No emtanto Gagula (que era por vezes extremamente leve e agil) trepára para cima da mesa e acercára-se do cadaver de Tuala, a quem pareceu fallar mysteriosamente; depois seguiu por entre as filas dos reis, dirigindo, ora a um, ora a outro, como a velhos amigos, palavras lentas e graves que não comprehendiamos. Por fim, tendo chegado em frente da Morte, cahiu de bruços, com os braços estendidos, e ficou como mergulhada em oração.
Era um espectaculo tão arripiador, n'aquella penumbra de sepulchro, a hedionda creatura, mais velha que todas as creaturas, fazendo supplicas ao enorme esqueleto—que eu, já enervado, lhe gritei que viesse, nos levasse ao logar dos thesouros.
Immediatamente, a horrivel bruxa saltou da mesa, como um gato, e passando por traz das costas da Morte, ergueu a lampada, mostrou a parede de rocha:
--Entrai, homens brancos, entrai, se não tendes medo!
Olhamos, procurando a entrada. Só vimos a rocha solida e negra.
--Gagula, disse eu com os dentes cerrados, não zombes de nós que te mato!
--Mas a porta é aqui, homens brancos, a porta é aqui! gania ella, com as costas apoiadas á muralha, onde roçava de leve uma das suas mãos descarnadas.
E então, á luz bruxuleante da lampada, vimos que um bocado da muralha, do feitio e tamanho d'uma porta, se ia erguendo lentamente do sólo, e desapparecendo em cima na rocha, onde devia existir uma cavidade para a receber. Não pesava menos aquella massa de pedra de vinte a trinta toneladas---e era certamente movida por algum machinismo, fundado n'um equilibrio de peso, que uma móla, collocada n'um logar secreto da muralha, punha em movimento. Nem nos lembrou, n'esse momento, arrancar a Gagula o segredo da móla, que erguia a pedra! Pasmados, viamos a immensa massa subir, devagar, muito devagar, até que desappareceu, deixando diante de nós um grande buraco negro.
Estava emfim aberto, para nós n'elle penetrarmos, o caminho que levava aos thesouros de Salomão. A emoção foi tão intensa, que eu, por mim, comecei a tremer. Era pois verdade o que dizia, no seu pedaço de papel, o velho D. José da Silveira? Estavam pois ao nosso alcance, destinadas a nós, as maiores riquezas que jámais um rei accumulou na terra? Poderiamos nós vêr, tocar, agarrar e levar em sacos, o thesouro que fôra de Salomão, maravilha dos Livros santos? Assim parecia—e para isso bastava dar um passo.
Dei esse passo—e com explicavel sofreguidão. Mas Gagula defendia ainda com os braços o buraco negro:
--Escutai, homens das estrellas! Escutai o que é necessario saber! As pedras que brilham, que vós ides vêr, foram tiradas da cova circular não sei por quem, e guardadas aqui não sei por quem. A gente que, de geração em geração, tem vivido n'esta terra, sabia da existencia do thesouro, mas ninguem conhecia o segredo para abrir a porta de pedra! Por fim aconteceu vir aqui um homem branco, talvez tambem das estrellas, que foi bem recebido e bem agasalhado pelo rei d'então, que era o quinto, além, sentado á mesa de pedra. Com elle vinha uma rapariga kakuana; ambos percorreram estas cavernas; e succedeu que por acaso essa mulher, que talvez fosse eu ou que talvez fosse outra como eu, descobriu o segredo da porta. O homem e a mulher entraram, e encheram de pedras um saco pequeno de couro onde ella levava de comer. Ao sahirem, o homem agarrou na mão outra pedra, maior que todas...
E aqui a bruxa parou com os olhos coruscantes cravados em nós.
--Continúa! exclamei eu, que escutára sem respirar. O homem era D. José da Silveira. Que se passou mais?...
A velha feiticeira recuou espantada.
--Como lhe sabeis o nome? Ah! sabes-lhe o nome!... Pois bem, ninguem póde dizer o que succedeu. Mas o homem teve medo de repente, atirou para o chão o saco cheio de pedras, e fugiu, levando só agarrada a pedra maior que tinha na mão. É a que Tuala trazia no diadema. É a que tu déste a Ignosi!
