O senhor Antonio, emquanto Rosa se vestia, sumiu-se para esconder a commoção da despedida aos olhos insensiveis da ingrata. Angelica procurou-o para convencel-o de pronunciar á ultima hora, o esconjuro de Escolastica. Não o viu, e teve de acompanhar lagrimosa a menina ao recolhimento, onde seu pae fôra adiante lêr o programma, que devia executar-se na reclusão da pensionista D. Rosa Guilhermina Taveira. Onde se tinha sumido o noivo despresado? Estava defronte, na loja de João Retrozeiro, que tivera medo do aspecto, raivosamente opilado, do seu visinho, quando entrára.
--Senhor João—disse elle, arquejando, e revirando nas orbitas os olhos, que o ciume arrancara á sua estupida immobilidade—senhor João! eu gosto de viver bem com os meus visinhos; moro, ha cincoenta annos, n'esta rua, sou um honrado homem, que nunca deu desgosto aos seus visinhos...
--Diga-m'o a mim, senhor Antonio! pois que é que lhe aconteceu?--disse o pavido retrozeiro, tirando as cangalhas, e depondo uma borla de torçal em que o imaginoso artista phantasiava uns berloques, que deviam distinguil-o na especialidade das borlas—Acaso, senhor Antonio, se desaveio com alguem?
--Eu nunca fiz tagatés ás filhas, nem ás irmãs dos meus visinhos. Ninguem dirá que me viu espetar os olhos nas familias alheias. Sou um homem honrado.
--Quem nega tudo isso, senhor Antonio?
--Tanto se me dá que vmc.e tenha cá uma mulher como duas...
--Isso não é verdade, e perdoará, visinho. Eu não tenha cá em casa senão a minha mulher... Quem lhe disse que eu tinha cá duas mulheres?
--Não sei se tem duas, nem quatro. O que sei é que vmc.e tem um filho muito mariola.
--Vmc.e está enganado! O meu filho é um rapaz muito accommodado que estuda para loio, e não tem nada que lhe digam.
--O seu filho é um mariola, já lh'o disse.
--Pois o meu José que lhe fez?
--O seu José anda-me cá a fazer gatimanhos á filha do senhor arcediago, que por amor d'elle vai ser posta fóra da minha casa. Não quero poucas vergonhas de portas a dentro, é o meu systema.
--Que me diz, senhor Antonio? Pois o meu José...
--É o que lhe digo, senhor João. Eu sou um homem honrado, e dos annos que tenho ninguem me viu desinquietar as minhas visinhas. Vmc.e não é bom pae. Um logista que tem filhos, fal-os ir trabalhar na loja.
--O meu José estuda para frade, por isso é que não vem para aqui...
--Qual frade, nem meio frade!... Deixemo-nos de frades. Ponha-o a sapateiro, ou alfaiate, que é o mais proprio. Eu tenho sobrinhos, e não os mando aprender latim; e vcm.e, que tem aqui dous arrateis de retroz, e quatro varas de mastro, já quer ordenar um filho...
--Que lhe importa a vmc.e a minha vida?
--E o seu filho que lhe importa as pessoas de minha casa? Se eu fosse outro homem, mandava-lhe estender as orelhas por um caixeiro...
--Isso lá mais devagar, senhor Antonio! Quem castiga o meu rapaz sou eu... Se o seu caixeiro lhe puxasse as orelhas, não havia de ter frio nas d'elle. É o que lhe digo! Eu sou pacifico, e cortez com quem é cortez. Eu chamo o meu filho, e veremos como é essa pendencia, que vmc.e traz.
O senhor João, já com a mostarda no nariz, chamou José, que vinha descendo, e resmungando: imperativo do verbo laudo, as, are, laudabundum, ou laudatote. Presente do indicativo, Laudaturus.
Contentíssimo das suas reminiscencias, e livre da dôr de barriga, José Bento ficou surprezo na presença do rival, e enfiou de susto. A edição da cara paterna não era mais nitida que a do negociante.
--Vem cá, José. O senhor Antonio queixa-se de que tu fazes tregeitos para a menina do senhor arcediago, isto é verdade?
José, chofrado pelo improviso, gaguejou a resposta, que mais tarde sahiu energica, e eloquente.
--É verdade, ou não?--replicou o pae.
