Pélagué tinha saído. Pouco depois alguem entrava.
--É o Jéfim! informou Rybine. Entra! Anda cá. Este homem, que vês aqui, chama-se Pavel. Foi d’elle que eu te falei.
Jéfim era um rapagão de cara ampla, cabellos ruivos, olhos pardos, robusto e bem talhado, trajando uma capa curta. Avançou até Pavel, de boné na mão e olhar baixo.
--Ora viva! resmungou, apertando a mão de Pavel, e tendo percorrido o quarto com o olhar, demorando-o na estante dos livros, poz-se a alisar com a mão os cabellos asperos.
--Já os viu! exclamou Rybine.
Jéfim foi ver os livros mais de perto.
--Ih! quantos ha por cá! E naturalmente lê-os muito. No campo, não temos tempo...
--E pouca vontade, não? perguntou Pavel.
--Ao contrario! Hoje somos obrigados a pensar, se não, não nos resta mais do que deitarmo-nos e esperarmos a morte. Como o povo não quer morrer, poz-se a trabalhar com o cerebro. «Geologia?...» O que é isto?
Pavel explicou.
--Não precisamos d’isso! concluiu Jéfim pondo o livro no seu logar.
Rybine commentou:
--O camponez não tem curiosidade de saber d’onde veio a terra, mas sim como foi distribuida, como os proprietarios a arrancaram de sob o dominio do povo. Que ella se mova ou não, que importa! comtanto que dê de comer!
--«Historia da escravatura!» Isto é com a gente?
--Aqui tem um acerca da servidão.
--É já muito velho.
--Possue algumas terras?
--Somos trez irmãos, e temos quatro hectares... terreno de areia fina. Coisa fresca, para limpar metaes! mas para cultivar o trigo... Eu cá libertei-me da terra. Não sustenta o homem, antes o traz manietado. Ha quatro annos que me alugo como manufactor... Para o outomno vou para a tropa.
O Mikhaíl diz-me que não vá, porque obrigam os soldados a baterem no povo. Mas vou, por força! É tempo de acabar com isto. Que lhe parece?
--É tempo, é... respondeu Pavel, sorrindo. Mas o difficil está em saber falar aos soldados.
--Aprende-se!
--Mas se o apanham em flagrante, podem fuzilal-o.
--Sim... não me perdoarão... respondeu tranquillamente, voltando a vêr os livros.
--Vamos ao chásinho, companheiro, que temos que abalar! disse Rybine.
André entrou muito vermelho, encalorado e taciturno. Apertou a mão de Jéfim, sem falar, assentou-se ao lado de Rybine, e, depois d’olhar para elle, sorriu.
--Pareces triste, homem! Porquê? perguntou aquelle dando-lhe uma palmada no joelho.
--Porque sim!
Jéfim, observava attentamente André, até que disse:
--Os trabalhadores das cidades e villas são magrizellas, teem os ossos a romper a pelle. Nós cá, os do campo, somos mais roliços...
Rybine completou:
--O camponez tem mais firmeza nas pernas. Sente a terra debaixo dos pés, ainda que não lhe pertença. Mas o operario é como um passaro: não tem patria, nem lar; um dia aqui, outro dia ali.
Pélagué entrou. Jéfim tinha-se approximado de Pavel a quem pediu:
--Poderia dar-me um livro?
--Da melhor vontade.
O jubilo brilhou-lhe no olhar.
--Eu restituo depois. Obrigado! Hoje, os livros são tão precisos como á noite uma candeia.
Rybine tinha posto a capa.
--Vamos, que são horas.
--Olha: já tenho que ler! exclamou Jéfim, mostrando-lhe o livro, com um sorriso muito aberto.
Quando elles saíram, Pavel dirigiu-se a André.
--Que me dizes áquelles diabos?
--Parecem nuvens á hora do crepusculo: grossos, sombrios, arrastando-se lentamente...
--Tenho pena de que não chegasses mais cedo. Terias observado um coração, tu, que estás sempre a falar de coração. Rybine disse das suas... Não soube que responder-lhe. A minha mãe tem razão: aquelle homem traz em si uma força terrivel!
--Conheço isso! Essa gente do campo anda envenenada! Quando se revoltarem, derrubarão tudo, sem distincção. Querem a terra absolutamente sua, e arrancarão tudo o que a cobre.
Falava de vagar; percebia-se que pensava n’outra coisa. Pélagué disse-lhe com blandicia:
--Deves espairecer, André!
--Deixe, mãesinha, deixe... Embora eu não quizesse tel-o feito, a acção foi abominavel!
E voltando ao assumpto da conversa:
--O nosso camponez queimará tudo, como se tivesse havido uma peste, para que todos os vestigios das suas humilhações vôem com as cinzas.
--E levantar-se-á depois contra nós... continuou Pavel.
--O nosso dever é não lho consentir, reprimindo-o! Somos nós quem se encontra mais perto d’elle. Acreditar-nos-á... seguir-nos-á!
--Sabes? O Rybine pediu-me que fizessemos um jornal para os camponezes.
--Apoiado! É tratar d’isso.
E depois de commentar as ultimas palavras de Rybine, ergueu-se, dizendo:
--Vou dar um passeio ao campo.
--Depois do banho? Olha que faz muito vento... Vaes arranjar uma irritação na pelle! accudiu Pélagué.
--Deixal-o! Quero saír.
Vestiu-se e foi-se sem dizer palavra.
--Soffre! suspirou a velha.
--Tens um bello coração, mamã!
--Oxalá assim seja! Se ao menos podesse ajudal-os!... se eu soubesse!...
--Não te dê cuidado: has-de saber.
O russo-menor voltou tarde; estava fatigado; deitou-se logo, dizendo:
--Parece-me que andei uns dez kilometros...
--Isso vae melhor?
--Não sei... Não faças barulho... Deixa-me dormir.
Pouco depois, Vessoftchikof appareceu, sujo, esfarrapado e de mao-humor como sempre.
--Não sabes quem matou o Isaías?
--Não! respondeu Pavel.
--Até que houve um homem que não achou antipatico esse feito! E eu que me preparava para torcer-lhe o pescoço!...
--Não digas essas coisas, companheiro!
Pélagué interveio:
--És bom e tens sempre palavras tão crueis!... Para quê?
Era-lhe então agradavel tornar a vêl-o; o seu rosto bexigoso chegava até a parecer-lhe bonito; sentia mais piedade por elle.
--Eu não sirvo para nada, senão para taes emprezas! Pergunto constantemente qual é o meu logar. Não o encontro. Se é preciso falar... não sei... Vejo tudo, sinto todas as humilhações dos homens, e não posso exprimil-as. Tenho uma alma muda. Irmãos, dêem-me um trabalho penoso, seja qual fôr. Não posso viver assim, sem fazer nada em favor da nossa causa.
Pavel pegou-lhe n’uma das mãos.
--Havemos de pensar em ti, descansa.
--André disse lá da cama:
--Ensinar-te-ei a conhecer as letras d’imprensa, e serás um dos nossos compositores; queres?
--Se me ensinares, dar-te-ei de presente uma navalha.
--Vae para o diabo mais a tua navalha!
--Uma navalha bôa! insistia.
André e Pavel riram á larga. Elle parou no meio do quarto, perguntando:
--Estão a rir-se de mim?
--Então de quem?
E o russo-menor saltou da cama.
--Se fossemos dar um passeio pelo campo? A noite está bôa, ha luar. Vamos?
--Pois vamos! apoiou Pavel.
--E eu tambem vou. Gosto de ouvir rir o André!
--E eu gosto que me promettas presentes!