Eis agora a materia da conspiração. Na rua, ao virem de S. Clemente, foi que Pedro, gastado o melhor do tempo com a carta e o jantar, pôde revelar á moça um segredo:
--Titia disse lá em casa que D. Claudia lhe contára em segredo (não diga nada) que seu pae vae ser nomeado presidente de provincia.
--Não sei nada disso, mas não creio, porque papae é conservador.
--D. Claudia disse a titia que elle é liberal, quasi radical. Parece que a presidencia é certa; ella pediu segredo, e titia, quando nos contou, tambem pediu segredo. Eu tambem lhe peço que não diga nada, mas é verdade.
--Verdade como? Papae não vae com liberaes; o senhor não sabe como papae é conservador. Se elle defende os liberaes é porque é tolerante.
--Se a provincia fosse a do Rio de Janeiro, eu gostaria, porque não era preciso ir morar na Praia Grande, e se elle fosse, a viagem é só de meia hora, eu podia ir lá todos os dias.
--Era capaz?
--Apostemos.
Flora, depois de um instante:
--Para que, se não ha presidencia?
--Supponha que ha.
--É preciso suppôr muito,--que ha presidencia e que a provincia é a do Rio. Não, não ha nada.
--Então supponha só metade,--que ha presidencia e que é Matto-Grosso.
Flora teve um calefrio. Sem admittir a nomeação, tremeu ao nome da provincia. Pedro lembrou ainda o Amazonas, Pará, Piauhy... Era o infinito, mormente se o pae fizesse boa administração, porque não voltaria tão cedo. Já agora a moça resistia menos, achava possivel e abominavel, mas dizia isto para si, dentro do coração. De repente, Pedro, quasi estacando o passo:
--Se elle fôr, eu peço ao governo o logar de secretario e vou tambem.
A luz intermittente das lojas reflectindo no resto da moça, á medida que elles iam passando por ellas, ajudava a dos lampiões da rua, e mostrava a emoção daquella promessa. Sentia-se que o coração de Flora devia estar batendo muito. Em breve, porém, começou ella a pensar em outra cousa. Natividade não consentiria nunca; depois, um estudante... Não podia ser. Pensou em algum escandalo. Que elle fugisse, embarcasse, fosse atraz della...
Tudo isto era visto ou pensado em silencio. Flora não se admirava de pensar tanto e tão atrevidamente; era como o peso do corpo, que não sentia: andava, pensava, como transpirava. Não calculou sequer o tempo que ia gastando em imaginar e desfazer ideias. Que isto lhe désse mais prazer que desprazer, é certo. Ao pé della, Pedro ia naturalmente cuidando, com os olhos nos pés, e os pés nas nuvens. Não sabia que dissesse no meio de tão longo silencio. Entretanto, a solução parecia-lhe unica. Já não pensava na presidencia do Rio. Queria-se com ella, no ponto mais remoto do imperio, sem o irmão. A esperança de se desterrarem assim de Paulo verdejou na alma de Pedro. Sim, Paulo não iria tambem; a mãe não se deixaria ficar desamparada. Que perdesse um filho, vá; mas ambos...
A quem quer que este final do monologo pareça egoista, peço-lhe pelas almas dos seus parentes amigos, que estão no céu, peço-lhe que considere bem as causas. Considere o estado da alma do rapaz, a contiguidade da moça, as raizes e as flores da paixão, a propria edade de Pedro, o mal da terra, o bem da mesma terra. Considere mais a vontade do céu, que vela por todas as creaturas que se querem, salvo se uma só é que quer a outra, porque então o céu é um abysmo de iniquidades, e não lhe importe esta imagem. Considere tudo, amigo; deixe-me ir contando só e contando mal o que se passou naquelle curto transito entre as duas casas. Quando lá chegaram, falavam de bôca.
Em cima, como viste, continuaram a falar, até que o assumpto da presidencia voltou. Flora notou então a cautelosa insistencia com que Ayres olhava para elles, como se buscasse adivinhar a materia da conversação. Sentia que não estivesse alli tambem, ouvindo e falando, finalmente promettendo fazer alguma cousa por ella. Ayres podia, sim,--era seu amigo e todos o tinham em grande conta,--podia intervir e destruir o projecto da presidencia.
Sem querer nem saber, diria isto mesmo com os olhos ao velho diplomata. Retirava-os, mas elles iam de si mesmos repetir o monologo, e acaso perguntar alguma cousa que Ayres não percebia e devia ser interessante. Póde ser que reflectissem a angustia ou o que quer que era que lhe doia dentro. Póde ser; a verdade é que Ayres começou a ficar curioso, e tão depressa Pedro deixou o logar para acudir ao chamado da mãe, deixou elle Natividade para ir falar á moça.
Flora, já de pé, mal teve tempo de trocar duas palavras, dessas que se não podem interromper sem dôr ou prurido, ao menos. Ayres perguntava-lhe se nunca lhe dissera que sabia adivinhar.
--Não, senhor.
--Pois sei; adivinhei agora mesmo que me quer dizer um segredo.
Flora ficou espantada. Não querendo negar nem confessar, respondeu-lhe que só adivinhára metade.
--A outra é...?
--A outra é pedir-lhe um obsequio de amizade.
--Peça.
--Não, agora não, já nos vamos embora; mamãe e papae estão fazendo as despedidas. Só se fôr na rua. Quer vir comnosco a S. Clemente?
--Com o maior prazer.