Noca foi ao quarto de Mario, avisal-o de que a mãe lhe queria fallar.
--Você sabe pr'a que é? perguntou-lhe o moço.
--Desconfio: ha de ser por causa da tal franceza... Parece que ainda foi outro dia que você nasceu, e já anda por ahi na extravagancia!
--Vae pregar a outra freguezia.
--Verdade, verdade, seu pae tem razão...
--Eu logo vi que o sermão havia de vir empurrado por papae; disse Mario com ironia, dando o ultimo retoque á toilette. Nisso abriram a porta, elle voltou-se; era a mãe.
Noca deu uma volta pelo quarto, puxou as cobertas da cama até os travesseiros, sacudiu com a toalha o estofo da poltrona, escancarou a janella e sahiu, deixando uma ponta de ordem no desalinho do quarto.
--Eu ia subir; Noca veio chamar-me agora mesmo.
--Achei melhor fallarmos aqui. Não seremos interrompidos.
--Como quizer. Sente-se, mamãe.
Camilla sentou-se e fixou no filho um olhar magoado. Elle, pegando-lhe nas mãos, perguntou-lhe com um sorriso contrafeito:
--Então?
--Estás nos dando serios desgostos, Mario.
--Eu?
--Sim; bem sabes de que se trata.
--Calculo; mas, francamente, não vejo razão para tamanho alvoroço...
--As tuas faltas são muito repetidas. Não te emendas!
--As minhas faltas são tributos da mocidade, faceis de perdoar.
--Enganas-te.
Mario largou as mãos da mãe e tornou-se muito serio.
--Então não comprehendo.
--Comprehendes. Fallo ... fallo d'essa mulher com quem andas agora ... dizem todos que ella arruinará a tua saúde e a nossa fortuna...
--Oh! mamãe...
--Não é creatura por quem um rapaz da tua edade se apaixone. Eu quando a encontro na rua nem sei onde ponho os pés.
Mario corou, e murmurou qualquer coisa que a mãe não ouviu.
--Receio sempre vêr-te apparecer a seu lado; porque eu sei que tens tido a coragem de te apresentar em publico com ella. Vê a que horror expões tua familia, já não digo teu pae, que é um santo, mas que emfim, é homem; mas a tua irmã e a mim. É feio da tua parte sujeitar-nos a uma decepção d'essa ordem...
Mario mordia os beiços, brancos de raiva.
--Mamãe...
--Não me interrompas; já agora direi tudo. É preciso acabar com a exploração d'aquella mulher. Deixa-a quanto antes, hoje mesmo, ouviste? Teu pae exige isso de ti, elle sabe que por causa d'ella tens commettido já indignidades. É uma vergonha, todos os dias são dividas e mais dividas!
Mario continha a custo a sua colera, apertando com as mãos, nervosamente, as costas de uma cadeira.
--Põe os olhos em teu pae. Segue-lhe o exemplo.
Mario sorriu com desdem.
--Meu pae está velho; já não se lembra do que fez na mocidade.
--Bem sabes que elle nunca teve mocidade; trabalhou sempre como um animal.
--Os portuguezes nasceram só para isso; eu tenho outros gostos e outras aspirações. Meu pae não me comprehende.
--Mas o dinheiro que esbanjas de quem é?!
--Ah, o dinheiro! Logo vi que havia de ser por causa do dinheiro! disse elle com redobrado escarneo.
--Por isso e por outras coisas; exclamou Camilla, espicaçada pela ironia do filho.
--Mas que outras coisas, mamãe!? retrucou elle, plantando-se deante d'ella, com raiva.
--Já te disse, já te disse! não te finjas de surdo! Por causa da tua saude, que é fraca, e da tua reputação.
--Reputação! ora, mamãe, e é a senhora quem me falla nisso!
Camilla estacou, sem atinar com uma resposta, comprehendendo o alcance das palavras do filho. A surpreza paralysou-lhe a lingua; o sangue arrefeceu-se-lhe nas veias; mas, de repente, a reacção sacudiu-a e então, num desatino, ferida no coração, ella achou para o Mario admoestações mais asperas. Percebia que a lingua dizia mais que a sua vontade; mas não podia contel-a. A dôr atirava-a para deante, contra aquelle filho, até então poupado.
Recebendo em cheio a colera materna, Mario julgou perceber nella insinuações de outrem. Havia de andar por alli a intervenção damnada do Dr. Gervasio. Quando Camilla acabou de fallar, elle começou, destacando as palavras, que sahiam pesadas:
--A senhora pode censurar-me em nome de meu pae, visto que elle não teve coragem para tanto; mas em seu nome, não!
--Mario!
--Em seu nome, não! Quem me lançou neste caminho e me fez ter os gostos que eu tenho?
--O excesso do meu amor por ti está bem castigado!... Mas não é isso agora que desespera teu pae...
--Meu pae é cego para as culpas dos outros; por que não será tambem cego para as do filho? A pessoa que tanto o indigna é menos nociva á familia que...
--Basta!
