A Queda d'um Anjo · Camilo Castelo Branco

Chapter 22: Capítulo 22

Outro abysmo

Esta pungente lancetada não esvermou a postema do peito de Calisto de Barbuda. Desde que qualquer sujeito perde o siso do coração, escusado é esperar que a razão lh'o restaure: em tão boa hora que elle o recupera depois das amargas provas. O homem, porém, que amanhece tolo aos quarenta e quatro annos, a mim me quer parecer que ao entardecer-lhe a vida a tolice refinará.

Tenho dois grandes exemplos d'isto: um é Calisto de Caçarelhos; o outro é Henrique VIII de Inglaterra. Este, ahi pelas alturas dos quarenta annos, tão bom homem era, que até escrevia contra o impio Luthero, e vivia santamente com sua esposa, Catharina de Aragão. Insandeceu de amor, vinte annos depois de marido exemplar, e d'ahi por diante sabe o leitor que golpes elle deu no peito invulneravel do papa e no fragil pescoço das pobres mulheres.

Calisto Eloy não será capaz de repudiar nem degolar Theodora, porque n'este paiz ha leis que reprimem os patetas sanguinarios; todavia, eu não assevero que elle seja incapaz, alguma hora, de lhe chamar parva e hedionda, e de lhe atirar com a touca e com o lenço azul de tres pontas á cara vermelha de pudor. Veremos.

Calisto, digamol-o sem refolhos, caiu. Atascou-se. Foi de cabeça ao fundo do pégo em que deram a ossada o ultimo rei dos godos, e Marco Antonio, e o rei enfeitiçado pela comborça Leonor Telles, e Simplicio da Paixão, e varias pessoas minhas conhecidas, que experimentaram todos os systemas de desfazer a vida, desde o muro de S. Pedro d'Alcantara até ás cabeças dos palitos phosphoricos.

Este enguiçado Barbuda, na volta de Campolide, não teve uma lagrima que chorasse sobre a sua dignidade esfarrapada. Circumvagou a vista pelos seus livros, figurou-se-lhe vêr na lombada de cada in-folio o olho de um demonio zombeteiro, bem que aquelles pergaminhos encadernassem almas, no céo bem-aventuradas, e na terra immorredoiras, almas que n'este mundo se chamaram fr. João de Jesus Christo, fr. Pantaleão d'Aveiro, fr. Antonio das Chagas, e dezenas d'estes talismans, que tem salvado o leitor e a mim de soçobrarmos nos parceis que esbravejam á volta de Calisto.

Eram duas horas da manhã, quando o morgado experimentou uma sensação, que viria a definir-lhe o espirito, se alguem carecesse de vêr este homem a luz extraordinaria.

Nas aguas-furtadas do andar, em que elle morava, residia uma viuva de um tenente, senhora d'annos insuspeitos, de muitas lerias, minguada de recursos, e, por amor d'isso, se offerecêra a cuidar da casa e da cosinha do deputado. Ás duas horas, pois, bateu Calisto á porta da visinha, e, como ella lhe fallasse, exprimiu elle a sensação imperativa, que o levou alli, por estes termos:

--Sr.^a D. Thomazia, ha por ahi alguma coisa que se coma?

--Não ha nada feito; mas eu vou fazer chá, sr. Barbuda, e o que v. ex.^a quizer.

--Olhe se me póde frigir uns ovos com presunto—volveu elle.

--Pois lá vão ter d'aqui a pouco.

--Veja lá que se não constipe, sr.^a D. Thomazia—recommendou elle.

--Não tem duvida. Olhe que eu tenho muito que lhe dizer. Achou um bilhete de visita na escrevaninha? perguntou D. Thomazia pelo buraco da fechadura.

--Não achei.

--Pois lá está. Faz favor de ir, que eu vou vestir-me.

--Então a sr.^a D. Thomazia está-se constipando? Ora esta! Isso é que eu não queria!... Cá desço, e até logo.

O bilhete, que o deputado encontrou, dizia: Iphigenia de Teive Ponce de Leão, e logo a lapis: viuva do tenente general Gonçalo Telles Teive Ponce de Leão.

Desfilaram por diante do espirito de Calisto Eloy regimentos de illustres familias oriundas dos Telles e dos Teives e dos Ponce de Leão. Na linhagem dos Barbudas tambem alguma vez tinham entrado os Teives, e uma decima nona avó de Calisto viera de Hespanha, e era Ponce, dos Ponces genuinos dos duques de Banhos.

Estava o morgado combinando estes parentescos contrahidos ahi pelo ultimo quartel do seculo XII, quando D. Thomazia entrou com o presunto e ovos. Calisto assentou o prato sobre dois volumes da Historia Geneologica, que lhe tomavam a banca: e quanto a deglutição lh'o permittia, n'alguns intervalos, foi perguntando:

--Então quem é esta senhora, que me procurou?

--Eu só sei dizer, respondeu D. Thomazia, que é uma creatura linda, linda quanto se póde ser!

--Como assim?! atalhou Calisto, retendo uma lasca de presunto entre os dentes molares, pois ella não é a viuva de um tenente general, que naturalmente havia de morrer velho?

--Póde ser que elle morresse velho; mas a viuva o mais que póde ter é trinta annos.

--E com que então galante?