--E ninguem mais entrou aqui?
--Ninguem. Mas os reis ficaram sabendo o segredo da porta... Nenhum porém entrou, porque dizem prophecias já muito antigas que aquelle que aqui entrar morrerá antes d'uma lua nova. Esta é a verdade, homens das estrellas. Entrai agora! Se eu não menti a respeito do homem que se chamava Silveira, vós encontrareis no chão, á entrada da porta, cahido, o saco de couro cheio de pedras... E se as prophecias mentem ou não sobre a morte que espera a quem aqui penetrar, vós mais tarde o sabereis...
E sem mais, a hedionda creatura mergulhou no corredor tenebroso, erguendo ao alto a pallida lampada. Nós, no emtanto, olhavamos uns para os outros com hesitação, quasi com medo—bem natural de resto em nervos abalados por tantas emoções estranhas. Foi John o mais corajoso:
--Acabou-se! Cá vou! Era ridiculo ficarmos apavorados com as tonterias d'uma velha macaca! Adiante!
E avançou seguido por Fulata e por nós dois, em silencio. Mas dados alguns passos ouvimos uma medonha praga. Era John que tropeçára, quasi cahiria por sobre um bloco de cantaria atravessado no corredor. Gagula erguera mais a lampada:
--Não receeis!... São pedras que a gente d'outr'ora tinha ahi accumulado para tapar o corredor para sempre... Mas fugiram, ao que parece, não tiveram tempo!
E com effeito havia alli como umas obras interrompidas—pedras serradas e esquadradas, um monte de cimento, e uma picareta e uma trolha, semelhantes ás que ainda hoje usam os pedreiros. Contemplei com reverencia estas antiquissimas ferramentas. No emtanto Fulata, que desde a nossa entrada na caverna não cessára de tremer de medo, sentou-se sobre uma pedra, e declarou que desmaiava, não podia mais caminhar... Alli a deixámos, com o cesto de provisões ao lado, até que ella ganhasse alento. E seguimos.
Uns quinze passos adiante, demos de repente com uma porta de pau, curiosamente pintada a côres, e toda aberta para traz. E no limiar da porta, lá estava, cahido no chão—um pequeno saco de couro que parecia cheio de seixos!
--Então, brancos, que vos disse eu? ganiu Gagula em triumpho, brandindo a lampada. Olhai bem! Ahi tendes o saco que o homem deixou cahir! Ahi está ainda, desde gerações! Que vos disse eu?
John ergueu o saco. Era pesado e tinia.
--Santo Deus! Está cheio de brilhantes! balbuciou elle quasi com medo.
E com effeito, meus amigos! A idéa d'um saco de couro repleto de diamantes--é de causar medo!
--Para diante, para diante! exclamou o barão, com subita impaciencia. Dá cá tu a lampada, bruxa!
Arrancou a luz das mãos de Gagula. E de tropel com elle, sem sequer pensar mais no saco que John atirára outra vez para o chão, transpozemos a porta. Estavamos dentro do thesouro de Salomão.
Durante um momento olhámos vagamente em redor, n'um silencio apavorado. Á luz debil e mortiça da lampada só percebemos, ao principio, que o quarto ou camara era excavado na rocha viva. Depois a um dos lados vimos distinctamente alvejar, sobrepostos em camadas até á abobada, uma porção immensa de dentes de elephante, de inigualavel riqueza. Haveria talvez uns quinhentos ou seiscentos dentes. Só aquelle marfim nos poderia tornar a todos ricos para sempre. Era d'esse espantoso deposito que Salomão fizera talvez o «grande throno de marfim», de que fallam os livros santos! Toquei um dente de leve, depois outro, com veneração, como reliquias sagradas! E o suor cahia-me em bagas.
--Alli estão os diamantes, gritou John. Trazei a luz!
Corremos para o recanto que elle indicava. E a lampada que o barão baixára mostrou umas dez ou doze caixas de madeira, estreitas e muito compridas, pintadas de escarlate. A tampa d'uma, tão antiga que mesmo n'aquelle ar sêcco de caverna tinha apodrecido, apresentava vestigios d'arrombamento. Pelo menos no meio havia um buraco. Enterrei a mão através, e tirei-a cheia, não de diamantes, mas de moedas de ouro, como nós nunca viramos, com letras hebraicas (ou que julgamos hebraicas) e palmeiras e torres em relevo no cunho.
