A Mãe · Maksim Gorky (translated by Augusto de Lacerda and Serge Persky)

Chapter 5: Capítulo 5

A vida recomeçou para elles; novamente se encontravam proximos e afastados.

Uma vez, n’um dia santo, no meio da semana, Pavel disse á mãe, quando ia sahir:

--No sabbado ha de vir gente cá a casa.

--Que gente?

--Gente d’aqui... e gente da cidade.

--Da cidade...? repetiu a mãe, meneando a cabeça. E desatou a chorar.

--Porque choras, mamã?! exclamou Pavel contrariado. Porquê?

Respondeu com froixa voz, limpando as lagrimas:

--Não sei... Porque sim.

Elle deu alguns passos pelo quarto, e parando deante d’ella:

--Tens medo?

--Tenho! confessou. Essa gente da cidade... sabe-se lá quem é!

Inclinou-se para ella e disse com a voz irritada, como o pae:

--É por causa d’esse medo que todos nós morremos! E os que mandam em nós aproveitam-se d’esse medo e ainda mais nos amedrontam. Comprehenda de uma vez para sempre: emquanto houver medo, apodreceremos como as bétulas nos pantanos.

Afastou-se, exclamando:

--Deixal-o! Nós nos reuniremos cá em casa...

A mãe atalhou, chorando:

--Não me queiras mal! Como não hei de eu ter medo? Passei entre sustos toda a minha vida... tenho a alma cheia d’elles.

Pavel retorquiu a meia voz, mas brandamente:

--Desculpe. Não tenho outro meio ao meu alcance. E sahiu.

Durante trez dias, Pélagué tremia: o coração parecia-lhe parar quando pensava em que gente extranha entraria em sua casa. Não podia fantasial-os, mas afiguravam se-lhe terriveis. Eram elles quem apontaram ao seu filho o caminho que elle seguia agora...

No sabbado á tarde, Pavel voltou da fabrica, lavou-se, mudou de fato e saíu, dizendo sem olhar para a mãe:

--Se alguem vier, dize que não me demoro, que me esperem. E não tenhas medo, se fazes favor... São pessoas como as outras.

Ella deixou-se cahir sobre o banco. O filho contemplou-a franzindo o sobrolho, e propoz—Talvez seja melhor saíres; an?

Ella offendeu-se. Disse que não com a cabeça, murmurando:

--Seria o mesmo. Para que sairia eu?

Estava-se no fim de novembro. Durante o dia tinha caído na terra gelada um nevão fino e secco, que Pavel triturava sob seus passos. Ás vidraças apegavam-se espessas trevas. A mãe, desalentada, ia esperando, com os olhos fixos na porta.

Parecia-lhe que, na obscuridade, creaturas silenciosas, de trajos não vulgares, se dirigiam para a casa, vindos de pontos varios, que se adiantavam occultando-se, corcovados, e olhando para um e outro lado. Junto da porta, encostado á parede, havia já alguem.

Ouviu-se um assobio que vibrou no silencio como um fio, melodioso e triste; errava no deserto da noite, approximava-se... De subito, calou-se mesmo junto á janella, como se tivesse penetrado atravez da parede.

Soou o ruido de passos; Pélagué ergueu-se trémula, com os olhos dilatados.

Abriu-se a porta. Appareceu primeiro uma cabeçôrra com um boné de pelles, depois um corpo acurvado que se esgueirou lentamente, que se endireitou, que levantou o braço direito vagarosamente, arrancando do peito em suspiro ruidoso:

--Boa noite.

Pélagué cumprimentou em silencio.

--O Pavel ainda não veio?

O homem tirou com vagar um casaco de pelles, levantou um pé, saccudiu com o boné a neve que lhe cobria as botas, atirou depois com o boné para um canto e entrou no quarto bamboleando-se nas suas altas pernas. Approximou-se d’uma cadeira, examinou-a como, para certificar-se de que era sólida, assentou-se por fim e pôz-se a bocejar, tapando a bôca com a mão. Tinha a cabeça redonda e o cabello cortado á escovinha, a barba feita, e grosso bigode de guias compridas e pendentes. Depois de ter examinado o quarto com os grandes olhos bojudos e acinzentados, cruzou as pernas e perguntou balouçando-se na cadeira:

--O casebre pertence-lhes ou é alugado?

