Este é ainda um obito. Ja lá ficou defunta a joven Flora, aqui vae morta a velha Natividade. Chamo-lhe velha, porque li a certidão de baptismo; mas, em verdade, nem os filhos deputados, nem os cabellos brancos davam a esta senhora o aspecto correspondente á edade. A elegancia, que era o seu sexto sentido, enganava os tempos de tal maneira que ella conservava, não digo a frescura, mas a graça antiga.
Não morreu sem ter uma conferencia particular com os dous filhos,--tão particular, que nem o marido assistiu a ella. Tambem não instou por isso. Verdade, verdade, Santos andava a chorar pelos cantos; mal poderia reter as lagrimas, se ouvisse a mulher fazer aos filhos os seus finaes pedidos. Porquanto, os medicos já a haviam desenganado. Se eu não visse nesses officiaes da saúde os escrutadores da vida e da morte, podia torcer a penna, e, contra a predicção scientifica, fazer escapar Natividade. Commetteria uma acção facil e réles, além de mentirosa. Não, senhor, ella morreu sem falta, poucas semanas depois daquella sessão da camara. Morreu de typho.
Tão secreta foi a conferencia della e dos filhos que estes não quizeram contal-a a ninguem, salvo ao conselheiro Ayres, que a adivinhou em parte. Paulo e Pedro confessaram a outra parte, pedindo-lhe silencio.
--Não juraram calar?
--Positivamente, não, disse um.
--Juramos só o que ella nos pediu, explicou o outro.
--Pois então podem contal-o a mim. Eu serei discreto como um tumulo.
Ayres sabia que os tumulos não são discretos. Se não dizem nada, é porque diriam sempre a mesma historia; dahi a fama de discrição. Não é virtude, é falta de novidade.
Ora, o que a mãe fez, quando elles entraram e fecharam a porta do quarto, foi pedir-lhes que ficasse cada um do lado da cama e lhe estendessem a dextra. Juntou-as sem força e fechou-as nas suas mãos ardentes. Depois, com a voz expirante e os olhos accesos apenas de febre, pediu-lhes um favor grande e unico. Elles iam chorando e calando, porventura adivinhando o favor.
--Um favor derradeiro, insistiu ella.
--Diga, mamãe.
--Vocês vão ser amigos. Sua mãe padecerá no outro mundo, se os não vir amigos neste. Peço pouco; a vossa vida custou-me muito, a criação tambem, e a minha esperança era vel-os grandes homens. Deus não quer, paciencia. Eu é que quero saber que não deixo dous ingratos. Anda, Pedro, anda, Paulo, jurem que serão amigos.
Os moços choravam. Se não falavam, é porque a voz não lhes queria sair da garganta. Quando pôde, saiu tremula, mas clara e forte:
--Juro, mamãe!
--Juro, mamãe!
--Amigos para todo sempre?
--Sim.
--Não quero outras saudades. Estas sómente, a amizade verdadeira, e que se não quebre nunca mais.
Natividade ainda conservou as mãos delles presas, sentiu-as tremulas de commoção, e esteve calada alguns instantes.
--Posso morrer tranquilla.
--Não, mamãe não morre, interromperam ambos. Parece que a mãe quiz sorrir a esta palavra de confiança, mas a bôca não respondeu á intenção, antes fez um tregeito que assustou os filhos. Paulo correu a pedir soccorro. Santos entrou desorientado no quarto, a tempo de ouvir á esposa algumas palavras suspiradas e derradeiras. A agonia começou logo, e durou algumas horas. Contadas todas as horas de agonia que tem havido no mundo, quantos seculos farão? Desses terão sido tenebrosos alguns, outros melancolicos, muitos desesperados, raros enfadonhos. Emflm, a morte chega, por muito que se demore, e arranca a pessoa ao pranto ou ao silencio.
ÍNDICE
I -- Cousas futuras!
II -- Melhor de descer que de subir
III -- A esmola da felicidade
IV -- A missa do coupé
V -- Ha contradicções explicaveis
VI -- Maternidade
VII -- Gestação
VIII -- Nem casal, nem general
IX -- Vista de palacio
X -- O juramento
XI -- Um caso unico!
