Estrelas Funestas · Camilo Castelo Branco

Chapter 12: Capítulo 12

N'essa mesma hora, o conde de Monção, digno de si e de seus avoengos, mandou fechar as malas, e carregar a bagagem; vestiu-se apressadamente de jornada e saíu da camara á sala para despedir-se de Gonçalo Malafaya, e das duas senhoras. Soube o fidalgo, ainda encerrado no quarto, os aprestos de partida do hospede, e nem animo teve de lh'os estorvar: tamanha era sua vergonha que já o consolava a saída do conde, vexado por elle. Tanto, porém, crescia o sentimento do seu despundonor, quanto, augmentava o da aversão á mãe e á filha.

Chamado segunda vez, foi Gonçalo receber as despedidas do hospede de vinte e quatro horas incompletas. Já encontrou na sala a prima, com prazenteiro sorriso, e a filha de tranquilla apparencia, recebendo os agradecimentos do infeliz fidalgo, que movia mais á piedade que á irrisão.

Á piedade!... Quereria o conde, por ventura, a piedade de alguem? Os amores desditosos só acareiam dó para as victimas resignadas. Umas ha que de antemão se desopprimem em traças de vingança, e essas mais são para incutir malquerença que pena.

O adeus de Gonçalo Malafaya foi um aperto de mão convulso. O conde, para mostrar-lhe intelligencia de muda expressão, disse com sombra de riso:

--Não tem duvida, sr. Malafaya... O mundo dá suas voltas; veremos onde isto pára!...

Teria o repudiado noivo caminhado uma legua na direcção do seu solar no Alto-Minho, quando o coração lhe transmittiu ao pulso esquerdo raivoso impeto de sustar as redeas, e revirar a cabeça do cavallo para o Porto. Os dois mochilas deram praça ao galope desapoderado do ginete, e seguiram, notando mais uma das extravagancias do amo.

Foi o conde apear n'uma estalagem, e d'alli avisou um fidalgo, seu primo, que lhe preparasse aposentadoria em sua casa. Este successo, na pequena roda dos fidalgos do pequeno Porto de então, fez grande ruido, e chegou aos ouvidos de Malafaya como se por elles entrasse um dardo a ferí-lo em seu pundonor. Inexgotavel calix o do atormentado fidalgo! Nem esposa, nem filha, nem a sociedade! Todos e tudo conjurado a levá-lo ao apuro da desesperação!

Ao outro dia, contavam umas ás outras as familias nobres que os Malafayas tinham vexado o conde de Monção, despedindo-o na ante-vespera do seu projectado e decidido casamento com Maria Henriqueta. Vingou a geral opinião de que o conde fôra indignamente ultrajado, e Gonçalo um baixo offensor para tão alto personagem. Ninguem inquiria, nem queria saber se Maria Henriqueta rejeitára o marido. Era pormenor, que humilhava e desauctorava os paes diante de suas filhas, uma semelhante causa. Buscaram-se, inventaram-se outras, todas falsas, e em menoscabo de Gonçalo e de D. Maria das Dôres.

Resolveu o fidalgo saír do Porto com sua familia a residir temporariamente em uma quinta do Douro, e de lá enviar a filha ao convento de Arouca.

Empeceu Maria das Dôres o plano, contradizendo-o com a precisão de mostrar aos seus detractores que alli estavam a pé quedo recebendo os tiros da calumnia; ajuntava ella que o mundo, vendo-os fugir, diria que elles tinham ido esconder a sua indignidade na provincia. E rematou d'este theor:

--Se te julgas bem condemnado pela opinião dos nossos amigos e parentes, vae tu para o Douro. Eu e Maria Henriqueta não damos o campo á inveja diffamadora. Ficaremos; e quando elles se calarem, iremos para onde quizeres. Em quanto á ida de tua filha para Arouca, esse é o desejo d'ella; mas é preciso que penses se a honra de Maria Henriqueta será mordida na sombra por estes rafeiros e rafeiras, dando tu a isso occasião, com encerrá-la por castigo n'um convento. Castigá-la, porquê? perguntará o mundo; e, se tu disseres que a encarceras por rejeitar a mão do conde, o mundo fará os seus commentarios de modo que o tal desdouro caia sobre ella como sobre ti. Pensa, Gonçalo, e não precipites uma resolução, em que temos muito a perder; e a ganhar não sei o quê. Um convento é uma casa com umas portas muito grossas; mas as portas abrem-se de par em par quando as pessoas, que não fizeram votos de lá estar, querem sair.

A força moral de Gonçalo estava exhaurida. O homem, desvirtuado ante si mesmo, deixava-se já ir no pendor da fatalidade. Não contrariou a mulher: não quiz mesmo ser ouvido em nada; prohibiu até que ao seu quarto entrasse o som dos boatos affrontosos, que avultava de dia para dia.

O conde de Monção não voltára ao Porto para deshonrar Gonçalo nem assoalhar o seu desdouro.

Procurou de saber em que quartel ou casa encontraria um tenente de cavallos, vindo de Lisboa tres dias antes. As pessoas, empenhadas n'esta averiguação, disseram-lhe que, no troço de cavallaria 6, destacado no Porto, entrára um tenente transferido de Lisboa, moço nobre de Traz-os-Montes. Deram-lhe o nome, a residencia e as miudezas desnecessarias.

Filippe Osorio descia as escadas do seu quartel, e viu o conde em attitude de entrar no pateo.

--O sr. conde!--disse Filippe com amigo sorriso.

--É verdade, meu caro sr. tenente; sou eu mesmo em pessoa que venho contar-lhe o resto da historia, se é que a não sabe.

