Esau e Jacob · Machado de Assis

Chapter 108: Velhas ceremonias

Aqui vae a sair o caixão. Todos tiram o chapeu, logo que elle assoma á porta. Gente que passa, pára. Das janellas debruça-se a visinhança, em algumas atopeta-se, por serem as familias maiores que o espaço; ás portas, os criados. Todos os olhos examinam as pessoas que pegam nas alças do caixão, Baptista, Santos, Ayres, Pedro, Paulo, Nobrega.

Este, posto já não frequentasse a casa, mandara saber da enferma, e foi convidado a carregar o gracioso corpo. No carro, em que levava o secretario, e era puxado pela mais bella parelha do prestito, quasi unica, lembrava Nobrega ao secretario.

--Não lhe dizia eu que ella era doente? Era muito doente.

--Muito.

Não vou ao ponto de affirmar que teve prazer com a morte de Flora, só por havel-o feito acertar na noticia da doença, estando ella perfeitamente sã. Mas que ninguem fosse seu marido, foi uma especie de consolação. Houve mais; suppondo que ella o tivesse acceitado e casassem, pensava agora no esplendido enterro que lhe faria. Desenhava na imaginação o carro, o mais rico de todos, os cavallos e as suas plumas negras, o caixão, uma infinidade de cousas que, á força de compôr, cuidava feitas. Depois o tumulo; marmore, letras de ouro... O secretario para o arrancar á tristeza, falava dos objectos da rua.

--V. Ex. lembra-se do chafariz que havia aqui ha annos?

--Não, resmungava Nobrega.

Ainda uma vez, não ha novidade nos enterros. Dahi o provavel tedio dos coveiros, abrindo e fechando covas todos os dias. Não cantam, como os de Hamlet, que temperam as tristezas do officio com as trovas do mesmo officio. Trazem o caixão da cal e a colher para os convidados, e para si as pás com que deitam a terra para dentro da cova. O pae e alguns amigos ficaram ao pé da cova de Flora, a ver cair a terra, a principio com aquelle baque soturno, depois com aquelle vagar cançativo, por mais que os pobres homens se apressem. Enifim, caiu toda a terra, e elles puzeram em cima as grinaldas dos paes e dos amigos: «À nossa querida filha»;--«À nossa santa amiguinha Flora a saudosa amiga Natividade»;--À Flora, um amigo velho», etc. Tudo feito, vieram saindo; o pae, entre Ayres e Santos, que lhe davam o braço, cambaleava. Ao portão, foram tomando os carros e partindo. Não deram pela falta de Pedro e Paulo que ficaram ao pé da cova.