XII -- Esse Ayres
XIII -- A epigraphe
XIV -- A licção do discipulo
XV -- Teste David cum Sibylla
XVI -- Paternalismo
XVII -- Tudo o que restrinjo
XVIII -- De como vieram crescendo
XIX -- Apenas duas.--Quarenta annos. Terceira causa
XX -- A joia
XXI -- Um ponto escuro
XXII -- Agora um salto
XXIII -- Quando tiverem barbas
XXIV -- Robespierre e Luiz XVI
XXV -- D. Miguel
XXVI -- A luta dos retratos
XXVII -- De uma reflexão intempestiva
XXVIII -- O resto é certo
XXIX -- A pessoa mais moça
XXX -- A gente Baptista
XXXI -- Flora
XXXII -- O aposentado
XXXIII -- A solidão tambem cança
XXXIV -- Inexplicavel
XXXV -- Em volta da moça
XXXVI -- A discordia não é tão feia como se pinta
XXXVII -- Desaccordo no accordo
XXXVIII -- Chegada a proposito
XXXIX -- Um gatuno
XL -- Recuerdos
XLI -- Caso do burro
XLII -- Uma hypothese
XLIII -- O discurso
XLIV -- O salmão
XLV -- Musa, canta...
XLVI -- Entre um acto e outro
XLVII -- S. Matheus, IV, 1-10
XLVIII -- Terpsichore
XLIX -- Taboleta velha
L -- O tinteiro de Evaristo
LI -- Aqui presente
LII -- Um segredo
LIII -- De confidencias
LIV -- Emfim, só!
LV -- «A mulher é a desolação do homem»
LVI -- O golpe
LVII -- Das encommendas
LVIII -- Matar saudades
LIX -- Noite de 14
LX -- Manhã de 15
LXI -- Lendo Xenophonte
LXII -- «Pare no D.»
LXIII -- Taboleta nova
LXIV -- Paz!
LXV -- Entre os filhos
LXVI -- O basto e a espadilha
LXVII -- A noite inteira
LXVIII -- De manhã
LXIX -- Ao piano
LXX -- De uma conclusão errada
LXXI -- A commissão
LXXII -- O regresso
LXXIII -- Um El-Dorado
LXXIV -- A allusão do texto
LXXV -- Proverbio errado
LXXVI -- Talvez fosse a mesma!
LXXVII -- Hospedagem
LXXVIII -- Visita ao marechal
LXXIX -- Fusão, diffusão, confusão...
LXXX -- Transfusão, emfim
LXXXI -- Ai, duas almas...
LXXXII -- Em S. Clemente
LXXXIII -- A grande noite
LXXXIV -- O velho segredo
LXXXV -- Trez constituições
LXXXVI -- Antes que me esqueça
LXXXVII -- Entre Ayres e Flora
LXXXVIII -- Não, não, não
LXXXIX -- O dragão
XC -- O ajuste
XCI -- Nem só a verdade se deve ás mães
XCII -- Segredo acordado
XCIII -- Não ata nem desata
XCIV -- Gestos oppostos
XCV -- O terceiro
XCVI -- Retraimento
XCVII -- Um Christo particular
XCVIII -- O medico Ayres
XCIX -- A titulo de ares novos...
C -- Duas cabeças
CI -- O caso embrulhado
CII -- Visão pede meia sombra
CIII -- O quarto
CIV -- A resposta
CV -- A realidade
CVI -- Ambos quaes?
CVII -- Estado de sitio
CVIII -- Velhas cerimonias
CIX -- Ao pé da cova
CX -- Que vôa
CXI -- Um resumo de esperanças
CXII -- O primeiro mez
CXIII -- Uma Beatriz para dous
CXIV -- Consultorio e banca
CXV -- Troca de opiniões
CXVI -- De regresso
CXVII -- Posse das cadeiras
CXVIII -- Cousas passadas, cousas futuras
CXIX -- Que annuncia os seguintes
CXX -- Penultimo