A Queda d'um Anjo · Camilo Castelo Branco

Chapter 30: Capítulo 30

Como ella o amava!

O morgado previu o seguimento funesto da desabrida recepção e despedida que deu ao mestre-escola.

A sua felicidade era d'aquellas que o possuidor receia, a cada hora, perder; e o desaccordo com sua mulher podia redundar-lhe em dissabores grandissimos. De todos, o de que elle mais se temia,--o dissabor por excellencia monstruoso—era a vinda de Theodora a Cintra, a isso aguilhoada por o professor de primeiras lettras, azedado pelo desprezo. Envergonhava-se elle, além de muitas outras vergonhas, que a morgada de Travanca lhe apparecesse em Cintra com a cintura do vestido sobre o estomago, com as ancas desprovidas de balão, com a cara incavernada n'um chapéo de 1832, que lá chamavam barretina, de immensas orelhas de palha amarellada pelo rodar dos annos. Era-lhe aviltante o caso aos olhos de toda a gente, e especialmente aos de Iphigenia.

Para prevenir esta e outras calamidades, saiu Calisto, caminho de Caçarelhos, quatro dias depois de Braz Lobato, e afim de encurtar tempo, embarcou em o vapor, e do Porto para cima accelerou as jornadas, repousando poucas horas. Contava elle anticipar-se ao mestre-escola. Chegou tarde; mas o coração da esposa estava ainda aberto.

--Tua senhora desmaiou de alegria, primo—disse-lhe Lopo de Gamboa—estava chorando comigo quando ouvimos a guizalhada da liteira. Muito te quer a nossa santa prima? Boas as fizeste por lá... Olha que o patife do mestre-escola veiu contar tudo!

--Já chegou?!

--Hoje ás cinco da tarde.

--Que disse?

--Contou que tens lá em Cintra uma mulher teúda e manteúda...

--Que infame embusteiro!--clamou o fidalgo—Chama-me um lacaio, que lhe vou mandar cortar as carnes, com um tagante!

Merecia-o! Mas quem deu cá o lacaio? É coisa que ainda cá não vi!

Assim dialogando, entraram á sala em que D. Theodora estava ainda muitissimo intalada de soluços.

--Então que é isto, Theodora?!--perguntou brandamente Calisto, pondo-lhe as pontas dos dedos na face.

Ergueu-se ella arrebatada, e pendurou-se-lhe ao pescoço exclamando:

--Meu Calisto, meu Calisto, cuidei que te não tornava a enxergar!

--És tola, és tola, prima!--disse elle, assás incommodado com o apertão do abraço—Pois eu não havia de tornar?! Quem te metteu essa na cabeça?

Theodora entrou a encarar no homem muito de fito, e rompeu n'um choro desfeito.

--Que tens tu?--perguntou elle.

--Como tu estás mudado! não me pareces o meu homem!... Corta essas barbas; por alma de tua mãe, corta-me essas barbas, que pareces o diabo, Deus me perdôe!...

Calisto sorriu-se, com um profundo tédio de sua mulher. N'aquelle instante alanceou-o mortalmente a saudade de Iphigenia. Aquella casa de Caçarelhos e a mulher pareceram-lhe um retalho do inferno, d'aquelle inferno alagado e frio de que falla o padre A. Vieira.

Começou a passeiar na sala, e a despedir baforadas de anciada respiração do peito. A mulher não lhe despregava os olhos das barbas, e de vez em quando arrancava um ai das entranhas.

--A fallar verdade—observou Lopo de Gamboa—estás um homem completamente differente! E o caso é que pareces muito mais novo! Já nem andas corcovado, nem tens aquella proeminencia da barriga. Olha os ares de Lisboa o que fazem, primo Barbuda!

Calisto exprimia o seu nojo de tudo aquillo, sorrindo-se. Tirou da algibeira um charuto, e accendeu um phosphoro. Eis que a mulher rompeu em mais desentoada choradeira, dizendo:

--O meu homem a fumar!... Que feitiçaria te fizeram, Calisto!...

