Eurico, o presbytero · Alexandre Herculano

Chapter 5: A Meditação

Então os godos cahirão na guerra;
Então fero inimigo ha-de opprimi-los
Com ruinas sem conto, e o susto e a fome.

Hymno de S. Isidoro em Lucas de Tui. Chronicon liv. 3.^o

No templo—Ao romper d'alva—Dia de Natal da era de 748.

1

Mais de sete seculos são passados depois que tu, oh Christo, vieste visitar a terra.

E as tuas palavras foram escutadas pelos indomaveis filhos da Gothia, e elles ajoelharam aos pés da cruz.

Era que nessas palavras divinas havia uma poesia celeste, a qual as almas rudes mas virgens do septemtrião sentiam casar-se com as suas primitivas virtudes.

Tu evangelisavas a liberdade e condemnavas todo o genero de tyrannia: tu restituias ao valor a sua generosidade, á generosidade a sua modestia; tu revelavas inauditos mysterios no esforço do morrer: a constancia dos teus martyres escurecia a dos nossos guerreiros quando, debaixo do punhal de inimigo victorioso, recusavam confessar-se vencidos.

Tu convertias o amor, esse sentimento delicioso, até então limitado ao goso material da mulher, em um grande e sublime affecto: alargavas o ambito do coração por toda a terra, por tudo quanto nella vive e respira, e davas-lhe para conquistar todas as existencias dos céus.

A generosidade, o esforço e o amor, ensinaste-os tu em toda a sua sublimidade: só nas almas dos barbaros estavam elles em germen. Não para os romanos corrompidos, mas para nós, os selvagens septemtrionaes, era o christianismo. Para estes o evangelho assemelhava-se ao sol que rompe d'além das serras e que illumina, aquece e alegra; para os escravos abjectos dos cesares assemelhava-se ao sol mergulhando-se no mar, que só deixa nos campos escuridão, frialdade e tristeza.

Por isso, emquanto elles voltavam as costas á tua cruz ou a lançavam d'envolta com os idolos nos seus mesquinhos lararios, nós quebravamos no fundo das selvas ou no topo das montanhas as imagens d'Odin, de Thor e de Freda e corriamos a abraçarmo-nos com ella.

Tem compaixão de nós, oh Christo: lembra-te de que os ossos dos que assim o fizeram ainda não são inteiramente cinzas debaixo das lousas; porque só quatro seculos tem passado por cima delles.

2

Quem é hoje christão e godo nesta nossa terra d'Hespanha?

Uma geração degenerada pisa os restos d'heroes: homens sem crença, blasphemos ou hypocritas, succederam aos que criam na grandeza moral do genero-humano e na providencia de Deus.

D'antes, os principes do povo eram os capitães das hostes: a espada dos reis a primeira que se tingia no sangue dos inimigos da patria.

D'antes, o sacerdote era o anjo da terra: os que passavam curvavam-se para beijar a fimbria da sua stringe; porque a paz e a esperança entravam em todas as moradas sobre que desciam as bençams delle.

D'antes, o juiz era o pae do opprimido, o tribunal o abrigo do innocente, a justiça o nervo do imperio gothico.

D'antes, nos concelhos dos prelados, dos nobres, dos homens livres as leis íam buscar a sancção da sabedoria e afferir-se pela utilidade commum. Lá, o rei sabía que o poder lhe vinha de Deus e da vontade dos godos, que o sceptro era cajado de pastor, não cutello d'algoz, e a coroa uma carga pesada, não uma aureola de vangloria.

Hoje, nos paços de Toletum só retumba o ruido das festas, os frankos e os vasconios talam as provincias do norte, e a espada dos guerreiros só reluz nas luctas civís.

Hoje, os principes na embriaguez dos banquetes esqueceram-se das tradições d'avós; esqueceram-se de que era aos capitães das hostes da Germania que os romanos imbelles davam o nome de reis.

Hoje, a prostituição entrou no templo do Crucificado: os claustros das cathedraes velam com o seu manto de pedra as abominações da torpeza, e as mãos do sacerdote deixam muitas vezes humedecida a tela que veste os altares com vestigios do sangue derramado covarde e vilmente.

Hoje, a cubiça assentou-se no logar da equidade: o juiz vende a consciencia no mercado dos poderosos, como as mulheres de Babylonia vendiam a pudicicia nas praças publicas aos que passavam, diante da luz do dia.

Hoje, a espada substituiu o conselho dos prelados, dos nobres e dos homens livres: a coroa é uma conquista, a lei uma vontade do deshonrado vencedor de pelejas domesticas, a liberdade uma palavra mentida.

Imperio d'Hespanha, imperio d'Hespanha! porque foram os teus dias contados?

3

O sol oriental que ora bate ridente no pavimento da igreja afflige a minha alma, porque me parece que, alumiando esta terra condemnada, se assemelha a homem cruel que viesse dar uma risada juncto ao leito do moribundo.

Porque te havia eu de amar, oh sol, se tu és o inimigo dos sonhos do imaginar; se tu nos chamas á realidade, e a realidade é tão triste?

Pela escuridão da noite, nos logares ermos e ás horas mortas do alto silencio a phantasia do homem é mais ardente e robusta.

É então que elle dá movimento e vida aos penhascos, voz e entendimento ás selvas que se meneiam e gemem á mercê da brisa nocturna.

É então que elle collige as suas recordações; une, parte, transmuda as imagens das existencias que viu passar ante si e estampa nas sombras que o rodeiam um universo transitorio, mas para elle real.

E é bello esse mundo de phantasmas aereos, por entre cujos labios descorados não transpiram nem perjurio nem dobrez e a cujos olhos sem brilho não assoma o reflexo de animos pervertidos.

Ahi ha o repouso, a paz e a esperança que desappareceram da terra; porque o mundo das visões cria-o a mente pura do poeta: ella dá corpo e vulto ao que já só é ideal, e o passado, deixando cahir o seu immenso sudario, ergue-se em pé e, pondo-se diante do que medita, diz-lhe:--aqui estou eu!

E este o compara com o presente e recúa d'involuntario terror:

Porque o cadaver que se alevanta do pó é formoso e sancto, e o presente que vive e passa e sorri é horrendo e maldicto.

E o poeta atira-se chorando ao seio do cadaver e responde-lhe:--esconde-me tu!

É lá que esta alma, arida como a urze, sente, quando ahi se abriga, refrescá-la um como orvalho do céu.