella não tem a sua habilidade, e... porque o não direi? a sua influência no espirito de Estacio.
--Eu!
--Oh! influência incontestavel! A senhora veiu completar a alma de seu irmão. É visivel a affeição e o respeito que elle lhe tem. Demais, em taes assumptos urna irmã é natural confidente e conselheira.
Helena deu tres pancadinhas no joelho com a ponta do leque, e enfiou os olhos pela porta de communicação entre aquella e a salla principal. Depois voltou-se para o médico.
--Sei que elles se amam,--disse ella,--e ja dei a minha opinião a tal respeito. Eugenia parece ser minha amiga; meu irmão é meu irmão; desejo-lhes todas as felicidades. Ha porém um limite á intervenção de uma irmã; e não desejo ir além. Demais, seu pedido é ocioso.
--Porque?
--Annuncie a viagem; e Estacio, se apressará a pedir-lhe sua filha. Se o não fizer, é por que a não ama, conforme ella merece, e em tal caso mais vale perder um casamento que fazel-o mau.
--Sim? perguntou Camargo.
--Naturalmente.
--O conselho é excellente,--disse o médico depois de um instante, mas tem o defeito substancial de supprimir a sua intervenção, que me é necessaria. Vejamos o meio de combinar as cousas. Supponhamos que, annunciada a viagem, Estacio não corresponde ás minhas esperanças. Que devo fazer?
--Embarcar.
--Embarcar é arriscar o casamento. Ora, este casamento... é um de meus sonhos. Desejo que os filhos continuem a affeição dos paes. Se Estacio recuar, minhas esperanças esvaem-se-me como fumo; o tempo cavará um abysmo entre os dous; Eugenia amará outro... Emfim, conto com a senhora.
--Commigo?
--A senhora tem uma fôrça de resolução, uma fertilidade de expedientes, um espirito capaz de emprezas delicadas, e, tratando-se da felicidade de um irmão. Creio que empenhará todas as fôrças para levar a cabo a mais pura das ambições. Não lhe peço um absurdo, peço-lhe a felicidade de minha filha.
Helena não respondeu; olhou de revez para elle, e cravou depois os olhos no aguia branca tecido no tapete, sobre o qual pousava seu pe impaciente e colerico. Podia referir mais detidamente qual o seu papel juncto de Estacio, a respeito de Eugenia, seus pedidos, e a promessa do irmão, que deveria ser cumprida, se o fosse, em algum dos seguintes dias. Mas nem quiz dar esperanças que os acontecimentos podiam dissipar, nem o coração lhe consentia mais larga confidencia. Ambos elles viam que se detestavam cordialmente; mas se em Helena havia colera abafada, em Camargo havia tranquillidade e observação. Elle contemplava a moça, com o olhar fixo e metalico dos gatos; a mão esquerda, pousada sobre o joelho, rufava com os dedos magros e pelludos. Nada dizia; mas todo elle em uma interrogação imperiosa. Helena olhou ainda uma vez para o médico.
--Dá-me o seu braço até á sala? perguntou.
Camargo sorriu.
--Só isso? Eu dizia commigo outra cousa.
--Que dizia então? perguntou Helena com aquelle ar de esmagadora indifferença que só as mulheres possuem.
--Dizia que muito se devia esperar da dedicação de uma moça, que acha meio de visitar ás seis horas da manhã uma casa velha e pobre, não tão pobre, que a não adorne garridamente uma flamula azul..
Helena fez-se livida; sua mão apertou nervosamente o pulso de Camargo. Nos olhos pareciam falar-lhe ao mesmo tempo o terror, a colera e a vergonha. Atravez dos dentes cerrados Helena gemeu ésta palavra unica:
--Cale-se!
--Falo entre nós e Deus, disse Camargo.
Uma onda de sangue invadiu a face da moça, com a mesma rapidez com que ella lhe empallidecêra. Helena quiz erguer-se; mas sentiu-se exhausta. Ninguem da sala pôde perceber a impressão e o movimento; ninguem olhava para alli. Camargo, entretanto, inclinou-se para Helena e proferiu algumas palavras de animação, que ella interrompeu, murmurando com amargura:
--O senhor é cruel!
--Sou pae, respondeu o médico; pae extremoso e discreto, mais discreto ainda que extremoso, Conto com a senhora.