A Confissão de Lúcio · Mário de Sá-Carneiro

Chapter 4: Capítulo 4

Atordoaram-me, positivamente me atordoaram, as palavras do russo.

Pois seria possivel? Ricardo trouxera-a de Paris?... Mas como não a conhecera eu, sendo assim? Acaso não o teria acompanhado á gare do Quai d'Orsay? Fôra verdade, fôra, não o acompanhara—lembrei-me de subito. Estava doente, com um fortissimo ataque de gripe... E êle... Não; era impossivel ... não podia ser...

Mas logo, procurando melhor nas minhas reminiscencias, me ocorreram pela primeira vez, nitidamente me ocorreram, certos detalhes obscuros que se prendiam com o regresso do artista a Portugal.

Ele amava tanto Paris ... e decidira regressar a Portugal... Declarara-mo, e eu não me tinha admirado—não me tinha admirado como se houvesse uma razão que justificasse, que exigisse esse regresso.

Ai, como me arrependia hoje de, com efeito, o não ter acompanhado á estação, embora o meu incomodo, e talvez ainda outro motivo, que eu depois esquecera. Entretanto recordava-me de que apesar da minha febre, das minhas violentas dôres de garganta, estivera prestes a erguer-me e a ir despedir-me do meu amigo... Porêm, em face dum torpor fisico que me invadira todo, deixara-me ficar estendido no leito, imerso numa profunda modorra, numa estranha modorra de penumbra...


Aquela mulher, ah! aquela mulher...

Quem seria... quem seria?... Como sucedera tudo aquilo?...

E só então me lembrei distintamente da carta do poeta pela qual se me afigurava ter sabido do seu enlace: a verdade era que, de forma alguma, êle me participava um casamento nessa carta; nem sequer de longe aludia a esse acto—falava-me apenas das «transformações da sua vida», do seu lar, e tinha frases como esta que me bailava em letras de fôgo diante dos olhos: «agora, que vive alguem a meu lado; que emfim de tudo quanto derroquei sempre se ergueu alguma coisa...»

E, facto extraordinario, notava eu hoje: êle referia-se a tudo isso como se se tratasse de episodios que eu já conhecesse, sendo por conseguinte inutil narrá-los, só comentando-os...

Mas havia outra circunstancia, ainda mais bizarra: é que, pela minha parte, eu não me admirara, como se efectivamente já tivesse conhecido tudo isso, que porêm olvidara por completo, e que a sua carta agora, vagamente, me vinha recordar...

Sim, sim: nem me admirara, nem lhe falara do meu esquecimento, nem lhe fizera perguntas—não pensara sequer em lhas fazer, não pensara em coisa alguma.

Mais do que nunca o misterio subsistia pois; entretanto divergido para outra direcção. Isto é: a ideia fixa que êle me enclavinhava no espirito, alterara-se essencialmente:

Outróra o misterio apenas me obcecava como misterio: evidenciando-se, tambem a minha alma se desensombraria. Era êle só a minha angustia E hoje—meu Deus!--a tortura volvera-se-me em quebranto; o segredo que velava a minha desconhecida, só me atraía hoje, só me embriagava de champanhe—era a beleza unica da minha existencia.

Daí por diante seria eu proprio a esforçar-me por que ele permanecesse, impedindo que luz alguma o viesse iluminar. E quando desabasse, a minha dôr seria infinita. Mais: se êle sossobrasse, apesar de tudo, numa ilusão, talvez eu ainda o fizesse prosseguir!

O meu espirito adaptara-se ao misterio—e esse misterio ia ser a armadura, a chama e o rastro d'ouro da minha vida...

Isto, entretanto, não o avistei imediatamente; levou-me muitas semanas o aprendê-lo—e, ao descobri-lo, recuei horrorisado. Tive medo; um grande medo... O misterio era essa mulher. Eu só amava o misterio...

... Eu amava essa mulher! Eu queria-a! eu queria-a!...


Meu Deus, como sangrei...

O espirito fendera-se-me numa oscilação temivel; um arrepio contínuo me varava a carne zig-zagueantemente. Não dormia, nem sequer sonhava. Tudo eram linhas quebradas em meu redór, manchas de luz pôdre, ruidos dissonantes...

Foi então que num impeto de vontade, bem decidido, comecei a procurar com toda a lucidez a força de salvar o precipicio que estava já bem perto, na minha carreira... Logo a encontrei. O que me impelia para essa mulher fazendo-ma ansear esbraseadamente, não era a sua alma, não era a sua beleza—era só isto: o seu misterio. Derrubado o segredo, esvair-se-hia o encantamento: eu poderia caminhar bem seguro.

Assim determinei abrir-me inteiramente com Ricardo, dizer-lhe as minhas angustias, e suplicar-lhe que me contasse tudo, tudo, que posesse termo ao misterio, que preenchesse os espaços vasios da minha memoria.

Mas foi-me impossivel levar a cabo tal resolução. Desfaleci adivinhando que sofreria muito mais, muito mais fanadamente, extinto o sortilegio, de que emquanto êle me diluísse.

Quis ter porêm outra coragem: a de fugir.

