A Mãe · Maksim Gorky (translated by Augusto de Lacerda and Serge Persky)

Chapter 49: Capítulo 49

Adormecera Pélagué, rápida e socegadamente, quando, de manhãsinha, a despertaram umas pancadas violentas na porta da cosinha. E succediam-se com teimosia. Ainda fazia escuro. Vestiu-se á pressa, correu a perguntar, atravez da porta:

--Quem está ahi?

--Eu! respondeu voz desconhecida.

--Quem?

--Abra! Abra! murmurou a mesma voz, agora sumida e supplicante.

Pélagué puxou o ferrolho e empurrou a porta: E entrou Ignaty, a exclamar alegremente:

--Ah! não me enganei! Cheguei a bom porto!

Vinha coberto de lama até á cintura, o rosto desfigurado, fundas olheiras, e do bonné saíam-lhe em desordem os cabellos annellados.

--Grande desgraça lá por casa! segredou logo ao fechar a porta.

--Já sei...

Ficou espantado e perguntou com um pestanejar de curiosidade:

--Como assim?... Por quem?

Contou-lhe Pélagué em breves palavras o encontro que tivera.

--E os outros dois teus camaradas, tambem os prenderam?

--Não estavam lá: tinham ido á junta d’inspecção. Prenderam cinco, contando com o Rybine.

Fungou, n’um accesso de riso, e explicou:

--Eu, como vê, escapei. Provavelmente andam em minha busca... Pois que procurem! Não volto para lá nem por todo o oiro do mundo! Ainda assim, ainda lá ficaram seis ou sete rapazes e uma rapariga, com quem se póde contar!

--Mas como pudeste escapar?

--Eu? exclamou Ignaty, sentando-se n’um banco e olhando em roda. Os policias vieram de noite, direitinhos á fabrica, mas um minuto antes já o guarda campestre tinha vindo a correr bater-nos na janella: «Attenção, rapaziada, vêm prendel-os!»

Pôz-se a rir e a limpar a cara com a aba da blusa. E proseguiu:

--O tio Rybine não é homem para perder a cabeça... E olhe que o provou!... Disse-me logo: Ignaty, corre á cidade! Lembras-te das duas mulheres que aqui estiveram? E escreveu qualquer coisa n’um papel, muito depressa... Toma, vae, adeus, meu irmão! disse-me elle. E deu-me um empurrão nas costas. Eu atirei-me para fóra da cabana, escondi-me entre umas moitas, puz-me a andar de gatas e ouvi chegar os guardas! Eram muitos, appareciam por todos os lados! Cercaram a fabrica. Eu estava por detraz d’uma sebe... passaram-me mesmo na frente. Depois, levantei-me e entrei a andar, a andar... Andei um dia e duas noites, sem parar. Estou estafado para uma semana; nem sinto as pernas!

Mostrava-se satisfeito de si mesmo; illuminava-lhe um sorriso os grandes olhos escuros; tinha um tremor nos beiços grossos e vermelhos.

--Vou-te fazer uma gôta de chá n’um pronto! disse Pélagué sollicita, agarrando no samovar. Mas emquanto esperas, vae-te lavando. Ficas melhor depois!

--O que eu queria era dar-lhe o bilhete.

Levantou com difficuldade uma das pernas, dobrou-a, collocou o pé sobre o banco, isto com innumeras caretas e gemidos, e começou a desenrolar uma das ligaduras, que lhe envolviam ambos os pés.

Nicolao appareceu á porta. Ignaty, confuso, tornou a pôr o pé no chão; tentou levantar-se, mas cambaleou e caíu desamparadamente em cima do banco, ao qual se agarrou ás mãos ambas.

--Ai, que cançado que eu estou!

--Bom dia, camarada! disse-lhe Nicolao em tom amigavel e com um signal de cabeça. Espere, que eu o ajudo.

Ajoelhou-se diante do operario e desenrolou rapidamente a ligadura, emporcalhada e húmida.

--É necessario esfregar-lhe os pés com alcool. Ha de fazer-lhe bem, disse Pélagué.

--Isso mesmo! approvou Nicolao.

Ignaty fungou de novo, muito atrapalhado.

Finalmente, achou Nicolao o bilhete; alisou-o, mirou-o um instante e apresentou-o á velha.

--Aqui tem! É para si.

--Leia.

