A velha casa parda dos Vlassof attraía de mais em mais as attenções do bairro. Ás vezes um operario apparecia por lá, e depois de ter olhado para todos os lados, cautelosamente, dizia a Pavel:
--Irmão, tu que lês nos livros, deves conhecer as leis. Portanto, explica-me.
E contava qualquer arbitrariedade da polícia ou da administração da fabrica. Nos casos complicados, Pavel remettia o consulente, com duas palavras de recommendação, a um advogado dos seus amigos, e, quando podia, elle proprio dava conselhos.
Pouco a pouco, os frequentadores do bairro foram nutrindo um sentimento de respeito por aquelle rapaz tão commedido, que falava de tudo com simplicidade e afoiteza, que raras vezes ria, que encarava e escutava todos os assuntos com attenção, mettendo-se na embrulhada de qualquer negocio particular e descobrindo sempre o fio que ligava as creaturas umas ás outras por milhares de nós tenazes.
Pélagué via ampliar-se a influencia do seu filho, começava a aprender o sentido dos trabalhos de Pavel, e quando o compreendia, invadia-a uma alegria infantil.
Pavel tornou-se maior na opinião publica por occasião da historia do «kopeck[1] do pantano».
Um grande pantano com pinheiros e bétulas cercava a fabrica como um fosso infecto. No verão, vinham d’elle exhalações amarellentas, opacas, de mistura com nuvens de mosquitos que se espalhavam no bairro produzindo febres. O pantano pertencia á fabrica; o novo director, querendo tirar partido d’elle, concebeu o projecto de esgotal-o, extraíndo-lhe ao mesmo tempo o nateiro. Esta operação, disse aos operarios, tornaria salobras as circumvisinhanças e melhoraria as condições de vida a todos; portanto ordenou que fosse descontado um kopeck por cada rublo, nas ferias, quantia que seria destinada ao saneamento do pantano.
Nos operarios houve uma agitação; irritava-os principalmente o facto de não reverter para os empregados o imposto.
No sabbado em que foi publicada a decisão do director, Pavel estava doente e não fôra trabalhar; nada sabia. Na manhã seguinte, depois da missa, o fundidor Sizof, um bom velho, o serralheiro Makhotine, homem alto, muito irrascivel, foram a casa d’elle para lhe dizer o que se passava.
--Os mais velhos d’entre nós reuniram-se, disse rudemente Sizof; discutimos; os nossos companheiros mandaram-nos cá para te perguntarmos—visto seres um homem de espirito lucido—se ha alguma lei que permitta ao director extinguir os mosquitos á nossa custa.
--Nota, accrescentou Makhotine, revolvendo os olhos, que ha quatro annos aquelles ladrões nos apanharam dinheiro para construirem um estabelecimento de banhos... Que é d’elle?
Pavel explicou que o imposto era injusto, que a fabrica tiraria uma grande vantagem do projecto. Assim, os dois operarios retiraram-se com ares de poucos amigos. Depois de os haver acompanhado até á porta, Pélagué disse sorrindo:
--Vem então os velhos a tua casa aprender comtigo, Pavel!...
Sem responder, o rapaz sentou-se e começou de escrever, preoccupado. Decorridos instantes:
--Peço-te que vás immediatamente á cidade e entregues este bilhete...
--É coisa arriscada?
--Sim. É para onde imprimem o nosso jornal. Esta historia do kopeck deve apparecer, sem falta, no proximo numero.
--Está bem! está bem! respondeu ella, vestindo-se á pressa. Eu vou.
Era o primeiro recado importante de que o filho a encarregava. Sentia-se feliz por vêr que elle lhe dizia francamente do que se tratava, e por poder ser-lhe util na sua obra.
--Compreendo, Pavel! Vou n’um momento. Como se chama elle? Iégor Ivanovitch, não?...
Regressou de noite, já tarde, fatigada, mas satisfeita.
--Vi a Sachenka. Manda-te recommendações. Como é divertido o Iégor! sempre de brincadeira!...
--Muito folgo com que elle seja do teu agrado.
--Que simpleza de gente! São tão simpaticas as pessoas simples!... E olha que todos elles te estimam muito.
Na segunda-feira, Pavel não poude ir á fabrica, doia-lhe a cabeça. Mas ao meio dia, Fédia Mazine appareceu-lhe, em grande excitação, radiante: participou esbofado:
--Toda a fabrica está em revolta! Mandaram-me vir á tua procura. Sizof e Makhotine dizem que tu explicarás a coisa melhor do que os outros. Se visses o que por lá vae!
Pavel vestiu-se sem dizer palavra.
--As mulheres estão reunidas e fazem uma gralhada!...
--Vou ter com ellas! disse Pélagué. Tu não estás bom, talvez seja perigoso... Os outros para que servem, então? Eu irei falar com elles...
--Vamos! disse Pavel simplesmente.