Pélagué, sentada em frente delle, respondeu:

--Alugamol-o.

--Não é grande coisa! observou o homem.

--O Pavel não se demora; queira esperar, disse froixamente.

--É o que estou fazendo! replicou tranquillamente.

A sua tranquillidade, a sua voz suave, a simpleza da sua fisionomia deram coragem a Pélagué. Elle contemplava-a com olhar franco, com um ar bondoso; no fundo dos seus olhos transparentes luzia um brilho alegre, e havia um tanto de divertido e de simpatico n’aquella creatura angulosa e acurvada como n’um poleiro feito das proprias pernas. Trazia vestidas calças pretas, cujas extremidades estavam mettidas quasi dentro das botas; em vez de casaco, bluza azul. Pélagué tinha vontade de perguntar-lhe quem elle era, d’onde vinha, se conhecia o seu filho de ha muito tempo, quando, de chofre, elle moveu-se e perguntou:

--Ó tiasinha, quem foi que lhe abriu essa brécha na testa?

Falava meigamente e sorria com o olhar. Mas a pergunta irritou-a. Mordeu os labios, e apóz curto silencio, perguntou com fria delicadeza:

--E o que tem o tiosinho com isso?

Elle voltou-se de todo.

--Ah! não se zangue. Se lhe fiz esta pergunta, foi porque a minha mãe adoptiva tinha tambem uma brécha na testa, exactamente como a sr.ᵃ. Uma sova que lhe deu o marido, com uma fôrma de botas. Era sapateiro. Ella era lavadeira. Tinha-me adoptado já, quando, por sua desgraça, encontrou aquelle bêbedo não sei onde. O patife batia-lhe; digo-lhe só isto! Eu tinha tanto medo d’elle, que a pelle estalava-me.

Pélagué sentiu-se desarmada perante aquella franqueza, e pensou de si para si que talvez Pavel não ficasse contente, se ella fosse menos delicada para com aquelle original. Por isso disse com um sorriso envergonhado:

--Eu não me zango... O sr. é que me deixou surpreza com a pergunta. Foi um presente do meu marido, que Deus tenha! O sr. não é tartaro?

O homem mexeu as pernas, e teve um sorriso tão aberto, que até as orelhas pareciam chegar-lhe á nuca. Depois disse gravemente:

--Ainda não... ainda não sou tartaro.

--É que não fala exactamente como um russo! explicou ella sorrindo, porque lhe compreendera o gracejo.

--A minha lingua vale mais do que o russo! exclamou com um meneio importante. Sou russo-menor, da cidade de Kanief.

--E ha muito tempo que está por cá?

--Vivi na cidade, perto de um anno, e ha um mez que vim aqui para a fabrica. Travei conhecimento com excellentes pessôas... o seu filho... e mais alguns... não muitos. Quero fixar-me por cá, accrescentou, torcendo o bigode.

Estava agradando a Pélagué que, para agradecer o elogio feito ao filho, lhe perguntou:

--Quer chá?

--O quê? sósinho? observou, encolhendo os hombros. Faça o offerecimento quando estivermos todos juntos.

Ouviram-se passos outra vez, a porta abriu-se de chofre; Pélagué levantou-se. Com grande espanto seu, quem entrou na cosinha foi uma rapariga, de vestido leve e pobre, baixa, com cara de camponeza. A recemchegada, cujos cabellos eram loiros e espessos, perguntou:

--Ainda venho a tempo?

--Ah! vem! respondeu o russo-menor, que permanecia no quarto. Veio a pé?

--Podera! A sr.ᵃ é a mãe do Pavel Mikhaílovitch? Bôa noite! Eu chamo-me Natacha.

--E o seu pae? perguntou Pélagué.

--Vassilievna. E a sr.ᵃ?

--Pélagué Milovna.

--Bello! Estamos apresentados!

--Sim, estamos... concordou Pélagué, com um ligeiro suspiro.