--Ágora é...
--É, sim, senhor. Não me desminta, seu estudante de borra!--trovejou o negociante, formando instinctivamente com as mãos dous gordos murros.
--Não é preciso berrar tanto, senhor Antonio!... A minha casa não é pateo de convento. Se quer que fallemos, vamos lá para dentro.
--Faz favor de entrar.
Antonio José acceitou o convite, e proseguiu na apostrophe:
--Eu que lh'o digo, é porque o sei. Vossê esteve esta noite fallando com Rosa! Esteve ou não esteve?
--Estiveste, rapaz?
--Eu, não, senhor.
--Como é isso?--continuou o pae—se o meu filho esteve toda a noite a gritar com dôres de barriga, e por signal que a minha Anna andou toda a noite na cosinha a aquecer agua para banhos? Quer que eu chame a minha Anna, senhor Antonio?
--Não me importa o que diz a sua Anna.
--Isso... mais devagar! A minha Anna é tão honrada e verdadeira como a senhora Angelica, e póde pedir messas ás mais honradas.
--Que tens tu, Joãosinho?--grasniu de cima a senhora Anna, mettendo a cabeça pelo alçapão.
--Olha lá, mulher... O nosso rapaz que teve a noite passada?
--Dôres de barriga.
--Vê, senhor Antonio!... Tudo que me veio dizer é mentira...
--Não se diz isso a um homem honrado, como eu!... O seu filho esteve ás dez horas a conversar com Rosa; eu que lh'o digo, é porque o sei de bom canal...
--Quem lh'o disse? onde está esse canal?
--Quer sabel-o? Foi certa pessoa que á mesma hora estava para conversar com essa indigna mulher do João Pereira.
--De qual João Pereira? Aqui ha dous na visinhança.
--Do João Pereira, calvo, que traz chinó.
--Que dizes tu a isto, José?
--Digo que estive com dôres de barriga, e por signal que tomei chá d'herva cidreira.
--Vê, senhor Antonio? Vmc.e é um homem honrado, mas enganaram-n'o.
--Não me enganaram. Eu de portas a dentro não quero poucas vergonhas: é o meu systema.
--Enganaram, sim, senhor—chiou de cima a senhora Anna.
--Quer apostar uma moeda contra dez?
--Aposto o que vmc.e quizer! O meu filho é um exemplo dos bons rapazes. É filho d'um bom pae.
--E d'uma boa mãe—accrescêntou a senhora Anna.
--Não tem a quem sahir mau—confirmou o retrozeiro.
--Pois eu digo-lhe—exclamou o mercador de pannos com grande chuveiro de perdigotos—digo-lhe eu que seu filho é um tratante, e que vmc.e é outro, se o não castigar.
--Olhe lá como falla, ouviu?--disse a mãe do futuro loio, já perfilada, em baixo, ao lado de seu marido, que era a carne da sua carne, e o osso do seu osso.
--É isto que lhe digo. Pela arvore se conhece o fructo. Se vmc.e fosse um homem de conhecimentos, e não viesse aqui para esta rua de tamancos e barrete vermelho daria outra educação aos seus filhos.
--E vmc.e d'onde veio?--interpellou a senhora Anna, fechando os punhos na cintura, e dando-se, pelo vermelhão da cólera, a figura d'uma bilha de barro—Não me dirá a sua linhagem, senhor Antonio da tia Catharina, que eu conheci na Ponte-Nova fazendo camizas de estôpa para os embarcadiços! Olhe o fidalgo, que nos vem fallar em tamancos! Que me dizem a isto? Lembre-se que sua avó vendeu tripas na viella da Madeira...
--Cale-se ahi que vossê é uma regateira; eu não fallo comsigo.
--A minha mulher, regateira?
--Eu, regateira?
--Ponha côbro na lingua.
--Se não, topa com a fôrma do seu pé...
--Sahe a racha ao pau—interrompeu o rival de José Bento, que não dizia palavra—vmc.e ha de sempre mostrar que vendeu hortaliça no largo das Freiras. É a filha da Canastreira, e basta.
--E sua irmã, a beata que traz cilicios depois de velha, quem é, não me dirá?
--Não falle em minha irmã, ouviu?
--E vmc.e para que falla em minha mãe?