Saíram rapidamente, em silencio. Pélagué, offegante e commovida, presentia o que quer que fosse grave. Á entrada da fabrica, uma multidão de mulheres berrava e discutia. Pélagué via que todos os rostos estavam voltados para o mesmo lado, para a parede das forjas. Ali, Sizof, Makhotine, Valof e mais cinco operarios influentes e idosos tinham trepado para um montão de velha ferragem.
--Ahi vem o Vlassof! gritou alguem.
--Vlassof! Tragam-no cá!
Levaram Pavel, de roldão. Pélagué ficou só.
--Silencio! ordenaram muitas vozes a um tempo.
Proximo de Pélagué ouviu-se a voz monotona de Rybine:
--Não é pelo kopeck que se deve mostrar resistencia, mas sim pelo principio da justiça. Não é o kopeck o que nos custa, não é mais redondo do que os outros, mas é para nós mais pesado: ha n’elle mais sangue humano do que só em um rublo do director!
Estas palavras caíam sobre a multidão com energia e provocavam ardentes exclamações.
--É verdade! Bravo, Rybine!
--Silencio, seus diabos!
--Tens razão, fogueiro!
--Olhem o Vlassof!
As vozes confundiram-se n’um turbilhão tumultuoso, abafando o ruido surdo das maquinas e os suspiros do vapor. De toda a parte corria gente que começava a discutir, agitando os braços, excitando-se mutuamente com palavras febris e causticas. A irritação que dormia nos peitos fatigados, despertava; escapava dos labios e tomava o vôo, triunfante. Ao de cima da multidão pairava uma nuvem de poeira e ferrugem; os rostos cobertos de suor estavam em fogo, a pelle das faces vertia lagrimas negras. No fundo sombrio das fisionomias, brilhavam os olhos e os dentes.
Afinal, Pavel appareceu ao lado de Sizof e de Makhotine; ouviram-no gritar:
--Companheiros!
Pélagué viu que o filho estava palido e que os seus labios tremiam; involuntariamente, quiz avançar, abrindo caminho, á força; mas disseram-lhe com mao modo:
--Ó velha, deixa-te estar!
Empurraram-na. Mas não desanimou, com os hombros e os cotovellos afastava toda a gente e approximava-se do filho, pouco a pouco, impellida pelo desejo de ir ficar a seu lado.
Pavel, depois de haver soltado frases a que costumava dar um sentido profundo, sentiu as guellas apertadas pelo espasmo resultante da grande alegria de combater. Invadiu-o o desejo de entregar-se á força da sua crença, de arrojar áquella gente o seu coração consumido pelo ardente sonho da justiça.
--Companheiros! repetiu, dando a esta palavra todo o enthusiasmo e vigor. Somos nós que construimos as egrejas e as fabricas, que fundimos o dinheiro, que forjamos os grilhões... Somos nós a força viva que nutre e diverte o mundo inteiro, desde que nascemos até á morte...
--Isso! isso! exclamou Rybine.
--Sempre e em toda a parte, somos os primeiros no trabalho, emquanto nos atiram para os ultimos logares na vida. Quem se preoccupa de nós? quem nos quer bem? quem nos considera como homens? Ninguem!
--Ninguem! repetiu uma voz como se fosse um écco.
Senhor de si, Pavel passou a falar com mais simplicidade e mais calmo. A multidão avançava lentamente para elle, como um corpo sombrio de mil cabeças. Olhava para o rapaz com centenas de olhos attentos, respirava as suas palavras. O ruido decrescia.
--Não teremos melhor quinhão emquanto não nos sentirmos solidarios, emquanto não formarmos uma unica familia de amigos, estreitamente ligados pelo mesmo desejo—o de luctarmos pelos nossos direitos.
--Entra no assumpto! disse uma voz perto de Pélagué.
--Não o interrompam! Calem-se! replicaram de varios pontos.
Quasi todas aquellas caras tinham uma expressão de incredulidade soez; poucos olhares estavam fixados em Pavel com gravidade.
--É um socialista, mas não tem nada de tolo! disse um.
--É um revolucionario! accudiu outro.
--Fala com tezura! afirmou um operario, forte e vesgo, dando um empurrão em Pélagué.
--Companheiros! Chegou o momento de resistirmos á força ávida que vive do nosso trabalho; chegou o momento de nos defendermos. Deve cada qual compreender que ninguem virá em nosso auxilio, se não nós mesmos. Um por todos, todos por um—deverá ser a nossa lei, se quizermos vencer o inimigo.
--Elle diz a verdade, irmãos! exclamou Makhotine. Escutem a verdade!
E com um gesto largo, ergueu o punho cerrado.
--É indispensavel mandar chamar o director, immediatamente! continuou Pavel. É preciso perguntar-lhe...
De subito, dir-se-ia que um furacão caíra sobre todo o povo. Toda aquella massa de gente ondeou como o oceano sob uma rajada; dezenas de vozes berraram a um tempo:
--Venha o director!
--Elle que s’explique!
--Vão buscal-o!
--Mandemos-lhe delegados!
--Não!