Elle approximou dos olhos o pedaço de papel sujo e amarrotado e leu:

«Mãesinha: não deixes que se perca o nosso negocio. Diz a essa senhora que não se esqueça de fazer que se escreva sempre e muito, a respeito das nossas coisas. Peço-te. Adeus. Rybine.»

--Bello rapaz! disse Pélagué com melancolia. Estavam a esganal-o e ainda elle se lembrava dos outros!

Lentamente, Nicolao deixou descaír o braço em que tinha o bilhete, e a meia voz:

--É espantoso!

Ignaty olhava para um e outro, vermiculando devagar com os dedos emporcalhados do pé descalço. Pélagué, procurando occultar o rosto inundado de lagrimas, foi para elle com uma celha com agua. Sentou-se no chão e estendeu a mão para tomar a perna do homem.

--Que quer fazer?... Não é preciso...

--Deixa ver o pé, depressa.

--Eu vou buscar o alcool, disse Nicolao.

O rapaz mettia sempre mais a perna debaixo do banco, murmurando:

--Não quero!... Então isso é coisa que se faça?

Sem lhe responder, ella tratou de lhe desembaraçar das ligaduras o outro pé. O rosto redondo de Ignaty distendeu-se de espanto. Pélagué entrou a lavar o rapaz.

--Sabes? disse ella com voz chorosa. O Rybine foi espancado!...

--Palavra? exclamou Ignaty assustado.

--É verdade. Quando chegou a Nikolsky, já elle vinha moído de pancada, e ainda alli, o sargento e o commissario lhe deram murros, pontapés... Estava todo coberto de sangue!

--Ah, lá quanto a isso, é o officio d’elles, e conhecem-no a valer! exclamou o operario, sentindo um calafrio percorrer-lhe as espáduas. Tenho medo d’elles como do diabo! E os camponezes não lhe bateram?

--Um só, á ordem do commissario. Os outros fizeram o seu dever; até não consentiram que continuassem a maltratal-o.

--Sim... O campónio começa a compreender...

--Tambem lá os ha muito intelligentes, n’essa villa...

--E onde é que os não ha? Ha-os por toda a parte! Sim, sempre é forçoso que os haja; o difficil é descobril-os. Mettem-se ahi pelos cantos e ficam a remoer aquillo lá por dentro, cada um para seu lado. Não teem a coragem de se reunir!

Nicolao trouxe uma garrafa d’alcool, deitou uns pedaços de carvão no samovar e saíu sem dizer palavra. Ignaty, que o seguira com a vista, curioso, perguntou em voz baixa:

--É nosso mestre?

--Na causa do povo não ha mestres, só ha camaradas!

--É caso para pasmar! disse o operario, sorrindo entre perplexo e incredulo.

--O quê?

--Tudo isto!... D’um lado, dão bofetadas na gente, do outro, lavam-nos os pés... Haverá um meio-termo?

A porta do aposento abriu-se de par em par e Nicolao respondeu:

--Ha, sim, senhor! E esse meio-termo são os que lambem as mãos d’aquelles que os maltratam e sugam o sangue dos maltratados. Aqui tem o que é esse meio-termo!

Ignaty fitou-o com deferencia e disse, após reflexão:

--Isso agora é verdade!

--Pélagué! instou Nicolao. Deve estar cansada... Deixe isso, que eu continúo.

O rapaz encolheu as pernas com inquieto acanhamento.

--Está pronto! respondeu ella, erguendo-se. Vá, Ignaty: levanta-te agora!

O outro obedeceu, conservou-se um bocado n’um pé, ora no outro, firmando-se fortemente no sobrado, e declarou:

--Até parece que ficaram novos! Obrigado!... Muito obrigado!

Fez uma pausa e ainda murmurou, a olhar para a celha com a agua suja:

--Nem sei como hei-de agradecer-lhe sufficientemente...

Os trez passaram para a casa de jantar e almoçaram. Ignaty poz-se a contar em voz muito séria:

--Fui eu que distribui os periodicos. Eu gosto muito de andar. O Rybine tinha-me dito: «Vae tu leval-os sósinho! Se fôres apanhado, não suspeitam de mais ninguem».

--E ha muita gente que os leia? perguntou Nicolao.

--Todos os que sabem lêr.

Pensativo, Nicolao reflectiu:

--Mas como havemos de arranjar que o fasciculo a propósito da prisão do Rybine chegue de pressa ás aldeias?...

Ignaty apurára logo o ouvido.

--Pois eu me encarrego d’isso hoje mesmo! Já ha prontos esses fasciculos?

--Ha, sim.

