Em uma tarde de maio de 1849, ao oitavo mez de ceo sem nuvens n'aquella chacara, onde á competencia os tres ditosos moradores se davam alegrias, chegou o anjo pallido da morte, e sentou-se no limiar d'aquelle éden, como para vedar o accesso ao anjo do contentamento.
A um lado do leito de Valentim da Costa estava Corinna da Soledade, com o cotovello apoiado no travesseiro e a face na palma da mão esquerda, orvalhada de lagrimas.
Do outro lado Antonio de Azevedo, com as mãos entrelaçadas debaixo do rosto que encostava á borda do leito, erguia a espaços os olhos lagrimosos, e cravava-os nas faces emaciadas e lividas do ancião.
Aos pés do leito estavam sentadas duas velhas negras soluçantes, com os rostos escondidos entre os joelhos.
Na ante-camara moviam-se pé ante pé os restantes dos antigos servos de Valentim, e cada um por sua vez, de instante em instante, vinha, por entre os cortinados de cassa, espreitar o enfermo, e retirava com as mãos postas e o coração em ancias e suspiros.
Valentim da Costa tinha sido confessado e ungido n'aquella tarde. A sciencia retirara ante a irremediavel decomposição dos oitenta annos.
Mas Corinna e Azevedo não podiam convencer-se de que o seu amigo havia de morrer assim, quando, a intervallos, o ouviam discorrer com o socego e energia moral dos mais saudaveis dias. Era a alma imperecedoira allumiada já pela claridade do empyreo: era a prova suprema que ella estava dando de sua immortalidade. A cryzalida desfazia-se, e a borboleta do ceo, n'aquelles assomos de intelligencia, ensaiava seu voejar para o alto.
O moribundo descerrara as palpebras, e dissera:
--Não devia eu esperar tão suave morrer. Homem que viveu sósinho os annos da juventude e força, morrera sósinho. Não quiz o Altissimo que eu pagasse amargosamente a minha incuria. Eis-me com filhos e amigos em volta do meu leito. Bemdito seja o Senhor!
Falleceram-lhe forças, e descahiram as palpebras transparentes, flacidas e azulejadas.
D'ahi a pouco reabriu os olhos, fez signal a Antonio d'Azevedo, e indicou-lhe o travesseiro, que forcejou por levantar.
Azevedo correu a mão por debaixo do travesseiro e tirou papeis, que offereceu ao ancião. Este não pôde erguer os braços quebrantados, e disse:
--Um é o meu testamento; o outro papel é a minha despedida de vós. Está escripto ha quinze dias: escrevi-o quando conheci o fim. Lêde-o vós, filhos; quero ouvil-o; o coração quer ainda o goso de se escutar.
Antonio d'Azevedo abriu vagarosamente a folha dobrada em oitavo, e leu com tremor de suspiros:
«Um secreto aviso me manda preparar. Não posso dizer como o santo:--O meu coração está prompto--; mas vejo o termo da viagem sem susto. A face do Juiz transluz misericordia. O meu Creador foi para si que me creou.
«É dôr deixar-vos, filhos; porém saudades haverá mais pungentes entre os vivos que se apartam. A providencia divina permitte que o aspeito da morte seja menos afflictivo, quando em verdade ella está comnosco. Ai de nós, se este desapego da terra, onde se é feliz ou se espera sel-o, não existisse! O morrer custa ruins quebrantos da materia; mas a alma como que se está despenando e alegrando para ir ao seu destino.
«Vou deixar-vos, meus amigos. Chorai-me, porque vos quiz muito, e vos fui grato ás doces horas que me déstes. Chorai-me, porque ao moribundo é consolador o pranto dos que lhe deram os risos da ventura.
«Ficaes novos e ricos. Pela vida além haveis de encontrar muita gente affligida: sêde valedores de todos, e associai sempre o meu nome á vossa beneficencia. Assim viverá comvosco uma faisca d'esta chamma, que não póde ser toda vossa, por ser de Deus.
«Dai-me sepultura, e ide depois para a patria e para os vossos. Empregai lá a vossa actividade menos em accumular, que em repartir a sobejidão de vossa riqueza. Quando houverdes filhos não lhes ensineis a honra do rico, que essa é facil: ensinai-lhes a honra do pobre, a honra de Antonio d'Azevedo e a abnegação de Corinna. Vivei de modo que a vossa descendencia se glorifique do exemplo, quando vossos nomes estiverem já esquecidos.
«Estou a dar-vos conselhos, como se carecesseis d'elles: desculpai ao velho este fraco da muita idade. É uma missão paternal que cumpro. Se eu tivesse dois filhos, exemplares em virtudes, havia de fallar-lhes assim. Deixai-me acabar n'esta abençoada illusão. Admoesto-vos, meu Antonio d'Azevedo, a que deis de mão ao grande pezo do trabalho. O que hontem era precisão, será ámanhan sêde sobre sêde de riquezas inuteis. O bastante é muito pouco. Da riqueza de vossa alma é que deveis ser grande dissipador: derramai-a em preceitos, conselhos, allivios e censuras. O solitario virtuoso é um egoista do ceo. Ide ao meio do povo e fallai. O homem sósinho póde ter muito de que alegrar-se; mas não alegra os milhares de infelizes que gemem, e a gemer se vão despedaçando.
