A Mãe · Maksim Gorky (translated by Augusto de Lacerda and Serge Persky)

Chapter 12: Capítulo 12

A velha casa parda dos Vlassof attraía de mais em mais as attenções do bairro. Ás vezes um operario apparecia por lá, e depois de ter olhado para todos os lados, cautelosamente, dizia a Pavel:

--Irmão, tu que lês nos livros, deves conhecer as leis. Portanto, explica-me.

E contava qualquer arbitrariedade da polícia ou da administração da fabrica. Nos casos complicados, Pavel remettia o consulente, com duas palavras de recommendação, a um advogado dos seus amigos, e, quando podia, elle proprio dava conselhos.

Pouco a pouco, os frequentadores do bairro foram nutrindo um sentimento de respeito por aquelle rapaz tão commedido, que falava de tudo com simplicidade e afoiteza, que raras vezes ria, que encarava e escutava todos os assuntos com attenção, mettendo-se na embrulhada de qualquer negocio particular e descobrindo sempre o fio que ligava as creaturas umas ás outras por milhares de nós tenazes.

Pélagué via ampliar-se a influencia do seu filho, começava a aprender o sentido dos trabalhos de Pavel, e quando o compreendia, invadia-a uma alegria infantil.

Pavel tornou-se maior na opinião publica por occasião da historia do «kopeck[1] do pantano».

Um grande pantano com pinheiros e bétulas cercava a fabrica como um fosso infecto. No verão, vinham d’elle exhalações amarellentas, opacas, de mistura com nuvens de mosquitos que se espalhavam no bairro produzindo febres. O pantano pertencia á fabrica; o novo director, querendo tirar partido d’elle, concebeu o projecto de esgotal-o, extraíndo-lhe ao mesmo tempo o nateiro. Esta operação, disse aos operarios, tornaria salobras as circumvisinhanças e melhoraria as condições de vida a todos; portanto ordenou que fosse descontado um kopeck por cada rublo, nas ferias, quantia que seria destinada ao saneamento do pantano.

Nos operarios houve uma agitação; irritava-os principalmente o facto de não reverter para os empregados o imposto.

No sabbado em que foi publicada a decisão do director, Pavel estava doente e não fôra trabalhar; nada sabia. Na manhã seguinte, depois da missa, o fundidor Sizof, um bom velho, o serralheiro Makhotine, homem alto, muito irrascivel, foram a casa d’elle para lhe dizer o que se passava.

--Os mais velhos d’entre nós reuniram-se, disse rudemente Sizof; discutimos; os nossos companheiros mandaram-nos cá para te perguntarmos—visto seres um homem de espirito lucido—se ha alguma lei que permitta ao director extinguir os mosquitos á nossa custa.

--Nota, accrescentou Makhotine, revolvendo os olhos, que ha quatro annos aquelles ladrões nos apanharam dinheiro para construirem um estabelecimento de banhos... Que é d’elle?

Pavel explicou que o imposto era injusto, que a fabrica tiraria uma grande vantagem do projecto. Assim, os dois operarios retiraram-se com ares de poucos amigos. Depois de os haver acompanhado até á porta, Pélagué disse sorrindo:

--Vem então os velhos a tua casa aprender comtigo, Pavel!...

Sem responder, o rapaz sentou-se e começou de escrever, preoccupado. Decorridos instantes:

--Peço-te que vás immediatamente á cidade e entregues este bilhete...

--É coisa arriscada?

--Sim. É para onde imprimem o nosso jornal. Esta historia do kopeck deve apparecer, sem falta, no proximo numero.

--Está bem! está bem! respondeu ella, vestindo-se á pressa. Eu vou.

Era o primeiro recado importante de que o filho a encarregava. Sentia-se feliz por vêr que elle lhe dizia francamente do que se tratava, e por poder ser-lhe util na sua obra.

--Compreendo, Pavel! Vou n’um momento. Como se chama elle? Iégor Ivanovitch, não?...

Regressou de noite, já tarde, fatigada, mas satisfeita.

--Vi a Sachenka. Manda-te recommendações. Como é divertido o Iégor! sempre de brincadeira!...

--Muito folgo com que elle seja do teu agrado.

--Que simpleza de gente! São tão simpaticas as pessoas simples!... E olha que todos elles te estimam muito.

Na segunda-feira, Pavel não poude ir á fabrica, doia-lhe a cabeça. Mas ao meio dia, Fédia Mazine appareceu-lhe, em grande excitação, radiante: participou esbofado:

--Toda a fabrica está em revolta! Mandaram-me vir á tua procura. Sizof e Makhotine dizem que tu explicarás a coisa melhor do que os outros. Se visses o que por lá vae!

Pavel vestiu-se sem dizer palavra.

--As mulheres estão reunidas e fazem uma gralhada!...

--Vou ter com ellas! disse Pélagué. Tu não estás bom, talvez seja perigoso... Os outros para que servem, então? Eu irei falar com elles...

--Vamos! disse Pavel simplesmente.