--Justos céos! murmurei suffocado. Aqui devem estar milhões! Isto nem se acredita!... Naturalmente era o dinheiro para pagar as ferias aos mineiros... Estaremos nós a sonhar?
--Mas os diamantes, exclamava John, percorrendo sofregamente o quarto. Onde estão por fim os diamantes? Só se o portuguez os metteu todos no saco!
Gagula decerto comprehendeu os nossos olhares, que buscavam avidamente:
--Além, além, onde é mais escuro! Lá estão os tres cofres de pedra, dois sellados, um aberto!
A sua aguda voz tomára um som cavo e sinistro. Mas quê! Onde ia agora, diante de tão inverosimeis riquezas, o medo das prophecias mortaes? Era além, no recanto escuro? Para lá corremos, sondando com a lampada.
--Aqui, rapazes, gritou John, na maior excitação. Aqui. Oh meu Deus! São tres arcas de pedra!
E eram! Eram tres arcas de pedra que nos davam pela cintura, occupando os tres lados d'uma especie de alcova tenebrosa. Duas estavam fechadas com immensas tampas de pedra. A tampa da terceira estava encostada á muralha. Baixamos a lampada para dentro. Não pudémos distinguir nada ao principio, deslumbrados por uma vaga refracção prateada que faiscava e tremia. Quando os olhos se habituaram áquelle brilho estranho, vimos que a arca immensa estava cheia até ao meio de diamantes brutos! Mergulhei as mãos n'elles. Com effeito! Eram diamantes. Uma arca cheia de diamantes! Não havia duvida! Bem lhes sentia eu entre os dedos aquelle macio especial que em Kimberley, nas minas, chamam sabonaceo! Era uma arca cheia de diamantes!
Ficamos, mudos, olhando uns para os outros. Á frouxa luz da lampada eu via as faces dos meus amigos perfeitamente lividas. E não havia em nós nenhuma alegria. Era um torpôr, como se a alma nos ficasse bruscamente esmagada, sob a fabulosa infinidade d'aquella riqueza.
Eu murmurei com um suspiro de creança:
--Somos os homens mais ricos d'este mundo!
John passava os dedos pelo queixo, n'uma distracção quasi melancolica:
--Eu sei lá!... Os diamantes agora perdem de valor; ficam como vidro!
--E transportal-os? e transportal-os? dizia o barão, abanando a cabeça.
De repente sentimos por traz uma risada que nos estarreceu. Era Gagula. Gagula que ia, vinha, ás voltas, na sala escura, como um morcego, de braço estendido para nós:
--Hi! Hi! Hi! Ahi está satisfeito o desejo vil dos vossos corações, homens das estrellas! Hi! Hi! Hi! Quantas pedras brancas! Milhares d'ellas! E todas vossas! Agarrai n'ellas! Rolai por cima d'ellas! Hi! Hi! Hi! Comei as pedras! Hi! Hi! Hi! Bebei as pedras!
Havia alguma coisa de tão grotesco n'aquella idéa de beber diamantes e comer diamantes, que larguei a rir estridentemente, desbragadamente. E por contagio, os meus companheiros desataram tambem a rir, a rir, ás gargalhadas. E alli ficámos todos, de mãos nas ilhargas, perdidos a rir, a rir, a rir! Riamos de quê? Nem sei. Riamos dos diamantes—d'aquelles diamantes que, milhares de annos antes, os mineiros de Salomão tinham escavado para nós, que os agentes de Salomão tinham armazenado para nós... Pertenciam a Salomão... Mas onde ia Salomão? Eram nossos agora, os seus diamantes! Não tinham sido para Salomão, nem para David, seu pae, nem para nenhum rei de Judá! Não tinham sido para o atrevido e velho fidalgo portuguez, nem para nenhum dos portuguezes que vinham singrando de leste em caravelas armadas! Tinham sido para nós! Só para nós! Para nós aquelles milhões e milhões de libras, que, n'este seculo, em que o dinheiro tudo domina, nos tornavam tão poderosos como outr'ora Salomão. De facto eramos Salomões!