Peço ao leitor que marque á margem do livro, com uma cruz, este dizer do conde, porque não acha outro, que valha a nota.

--O resto da historia?!... Refere-se v. ex.ª áquelle casamento, que fez favor de me contar ha dias?

--Pois então!

--Ah! agradeço extremamente a confidencia. Queira subir.

--Não subo.

--Como lhe aprouver, meu caro sr. conde de Monção. Não teimo, porque a minha casa é uma barraca de campanha, e tenho cadeira e meia como ornato. Se o não molesta a minha companhia, vamos andando e conversando até ao quartel, que tenho obrigações a cumprir.

O conde encarou-o com arremesso e disse:

--O senhor está certo de eu lhe dizer, quando o senhor me falou n'um amante da filha de Gonçalo Malafaya, que ou eu ou elle?

--Lembra-me d'isso, nem era possivel esquecer-me cousa de tanto porte, dita por v. ex.ª.

--Não esteja a brincar comigo, sr. tenente! Parece-me que zomba!

--Eu!... O sr. conde é exquisito! Zombar eu de cousa que não merece a zombaria!

--O senhor é o homem que D. Maria Henriqueta ama. Não o negue, que, m'o disse ella.

--Mesmo sem lh'o ella dizer, eu não o negaria. Adiante.

--Adiante o que?

--Vamos ao fim da historia, que eu tenho urgencia do tempo.

A historia acabou-se. Agora venho dizer-lhe que não será minha nem sua Maria Henriqueta. Juro-lh'o pelo meu sangue e pelo meu nome. Um de nós ha-de morrer.

--E o que viver póde casar com ella, não é assim? Eu cuidei que v. ex.ª tratava de a matar a ella, o que seria muito mais feio e triste. Em quanto a mim, sr. conde, posto que me sinta um pouco amante da vida, se fôr sua vontade arrisca'-la-hei contra a sua espada, por lhe dar gosto. V. ex.ª já fez favor de me dizer que teve em França muitos duellos, e eu sinceramente lhe digo que não tive ainda nenhum. Todas as vantagens são do meu contedor. Estou ás ordens, depois de cumpridas as do meu regimento. Está satisfeito?

--Os seus fóros?

--Os meus fóros de fidalgo, pergunta?

--Sim.

--Quer v. ex.ª saber se me ha de matar como fidalgo ou como peão?

--Não me meço com peões.

--Isso agora é uma impertinencia, sr. conde! Afflige-me esse seu zelo de gentil-homem, e por lhe conhecer a boa vontade que me tem, usarei a immodestia de lhe dizer que v. ex.ª sabe quem eu sou, nem eu creio que denegue fé á dama, que lhe disse meu nascimento e educação. Agora é minha vez de lhe perguntar pelos seus fóros, sr. conde de Monsão.

--Os meus... fóros? pergunta-me o senhor a mim...

--Pelos seus fóros de honra, os fóros da sua dignidade, os fóros da sua vergonha. Pergunto a um homem vil com que direito me vem pedir contas a mim do desprezo com que foi recebido por Maria Henriqueta. Pergunto ao desprezivel conde de Monção, se é mais estupido que abjecto, vindo provocar a duello um homem, que mal conhece, por que me vê entre si e uma senhora, que lhe repelle a philaucia e as grosseiras tentativas de a fazer perjura. A tal provocador é natural que eu pergunte pelos seus fóros de honra, de dignidade, e de vergonha. Se me elle responder com o espadim, hei de sacudir-lh'o das mãos e deshonrar-lh'o debaixo dos pés. Sr. conde, um miseravel da sua qualidade não péde contas a homens de bem; mata-se, e vae da'-las a Deus, quando a ignominia do mundo lhe pesa no vacuo da cabeça. Agora, meu fidalgo, deixe-me ir trabalhar no meu cargo, porque eu sirvo o rei, sirvo a patria, e poderei dar ámanhã o sangue por ella, em quanto v. ex.ª, cevando na inercia os seus estupidos orgulhos, quer desenfadar-se brincando com o credito e com o socego de uma senhora, que eu prezo como irmã, e v. ex.ª deseja como mulher, para desempenhar a sua casa destruida em dissipações. Nem este supremo desaire lhe falta! Até á vista!

O conde de Monção estava pertencendo ao dominio da farça. Olhos arregalados e queixo pendido é a maxima expressão do espanto. No conde era pavor a ridiculissima compostura ou descompostura de feições. A cada palavra da crescente apostrophe, os brios de duellista europeu derretiam-se em frigido sangue que lhe arripiava as arterias. Tinha razão o homem, que os olhos de Filippe Osorio afuzilavam raios, e os labios tremiam em crispações, que pareciam ascuas de lume. O conde ignorava que as idéas se podessem expressar d'aquelle modo, em bocca de um simples tenente. Ante si nunca elle vira um inimigo, jogando contra elle as armas do escarneo, e amostrando ao mesmo tempo outras, capazes de servirem á ferocidade. «Isto é um assassino!» dizia no fôro da sua consciencia o conde para cohonestar a cobardia do silencio. Cobardia não é o termo proprio. Cobardes são aquelles que sossobram na defeza de sua justiça. Outros, que atacam direitos d'outrem, e fogem aos aggredidos, que lhes fazem rosto, esses são apenas infames na aggressão; e, quando fogem, prestam involuntaria homenagem á justiça. Pode-se jurar que o conde de Monção não meditava n'estas distincções, ao retirar-se do local em que o deixára petrificado Filippe Osorio. Circumvagou os olhos, como a certificar-se de que ninguem presenceára o insulto, e foi seu caminho murmurando por entre os dentes cerrados:

--Tu m'as pagarás, ou eu não seja quem sou!