«Sabei que eu, á custa de sessenta annos de trabalho, cheguei a esta hora podendo dizer que não tenho um ceitil. Tudo dei a uns, e perdoei a outros. Os bens de fortuna, que vos lego, deu-m'os uma herança, no ultimo quartel da vida. Ahi vol-a transmitto. Foi sempre meu intento deixal-a a pobres: sei que fica sendo vossa e d'elles.
«Agora abraçai-me, e dai-me o vosso adeus.»
Antonio d'Azevedo fôra algumas vezes embargado pelas lagrimas, e Corinna, com os labios postos na mão do moribundo, soluçava mui anciada. No final da leitura, Valentim fez um vão esforço de levantar os braços para receber os dois filhos que se achegaram ao seio d'elle. Os escravos tinham entrado todos de roldão, e beijavam-lhe os pés por cima da coberta. O agonisante relanceou os olhos de sobre elles para a face d'Azevedo, e murmurou:
--Serão vossos amigos tambem... Levai-os... Os pobrezinhos morreriam de saudade... e miseria.
Os negros ajoelharam de mãos postas, e oraram. Corinna insensivelmente ajoelhou tambem, conservando entre as suas a mão do moribundo.
CONCLUSÃO.
Passados seis mezes, á porta do quinteiro de uma pequena granja, visinha de Barcellos, parou uma liteira, d'onde apearam Antonio d'Azevedo e Corinna da Soledade. Logo em seguida, chegaram algumas cargas, acompanhadas por negros, em volta dos quaes o rapazio de Barcellinhos fizera grande alarido de apupos e espirros. Das tres escravas, uma só resistira á saudade do senhor; os pretos viviam todos, amparados pelo bom tracto dos novos amos.
As irmans do bacharel vestiam as suas mais vistosas e secias galas. Eram quatro frescas moças, robustas, côr escarlate de quem vende saude, alegria a desbordar do coração aos olhos, e um rir franco e aberto de innocencia, e felicidade expansiva.
Corinna abraçou-se n'ellas, que a levaram em andor para o primeiro sobrado. N'este sobrado, algum tanto escuro, rescendia um acre de rosmaninho e alecrim, como em festividade de presbyterio. Por cima de mesas, commodas, e banzos das janellas, tudo eram jarras de louça ordinaria com grandes feixes de dhalias, rozas e folhudos gira-soes. O oratorio estava aberto, e allumiado o crucifixo com a lampada usual, e mais duas vellas de cera de meio arratel, voto da mais nova das meninas. Os frizos do sanctuario eram grinaldas de flores, atadas pelas hastes umas n'outras, enfeite de menos engenho que apparato.
Antonio d'Azevedo entrou depois de sua mulher; sentou-se em um tamborete de coiro; descobriu-se, quando deu pela imagem do Christo, e murmurou:
--Finalmente!
Corinna da Soledade sentou-se á sua beira, e disse-lhe:
--Que celestial graça tem isto tudo, ó filho!
--Aqui tens a pobre casa onde nasci. Corinna!...--disse Azevedo, relanceando em redor os olhos humidos—Isto póde explicar a estreiteza das minhas ambições. Moldou-se-me a alma nas dimensões acanhadas d'esta casinha. Olha as flores de que eu tinha tantas saudades! Alli tens a minha banca de estudo... Lá estão ao lado do oratorio os meus primeiros livros... Mas como isto é pequeno! Como caberemos aqui!
--Perfeitamente, Antoninho!--disse Corinna.
Entrou, n'este ensejo, Joaquim d'Azevedo, o negociante do Porto, que ficara arrumando n'outro sobrado os bahus.
--Não sei, não sei como hão de caber aqui, meus irmãos—disse elle, rindo—Tu já sabes, Antonio, que, além d'esta saleta, e dois quartos, segue-se um casarão velho, e umas oito alcovas, de que os ratos estão de posse immemorial. Ora vem ver! Estou certo que a nossa Corinna vai ficar espavorida!
Abriu Joaquim de Azevedo a porta que abria para o casarão. Antonio fez pé atraz de maravilhado. Tinha diante de si uma sala luxuosamente trastejada, com janellas lateraes rasgadas em arco, e envidraçadas a cores. A jardineira central estava cogulada de flores raras, e ricas encadernações de albuns. A um lado o piano. A outro a othomana e as cadeiras de respaldo em setim amarello. No centro, o lustre pendente do estuque primorosamente lavrado da mais engenhosa filagrana. Ao fundo d'esta sala estava um quarto com recamara, espaçoso, alegre, com alfaias de muito valor e gosto.