Tendo conseguido chegar á frente, Pélagué olhava para o filho, sentindo-se dominada por elle. Estava replecta de orgulho: o seu Pavel, no meio dos velhos operarios mais queridos, sendo escutado e apoiado por toda a gente!... Admirava o seu sangue-frio, a sua simplicidade e o seu falar sem fastio e sem pragas, como era o dos outros.
As exclamações, os gritos de revolta, as invectivas choviam como saraivada grossa em telhados de zinco. Pavel encarava na multidão, e parecia procurar o que quer que fosse entre os grupos.
--Delegados!
--Fale o Sizof!
--O Vlassof!
--O Rybine, que tem uns dentes terriveis!
Afinal, escolheram Pavel, Sizof e Rybine para parlamentarios, e iam mandar chamar o director, quando de chofre se ouviram algumas hesitantes exclamações:
--Vem ahi, sem ser chamado...
--O director...
--Ah!... Ah!...
A multidão abriu caminho a um figurão alto, sêcco, de rosto comprido, e barba em bico.
--Com licença! dizia, afastando o povo com um movimento ligeiro, mas sem lhe tocar. Tinha os olhos semi-cerrados, e, como experiente em lidar com os homens, ia observando as fisionomias dos operarios.
Estes inclinavam-se, tiravam o boné, cumprimentando-o. Elle não respondia a estas demonstrações de respeito, semeava o silencio e o constrangimento por onde ia passando; sentia-se já, sob os sorrisos contrafeitos e o tom abafado das palavras, o como arrependimento da creança, conscia de ter feito uma tolice.
O director passou em frente de Pélagué, lançou-lhe um olhar severo e parou junto do montão de ferragem. De cima, alguem estendeu-lhe a mão: não a acceitou. Com um movimento vigoroso e agil, subiu, ficou á frente e perguntou em tom frio e auctoritario:
--Que significa esta reunião? Porque abandonaram o trabalho?
O silencio foi completo por alguns instantes. As cabeças dos operarios balouçavam como espigas. Sizof agitou o boné, encolheu os hombros e baixou a cabeça.
--Respondam! berrou o director.
Pavel abeirou-se a elle e disse-lhe em voz alta, apontando para Sizof e Rybine:
--Nós trez fômos encarregados pelos nossos companheiros de exigir que reconsiderasse na sua resolução relativamente ao desconto do kopeck.
--Porquê? perguntou o director sem olhar para Pavel.
--Porque reputamos injusto este imposto! replicou com voz sonora.
--Portanto, não vêem no meu projecto senão o desejo de explorar os operarios, e não o cuidado de melhorar a sua existencia, não é verdade?
--Exacto!
--E o sr. tambem? perguntou, dirigindo-se a Rybine.
--Somos todos da mesma opinião.
--E o sr.? perguntou ainda, voltando-se para Sizof.
--Eu cá... tambem lhe peço que não nos tire o nosso kopeck.
Depois, baixando outra vez a cabeça, Sizof sorriu contrafeito.
O director passou vagarosamente o olhar pela multidão e encolheu os hombros. Em seguida olhou perscrutadoramente para Pavel, e disse:
--O sr. é, segundo creio, um homem instruido. Não compreende todas as vantagens da minha medida?
Pavel respondeu distinctamente:
--Ninguem deixaria de compreendel-as, se a fabrica exgotasse o pantano á sua custa.
--A fabrica não trata de filantropias! replicou. Ordeno-lhes, a todos, que voltem immediatamente para o trabalho.
E preparou-se para descer, tateando cautelosamente os ferros com a ponta da bota, sem olhar para ninguem.
Ouviu-se um rumor de desapprovação.
--Que é isso? perguntou o director, parando.
Calaram-se todos; apenas, a distancia, replicou uma unica voz:
--Trabalha, tu!
--Se dentro de um quarto d’hora não voltarem para o trabalho, multal-os-ei, a todos! declarou seccamente.
E seguiu o seu caminho por entre a multidão, emquanto atraz d’elle se ia levantando um surdo murmurio. Quanto mais elle se afastava, mais o ruido se tornava intenso.
--Vão lá falar-lhe!
--São então estes os nossos direitos! Estupor de sorte!
Dirigiam-se a Pavel, gritando:
--Olá! jurisconsulto! que devemos fazer agora?
--Emquanto se tratou de falar, falaste; mas elle appareceu e mudaram os ventos!
--Então, Vlassof! O que fazemos?
As perguntas eram cada vez mais insistentes. Pavel respondeu emfim:
--Companheiros, proponho que abandoneis o trabalho até que o director renuncie ao injusto desconto.
Ergueram-se logo frases irritadas:
--Julgas que somos parvos?
--É o que se deve fazer!
--A gréve?!
--Por causa de um kopeck?!
--Pois façamos gréve!
--Vamos todos para o olho da rua!
--E quem trabalharia?
--Encontrariam outros operarios!
--Onde? Traidores?!
NOTAS DE RODAPÉ:
[1] Kopeck, moeda de cobre, a centesima parte do rublo. O seu valor approximado é de cinco réis.