Aves Migradoras · Fialho de Almeida

Chapter 5: O Juramento da Condessa Esther

--Tenho consultado tudo, tudo! A homeopathia, o systhema Brugrave, o Raspail, tudo! Mas os alivios poucos, nenhuns mesmo. É esta dôrzinha vaga no peito, esta tosse secca, pouca vontade de comer, ventre preso... Quando se chega á minha edade, é esperar pela morte, bem o sei.

--Qual!

--Ah! eu não a receio, meu bom amigo. Somente me affligiria a saudade dos que amo, e o amor da minha filha...--Baixava a voz para dizer-me—Tem-me perseguido a ideia de consultar um enfermeiro. Ouço que entendem muito de doenças... Morrer, deixar Esther, seria o ultimo castigo.

Em resposta, eu ria. A condessa ia começar a narrativa de uma cura estrondosa, feita n'uma senhora das suas relações, por um dos taes.

--E está hoje gorda e alegre, que não faz ideia.

--Faço, faço.

--Depois, os remedios que me receitam os medicos, repugnam-me. Tenho horror á magnesia, horror ao cheiro da camphora, horror ás pilulas, que bem podem ser manipuladas por sugeitos pouco limpos. Alguns dos medicamentos nem os tomo.

--Eis porque se não cura, condessa. As aguas de Loeches são suaves...

--Horriveis! E tão prosaicas...

--De certo, de certo. Tanto mais que V. Ex.a tira effeitos poeticos da doença que diz soffrer, confesse.

--Ahi vem a sua má lingua, doutor. Na minha edade a poesia é o amor dos filhos. Eu sofro muito, sofro, palavra d'honra. E se fosse um aneurisma, meu Deus!...

--Ahi, está V. Ex.a poetando com hypotheses de martyrio, simples achaques a que todos estamos sugeitos. Que diria então eu, que V. Ex.a vê na flôr da vida e na apparencia da mais radiosa saude? O meu estomago!

--E o meu, doutor, o meu?

--A condessinha Esther tem a paixão das begonias; a sr.a duqueza de Serpa adora os cães d'agua; a sr.a marqueza de Valle de Perdizes esculpe; a esposa do negociante Domingues trabalha em créches e premios de escolas. E cada uma faz d'estas predilecções a sua aureola de poesia, de que se circunda no mundo. V. Ex.a tem os seus soffrimentos. É uma compensação.

--Já vejo que está hoje peor, Conde! gritou ella para a meza do jogo onde quatro homens faziam whist, á luz d'uma serpentina. Um velho calvo e magro severamente abotoado e de bigodes altivos, ergueu-se respeitosamente e veiu junto de nós.

Por detraz dos oculos, luziam-lhe aguçadas as pupillas de miope: andava com ares magestosos de ministro, gesticulando sobriamente.

--Que é? disse elle firmando as mãos nos gomos do divan da condessa mãe.

--Pode fallar-me da sua pre-historia, porque o meu amigo doutor teima em satyrisar os meus padecimentos. Vamos, sente-se aqui.

--Mas a partida...

--O doutor vae substitui-lo, sim?

--E a condessa assim me desterra tão cruelmente!--Ella estendeu-me a mão dizendo:

--Será por pouco tempo.--Fui. Esther não viera ainda. As senhoras começavam a chegar em pequena gala, com bournous de casimira branca forrados a setim e pelles. Eram os convivas certos d'aquellas pequeninas soirées, tão intimas, tão aconchegadas e tão doces, que os ditos e excentricidades da condessinha animavam, e a rabeca de Zebedeu Kebler, israelita loiro como Jesus e tão casto como elle, enchia de fremitos extranhos e infinitas harmonias. Kebler adorava a condessinha com uma paixão supersticiosa e ardente. Estava sempre onde ella estava; em São Carlos, a sua cadeira era defronte da friza d'ella; apparecia nos bailes a que ella ia, melancholico e pallido, uma elegancia fina de gentleman; e nas conversações mais frivolas, em podendo, mettia, sem quasi dar por isso, o nome d'ella. Esther era trigueira e alta, de uma distincção unica e de uma elegancia sem rival. O esmalte dos seus dentes destacava fresquissimo no vermelho das gengivas, como um adereço rico num estojo de velludo cereja. Nada mais explendido que a linha do seu busto nervoso e cinzelado, e a redondeza das suas espaduas reaes, surgindo de espumas de renda na fervilhação opulenta dos bailes. Fui ter com o judeu. De pé, junto da banca de jogo, elle olhava sem vêr cousa alguma. Tomei-lhe o braço e fomos para o vão d' uma janella. E antes que eu fallasse, elle disse:

--Já penetrei no mysterio.

--Qual?

--O da condessinha.

--Vamos a vêr como.

--Ella é muito supersticiosa. Não admira, sangue judeu...