--Não basta; a senhora assim o quiz; conhece o meu genio, podia ter evitado esta explicação. Talvez seja melhor assim: afinal eu precisava dizer-lhe alguma coisa, eu tambem. É isto:--odeio o Dr. Gervasio, e dou-lhe a escolher entre mim e elle.
Camilla fixou no filho olhos de espanto. Houve um largo silencio. Depois elle repetiu, martellando as palavras:
--Ou elle ou eu.
A mãe, com uma lividez de morta, não voltava da sua estupefacção. Todo o corpo lhe tremia, e lagrimas vieram pouco a pouco borbulhando, grossas e pesadas, nos seus olhos extaticos. Tentou defender-se, chamar de calumnia áquella idéa; mas as palavras morreram-lhe na garganta, e ella encolheu-se na poltrona, cingindo os braços ao busto, como se tentasse esmagar o coração offendido.
Mario caminhou nervosamente pelo quarto; depois, voltando-se para a mãe, ia fallar ainda, mas viu-a de aspecto tão miseravel, que uma subita misericordia se apoderou d'elle.
Ella chorava, muito encolhida, fazendo-se pequenina, no desejo de desapparecer.
--Perdôe-me, mamãe; mas que queria que eu dissesse?!
Camilla levantou para o filho os olhos humilhados, e murmurou quasi imperceptivelmente:
--Nada...
Mario recomeçou a passear, com as mãos nos bolsos, a cabeça baixa. Camilla, ainda na poltrona, com as costas para a janella, os cotovellos fincados nos joelhos e o queixo nas mãos, procurava uma palavra com que pudesse convencer o filho da sua innocencia. Tudo lhe parecia preferivel áquella humilhação. Daria a luz dos seus olhos,--ah, antes ella fosse cega! para que Mario a julgasse pura, muito digna de todo o respeito das filhas, muito honesta, toda de seu marido e das suas creanças... Comprehendia bem que o sentimento e a imaginação nas mulheres só servem para a dôr. Colhem rosas as insensiveis, que vivem eternamente na doce paz; para as outras ha pedras, duras como aquellas palavras do seu filho adorado. Antes ella fora surda: não as teria ouvido!
Quantas vezes o marido teria beijado outras mulheres, amado outros corpos ... e ahi estava como d'elle só se dizia bem! Elle amara outras pela volupia, pelo peccado, pelo crime; ella só se desviara para um homem, depois de luctas redemptoras; e porque fôra arrastada nessa fascinação, e porque não sabia esconder a sua ventura, ahi estava a bocca do filho a dizer-lhe amarguras...
Lia e Rachel corriam no jardim, batendo por vezes na venezianna do quarto.
Mario aconselhou:
--Será bom apparecer; as meninas estão notando a sua ausencia...
--Antes eu tivesse morrido no dia em que nasci! pensou Camilla levantando-se.
Empurraram a porta. Era o Dionysio que vinha saber se o patrão precisaria do carro. Ouvira fallar na vespera em um almoço na Gavea.
Mario respondeu com impaciencia e sem abrir:
--Não preciso de nada! Depois voltou-se e foi direito á mãe; puxou-a para si, beijou-a na testa e, com carinho:
--Diga a meu pae que hoje mesmo me despedirei d'ella...
Quando Camilla sahiu do quarto, sentiu-se agarrada pelas filhas gemeas, que a puxavam para o jardim, gritando com enthusiasmo:
--Venha ver, mamãe!
--Que coisa linda, mamãe!
--O homem disse que foi papae que mandou!
--Adivinhe o que é!
--Diga; sabe o que é, mamãe?
A mãe não respondia; deixava-se levar sem curiosidade, toda tremula ainda, revendo no fundo da sua alma o rosto do filho ao dizer-lhe aquellas palavras terriveis. As creanças riam, e aquellas risadas eram como um clangor de sinos reboando em torno d'ella. Os sons avolumavam-se, repercutiam no seu cerebro dolorido. Elle sabia! Mario sabia! Quem lhe teria dito? que bocca immunda profanara aquelle segredo, em que ha tantos annos se encerrava? Seria a da Noca? E os outros da casa saberiam tambem?
--Veja, mamãe, que lindeza! gritou Lia apontando para um grande relvado do jardim onde tinham posto um grupo de bonecos pintados a côres, um menino e uma menina resguardados pelo mesmo chapéo de sol azul.
Rachel bateu palmas e deliberou que o menino se chamaria Joãosinho e a menina Maria.
--Maria, não! ha de se chamar Cecilia; protestou Lia.
--Ha de ser Maria, ha de ser Maria e ha de ser Maria!
--É verdade, mamãe, que a menina se ha de chamar Maria?
Camilla não respondeu; sentou-se em um banco, e, em vez de olhar para os bonecos, poz-se a olhar para as filhas, muito lindas, com os seus bibes brancos, e os cabellos soltos.
--Vocês gostam muito de mim? perguntou-lhes ella de repente, puxando-as para si.
--Eu gosto muito!
--Eu gosto mais!
--Mentira! quem gosta mais sou eu!
--Eu acho mamãe muito bonita!
--Eu tambem acho.
--E se eu fosse feia ... bem feia ... se ... por exemplo, eu tivesse bexigas e ficasse marcada, sem olhos, com a pelle repuxada ... ainda assim vocês gostariam de mim?