--É uma imagem de cera. V. ex.^a ha de vêl-a. E então elegante! A cintura cabe aqui, proseguiu D. Thomazia, formando um annel com dois dedos. Eu, quando ouvi parar uma carruagem, cuidei que era v. ex.^a e vim abrir as portas do escriptorio. A senhora veiu subindo, e puchou á campainha. Eu espreitei lá de cima, e, a fallar verdade, lembrei-me se seria a sua esposa, que lhe quisesse fazer uma agradavel surpreza. Perguntou-me ella pelo sr. Barbuda de Benevides, e foi entrando comigo para a sala. Levantou o véo, e disse: «Não está em casa?» Que voz, sr. morgado, que voz de creatura aquella!

--E isso a que horas foi? atalhou Calisto. Era por noite alta?

--Não, meu senhor. Eram seis horas da tarde. V. ex.^a tornou ás oito, mas saiu logo; e, quando eu voltei de fazer uma visita, já o não achei para lhe dar esta noticia.

--E depois a senhora que mais disse?

--Mostrou-se pesarosa de o não encontrar, e prometteu de voltar hoje ás tres horas.

--E a sr.^a D. Thomazia saberá o que me quer essa dama?

--Não sei; o que ella sómente disse foi que v. ex.^a era um genio.

--Pois ella disse-lhe isso sem mais nem menos?

--Foi a respeito de vêr aqui estes livros muito grandes, acho eu. Esteve a reparar n'elles com uma luneta... E a graça com que ella punha a luneta!... Mulher assim!... Os homens ás vezes por mais asneiras que façam, teem desculpa!...

--As paixões, minha sr.^a D. Thomazia...--obtemperou o morgado, e lambeu os beiços molhados da libação de um vinho nervoso d'aquella garrafeira já mencionada. E proseguiu.--As paixões do amor... Nem os grandes sabios nem os grandes santos se exemptaram d'ellas. Somos todos de quebradiço barro; somos uns pucarinhos de Extremoz nas mãos infantis das mulheres. O tributo é fatal: quem o não pagou aos vinte annos, ha de pagal-o aos quarenta, e mais tarde, quando Deus quer... Deus ou o demonio, que eu não sei ao justo quem fiscalisa estes malaventurados successos de amor, que a historia conta e a humanidade experimenta cada dia...

--É um gosto ouvil-o!--interrompeu D. Thomazia—Bem no disse aquella senhora: v. ex.^a é um genio, e falla de modo que se mette no coração da gente. Quer que lhe diga a verdade, sr. Barbuda? Foi bom que v. ex.^a me encontrasse n'esta edade. Se eu fosse moça e bonita, como dizem que fui, um homem como v. ex.^a havia de me dar cuidados.

--Ora, minha sr.^a D. Thomazia, isso é lisonja e favor. Eu já não estou tambem na edade de tocar corações, nem os meus habitos vão muito para ahi!

--Edade!--accudiu a viuva do tenente—v. ex.^a póde dizer que tem trinta e cinco annos, que ninguem lh'o duvida. É mania agora dos rapazes quererem á fina força passar por velhos. Pergunte quem quizer á visinha do primeiro andar se o acha velho. Está-me sempre a perguntar se v. ex.^a me diz d'ella alguma coisa... Conhece-a?

--Bem sei: uma mocetona cheia, com umas fitas escarlates na cabeça... Não é má...

--E sabe v. ex.^a que mais? Eu vou apostar que esta senhora, que veiu cá, traz coisa no coração, que a obrigou. Assim uma senhora nova, sosinha, tão encantadora!... Aquillo, em quanto a mim, é que já o ouviu no parlamento, e apaixonou-se. Ha muitos casos assim cá em Lisboa de senhoras apaixonadas pelos homens de talento. O talento é uma coisa muito bonita! Meu marido casou comigo quando era sargento do treze de infanteria, e andava nos estudos. Era feio, e ao principio tinha-lhe medo; mas assim que elle me mandou um acrostico... V. ex.^a sabe fazer acrosticos?

--Ainda não me puz a isso.

--Pois como eu me chamo Thomazia Leonor e tenho quatorze letras fez-me elle um soneto que me deu volta á cabeça, e tamanho incendio me tomou o peito, que o amei até á morte, e ainda agora, ficando eu viuva aos trinta e nove annos, fui, sou e serei fiel á sua memoria.

N'este ponto, D. Thomazia, ferida n'alma pelo acrostico memorando, chorou.

Calisto represou-lhe os prantos com algumas maximas consoladoras sobre a morte, e bocejou, já por que eram tres horas e meia da manhã, já por que o dialogo descaira nos aborrimentos de uma palestra em dia de fieis defuntos. D. Thomazia começou a espirrar, por que se não agasalhára bastantemente, e assim se apartaram estas duas pessoas, que uma hora de expansão aproximara.

Calisto, conforme ao antigo uso, levou um livro para a cabeceira do leito. Escolheu poeta, e saiu-lhe o seu já tão querido outr'ora Sá de Miranda. Abriu ao acaso, e saiu-lhe n'uma pagina d'Os Estrangeiros esta maxima: Duas sortes de homens ha no mundo que se possam servir: ou muito parvos ou muito namorados, e ainda os namorados tem grande vantagem.

A meu vêr, o espirito d'aquelle honrado doutor, que tão santo marido fôra de Briolanja de Azevedo, até de saudades d'ella se deixar morrer, alli lhe viera, áquella hora, relembrar occasionalmente e a ponto uma de suas maximas, como em paga do affectuoso respeito com que Barbuda o lia e inculcava á mocidade depravada.

Calisto Eloy pôde ainda admirar o lidimo portuguez da maxima, e adormeceu.