De repente o accesso de riso findou. E ficamos a olhar uns para os outros, estupidamente.
--Abri as outras arcas! gania no emtanto Gagula. Estão tambem cheias! Todas as pedras são vossas! Fartai-vos, fartai-vos!
Em silencio, com uma sofreguidão brutal, arremessamo-nos sobre as outras arcas, quebrando os sellos, empuxando as tampas, n'um desesperado esforço! Hurrah! Cheias tambem! Cheias até cima!... Não, a terceira estava quasi vasia. Mas todas as pedras que continha eram escolhidas, d'um peso, d'um tamanho inacreditaveis. Havia-as como ovos pequenos. As maiores todavia, postas contra a luz, apresentavam um vago tom amarello. Eram «diamantes de côr», como elles dizem em Kimberley, nas minas.
Tinha eu um d'estes na mão, enorme, quando de repente ouvimos gritos afflictos do lado do corredor. Era a voz de Fulata:
--Acudam! Acudam! Que a porta de pedra está a cahir!
Uma outra voz, desesperada, a de Gagula, rugia sinistramente:
--Larga-me, rapariga, larga-me!
--Acudam! Acudam! Ai Gagula que me matou!
Como contar o brusco, pavoroso lance? Corremos. Á luz frouxa da lampada vimos a porta de pedra descendo, e junto d'ella Gagula e Fulata enlaçadas n'uma lucta furiosa. De repente Fulata cae, coberta de sangue. Gagula atira-se ao chão, para fugir como uma cobra através da fenda que havia ainda entre o chão e a porta. Mette a cabeça e os hombros!... Justos céos! Era tarde. A pedra immensa apanha-a, e a creatura uiva de agonia! A pedra desce, desce, com as suas trinta toneladas sobre o corpo já preso. Vem d'elle gritos e gritos, como eu jámais ouvira—até que ha um som horrivel de coisa esborrachada, e a porta immensa fica immovel, fechada, justamente quando nós, correndo sempre, esbarramos de roldão contra ella!
Isto durára quatro segundos—quatro seculos. Voltamos então para Fulata. A pobre rapariga tinha uma grande facada e estava a morrer.
--Ah Boguan! (era assim que os Kakuanas chamavam a John). Ah Boguan! exclamou, suffocada, a bella creatura. Gagula sahiu fóra. Eu não a vi, estava meia desmaiada. Então a porta começou a descer... Ella ainda entrou, foi olhar para vós... Depois tornava a sahir, quando eu a agarrei, e ella me deu uma facada, e agora morro!
--Pobre rapariga! Minha pobre rapariga! gritava John.
E como não podia fazer outra coisa, começou a dar-lhe beijos, longos beijos.
Ella sorria, arfando, com as palpebras cerradas. Depois:
--Macumazan, estás ahi?... Ja mal vejo... Estás ahi?...
--Estou, Fulata. Que queres?
--Falla por mim, Macumazan. Dize a Boguan que não me comprehende bem. Dize-lhe que o amei sempre, desde o primeiro dia, que o amo... Mas que morro contente, porque elle não se podia prender a uma rapariga como eu... O sol não se casa com a noite.
Teve um suspiro. A sua mão errante procurava em redor.
--Macumazan, estás ahi? Dize-lhe que me aperte mais contra o peito, para eu sentir os seus braços. Assim, assim... Dize-lhe que um dia hei de tornar a vêl-o nas estrellas... Que hei de ir de estrella em estrella, á procura d'elle. Macumazan, dize-lhe ainda que o amo, dize-lhe ainda...
Os labios sorriam, sem fallar. Estava morta.
As lagrimas cahiam, quatro a quatro, pela face do meu pobre John.
--Morta! murmurava elle, agarrando ainda as mãos de Fulata. Já me não ouve! E não a tornar a vêr, não a tornar a vêr!
O barão disse então, devagar, e n'uma estranha voz:
--Não tardará, amigo, que a tornes a vêr.
--Como assim?
--Oh homens, pois não percebestes ainda que estamos enterrados vivos?
