O coronel, informado dos amores da filha por suspeitas da madrasta, resolveu curar heroicamente a enfermidade moral da menina. Francisco de Proença, que estava a completar a formatura, annuira á proposta da mãi, conhecendo apenas de vista a noiva, e as necessarias dispensas estavam já em poder do coronel.
Leocadia foi chamada ao quarto de seu pai, e recebeu a noticia do seu proximo casamento. Fez-se escarlate, faltou-lhe o ar, e nem se quer pôde balbuciar uma supplica a seu pai. Passados os momentos da offegante surpreza, Leocadia, cobrando animo do ar compassivo do coronel, ousou dizer que já não podia dispôr do seu coração, porque amava outro homem.
O militar riu-se da infantil pieguice de sua filha, achando que não valia a pena zangar-se por uma criancice sem consequencias. A menina tomou o riso por carinho paternal, e lançou-se de joelhos aos pés do pai, suffocada pelas lagrimas que lhe sahiam do coração agradecido e venturoso.
--Então que é isso? (disse o coronel, tomando-a nos braços, e sentando-a ao pé de si) Cuidas tu, criança, que eu sou tão criança como tu? Achas que eu deixarei á tua vontade inexperiente a escolha do destino da minha querida filha? Essa é boa! Eu riu-me d'esse amor patetinha que tens ao Vasco da Cunha, tão tôlo como tu, e que não sabe melhor do que tu o futuro que vos esperava. Olha, Leocadia, não se póde ser pobre n'esta sociedade. A nossa casa é muito pequena, bem o sabes; e Vasco é um filho segundo, sem habilitações para modo de vida algum. Estes fidalgos cuidam que ser fidalgo é uma profissão. Os filhos segundos, se lhes faltam as sopas do primogenito, não servem para nada, não tem em si recursos para subsistirem fidalgamente, e julgar-se-hiam réos de leso-brazão se pedissem uma occupação plebêa. Meus irmãos, Leocadia, foram para o Brazil, logo que a razão lhes disse que a pequena casa onde viviam era minha. Trabalharam como se nascessem do populacho, e estão ricos, riquissimos, e serão mais fidalgos na sua patria, se voltarem, do que o eram quando de cá sahiram. Quem saberá melhor o que te convém do que eu, minha filha? Sei em que tempo estamos, e quero deixar-te preparada para um tempo que ha-de vir, muito peior que este. Espero ainda vêr em minha vida desapparecer o rendimento da Commenda que faz a nossa casa mediana; ido esse, o resto bem sabes o que é. Se casas com esse rapaz, que não tem nada, quem vos sustentará? Eu não poderei, nem, se podesse, quereria. Para que reconheças quanto me tenho a ti sacrificado, lembra-te que por teu bem casei com esta senhora que te quer como a filha. A condição de casares com Francisco, acceite por ella, explica o meu casamento n'esta idade, em que ainda choro saudades de tua mãi, cuja memoria me não deixou jámais encarar com bons olhos outra mulher. Depois d'isto, dir-me-has se eu não devo esperar que tu espontaneamente acceites a sorte que eu te preparei. Serias má filha, se recusasses; e eu seria um pai muito infeliz, se me desobedecesses. Nunca o imaginei; e, tão firme estava na união das nossas vontades, que sem te consultar, pedi as dispensas necessarias para o teu casamento com o meu enteado. Enganar-me-hia eu, Leocadia?
A menina soluçava com os labios collados na mão do pai, cobrindo-lh'a de lagrimas. O coronel apertou-a ao seio com amor, e tinha os olhos aguados. D'aquelle modo Leocadia fazia a seu pai o sacrificio do seu coração, o maior de todos, porque o menor era de certo a vida.
--Não respondes, filha?--dizia o coronel, levantando-lhe a face que ella escondia no seio do pai.
«Já respondi...» balbuciou ella.
--O que? que respondeste, Leocadia?
«Farei o que fôr da sua vontade, meu pai...
--És a minha Leocadia...--disse elle com apaixonada meiguice—Reconheço a filha da minha chorada mulher... Agora, fallemos nos teus amores com Vasco... Senta-te, menina. Diz-me cá: ha que tempos andam vossês com essa brincadeira?
«Brincadeira... não era brincadeira, meu pai... Nós amamo-nos muito... ha dous mezes.
--Já ha dous mezes? Está feito! mas eu não tenho dado fé... Como se entendiam vossês? fallavam ás escondidas, ou...
«Nunca fallámos ás escondidas...
--Então, escreviam-se, sim?
«Sim, senhor.
--E as vossas tenções?
«Eram sentar elle praça, e, quando fosse official, pedir-me ao pai.
«Está bom... E porque me não fallaste d'esse teu namôro?... Diz, filha, tu guardavas de mim o segredo; é signal de que a tua consciencia não o approvava como digno de contar-se a um pai...
--Foi porque algumas senhoras, que deram fé logo no principio, me disseram que eu não fazia bem em gostar de Vasco, porque elle não era rico, e eu só devia gostar de pessoas que tivessem um grande dote. Se não fosse isto, eu seria a primeira a dizer ao pai...
--Está bom, filha. Agora é necessario que tu escrevas, e lhe digas que teu pai deseja fallar com elle.
«O pai!?
--Sim, menina. Quero eu fallar-lhe, porque, se até aqui o estimava pelas suas qualidades, e por elle ser filho de quem é, mais o estimo hoje por elle ser amigo de minha filha. Ingrato e villão seria eu se lhe quizesse mal porque minha filha o impressionou, inspirando-lhe a resolução de seguir uma carreira até ganhar a subsistencia d'ella. Poucos ou nenhuns pais assim pensam, bem o sei; mas eu, que devo a Deus uma filha docil, não quero esquecer-me de que sou o seu primeiro amigo pelo coração, e o seu primeiro conselheiro pelo dever. Vasco, depois de ouvir-me, ha-de transigir com as tuas circumstancias e com as d'elle. Ficará amando-nos ambos, e ficaremos todos amigos, de modo que jámais elle possa queixar-se da ingratidão de uma filha grata e submissa a seu pai.
Leocadia beijou-lhe a mão, e retirou-se, obedecendo a um gesto do coronel. O velho militar ficou enxugando uma teimosa lagrima que lhe cahira sobre o bigode, no momento em que a filha, sahindo do quarto, desentalava a dôr oppressiva do seio por um ai.
Na tarde desse dia, Vasco recebia um bilhete de Leocadia, assim conciso: «Meu pai quer fallar hoje ao amigo de sua filha. Leocadia.»
Que surprehendente, e que mysterioso bilhete! O pobre moço não podia imaginar o meio-termo entre a completa ventura, e absoluta desgraça. Faltava-lhe o animo, e o desembaraço para apresentar-se, á ventura, diante do pai de Leocadia.
Não ir, porém, seria desobedecer ao homem que respeitava como pai, e ennegrecer aos olhos d'ella a candura das suas intenções.
Foi; e o leitor, se é curioso, póde espreitar commigo a scena que vai passar-se na sala do coronel.