--Dê-mos, que eu os levo! propôz Ignaty com os olhos scintillantes, e a esfregar as mãos. Eu sei bem onde e como os hei-de levar!... Dê-os cá!

Pélagué sorria, ouvindo-o falar assim.

--Mas tu estás cansado e tens medo; fôste tu mesmo que disseste não querer voltar lá!...

Elle produziu com os beiços um estalido, e, ao mesmo tempo que alisava com a alentada mão os caracoes do cabello, declarou em tom de seriedade e sangue-frio:

--Estou cansado... Melhor, depois descansarei!... Quanto a ter medo, isso é verdade!... Pois se vocemecê acabou de contar que elles batem na gente até nos pôrem a escorrer sangue!... Quem é que tem vontade de ficar estropiado? Eu me arranjarei:--vou de noite... Sempre hei-de achar maneira de fazer o recado! Dê cá... Parto esta noite mesmo.

Ficou um momento calado, de sobrolho franzido, e logo:

--Vou d’aqui esconder-me na floresta. Depois, aviso os companheiros e digo-lhes: «Vão lá ter comigo e sirvam-se». É o melhor que ha a fazer! Se eu mesmo distribuisse os jornaes e fôsse apanhado, era uma pena por causa dos jornaes... Já ha tão poucos, que é preciso ter muita cautella com elles.

--E o medo? Que fazes tu a elle? Inquiriu de novo Pélagué.

Divertia-a deveras aquelle alentado rapagão de caracoes, pela sinceridade que vibrava na menor das suas palavras, pela sua fisionomia franca e pelas suas maneiras teimosas.

--O medo é o medo e negocios são negocios! replicou elle, mostrando muito os dentes. Para que está a mangar comigo? Então, já viram?... Talvez não seja coisa de metter medo a uma pessôa?... Mas já que é preciso, atira-se a gente ao lume! Quando se trata d’um negocio d’estes...

--Ah! meu filho! exclamou involuntariamente Pélagué, vencida pelo entusiasmo e o contentamento que elle lhe inspirava.

Elle sorriu acanhado:

--Ainda mais esta: eu, seu filho! Alguma criancinha, talvez?...

Nicolao, que não deixára de observar o rapaz, com olhar amigo, interveio então:

--Você não vae, homem!

--Então, que devo fazer? Onde é preciso que vá? interrogou elle com inquietação.

--Outro irá em seu logar e você ha de explicar-lhe meudamente como elle deve proceder. Quer fazer isto?

--Está bem! respondeu Ignaty de má vontade, apóz um instante de hesitação.

--Nós nos encarregamos de lhe fornecer documentos, para lhe arranjarmos um logar de guarda-matto.

--E se fôr lá gente do campo apanhar lenha ou caçar clandestinamente, de os prender? Para isso não sirvo eu!...

Os dois puzeram-se a rir, o que acabou por de todo atrapalhar o campónio, muito desgostoso.

--Não tenha medo! disse-lhe Nicolao. Não ha de ter occasião para tal, creia!

--Isso agora é differente! commentou Ignaty.

E já mais tranquillo, sorriu-se para Nicolao, confiado e alegremente.

--Eu sempre gostava mais de ir á fabrica; dizem que ha por lá camaradas bastante intelligentes...

Parecia que no vasto peito lhe ardia um fogo, intermittente ainda e que se extinguia por alternativas, não deixando ver mais que o fumo da perplexidade e de inquietação.

Pélagué levantou-se da mesa e foi á janella, dizendo, pensativa:

--Como a vida é singular!... Por cada cinco vezes que rimos, choramos outras tantas!... Que coisa pouco agradavel!... Já acabaste, Ignaty? Vae dormir.

--Não, senhora, não quero.

--Vae dormir, já te disse.

--Vocemecê é muito severa! Está bem, lá vou! E muito obrigado pelo seu chá, pelo assucar... e pela sua amisade!

Deitou-se na cama de Pélagué. Resmungava coçando a cabeça:

--Agora fica tudo a cheirar a alcatrão cá em casa... Olhe que faz mal em me amimar tanto, creia!... Eu não tenho somno... São ambos bôas pessoas... Já não percebo nada... parece que estou a cem mil kilometros da aldeia... E como elle falou bem a proposito no meio-termo... No meio-termo estão os que lambem as mãos dos que maltratam os outros... Demónio!

E subitamente, com um ronco sonoro, arqueando muito as sobrancelhas e de bôca entreaberta, adormeceu.