Saíram rapidamente, em silencio. Pélagué, offegante e commovida, presentia o que quer que fosse grave. Á entrada da fabrica, uma multidão de mulheres berrava e discutia. Pélagué via que todos os rostos estavam voltados para o mesmo lado, para a parede das forjas. Ali, Sizof, Makhotine, Valof e mais cinco operarios influentes e idosos tinham trepado para um montão de velha ferragem.

--Ahi vem o Vlassof! gritou alguem.

--Vlassof! Tragam-no cá!

Levaram Pavel, de roldão. Pélagué ficou só.

--Silencio! ordenaram muitas vozes a um tempo.

Proximo de Pélagué ouviu-se a voz monotona de Rybine:

--Não é pelo kopeck que se deve mostrar resistencia, mas sim pelo principio da justiça. Não é o kopeck o que nos custa, não é mais redondo do que os outros, mas é para nós mais pesado: ha n’elle mais sangue humano do que só em um rublo do director!

Estas palavras caíam sobre a multidão com energia e provocavam ardentes exclamações.

--É verdade! Bravo, Rybine!

--Silencio, seus diabos!

--Tens razão, fogueiro!

--Olhem o Vlassof!

As vozes confundiram-se n’um turbilhão tumultuoso, abafando o ruido surdo das maquinas e os suspiros do vapor. De toda a parte corria gente que começava a discutir, agitando os braços, excitando-se mutuamente com palavras febris e causticas. A irritação que dormia nos peitos fatigados, despertava; escapava dos labios e tomava o vôo, triunfante. Ao de cima da multidão pairava uma nuvem de poeira e ferrugem; os rostos cobertos de suor estavam em fogo, a pelle das faces vertia lagrimas negras. No fundo sombrio das fisionomias, brilhavam os olhos e os dentes.

Afinal, Pavel appareceu ao lado de Sizof e de Makhotine; ouviram-no gritar:

--Companheiros!

Pélagué viu que o filho estava palido e que os seus labios tremiam; involuntariamente, quiz avançar, abrindo caminho, á força; mas disseram-lhe com mao modo:

--Ó velha, deixa-te estar!

Empurraram-na. Mas não desanimou, com os hombros e os cotovellos afastava toda a gente e approximava-se do filho, pouco a pouco, impellida pelo desejo de ir ficar a seu lado.

Pavel, depois de haver soltado frases a que costumava dar um sentido profundo, sentiu as guellas apertadas pelo espasmo resultante da grande alegria de combater. Invadiu-o o desejo de entregar-se á força da sua crença, de arrojar áquella gente o seu coração consumido pelo ardente sonho da justiça.

--Companheiros! repetiu, dando a esta palavra todo o enthusiasmo e vigor. Somos nós que construimos as egrejas e as fabricas, que fundimos o dinheiro, que forjamos os grilhões... Somos nós a força viva que nutre e diverte o mundo inteiro, desde que nascemos até á morte...

--Isso! isso! exclamou Rybine.

--Sempre e em toda a parte, somos os primeiros no trabalho, emquanto nos atiram para os ultimos logares na vida. Quem se preoccupa de nós? quem nos quer bem? quem nos considera como homens? Ninguem!

--Ninguem! repetiu uma voz como se fosse um écco.

Senhor de si, Pavel passou a falar com mais simplicidade e mais calmo. A multidão avançava lentamente para elle, como um corpo sombrio de mil cabeças. Olhava para o rapaz com centenas de olhos attentos, respirava as suas palavras. O ruido decrescia.

--Não teremos melhor quinhão emquanto não nos sentirmos solidarios, emquanto não formarmos uma unica familia de amigos, estreitamente ligados pelo mesmo desejo—o de luctarmos pelos nossos direitos.

--Entra no assumpto! disse uma voz perto de Pélagué.

--Não o interrompam! Calem-se! replicaram de varios pontos.

Quasi todas aquellas caras tinham uma expressão de incredulidade soez; poucos olhares estavam fixados em Pavel com gravidade.

--É um socialista, mas não tem nada de tolo! disse um.

--É um revolucionario! accudiu outro.

--Fala com tezura! afirmou um operario, forte e vesgo, dando um empurrão em Pélagué.

--Companheiros! Chegou o momento de resistirmos á força ávida que vive do nosso trabalho; chegou o momento de nos defendermos. Deve cada qual compreender que ninguem virá em nosso auxilio, se não nós mesmos. Um por todos, todos por um—deverá ser a nossa lei, se quizermos vencer o inimigo.

--Elle diz a verdade, irmãos! exclamou Makhotine. Escutem a verdade!

E com um gesto largo, ergueu o punho cerrado.

--É indispensavel mandar chamar o director, immediatamente! continuou Pavel. É preciso perguntar-lhe...

De subito, dir-se-ia que um furacão caíra sobre todo o povo. Toda aquella massa de gente ondeou como o oceano sob uma rajada; dezenas de vozes berraram a um tempo:

--Venha o director!

--Elle que s’explique!

--Vão buscal-o!

--Mandemos-lhe delegados!

--Não!