--É o vosso quarto, meus irmãos—disse Joaquim—Ao lado tendes outro: será o do vosso primeiro filho. Quando os filhos augmentarem, iremos rompendo com o edificio pelo campo, ou daremos á casa a largura que precisa para corresponder ao comprimento. O defeito não foi do mestre architecto: foi meu por tua causa. Era preciso, cá para o meu plano um pouco de peça magica, que tu visses a frontaria da velha casa, e não podesses ver o fundo. O que era de nossos paes, está em pé; tens que farte onde ver o teu passado; tudo se conservou por amor de ti, que tens lá essa poesia das casas velhas. Mas has de perdoar que eu tenha destruido o casarão, antes que os ratos devorassem as nossas irmans.
Antonio abraçou Joaquim de Azevedo com fervorosa alegria, e este, com o outro braço, apertou Corinna ao peito.
Seguiu-se um dia e muitos dias de contentamento incessante. A cada hora em que se encontravam juntos, á mesa, no jardim, nos campos, ou á margem do Cávado, era uma festa, uma alegria de crianças!
Gastão de Noronha estava já em Lisboa, de volta de França, onde se deteve um anno a comprar a mobilia. Aquellas duquezas eram os seus peccados!
Fernando de Athaide desceu do alto-Minho a receber seus cunhados na quinta do Lima. Tambem Corinna queria ir reconhecer os arvoredos de sua infancia, e mostrar ao marido os logares onde chorara mais lagrimas de saudade. N'esta quinta se reuniram as quatro irmans casadas.
Emma, viscondessa da Cruz, tinha nutrido muito; e, com quanto o jubilo lhe désse azas, não cessava de queixar-se dos incommodos de tamanha viagem, desde o Porto alli! Leonor, casada com Luiz Taveira, ria muito da irman gorda, chamava-lhe o ideal da preguiça, e saltava muito, pendurada no braço do marido, que era doido por ella. O velho Bernardo Taveira seguiu os filhos, e fazia discursos, que ninguem lhe ouvia, excepto Antonio d'Azevedo, que via n'elle um dos classicos velhos talhados a molde das virtudes de Valentim da Costa. Dias depois, chegou Gastão de Noronha, Mafalda e Elisa, a mais nova, e ainda solteira das meninas. Gastão, com todo o aprumo de sua fidalga altivez, approximou-se do genro Azevedo, abraçou-o cordialmente, e disse-lhe:
--Meu caro commendador!
--Vossa excellencia está enganado!--disse o attonito Azevedo—Eu sou, salvo a pequena differença de alguns cabellos brancos, o Antonio de Azevedo de 1844.
Gastão tirou da algibeira uma chapa refulgente da ordem de Christo, e disse:
--Aqui tem! É o meu presente de noivado.
--Muito agradecido a vossa excellencia—disse Antonio d'Azevedo—Qualquer dadiva de vossa excellencia me alegra; e esta, que tanto luz, deve ser muito agradavel entre os brinquedos de meu primeiro filho.
--Mas eu quero que a use—tornou o sogro.
--Na minha aldeia?--perguntou o genro.
--Em Lisboa, para onde eu quero que o senhor vá gosar a vida e a riqueza que tem. A minha Corinna não se fez para o mato de Barcellos. Não é assim menina?
--Respeito muito a vontade de meu pae—disse Corinna com submissão—mas a nossa casa é em Barcellos, e as minhas flores estão lá por aquelles matos. Tenho lá uma segunda familia que me chama, e á qual eu tenho escrupulos de roubar por mais dias o seu irmão querido. Ámanhan partiremos.
Antonio de Azevedo, sem temer reparos, cedeu á alma reconhecida, e deu um beijo na face de sua mulher.
EPILOGO.
Lá vão quatorze annos.
Não me consta que tenha morrido algum dos personagens que ha instantes vimos tão alegres nas margens do Lima.
Conhecem romance em que tenha morrido tão pouca gente? Eu não! Se aquelle santo do Rio de Janeiro não vergasse debaixo dos oitenta annos, ainda agora podia estar no seio da patriarchal familia de Barcellos, onde elle tencionava acabar seus dias.
As irmans de Antonio de Azevedo estão todas casadas, e senhoras de boas casas de lavoira e numerosa descendencia.
Está ainda solteira Eliza, a irman mais nova de Corinna. Tem hoje trinta e um annos. É ainda formosa. Se o leitor é solteiro e rico... (não será mau que seja rico, para maior segurança) póde dar a este romance um supplemento, casando com aquella senhora, que está aqui em Lisboa. Eu de muito boa vontade, na segunda edição d'este romance, darei a possivel immortalidade ao acto.
Pude tambem saber que o menino mais velho de Antonio d'Azevedo amolgou a commenda na borda de um tanque, e acabou por atirar com ella a um poço. Que grande democrata se está alli criando!
FIM.
Notas:
[1] O Snr. Antonio Pereira da Cunha.
[2] O Snr. José Barbosa e Silva, author do romance==Viver para soffrer.
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
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| | Original | Correcção |
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|#pág. 65| Ningnem | Ninguem |
|#pág. 164| pimas | primas |
|#pág. 178| ao labios | aos labios |
|#pág. 184| nogociante | negociante |
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Foram mantidas as variações de nomes próprios.