--Sangue judeu! Ella?--Kebler baixou a voz e contou-me:

--Que certo vendedor de tamaras, freguez assiduo de uma hortaliceira, chegára a amar esta. Do amor dos dois, fermentou um garoto que se metteu cambista, d'onde mais tarde surgiu uma obesidade millionaria que um governo individado fez barão e par.

--Que perspicacia audaz empregou o meu amigo para saber tanto? Caramba!

--Ouça: implantada por esta fórma, a nobreza foi subindo de um grau de filho para filho. Até que um dia, o pae de Esther appareceu conde.

--A esposa era muito formosa então, para poder alcançar tudo. Seria duqueza até, se o houvesse querido, disse eu sorrindo.

--Lingua damnada!

--Adeante. É então supersticiosa, hein?

--Não imagina.

--Eis o meio de sustar-lhe a golfada de sarcasmos de que ás vezes nos cobre. Em ella me ferindo, quebro um espelho da sala, verá. Mas vamos ao mysterio. Creio que foi mysterio, que disse.

--Foi. Esther teve uma grande paixão!

--Como a da hortaliceira gollegã, sua avó, pelo vendedor de tamara e sabonetes. Fermentou alguma cousa de?...

--Olhe que me zango sériamente, e fica sem saber nada.

--Está bem; estou já calado.

--Uma paixão fatal! Amou...

--Essa reticencia traz um padre ou um trintanario.

--Infelizmente. Amou um primo, doutor em theologia, que já dissera missa.

--Bem dizia eu!

--Dizem que bella figura.

--Não me custa a crêr, pois que o affirma. E o primo amou a prima? Sacrilegio no ultimo acto, suicidio ao cahir do panno. Adivinhei?

--Quasi. O primo era um homem digno; além disso não chegou a saber toda a verdade da bocca d'ella. Desconfiou apenas que era amado e fugiu para as missões do ultramar.

--Oh incomparavel levita! Eu não fugia para tão longe. E ella?

--Ella jurou que não amaria mais ninguem na vida.

--E como não lhe fosse permittido professar...

--Não seja leviano. Esther adora as begonias, como sabe.

--Paixão que acarreta ao meu amigo uma despesa séria. Cada dia lhe traz uma especie nova, numa corbeille admiravel.

--Essa adoração tem a seguinte historia. Á hora da partida o missionario mandou á condessinha num vaso da China, uma explendida begonia rex-isis, especie do mais bello effeito decorativo. É um vaso amplo, de figurinhas em relevo e pequenas azas de oiro, representando dragões engalfinhados.

--Conheço bem essa preciosidade! Vale a olhos fechados cem libras. E depois?

--A begonia durou pouco. A estufa para onde a transportaram, e a convivencia das mais plantas abreviaram-lhe os dias. Já entrou na estufa da condessinha?

--Muitas vezes. O vaso está ao centro, sobre um pequeno pedestal de marmore branco e debaixo de uma redoma de crystal em gomos.

--É isso, com a begonia sêcca.

--Tal qual! Muitas vezes perguntei á condessinha a historia d'aquelle esqueleto de planta. E agora me lembro—ella ficava triste e suspirava. Era a theologia do primo adorado.

--Hontem vim visitá-las de manhã. Trazia-lhes um euforbio raro do Mexico, que os francezes chamavam Poinsettie, exemplar soberbo. Conhece?

--Dos livros. A minha clinica modesta não me permitte dispender sem proveito o que elle custa. Folhas oblongas bordadas de verde, envernisado e vivo. Centro canario raiado de verduras sanguineas. Envolvendo as flôres, uma corôa de grandes bracteas ovaes, do tamanho de folhas, e do mais bello escarlate, dando o effeito duma grande flôr. Uma opulencia, em resumo.

--Pois bem. Eu mesmo fui collocá-lo na estufa, permissão graciosa da condessinha.

--Os perfumes aphrodisiacos perturbaram os sentidos de ambos e... amor do judeu das tamaras com a...

--Mau!

--Está bom: curvo a cabeça. Venha o resto.

--Quando nos achámos na estufa e em meio das folhas de mil desenhos que alli ha, ella tomando-me as mãos, disse-me commovida:

--Como hei-de eu agradecer a sua sollicitude, Zebedeu?

--Ella disse: Zebedeu?

--Disse.

--Meio caminho andado, então. Mais dois minutos, e tinha-a pendurada no pescoço. Que gata, essa trigueira tentadora!...

--Eu nem podia fallar!

--Oh castidade loira de vinte annos!

--E apertava-me tanto as mãos...

--Sim? Depois, um beijo... ou dois... ou tres...

--Falle com franqueza, disse-me ella. O senhor ama-me.--Eu estava a tremer como um poltrão.--Ouça, tornou Esther; fiz um juramento.

--Qual? perguntei em voz baixa.

--Que não amaria ninguem mais. A não ser...

--A não ser?...

--Que aquelle vaso de pedestal apparecesse em pedaços um dia, sem ninguem lhe tocar.