Foi então, só então, que pela primeira vez comprehendi o indizivel horror do que nos succedia! Sim, com effeito! A enorme massa de pedra estava fechada. O unico sêr que lhe conhecia o segredo jazia esborrachado por ella, sob ella. Forçal-a, só se tivessemos alli massas de dynamite! Estava fechada para sempre! E nós alli fechados detraz d'ella!
Durante momentos ficamos mudos, com os cabellos em pé, junto do cadaver de Fulata. Toda a força de homens, a coragem de homens, fugia de nós bruscamente. Eramos sêres inertes. E comprehendiamos agora todo o plano monstruoso de Gagula—as suas ameaças, as suas ironias, o seu sinistro convite para bebermos e comermos diamantes. Sim, era o que tinhamos para beber e comer! Desde Lú, decerto, ella viera planeando a traição—e só nos trouxera á caverna, para nos deixar lá dentro, morrendo junto dos thesouros que appeteceramos!
--É necessario fazer alguma coisa, exclamou o barão, n'uma voz rouca. Animo, rapazes! A lampada vai findar. Vejamos se, por um acaso, podemos achar o segredo, a móla que move a rocha.
Recobramos um momento de energia, e, escorregando no sangue da pobre Fulata, rompemos a apalpar anciosamente a porta e as paredes do corredor. Não achamos nada, em mais d'uma hora de desesperada busca, que nos esfolou as mãos.
--A móla, se tal móla ha, está do lado de fóra, disse eu. Foi por isso que Gagula sahiu, como disse Fulata. Depois, se voltou, é porque se queria certificar que estavamos bem entretidos com os diamantes... Malditos sejam elles, e maldita seja ella!
--De resto, lembrou o barão, se a infame bruxa tentou fugir pela fenda é que sabia bem que pelo lado de dentro não podia levantar a rocha. Não ha nada a fazer com a porta. Vamos vêr outra vez, na camara.
Levantamos então com respeito e cuidado o corpo da pobre Fulata, fomol-o collocar dentro, no chão, com os braços em cruz, junto das arcas de dinheiro. Depois vim buscar o cesto de provisões. E sentados junto dos cofres de pedra atulhados de riquezas que nos não podiam salvar, dividimos as provisões em doze pequenos lotes, que, a dois repastos por dia, nos poderiam sustentar a vida por dois dias. Além da caça fria e das carnes sêccas tinhamos duas cabaças d'agua.
--Bem, jantemos, disse o barão, que é talvez o nosso penultimo jantar n'este mundo.
Pouco era o appetite, naturalmente. Mas havia horas que estavamos em jejum, e aquella parca comida, molhada com avaros goles d'agua, reconfortou-nos e deu-nos um vago alento de esperança. Começamos então a examinar systematicamente as paredes da nossa prisão, contando com a remota possibilidade de que existisse, além da porta da rocha, outra sahida. Esquadrinhamos todos os recantos, arredamos todas as arcas, batemos as muralhas, sondamos o sólo, exploramos a abobada. Ficamos exhaustos sem achar nada. A lampada espirrava e amortecia. Quasi todo o oleo estava chupado.
--Que horas são, Quartelmar? perguntou o barão.
Tirei o relogio. Eram seis horas. Tinhamos entrado ás onze na caverna.
--Infandós ha de dar pela nossa falta, lembrei eu. Se nos não vir voltar esta noite, decerto nos vem procurar...
--E então? exclamou o barão. De que serve? Infandós não conhece o segredo da porta, ninguem o conhecia senão Gagula. Ainda que conhecesse a porta, não a podia arrombar. Nem todo o exercito dos Kakuanas, com as suas azagaias, póde furar cinco pés de rocha viva. Ninguem nos póde salvar senão Deus!
Houve entre nós um longo, grave silencio. De repente a luz flammejou, mostrando, n'um relevo forte, todo o interior da camara, o grande monte dos marfins brancos, as arcas de dinheiro pintadas de vermelho, o corpo da pobre Fulata estirado diante d'ellas, o saco de couro cheio de diamantes, a vaga refracção que sahia dos cofres de pedra abertos, e as lividas faces de nós tres, alli sentados a um canto, á espera da morte. Depois a luz bruxuleou e morreu.