E sorrindo observou a rapariga.

O russo-menor perguntou:

--Faz frio?

--Se faz! e muito, lá pelos campos; uma ventania!...

Tinha a voz pastosa, clara; a bôca era pequena e redonda; e toda ella era gorducha e cheia de frescura. Depois de tirar a capa, esfregou energicamente as faces coradas com as mãosinhas avermelhadas pelo frio; e, passeando pelo quarto com passos rapidos, batia no sobrado com os tacões.

--Não tem galochas de borracha! pensou Pélagué.

--Que frio! E arrastando muito as palavras: Estou entorpecida! gelada!

--Vou já, já, preparar o samovar! disse rapidamente a dona da casa.

E saíu para a cozinha.

Dir-se-ia que conhecia aquella rapariga de ha muito tempo e que a estimava como sua filha. Estava satisfeita por vêl-a; vindo-lhe á ideia os olhos pardos e piscos do russo-menor, sorriu satisfeita tambem; prestou attenção á conversa.

--Porque está triste, André? perguntou a rapariga.

--Porque sim! A viuva tem um olhar bondoso e lembra-me que talvez seja como o da minha mãe... Penso muito na minha mãe, sabe? Parece-me sempre que ella vive.

--Ouvi-lhe dizer que ella tinha morrido...

--Não! Falava da minha mãe adoptiva, e agora falo da minha verdadeira mãe. Imagino que ella pede esmola, algures, em Kief e que bebe aguardente...

--Porquê?

--Sei lá! E que quando está embriagada, os policias a esbofeteiam.

--Pobre homem! pensou Pélagué, suspirando.

Natacha passou a falar rapidamente, a meia-voz. Depois, tornou a ouvir-se a voz sonora do russo-menor:

--É ainda nova! não tem experiencia! Todos teem mãe, e apesar d’isso quantas creaturas más!... É difficil dar á luz, mas é muito mais difficil ensinar o bem ao homem.

--Isso! isso! exclamou lá de dentro Pélagué.

Desejava poder responder que ella, por exemplo, se consideraria feliz ensinando o bem a seu filho, mas que não sabia d’essas coisas; a porta porem abriu-se vagarosamente dando entrada a Vessoftchikof, filho do velho ladrão Danilo, o misantropo celebre em todo o bairro. Mantinha-se sempre afastado dos outros, que por este facto chasqueavam d’elle. Pélagué perguntou admirada:

--O que é que tu queres?

Fitou n’ella os olhos pardos, limpou com a palma da mão a cara bexigosa e de maçãs salientes, e, sem responder ao cumprimento de Pélagué, perguntou em tom cavo.

--O Pavel está em casa?

--Não.

Relanceou a vista pelo quarto e entrou, dizendo:

--Boa noite, companheiros.

--Tambem este!... Será possivel? pensou ella hostilmente.

E mais se admirou vendo Natacha estender a mão ao recemchegado com modo alegre e amigavel.

Vieram em seguida dois rapazes, duas creanças quasi. A dona da casa conhecia um d’elles: era o sobrinho de Fédor Sizof, velho operario da fabrica; tinha feições d’arguto, fronte elevada e cabellos encaracolados. O outro, de cabello corredio, era-lhe desconhecido, mas não a assustava, parecia modesto.

Afinal Pavel chegou, acompanhado de dois amigos, que ella reconheceu logo: eram dois operarios tambem da fabrica.

Amavelmente, o filho disse-lhe:

--Preparaste o chá? obrigado!

--Queres que vá comprar aguardente? perguntou, não sabendo como exprimir-lhe o seu reconhecimento pelo que quer que fosse que ella ainda não compreendia.

--Não. Não é preciso! respondeu, tirando a capa, e sorrindo bondosamente para a mãe.

De subito, veio-lhe á idéa de que o filho tinha exagerado propositadamente o perigo da reunião para brincar com ella.

--É então esta a tal gente perigosa?

--Esta mesma! disse Pavel entrando no quarto.

--Ah! e seguiu-o com o olhar caricioso.

Mas, no seu intimo:

--E elle é a mesma creança!...