Desapareci durante uma semana fechado em minha casa, sem fazer coisa alguma, passeando todo o dia á roda do meu quarto. Os bilhetes do meu amigo principiaram chovendo, e como nunca lhe respondesse, uma tarde êle proprio me veiu procurar. Disseram-lhe que eu não estava, mas Ricardo sem ouvir, precipitou-se no meu quarto a gritar-me:

--Homem! que diabo significa isto? Pósas ao neurasténico á ultima hora? Vamos, faze-me o favor de te vestir, e de me acompanhares imediatamente a minha casa.

Não soube articular uma razão, uma escusa. Apenas sorri volvendo:

--Não faças caso. São as minhas exquisitices...

E, no mesmo instante, eu decidi não fugir mais do precipicio; entregar-me á corrente—deixar-me ir até onde ela me levasse. Com esta resolução voltou-me toda a lucidez.

Acompanhei Ricardo. Ao jantar falou-se só da minha «madureza», e o primeiro a blaguea-la fui eu proprio.

Marta estava linda essa noite. Vestia uma blusa negra de crépe da China, amplamente decotada. A saia muito cingida deixava pressentir a linha escultural das pernas que uns sapatos muito abertos mostravam quasi nuas, revestidas por meias de fios metalicos, entrecruzados em largos losangos por onde a carne surgia...

E pela primeira vez, ao jantar, me sentei a seu lado, pois o artista recusou o seu lugar do costume pretextando uma corrente de ar...

O que foram as duas semanas que sucederam a esta noite, não sei. Emtanto a minha lucidez continuava. Nenhuma ideia estranha feria o meu espirito, nenhuma hesitação, nenhum remorso... E contudo sabia-me arrastado, deliciosamente arrastado, em uma nuvem de luz que me encerrava todo e me aturdia os sentidos—mas não deixava ver, embora eu tivesse a certeza de que êles me existiam bem lucidos. Era como se houvesse guardado o meu espirito numa gaveta...


Foi duas noites após o meu regresso que as suas mãos, naturalmente, pela primeira vez encontraram as minhas...

Ah! como as horas que passavamos solitarios eram hoje magentas... As nossas palavras tinham-se volvido—pelo menos julgo que se tinham volvido—frases sem nexo, sob as quais ocultavamos aquilo que sentiamos e não queriamos ainda desvendar, não por qualquer receio, mas sim, unicamente, num desejo perverso de sensualidade.

Tanto que uma noite, sem me dizer coisa alguma, ela pegou nos meus dedos e com eles acariciou as pontas dos seios—a acera-las, para que enfolassem agrestemente o tecido ruivo do kimono de seda.

E cada noite era uma nova voluptuosidade silenciosa.

Assim, ora nos beijavamos os dentes, ora ela me estendia os pés descalços para que lhos roesse—me soltava os cabelos; me dava a trincar o seu sexo maquilado, o seu ventre obsceno de tatuagens rôxas...

E só depois de tantos requintes de brasa, de tantos extases perdidos—sem forças para prolongarmos mais as nossas perversões—nos possuimos realmente.

Foi uma tarde triste, chuvosa e negra de fevereiro. Eram quatro horas. Eu sonhava dela quando, de subito, a encantadora surgiu na minha frente...

Tive um grito de surpresa. Marta porêm logo me fez calar com um beijo mordido...

Era a primeira vez que vinha a minha casa, e eu admirava-me, receoso da sua audacia. Mas não lho podia dizer: ela mordia-me sempre...


Por fim os nossos corpos embaralharam-se, oscilaram perdidos numa ansia ruiva...

... E em verdade não fui eu que a possuí--ela, toda nua, ela sim, é que me possuiu...


Á noite, como de costume, jantei em casa de Ricardo.

Muito curiosa a disposição do meu espirito: nem o minimo remorso, o minimo constrangimento—nuvem alguma. Pelo contrario, ha muito que me não via tão bem disposto. O proprio meu amigo o observou.

Falámos os dois largamente essa noite, coisa que ha bastante não acontecia. Ricardo terminara emfim nessa tarde o seu volume. Por isso nos não deixou...

... E no meio da sua conversa intima, eu esquecera até o episodio dourado. Olhando em redór de mim nem mesmo me ocorria que Marta estava seguramente perto de nós...

Na manhã seguinte, ao acordar, lembrei-me de que o poeta me dissera esta estranha coisa:

--Sabe você, Lucio, que tive hoje uma bizarra alucinação? Foi á tarde. Deviam ser quatro horas... Escrevera o meu ultimo verso. Saí do escritorio. Dirigi-me para o meu quarto... Por acaso olhei para o espelho do guarda-vestidos e não me vi reflectido nêle! Era verdade! Via tudo em redór de mim, via tudo quanto me cercava projectado no espelho. Só não via a minha imagem... Ah! não calcula o meu espanto ... a sensação misteriosa que me varou... Mas quer saber? Não foi uma sensação de pavor, foi uma sensação de orgulho.

Porêm, reflectindo melhor, descobri que em realidade o meu amigo me não dissera nada disto. Apenas eu—numa reminiscencia muito complicada e muito estranha—me lembrava, não de que verdadeiramente ele mo tivesse dito, mas de que, entretanto, mo devera ter dito.