Tendo conseguido chegar á frente, Pélagué olhava para o filho, sentindo-se dominada por elle. Estava replecta de orgulho: o seu Pavel, no meio dos velhos operarios mais queridos, sendo escutado e apoiado por toda a gente!... Admirava o seu sangue-frio, a sua simplicidade e o seu falar sem fastio e sem pragas, como era o dos outros.

As exclamações, os gritos de revolta, as invectivas choviam como saraivada grossa em telhados de zinco. Pavel encarava na multidão, e parecia procurar o que quer que fosse entre os grupos.

--Delegados!

--Fale o Sizof!

--O Vlassof!

--O Rybine, que tem uns dentes terriveis!

Afinal, escolheram Pavel, Sizof e Rybine para parlamentarios, e iam mandar chamar o director, quando de chofre se ouviram algumas hesitantes exclamações:

--Vem ahi, sem ser chamado...

--O director...

--Ah!... Ah!...

A multidão abriu caminho a um figurão alto, sêcco, de rosto comprido, e barba em bico.

--Com licença! dizia, afastando o povo com um movimento ligeiro, mas sem lhe tocar. Tinha os olhos semi-cerrados, e, como experiente em lidar com os homens, ia observando as fisionomias dos operarios.

Estes inclinavam-se, tiravam o boné, cumprimentando-o. Elle não respondia a estas demonstrações de respeito, semeava o silencio e o constrangimento por onde ia passando; sentia-se já, sob os sorrisos contrafeitos e o tom abafado das palavras, o como arrependimento da creança, conscia de ter feito uma tolice.

O director passou em frente de Pélagué, lançou-lhe um olhar severo e parou junto do montão de ferragem. De cima, alguem estendeu-lhe a mão: não a acceitou. Com um movimento vigoroso e agil, subiu, ficou á frente e perguntou em tom frio e auctoritario:

--Que significa esta reunião? Porque abandonaram o trabalho?

O silencio foi completo por alguns instantes. As cabeças dos operarios balouçavam como espigas. Sizof agitou o boné, encolheu os hombros e baixou a cabeça.

--Respondam! berrou o director.

Pavel abeirou-se a elle e disse-lhe em voz alta, apontando para Sizof e Rybine:

--Nós trez fômos encarregados pelos nossos companheiros de exigir que reconsiderasse na sua resolução relativamente ao desconto do kopeck.

--Porquê? perguntou o director sem olhar para Pavel.

--Porque reputamos injusto este imposto! replicou com voz sonora.

--Portanto, não vêem no meu projecto senão o desejo de explorar os operarios, e não o cuidado de melhorar a sua existencia, não é verdade?

--Exacto!

--E o sr. tambem? perguntou, dirigindo-se a Rybine.

--Somos todos da mesma opinião.

--E o sr.? perguntou ainda, voltando-se para Sizof.

--Eu cá... tambem lhe peço que não nos tire o nosso kopeck.

Depois, baixando outra vez a cabeça, Sizof sorriu contrafeito.

O director passou vagarosamente o olhar pela multidão e encolheu os hombros. Em seguida olhou perscrutadoramente para Pavel, e disse:

--O sr. é, segundo creio, um homem instruido. Não compreende todas as vantagens da minha medida?

Pavel respondeu distinctamente:

--Ninguem deixaria de compreendel-as, se a fabrica exgotasse o pantano á sua custa.

--A fabrica não trata de filantropias! replicou. Ordeno-lhes, a todos, que voltem immediatamente para o trabalho.

E preparou-se para descer, tateando cautelosamente os ferros com a ponta da bota, sem olhar para ninguem.

Ouviu-se um rumor de desapprovação.

--Que é isso? perguntou o director, parando.

Calaram-se todos; apenas, a distancia, replicou uma unica voz:

--Trabalha, tu!

--Se dentro de um quarto d’hora não voltarem para o trabalho, multal-os-ei, a todos! declarou seccamente.

E seguiu o seu caminho por entre a multidão, emquanto atraz d’elle se ia levantando um surdo murmurio. Quanto mais elle se afastava, mais o ruido se tornava intenso.

--Vão lá falar-lhe!

--São então estes os nossos direitos! Estupor de sorte!

Dirigiam-se a Pavel, gritando:

--Olá! jurisconsulto! que devemos fazer agora?

--Emquanto se tratou de falar, falaste; mas elle appareceu e mudaram os ventos!

--Então, Vlassof! O que fazemos?

As perguntas eram cada vez mais insistentes. Pavel respondeu emfim:

--Companheiros, proponho que abandoneis o trabalho até que o director renuncie ao injusto desconto.

Ergueram-se logo frases irritadas:

--Julgas que somos parvos?

--É o que se deve fazer!

--A gréve?!

--Por causa de um kopeck?!

--Pois façamos gréve!

--Vamos todos para o olho da rua!

--E quem trabalharia?

--Encontrariam outros operarios!

--Onde? Traidores?!

NOTAS DE RODAPÉ:

[1] Kopeck, moeda de cobre, a centesima parte do rublo. O seu valor approximado é de cinco réis.