--De maneira, disse o morgado vencido pela impaciencia, de maneira que me recebes com choradeiras, e observações estupidas, Theodora! Ora acabemos com esta feia comedia, e manda-me preparar jantar, que preciso comer e dormir.

Saiu Theodora cabisbaixa da saleta, e Lopo de Gamboa despediu-se, pedindo-lhe que tolerasse com generosidade as tolices de sua prima, que tudo aquillo n'ella era rudeza e bondade do coração.

--Bem sei, bem sei...--disse Calisto Eloy, e recolheu-se á sua bibliotheca, a principiar uma carta, que dizia:

«Minha querida Iphigenia.

Não te asseguro tres horas da minha vida, se me disserem que hei de aqui viver tres dias. Não é enôjo, é peior, é horror o que me faz tudo isto! Deixa-me pedir coragem ao teu retrato. Ó imagem da filha do meu coração, salva-me, resgata-me, arranca-me d'este tumulo! Ó consoladora d'esta agonia sem nome, vale-me, tem mão n'esta vida, que me foge...»

Entrou Theodora esbofada de dar ordens, de cortar o presunto, de ir á cesta dos ovos, de andar á pilha da mais gorda gallinha.

Correu a abraçar-se outra vez n'elle com mais possante enthusiasmo, emquanto o marido com um braço a cingia ao peito, e com o outro escondia o retrato.

--Meu Calistinho—suspirava a esposa palpitante—meu amado marido, não tornes mais para Lisboa, eu não te deixo sair mais de tua casa!...

--Que remedio senão ir, Theodora!...--disse elle—Sou obrigado por esta desgraçada posição de deputado a assistir mais algum tempo na capital.

--Não é isso, não é isso!--clamou ella, saindo-lhe dos braços, que a largaram facilmente—Bem sei o que é...

--Sabes o que?--interrompeu com violentada placidez o marido—Sabes as calumnias que te veiu contar o Braz, o villão que se vingou como canalha por lhe eu não alcançar o habito de Christo! É o que faltava! pendurar a imagem da cruz n'um peito cheio de tanta porcaria!... Então que te disse elle?...

--Que tinhas lá outra... e que te viu a passeiar com ella.

--Viu-me a passear com uma nossa parenta, viuva de um general. Quem disse ao javardo que esta senhora era minha amante? Hei de perguntar-lh'o diante de ti. Manda-o chamar á minha presença.

--Agora mando! que o leve a breca!--disse Theodora com alegre aspecto—Como tu vieste, foi o que eu quiz; agora, pilhei-te cá, e não te deixo ir embora. Mas tu has de cortar estas barbas, sim? e não estejas a fumar por isso, que me fazes embrulhar a estomago, não?

O tom e gesto caricioso, com que ella dizia isto, não moveu medianamente o esposo. Impava de zangado e aborrecido dos languidos amorinhos com que a meiga senhora se lhe quebrava langorosamente nos braços.

--Eu preciso escrever umas cartas que ainda hoje hão de ir para Miranda, disse elle, afastando brandamente a esposa. Vae-te embora, e logo conversaremos.

Theodora estava n'um d'aquelles elevados gráos de amoroso sentimento, em que a mulher menos esperta conhece, que é desamada. Repellida d'aquelle modo, ainda as lagrimas lhe vidraram os olhos; mas o despeito seccou-as.

--Não me podes vêr á tua beira! disse ella com altiveza. Vê-se mesmo na tua cara que me aborreces! Ainda agora chegaste, e já estás a fallar na ida para Lisboa. Escusavas então de cá vir. Mal haja a hora em que saiste d'esta casa. Já não tenho marido!...

N'este ponto, não pôde represar as lagrimas. Acocorou-se no chão a chorar, com a cara mettida entre os joelhos.

Calisto saltou da cadeira n'um empuchão de raiva, e passou á sala immediata, gesticulando com phreneticos sacões de braços.

Que diabo vim eu aqui fazer? dizia entre si o desesperado.

O demonio da expiação já andava ás cavalleiras do homem. A saudade de Iphigenia era uma serpente de fogo que lhe abafava os respiradouros das goelas.