--Mas isso é impossivel.

--Então veja se posso amá-lo. Ella estava tão triste!... Talvez não creia: chorei!--Callamo-nos, porque n'aquelle instante, uma voz fresca deu uma risadinha á porta, e as senhoras correram para uma rapariga de branco, que vinha entrando. Era Esther.

--Zebedeu Kebler, meu incomparavel artista, um pouco da sua rabeca, disse ella em voz alta, antes de beijar ninguem.

--Bom sinal! resmunguei ao pobre rapaz.

O judeu deixou-me logo, alegre por ser lembrado, e foi abrir o estojo do instrumento.

--Que ridiculos são estes sentimentos! pensava eu. Apertam-lhes as mãos n'uma estufa e a sós, muito e muito, e desatam a chorar. Grandissimo tolo! Não o pode amar? Fez ella muito bem. Amar um homem que em logar de cobrir de beijos uma mulher lindissima que se rende, fica a tremer, seria uma vergonha: apre! Fui ter com a condessa, enfastiado e murmurando:

--Fosse a cousa commigo...

No dia seguinte, tinha eu acabado a consulta quando chegou Kebler.

--Vem acabar-me a historia de hontem?

--Venho sollicitar a sua presteza de atirador.

--Chegou o theologo? desafiou então um ministro do altar? Barbaro! Cruel! Desalmado!

--Qual! Tenho um projecto.

--Acceite este charuto, aqui tem lumes, sente-se e conte-me o projecto.

--O alvo do irmão de Esther fica perto da estufa; pois não fica?

--Creio que sim.

--O senhor vae alli exercitar-se muitas vezes, segundo me disse o Alvaro.

--Vou.

--Ouça. Eu levanto um caixilho da estufa...

--Mas é preciso a chave que abre todos esses caixilhos. Talvez não pensasse em tal?

--Tenho-a aqui; roubei-a agora mesmo. Posso guardá-la por estes dias. O tempo está chuvoso e frio, de modo que não ventilarão a estufa por agora.

--Então?

--Aberto o caixilho, o senhor fingindo apontar ao alvo, aponta ao vaso da China e...

--O senhor ganha o premio, e eu fico a chuchar o dedo.

--Que? Ama a condessinha?

--Eu amo toda a gente; que diabo!...

--Estou esperando a sua resposta.

--Que eu parta aquelle vaso da China porque daria tudo? Está louco!

--Olhe para mim. Se o não fizer...

--Dá um tiro no craneo; dá?

--Qual! fico solteiro toda a vida.

--Bem, essa simplicidade enternece-me. Esteja amanhã aberto o caixilho, e a bala esmigalhará o vaso. Mas como entra o senhor no jardim?

--Saltando o muro que o separa da casa em que habito.

--O senhor é o diabo.

--Se a adoro!

Na noite seguinte, havia reunião em casa da condessa. Os grupos das mais noites. Ao fundo do salão, a banca de whist, onde o cultor da pre-historia se notava de lunetas altas, sob que as pupillas fuzilavam. No divan amarello, a condessa queixando-se-me da falta de apetite e de tosse sêcca. Esther radiosa, no meio das suas amigas. Zebedeu Kebler muito pallido e muitissimo preoccupado, ferindo de um modo inteiramente magistral as cordas da rabeca.

--Meus senhores, disse a condessa em voz alta, erguendo-se. Tenho a honra de lhes annunciar o casamento de minha filha Esther com o senhor Zebedeu Kebler.

Ouviu-se o estalido de uma corda de rabeca, subitamente quebrada. O conde das lunetas erguera-se, aprumando a alta estatura. Esther confessava ruborisada que... Deus o queria. Tinha apparecido em pedaços o vaso da China, sem que lhe tocassem. E de mais amava aquelle rapaz, tão elegante e tão distincto, de cujo braço seria um encanto pender coroada de flôres de larangeira.

--És meu padrinho! disse-me com um abraço de reconhecimento, o judeu.

--Já agora... respondi.

O meu presente nupcial, foi um vaso chinez inteiramente igual ao que apparecera esmigalhado. Crescia n'elle um hibiscus do Japão, trepadeira da mais rendilhada contextura, folhas exoticas e flôres em grinaldas.

--Eis porque eu daria tudo pelo vaso quebrado, disse a Kebler, com uma vaga saudade de amador. Se o conseguisse adquirir, completaria o mais bello par europeu. Guardem esse vaso no logar do pobre esmigalhado, e que elle seja o talisman de um amôr, fecundo em bébés de olhos azues, menos romanesco que o amôr do primo, e mais durador por isso mesmo.

Um frou-frou de saias fez-me voltar a cabeça; á porta, a cabecinha de Esther assomára curiosa, e os seus dentinhos brancos de gata contente brilhavam, sorrindo de um modo encantador.

Nunca fui piegas, palavra de honra—mas inda hoje tenho calafrios pensando nos dentes d'aquella mulher.