Eurico, o presbytero · Alexandre Herculano

Chapter 7: A Visão

No espelho da visão está a segurança da verdade.

Codigo wisigothico—I-1-2.

Presbyterio. Antemanhan. Oito dos idos d'abril da era de 749.

1

O somno ou a vigilia, que me importa esta ou aquelle? As horas da minha vida são quasi todas dolorosas; porque a imaginação do homem não póde dormir.

Para o povo, ignorante e impiamente credulo, a noite é cheia de terrores; em cada folha que range na selva elle ouve um gemido de alma que vagueia na terra; em cada sombra de arvore solitaria que se balouça com a aragem sente o mover de um phantasma; as exhalações dos bréjos são para elle luz de demonios, alumiando folgares de feiticeiras.

Mas, quando jaz no leito do repouso, o seu dormir é tranquillo. Ao cruzar os umbraes domesticos esses terrores sumiram-se com os objectos que os geraram. A sua alma parece despir-se da phantasia grosseira, como o corpo se despe da stringe aspera que lhe resguarda os membros.

Não assim eu. Quando as palpebras, cerrando-se, m'escondem o mundo das realidades, os olhos do espirito volvem-se para o mundo das existencias ideaes. Ás vezes, a felicidade e a esperança vem consolar-me então; muitas mais, porém, os sonhos maus me perseguem; e por bem alto preço me saem os instantes de ventura transitoria trazidos por visões consoladoras.

Esta foi para mim uma noite cruel. Ainda o suor frio que me corria da fronte se não seccou; ainda o coração parece mal caber no peito, e o pulso bate desordenado e violento.

Terribilissimos foram os sonhos que Deus mandou ao Presbytero; mas, porventura, mais terrivel é a sua significação.

Diz-me voz intima que esse doloroso espectaculo a que assistiu a minha alma é, oh Hespanha, o mysterio dos teus destinos.

E esta foi a visão:

2

Eram as horas das trevas profundas. Sem saber como, achava-me no viso mais alto do Calpe: traspassava-me a medúla dos ossos o vento frio da noite, e parecia-me que os membros hirtos se me haviam pregado no topo da penedia.

Olhava fito ante mim, e os meus olhos rompiam a escuridão do horisonte, como se a luz do sol o illuminasse.

O espectaculo maravilhoso que se passava nesse espaço insondavel fazia-me erriçar os cabellos, que o norte me açoutava com o sopro gelado.

Eis o que eu vi nessa hora de agonia, depois de estar alli alguns não sei se instantes ou seculos.

O mar cessou de agitar-se e rugir, semelhante ao metal fervente destinado para a feitura d'estatua colossal que resfriasse de subito em vasta caldeira.

E era horribilissimo ver convertido em cadaver, de todo immovel e mudo, o oceano; aquelle oceano que ha mais de quarenta seculos nem um só dia deixou de revolver-se e bramir em torno dos continentes, como o tigre ao redor da rez que jaz morta.

O sibillar das rajadas tambem cessou completamente. Parado sobre a face da terra, o ar era semelhante ao lençol do finado a quem recalcaram a gleba que o cobre, frio, humido, pesado, sem ranger, sem movimento, cosido sobre o peito, onde acabou o bater do coração e o arfar compassado dos pulmões.

Então, muito ao longe, uma vermelhidão tenuissima foi avultando pouco a pouco, derramando-se pelo horisonte e repintando a abobada immensa dos céus.

Depois, esse clarão sinistro reverberou na terra: as cimas agudas, dentadas, tortuosas, alvacentas das fragas marinhas tinham-se abatido e livelado, como os cerros informes de neve amontoada, que, derretidos nos primeiros dias do estio, vão, despenhando-se, formar um lago chão e morto na caldeira mais funda do valle fechado.

Tudo a meus pés era um plano uniforme, ermo, affogueiado, como a atmosphera que pesava em cima delle: e, além, jazia o cadaver do mar.

Eu, o Silencio e a Solidão eramos quem estava ahi.

3

Subitamente, naquelle vasto horisonte, até então puro na sua luz horrenda, dous castellos de nuvens cerradas e negras começaram a alevantar-se, um da banda da Europa, outro do lado d'Africa.

Os bulcões conglobados corriam um para o outro e multiplicavam-se, vomitando novos castellos de nuvens, que se diffundiam, fluctuando ennoveladas com fórmas incertas.

E aquellas montanhas vaporosas e negras rasgaram-se d'alto a baixo em fendas semelhantes a algares profundos, e os seus fragmentos informes e cambiantes vacillavam tremulos em ascensão diagonal para as alturas do céu.

Ao approximarem-se, os dous exercitos de nuvens prolongaram-se em frente um do outro e toparam em cheio. Era uma verdadeira batalha.

Como duas vagas encontradas, no meio de grande procella, que, tombando uma sobre a outra, se quebram em cachões que espadanam lençoes de escuma para ambos os lados, antes que a menos violenta se incorpore na mais possante, assim aquellas nuvens tenebrosas se despedaçavam, derramando-se pela immensidão da abobada affogueiada.

Então, pareceu-me ouvir muito ao longe um choro sentido misturado com gritos agudos, como os do que morre violentamente, e um tinir de ferro, como o de milhares de espadas, batendo nas cimeiras de milhares de elmos.

Mas este ruido foi-se alongando e cessou: os bulcões alevantados da banda d'Africa tinham embebido em si os que subiam da Europa, e desciam rapidamente para o lado dos campos gothicos.

Depois, sentí lá embaixo, na raiz da montanha, um rir diabolico. Olhei: o Calpe esboroava-se ao redor de mim, e os rochedos sobre que eu estava assentado vacillavam nos seus fundamentos.

Despertei. Tinha os cabellos hirtos, e o suor frio manava-me da fronte aquecida por febre ardente.

Senhor, Senhor! foste tu que déste a ler á minha alma a ultima pagina do livro eterno em que a providencia escreveu a historia do imperio godo?

Contam-se cousas incriveis desses povos que assolam a Africa, chamados os arabes, e que, em nome de uma crença nova, pretendem apagar na terra os vestigios da cruz. Quem sabe se aos arabes foi confiado o castigo desta nação corrupta?

Já as nossas praias foram visitadas por elles, e para os repellir cumpriu que desembainhasse a espada o illustre Theodemiro, o ultimo guerreiro, talvez, que mereça o nome de neto dos godos.

Terra em que nasci, se o teu dia de morrer é chegado, eu morrerei comtigo. Na procella que se alevanta d'Africa deixarei submergir o meu debil esquife, sem que a esses gemidos que ouvi se vão ajunctar os meus. Que m'importa a vida ou a morte, se o padecer é eterno?