--Muito, muito!
--Se Deus me désse uma doença repugnante ... como aquella doença do Raymundo, sabem? a morphéa, e que todos fugissem de mim com nojo e com medo ... que fariam vocês?
--Eu havia de estar sempre ao pé de mamãe! Havia de lhe metter a comida na bocca; mudar-lhe roupa e contar-lhe historias...
--E eu havia de dormir na mesma cama que mamãe...
--Por que é que a senhora diz isso?! Não chore, mamãe!
Camilla beijou as filhas com transporte, e uma grande serenidade cahiu sobre o seu rosto pallido. Poderia contar com alguma coisa, as filhas defendel-a-iam dos maus tratos do mundo.
A campainha do almoço repicava no primeiro toque; Ruth fechava o seu violino e Nina descia ao jardim com a Noca, para admirarem tambem o grupo do lago, mandado da cidade por Francisco Theodoro.
Nina vinha na frente, com o seu modo tranquillo de ménagère, bem penteada, com um vestido escuro, alegrado pela nota branca de um aventalzinho circumdado de rendas. Atraz d'ella, Noca bamboleava o seu corpo cheio, sem collete, vestida de chita clara, rindo alto de uma anecdota do copeiro.
Camilla teve um sobresalto.
Tambem aquella, a Nina, saberia tudo? Teve impetos de lhe ir ao encontro e perguntar-lho; mas abaixou os olhos para os cabellos negros da Rachel e da Lia, que se cosiam ás suas saias, e passou-lhes as mãos na cabeça, de vagar, numa caricia muda, grata ao seu amor e á sua innocencia.
--Que engraçadinho! não acha, tia Milla, que ha de fazer bonita vista depois de collocado no meio do lago?
--Acho...
--É de muito gosto!
Noca tinha pena. Coitadinhas das creanças! haviam de ir assim tão núas para o sereno das noites? Muito chic!
Uns admiravam a belleza da menina, outros a do menino, e afinal concordavam que o conjuncto é que valia tudo. Ruth veio por ultimo; queixava-se de fome. A campainha vibrava pela segunda vez. Pediram, a opinião d'ella; não era tão bonito, aquillo?
--Nunca apreciei bonecos; vocês bem sabem...
--Isto é o mesmo que ver gente! exclamou Noca, indignada, isto não é boneco! Você é enjoada! É verdade! Mario ainda não viu... Oh! Dionysio! chama ahi seu Mario!
Nina voltou-se, vermelha, para a janella do primo; elle não appareceu, e Ruth, instando pelo almoço:
--Que milagre! Dr. Gervasio hoje não appareceu! exclamou sem intenção, colhendo uma Marechal Neel para o peito.
Camilla estremeceu e olhou para a filha com curiosidade e mal disfarçado susto. Porque teria ella dito aquillo?
Noca abaixou-se na orla do canteiro, procurando com mãos apressadas um trevo de quatro folhas, para dar á pobre da Nina. Oh! se ella encontrasse o trevo, a moça seria correspondida pelo ingrato do primo, e assim o diabo da franceza iria bater a outra porta... Deus fizesse com que ella achasse um trevo de quatro folhas!
Meia hora depois estavam todos á mesa, e ainda a mulata procurava com ancia a folhinha fatidica.
Mario atravessou o jardim; ella sentiu-lhe os passos e voltando-se chamou-o.
--Uê! porque não foi almoçar?!
--Preciso ir já para a cidade. Diga isso mesmo a mamãe...
--Não foi se despedir d'ella?
--Não ... já nos fallámos ... diga isso mesmo.
--Hum! ... você hoje não tem boa cara!... Lá dentro não está ninguem de fóra: póde ir. É sua mãe...
--Cantigas. Adeus.
--Não. Olhe, Mario, lembre-se do que lhe diz esta mulata:--Sua felicidade está aqui... As extrangeiras só gostam de dinheiro...
--Adeusinho!
--Adeus, meu filho...
A mulata foi até o gradil, para olhar ainda para o moço que ella ajudara a criar desde o primeiro dia.
Como elle é bonito! pensava ella: as mulheres têm razão de o preferir a todos!... D. Nina não merece aquillo; mas, emfim, antes ella do que a tal sanguesuga... Este mundo é assim mesmo, a gente gosta de quem não deve... Elle morre pela outra e é esta quem morre por elle!... Verdade, verdade, elle é a flor da familia ... em questão de boniteza, garanto que não ha outra pessoa que se eguale a Mario... Eu bem dizia que elle poria as irmãs num chinello! Porque não teria vindo o Dr. Gervasio?... o diabo do feiticeiro deu bruxaria a nhá Milla... Se seu Theodoro sabe da historia!... que estrallada! Mas quem ha de dizer? Bocca, fecha-te! bocca, fecha-te! que não seja por minha culpa... Bem! Mario tomou o bond ... lá vae elle almoçar com a outra... Ora! se isso lhe dá gosto, que aproveite!
Com um gesto decidido, ella rematou o seu pensamento egoista e caminhou para a copa, á procura de almoço.