--Porque, se vossê tivesse vergonha não estava aqui a crear este mandrião...
--Faço eu muito bem, que é meu filho, e filho do meu marido, com quem sou casada á face de Deus e do altar, na igreja da Victoria... E sua irmã porque não cria os d'ella?
--Qual minha irmã?
--Sua irmã Angelica.
--Vossê está bebeda logo de manhã?
--Bebedo será elle, e mais quem o veste. Pois que cuida? Acha que a gente se calava por não ter tanto? Se tem muito, coma duas vezes, nós comeremos uma, porque não desfructamos os rendimentos da legitima das filhas dos padres.
--Cale-se ahi, sua desbocada! Vossê tem alguma cousa a dizer a minha irmã? Encontrou-a lá por casa dos Amorins da Praça-Nova, onde vossê arranjou com boas bullas o dote do seu casamento?
--Vmc.e é um patife—atalhou o retrozeiro, sériamente envinagrado—e se não sahe de minha casa...
--Deixa-me responder-lhe, João... com que então eu ganhei o meu dote em casa dos Amorins, heim! E sua irmã? e a sua irmã que reza a via-sacra, e anda por casa das benzedeiras? Que fez ella tres mezes mettida na cella do congregado?
--Que congregado diz vossê, sua regateirona?
--E aquelle filho do conego Silvestre, que caminho levou?
--Desavergonhada que vossê é!...
--Sou? e a sua irmã que é? uma hypolita... uma benzedeira, que dá pelo amor de Deus o que não póde dar ao diabo! É uma bebeda que nunca ha de chegar aos meus calcanhares.
Palavras não eram ditas, a senhora Anna Canastreira levava um grande murro no alto da cabeça; murro não era dado, e o senhor Antonio sentia, nas almofadas carnosas do cachaço, o pezo d'uma tranqueta, que o fez ir de chofre sobre a mulher do retrozeiro, que, atordoada do murro, resvalou por debaixo do globoso negociante, que soltou um bramido de rhinoceronte na queda desamparada.
A detractora da senhora Angelica sentiu-se escorchar debaixo do monstro, e cravou-lhe as unhas nas forçuras tremulas do pescoço. O retrozeiro, para salvar a mulher asphixiada, puxava a perna homerica do negociante; o negociante distribuia couces tão a proposito que uma canella do senhor João recuou mal ferida da empreza arriscada. Indignado pela dôr fina do canellão, o marido da pobre mulher atufada, com a perna disponivel, imprimiu tres valentes ponta-pés na orbita mais a geito e provocante do senhor Antonio, que esperneava, grunhindo como um cevado. José Bento, como bom filho, tentava alliviar o fardo, que ameaçava o arcaboiço descarnado de sua mãe, puxando, em vão, o despresado amante de Rosa pelas portinholas da jaqueta de linho crú.
A salvação, porém, da senhora Anna Canastreira deve-se ás suas unhas. O papo balôfo do senhor Antonio soffrera graves arranhaduras. Em compensação, o ôlho direito da infamadora de sua irmã inutilisara-lh'o elle com o cotovello perfurante.
Este conflicto durou quatro minutos, e ao quinto a senhora Anna não tinha fôlego. A pressão que soffrera na cavidade intestinal, e na thoracica tambem, podia ter mui funestas consequencias, se o nosso presado amigo, o senhor Antonio José da Silva se não levantasse, lazarado do pescoço para cima, supposto que, no vermelhão natural da sua cara veneranda, o sangue das arranhaduras não se destacava.
A senhora Anna, continuando a infiada de epithetos, consagrados á senhora Angelica, estava ainda sentada compondo as rêpas da desalinhada cabeça, quando o offegante mercador de pannos, impellido pelo derradeiro empurrão do retrozeiro, se achou na rua, onde o povo principiava a juntar-se, chamado pelos gritos confusos dos gladiadores.
O senhor Antonio entrou no seu quarto a lavar a cara com agua e vinagre. Perguntou por sua irmã, e o caixeiro respondeu-lhe que fôra acompanhar Rosinha. Pensados os ferimentos, o infeliz rival de José Bento mediu em toda a profundidade a extensão da sua dôr, e comeu dous pasteis de Sancta Clara, que eram a vanguarda d'um copo de vinho.